Talvez
1 único
O principal companheiro do baixo é a bateria. Era por isso que eu e Sanji nos encontrávamos mais vezes do que com o resto do grupo.
A nossa banda era de garagem, formada por 4 membros e todos ainda no ensino médio. Treinávamos no porão da mercearia de Franky, que nos emprestava a chave sem cobrar nada. Ele dizia a nós que já fora de tocar também e era um prazer nos ajudar, embora nenhum de nós termos um sonho de ser um músico no futuro, sabíamos que era só um hobby e que éramos terrivelmente ruins nele. Ademais, Franky fazia alguns pedidos: não beber e nem fumar, não brigar.
Esses pedidos eram mais por conta de mim e de Sanji. Eu bebia muito pra minha idade e Sanji fumava muito pra dele. E apesar de Sanji ser o baixista, o mais próximo de mim por eu ser o baterista, nós dois brigávamos frequentemente. Começava com uma discussão besta, mas muitas vezes terminávamos com alguns hematomas no corpo.
Aquele dia, depois do sol se pôr e da aula acabar, Sanji pegou na minha mão para nos apressarmos até o porão. Eu odiava quando me tocava, sentia algo estranho... ele também sentia algo, porque a palma da sua mão era sempre suada. Mas tal sensação de incômodo era natural, afinal, somos dois garotos.
Ele só me soltava quando via a fachada da mercearia, dizia que eu me perdia até em linha reta, mas isso era mentira. Na verdade, tenho a sensação de que Sanji queria me tocar. Eu reparei isso até nas nossas brigas.
Se um dia ele resolvesse dizer a mim que me amava, eu não saberia o que responder. Eu só sabia que não queria magoá-lo.
Naquela noite estávamos a sós e ele estava mais quieto do que o normal. Nosso ensaio corria bem, ou seja, não havia brigas. Só havia a linha de baixo pulsante que me acompanhava.
Ele era bom, o único que prestava na banda e se quisesse, podia se tornar profissional.
Se inspirava nas linhas de baixo do post-punk e que são marcas registradas desse gênero musical.
Quanto a mim, não era muito bom e por isso concordei de nos encontrarmos mais vezes.
O ensaio acabou, ele me jogou uma toalha branca pra enxugar meu suor e eu busquei minha garrafa de água ao lado do banco da bateria em que estava sentado.
Ele tirou sua camisa suada e respirou fundo. Pude ver sua pele vermelha e alguns hematomas de brigas passadas, era engraçado que em Sanji elas demoravam mais para sair, porque sua pele era mais clara que a minha.
Mas meus olhos logo deixaram de pairar nos hematomas para se fixarem nos mamilos cor de pêssego. Notei que estavam endurecidos e aquilo que sinto quando aperto a sua mão tomou meu corpo de novo.
Sanji coçou o nariz no braço, tossiu e ajeitou o cabelo oleoso por conta do suor. Estava alheio, nem aí pra mim.
"Não conte nada para o Franky"
Foi a única vez que se dirigiu a mim naqueles minutos, depois acendeu o cigarro e sentado no chão, recostou a cabeça na parede pra terminar fechando os olhos.
Seu corpo semidespido ainda suava e eu observava cada gota que deslizava sobre ele.
Talvez se um dia Sanji me disser que me ama, talvez eu diga "eu também".
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