- Boa tarde.

- Boa tarde, madame. Para onde?

- Aeroporto Galeão, por favor. – A senhora acomodou-se no banco traseiro, devido à quantidade de malas que levava. Exalava um perfume jovem e arfava. – Se não for muito incômodo, poderia ir o mais rápido que der? Estou muito atrasada para o voo.

O motorista de táxi preferiu manter-se calado. Estava acostumado a esse tipo de clientes, apressados e arrogantes. Achavam que até o tempo deveria os obedecer. Ao menos, a senhora era educada, além de extremamente bonita. Parecia estrangeira, era bossuda e clara. O brasileiro sorriu para si, ajeitando o espelho traseiro discretamente.

Chovia. Não uma chuva preocupante, mas o suficiente para engarrafar as principais vias de acesso da cidade, como de costume. A madame bufou para si própria no banco traseiro, aparentemente inconformada com todas as lanternas vermelhas que se mostravam diante do táxi. Estava um trânsito e tanto. Retirou por um segundo os óculos de grau e apertou o canto dos olhos, como que para se acalmar. Respirava compassadamente. Pelo espelho, o homem a observava sem muito interesse.

- É incrível o engarrafamento nessa cidade, não é?

Os passageiros sempre buscavam no trânsito o assunto para suas conversas. Talvez achassem que os taxistas não tinham vida social, que passvam o dia inteiro dirigindo, conhecendo pessoas novas e ganhando pouco. O brasileiro fez que sim com a cabeça e respondeu um “É...” desanimado, jogando reticências no ar.

- E andamos sempre com essa pressa toda... O tempo diminuiu ao longo dos anos.

A chuva aumentou um pouco e o táxi passou a mover-se com a metade da velocidade. Mas a madame já parecia menos preocupada. Olhava pela janela e falava, sozinha ou com o taxista, não lhe importava muito.

- Estou gripada há um mês, minhas pernas estão pesadas e minha cabeça está doendo... Mas o trabalho não me deixa descansar por um instante. O médico mandou-me repousar, no entanto...

- Por que não pede um atestado? – O motorista resolveu finalmente se pronunciar. Sentia-se mal ao vê-la falando sozinha, e era provável que ficassem juntos por mais um tempo.

- Como se fizesse alguma diferença. Ficaria em casa, e os colegas de trabalho continuariam a me ligar, o computador acusaria inúmeros e-mails... Eu preciso de descanso para a cabeça, não só físico.

O carro moveu-se mais um pouco, e as favelas começaram a cercá-los. Construções humildes revelavam as donas de casa correndo na chuva, buscando suas crianças, estapeando-as por brincarem na lama e no tempo ruim. Um burro comia grama à beira do asfalto calmamente.

- Hoje é meu aniverário, sabia? – O comentário surpreendeu o taxista.

- Jura? Meus parabéns, muitos anos de vida para você. Que Deus te abençoe.

- Que Deus me permita que, ano que vem, eu possa passar esse dia com meu namorado. Mais uma vez, o tempo me passando a perna... Não bastasse sermos obrigados a viver nesse presente infeliz, ainda tenho que estar sempre no lugar errado e na hora errada. E atrasada.

- É viagem de trabalho? – O taxista arriscou, visto que ela não parecia muito reservada ao falar de si mesma. Porém, logo reparou que a mulher tinha os olhos vermelhos e os lábios contraídos. – Senhora? Tudo bem?

Ela inspirou todo o oxigênio do carro antes de responder, com um tom de voz choroso.

- Ele terminou comigo quando disse que precisava viajar hoje. – Uma lágrima escorreu pela janela. – Havia feito uma reserva num restaurante formidável na Barra, combinado tudo com meus amigos... E eu o desapontei. E ele disse que só vivo para o trabalho e que, se nem meu aniversário tem mais importância, que ele também não deveria ter mais.

A moça tinha as bochechas e a ponta do nariz rosadas, as bochechas umedecidas, e a cabeça pendia no banco. Só então o homem foi reparar nas olheiras abaixo de seus olhos, e em como ela parecia velha demais para alguém que namorava e usava roupas tão joviais.

- O que eu faço...? – A moça murmurou, solitária, no banco traseiro.

O brasileiro mirou o taxímetro e previu o quanto ela iria pagar por culpa do trânsito. Felizmente, o aeroporto aproximava-se, embora a chuva talvez atrasasse um pouco mais o voo.

- Me permite dizer uma coisa?

A madame voltou os olhos injetados para o homem, ou para seu reflexo no espelho.

- Não tente controlar o tempo. Isso está exigindo demais de você. Deixe-o ser livre... Tudo muda de figura depois de um período. O tempo cura tudo, não é mesmo? Você não devia se deixar machucar por ele.

A moça continuou olhando para o homem como uma estátua. A chuva batia lá fora. Logo seria hora do almoço – o almoço do seu aniversário.

- São quarenta e três reais.

Notas finais
Eu sem dúvida perguntaria se o conselho já estava incluído nos quarenta e três reais.

Obrigada aos que leram! Leitores maravilhosos que tenho <3
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.