Talvez Seja Amor
1 Capítulo 1 - O planeta estagnado
Notas iniciais
“Naquela época eu ainda não sabia, mas com o tempo percebi, que era ao lado dele, que queria passar o resto da minha vida”.
Essa é a história de dois reinos que viviam uma guerra que já durava séculos, de um lado estava o reino da lua, um lugar onde sempre era noite, e do outro o reino do sol onde sempre era dia. Naquele tempo, o mundo não girava ficava estagnado e assim era difícil de se contar os dias, semanas e os anos. A guerra estava para chegar ao seu fim com a união do príncipe da lua com a princesa do sol, mal sabiam eles que as coisas seriam mais complicadas do que um simples casamento arranjado.
Élber era o único filho dos reis da lua, atualmente tinha 17 anos, ou talvez 22, como eu disse era difícil contar o tempo naquela época. Ele era carinhosamente chamado por seu povo de: diabinho. Ele era alegre, divertido e tinha a mania de sempre falar o que pensa, o que gerou várias discursões e brigas no castelo.
Naquele dia em especifico o diabinho devia agir com a maior cordialidade possível, pois receberiam a visita dos reis do sol, a fim de apresentar a futura esposa de Élber. O castelo da lua era uma enorme construção de cristal protegida por cavaleiros e os mais valentes felinos de todo o reino. Gatos, tigres e leões dividiam as honras e valentias do combate junto dos cavaleiros da lua.
Élber usava sua melhor roupa, que agora estava suja, ele fugira das empregadas que tentavam arruma-lo. Agora estava numa das torres de observação junto de seu leal gato de combate, Pili. Dali os dois podiam ver as carruagens do reino do sol se aproximando, eram escoltados por soldados e caninos, cachorros, lobos e raposas dividiam as mesmas honras no reino do sol, que eram concebidas aos gatos no reino da lua.
–Lá vem aqueles cachorros nojentos! –Reclamou Élber e Pili rosnou –Eu sei amigo, também não gosto deles.
Os reis do sol foram recebidos com hospitalidade, mas não ousavam entrar em nenhum recinto sem seus guardas e seus cães. A sala de jantar era enorme, uma mesa gigantesca foi arrumada com as melhores iguarias do reino da lua: Macarrão com salsicha, cuscuz temperado, cookies de chocolate, vinhos e etc.
–Sejam bem vindos ao reino da lua –Começou o rei da lua –É uma honra recebe-los em nossa morada para esse jantar de paz.
–Mas não esta na hora do almoço? –Perguntou a rainha do sol.
–É sempre hora do jantar no reino da lua.
O rei e a rainha da lua eram altos e albinos, tão brancos quanto uma folha de papel, já o rei e rainha do sol eram baixos e bronzeados como surfistas.
–Primeiramente vamos apresentar nossos filhos –Sugeriu o rei do sol.
–Claro –Concordou o rei da lua –Querida cadê o diabinho? –Cochichou para sua esposa.
Nessa hora o diabinho entra com a roupa toda suja e rasgada e com Pili em seu ombro.
–Bom noite à todos, eu sou Élber da Lua Cheia prazer em conhece-los.
Os reis da lua ficaram mortos de vergonha das condições de seu filho de 17 ou 22 anos, os reis do sol não conseguiram disfarçar seu espanto, mas o silêncio foi quebrado por uma risada de um rapaz alto do lado da rainha do sol.
–Desculpem-me continuem –Devia ser um guardas do sol.
–Bem, conheçam nossa filha Luiza do Pôr do Sol –Uma linda garota saiu de trás dos reis, ela usava um vestido das cores do outono, tinha um sorriso gentil, mas o diabinho a achou com cara de burra mimada.
–Prazer em conhece-los.
–E ai tudo zen?
A rainha deu um beliscão no filho e cochichou: “Onde estão seus modos?!”. E Élber rebateu: “Eu nunca os tive”. “Então pelo menos finja, nem ouse dar nem se quer um arroto nesse jantar, vidas dependem disso!”. “Ok”.
–Bem, já que ninguém vai me apresentar, eu o faço –Era o rapaz que Élber pensou ser um guarda –Eu sou Santiago do Nascer do Sol, e estou muito feliz de não estar na pele da minha irmã e ser obrigado a casar.
–Santiago! –Gritou o rei do sol.
–Ops! Esqueci que não posso falar nenhuma verdade hoje.
Élber riu daquela atitude. O rapaz devia ter seus 15 anos, ou talvez 18, nunca se sabe. Do lado dele estava um cachorro que mais parecia um leão que rosnou ao ver Pili. O gato respondeu à altura e saltou do ombro do diabinho como os pelos enriçados.
–Lion pare! –Na mesma hora o cachorro obedeceu –Bom garoto.
O jantar começou antes que mais algum desastre acontecesse, Élber sentou ao lado de Luiza para que se conhecessem melhor, o diabinho tentou fazer sua parte puxando assunto:
–É... Quantos anos você tem?
–Acho que 14, ou talvez 17.
–Legal, o que você gosta de fazer?
–Gosto de ouvir pagode e Funk.
O assunto morreu na mesma hora. Santiago percebeu o desapontamento de Élber e soltou uma risada cativante.
–Na verdade o que a Luiza mais gosta é de desmontar coisas, ela é burra feito uma pedra nos estudos, mas desmonta eletrônicos como ninguém.
–Cala a boca Santiago! Pelo menos não sou viciado em jogos de perguntas e respostas!
–Adoro jogos de perguntas e respostas! –Exclamou Élber.
E jantar seguiu assim, a cada frase Élber percebia que tinha menos em comum com Luiza e mais e mais com Santiago, talvez fosse pelos dois serem meninos. Ainda assim ambos eram muito diferentes, Élber tinha poucos amigos, pois as vezes falava gritando sem perceber, dizia coisas que para ele eram simples, mas para os outros parecia magoar. Já Santiago agradava quase a todo mundo, tinha um sorriso cativante e gentil, sempre ajudava a quem precisasse, mas não era um santo nem nada assim, também tinha seus defeitos.
Algumas horas depois todos foram deitar, e Élber foi com Pili para uma das torres observar as estrelas, quando seu gato rosnou:
–O que foi Pili?
–Seu gato deve ter percebido nossa chegada –Santiago e Lion entraram na torre.
–Pensei que vocês não podiam andar por aí sem seus guardas.
–E não podemos, mas as vezes gosto de quebrar as regras.
–Eu também, só que mais do que só as vezes –Os dois riram.
–O céu daqui é muito bonito.
–O do reino do sol também deve ser, afinal vocês tem a maior estrela de todas né? O sol.
–Mas nós não podemos olhar diretamente pra ele por muito tempo se não ficamos cegos, e as estrelas daqui são lindas e dá pra formar desenhos.
–Você quer dizer constelações?
–Quero dizer desenhos mesmo, olha aquelas ali, parecem uma rodoviária.
–Uma rodoviária? Cara, você é esquisito.
–E você o que vê?
Élber olhou para aquele monte de pontinhos brilhantes até conseguir visualizar uma forma.
–Vejo você dançando em um poli dance.
Os dois riram muito daquilo e ficaram assim por horas.
–Ali veja! Uma taça de sorvete.
–E ali, uma moto!
Sem perceberem caíram no sono, o enorme cachorro Lion serviu de travesseiro para os dois garotos e para o gato. Santiago foi o primeiro a acordar e observou o outro dormindo, por anos pensou no povo da lua como inimigos, mas vendo aquele príncipe dormindo ao seu lado, sentiu algo diferente que nunca tinha sentido antes, de repente o outro abre os olhos como se fossem lanternas verdes. O príncipe do sol se levanta num pulo envergonhado.
–É... Bom dia.
–Você quer dizer boa noite, é sempre noite no reino da lua.
–Certo, boa noite.
Os dois dessem da torre e se deparam com um alvoroço.
–Vocês sequestraram nosso filho enquanto dormíamos! –Acusava o rei do sol.
–Não somos sequestradores! Vamos encontra-lo e...
–E ai pessoal o que tá pegando? –Disse Élber ao adentrar o recinto ao lado de Santiago.
O rei do sol abraçou o filho aliviado, a mãe se resumiu a suspirar, afinal ela gostava mais de Luiza, se fosse ela a desaparecer, teria feito outra guerra.
Depois do mal entendido eles tomaram o jantar do acordar e foram debater os detalhes do casamento. Tinham concordado na cerimônia ser no reino do sol, mas a lua de mel tinha que ser no reino da lua. Os pais falavam como se os filhos não estivessem ali.
–Odeio ser ignorado –Queixou-se Santiago.
–Até parece que você costuma ser ignorado –Queixou-se Luiza –A vovó e a tia vivem puxando seu saco, oh meu netinho preferido! Oh meu sobrinho querido!
Élber riu, até que enfim aquela garota tinha dito algo engraçado.
–Ei querem ver o berçário do gatos?
–Gatos cruzes! –Como uma princesa do sol, Luiza preferia mil vezes cachorros.
–Eu quero! –Disse Santiago animado –Eu adoro todo tipo de filhotes de animais!
E assim os garotos foram visitar o berçário, Lion não gostou muito, mas como era um cachorro muito obediente, nem se quer rosnou pra nenhum felino. O berçário tinha centenas de cestas que eram as camas dos mais variados gatos, Santiago se divertiu tanto que até parecia estar num parque de diversões.
–Olha que coisa mais fofa! Gato danado! –Ele fazia aquelas vozes bobalhonas de brincar com bebê.
Élber olhava rindo do jeito carinhoso com que Santiago brincava com os gatinhos, seu sorriso, o jeito que gargalhava, sem perceber ele falou:
–Anjinho.
–O que?
–Desculpe! É... Que o jeito que você brinca com os filhotes, parece até um anjo dos animais –Os dois riram.
–Você quer me chamar de anjinho?
–Bem...
–Ouvi que te chamam de diabinho. Tudo bem, posso ser o seu anjinho se você quiser.
Élber ficou vermelho com aquele papo, mas gostou da ideia.
–Tudo bem anjinho vamos andando já esta na hora do segundo jantar.
–Tudo bem diabinho, vamos andando.
Assim se passaram três dias, ou talvez uma semana nunca se sabe, os convidados do reino do sol partiram dizendo aguardar a visita da realeza da lua. Os detalhes do casamento estavam quase prontos. Élber já estava sentindo falta de seu novo amigo, mas não ligaria se nunca mais visse a Luiza chata.
–Sinto sua falta anjinho.
Élber ainda não entendia o que estava sentindo, achava que era só uma amizade forte, mal sabia que era bem mais que isso.
Dias, ou noites, depois, várias carruagens partiram do reino da lua, o jovem príncipe sentia um frio no estomago, será que era nervosismo? Ou seria ansiedade? De repente a noite virou dia, as carruagens adentraram no reino do sol, todas as cores eram vibrantes, verde, vermelho, azul, cores festivas enfeitavam todo o reino. Logo chegaram ao castelo do sol onde foram bem recebidos.
–Bem vindos ao reino do sol –Disse o rei.
Os reis se cumprimentaram, assim como as rainhas, Luiza deu um beijo na bochecha de Élber que achou muito molhado e por fim ele viu o Santiago se aproximar com um enorme sorriso estampado no rosto.
–E ai diabinho?
–Olá anjinho.
Os dois deram um abraço apertado, Élber sentiu um formigamento estranho dentro das calças, mas passou quando acabou o abraço.
Todos foram para o almoço de boas vindas, Pili e Lion brincavam em baixo da mesa, assim como seus donos, os dois acabaram virando amigos. Os reis continuaram com os preparativos do casório, enquanto os jovens foram brincar, talvez eles tivessem na verdade 12 anos, nunca se sabe.
–Quero te levar a um lugar incrível Élber –exclamou Santiago –Um dos lugares mais bonitos do reino do sol: Campos Formosos!
–Aff não quero ir pra lá! –Reclamou Luiza.
–Eu quero! –Disse Élber –Pelo nome parece um lugar bem bonito.
Luiza voltou pra casa emburrada e os meninos correram para o tal lugar chamado Campos Formosos. As ruas do reino do sol eram bem movimentadas, Élber não era muito fã de cachorros, mas se apaixonou pela raça dos buldogues.
–Eles são tão fofos com essas dobrinhas no corpo e cara de malvados.
–Muita gente acha eles feios.
–Eu os acho lindos!
–Eu também.
Depois de andarem por quase uma hora chegaram à Campos Formosos, era um lugar lindo, mas não era bem o que Élber esperava.
–Aqui é bem... Deserto.
–Eu gosto muito de vir aqui, posso pensar na vida, nos problemas...
–Que problemas? –Perguntou Élber curioso.
–Vamos mudar de assunto.
–Me fala!
–Não quero estragar o dia.
–Aqui é sempre dia mesmo, não tem como você estraga tudo.
–Bem, é a minha mãe, antigamente erámos muito próximos, mas algumas coisas aconteceram e nos afastamos um pouco –Élber viu os olhos do amigo encherem-se de lágrimas o que provocou um aperto no peito, não gostava de vê-lo sofrendo, parecia que doía nele também –As vezes acho que minha mãe não me ama.
–Não seja bobo! Como alguém pode não amar você?
Foi nessa hora que ficou um silêncio constrangedor, os dois estavam muito perto, quase com os narizes se encostando, Élber pensava coisas como: “Que porra foi que eu disse? Eu praticamente disse que o a...”. Santiago sentia que seu peito ia explodir, lembrou de rosto sereno do outro dormindo ao seu lado na torre do castelo da lua, lembrou da vontade que sentiu... Vontade esta que sua mãe descobriu a algum tempo, vontade esta que a fez odeia-lo e viver exclamando: “O que os outros vão dizer se descobrirem que você gosta de...”
Élber se inclinou e o beijou na boca! O que eu estou fazendo? Ele pensava, mas não parou, continuou a beija-lo e Santiago retribuiu, era um beijo doce e puro, ambos sentiram seus corações esquentarem, sentiram que o mundo girava à sua volta e quando abriram os olhos e se afastaram perceberam que não era mais dia, o reino do sol experimentava sua primeira noite.
Fale com o autor