Talking To The Moon
1 Capítulo 1- único
Notas iniciais
Nunca duvidei que algo desse tipo fosse me acontecer. Só não esperava que fosse haver um impacto tão grande.
Mail Jeevas, um ruivo azarado viciado em nicotina e jogos. Ainda por cima, apaixonado por um homem que sequer sabia desse sentimento.
Eu.
E talvez seja sempre péssimo contar essa história, mas não posso deixar tudo para trás.
Abandonado pelos pais e esquecido pelo seu único amigo, que se ocupou com um caso suicida de tentar capturar um assassino poderoso.
Desde o início, soube que o plano seria mal sucedido, e não duvidei que acabaríamos eu e ele, mortos. Ele pelo caso, e eu afundado numa depressão.
Tentei capturar seu sorriso em câmeras, mas não havia como prende-lo em fotos. Tentei observar o garoto dormir, mas ele quase não o fazia, e em suas exceções, me deixava ocupado o suficiente para "não perder tempo o observando", como costumava dizer.
E no seu ato mais ousado, eu simplesmente o perdi, como uma criança que esquece seu brinquedo no banco de uma praça, e nunca mais o vê. Mas com uma dor muito maior, em saber que aquela boneca seria insubstituível.
E é claro que pra mim, Mihael Kheel nunca seria apenas como um retalho de pano, mesmo por fazer maior falta. Mas eu era a criança, em abandono. E ele era o vento de acolho soprando sobre o meu rosto.
Sei que está longe, mas se pudesse, eu iria até lá. E eu queria que ele estivesse aqui... porque como mera criança, não consigo contar o fim da história sem soluços e lágrimas densas.
Eu sentia falta de seu sorriso de vitral, de seus olhos atentos, de suas queixas e seus palavrões. Das insônias, dos abraços e deveria admitir invejar dos céus até mesmo seus empurrões.
E eram nas tardes de chuva que pensava se ele voltaria, para me acalmar. Porque também era como mera criança que eu tinha medo dos trovões.
Numa noite, o brilho das estrelas estava mais forte, e perdido na multidão de outras constelações, me perguntei se Mello estaria ali.
" -Near me disse que quando alguém morre, essa pessoa se torna uma dessas estrelas — dizia Mihael, em uma noite congelante em que conversávamos.
–Near não sabe de nada — retruquei. — Estrelas não são pessoas. São astros.
–Cale a boca, sardento — Ele sussurrou e voltou a encarar o céu.
Fiquei em silêncio. Tínhamos apenas onze anos. Eu estava assustado.
– Soube que vai viajar — eu disse. — França, 'né?
–Sim, assim espero — respondeu, com frieza.
–E como eu farei para não sentir sua falta? Watari disse que você não poderá telefonar, nem mesmo mandar cartas -Perguntei, melancolicamente.
O loiro suspirou e fechou seus olhos, aspirando o ar puro do jardim da instituição.
–Todos as noites, nesse mesmo horário, eu estarei observando essa mesma cena, Matt. E estaremos vendo essa mesma Lua. Quem sabe assim, você possa fazer a sua pequena viagem no tempo."
As lágrimas voltavam aos meus olhos, enquanto abria a janela do meu quarto, como fazia diariamente. As palavras daquela criança eram o meu maior abrigo agora.
–As vezes eu posso sentir você aqui, Mello.-Sussurrei, com o rosto iluminado apenas pela luz da Lua.-Posso ouvir-te dizendo aquelas palavras para evitar minha tristeza. E me lembro o quanto você se importava comigo.
Talvez eu fosse realmente louco em pensar que Mello ouvia minhas palavras. Mas sabia que aquele era meu único consolo agora. Ele era tudo o que eu tinha e o melhor que poderia pedir.
E eu queria que tudo fosse sobre uma simples tristeza passageira, ou uma viagem para outro canto de um mundo tão grande.
Onde ele estava?
Eu me questionava.
Depois de passar anos nessa monotonia, pessoas começaram a observar a minha rotina.
–Você é um maluco!-Gritou uma senhora. Fingi não ter escutado e continuei Observando o Luar.
–Eu quase posso ver seu rosto nas estrelas.-Disse, baixinho, como se quisesse que somente ele escutasse.
–Não há ninguém falando com você, seu garoto tolo!-Mais uma senhora passava na rua, caçoando da minha atitude.-E nesse tom de voz,mesmo se houvesse, ninguém iria escutar.
Levanto um dedo às pessoas que comentavam sobre mim, enquanto virava metade da minha bebida na boca.
–Vagabundos. Arrumem uma vida e só depois que souberem o que é se ocupar com uma, tentem falar da minha — eu apenas sussurrava, ainda sem tentar dar muita importância.
–Além de fumar ele bebe, olhem! -Gritou escandalosamente um homem que se acomodava na praça em frente a minha varanda.-Ele está bêbado!
Minha visão estava turva e minhas pernas amolecidas, mas ainda não estava fraco a ponto de o abandonar no meio da noite.
Quando o Sol estava prestes a nascer novamente, minha cabeça já latejava e meus olhos custavam em ficarem abertos.
–Não vá embora tão cedo. Por favor... -Suspirei antes de continuar.-Tenho algo a lhe dizer.
Envolvi com os dedos o colar em forma de crucifixo que o jovem costumava usar, levando-o para perto do peito, em um aperto de consolo a si mesmo.
–Eu amo você, Mihael Keehl.
Depois dessas palavras, senti um alívio enorme envolver meu coração e um nó se retirar de minha garganta.
Corri em direção á rua, agora desértica.
–Tem algo que preciso fazer.
Não precisou de muito, até que alcançasse a grande e velha igreja queimada.
Meus olhos ardiam como se fossem pular do meu rosto. As lágrimas prendiam fios do meu cabelo avermelhado ao rosto até que me atrevi a entrar no prédio.
–Foi exatamente aqui, não foi, Mihael?-sussurrei, para mim mesmo.-Uma vez, lhe prometi que morreria junto a você, Mello. E...
Retiro uma arma da minha cintura e aponto para o meu peito.
–Eu odeio quebras de promessa.
Eu sabia que depois daquilo seria amado por todos, como se fosse daquele jeito desde sempre. E que talvez ninguém conseguisse fazer alguém chorar no meu enterro, porque a única pessoa que sabia algo sobre mim, estava agora morta. E eu sabia que deixaria de ser apenas uma criança, e era hora de crescer.
E não haveria mais a necessidade de contar novamente essa história. E não haveria mais insônia, e nem mais lágrimas.
Meus joelhos já não conseguiam mais me aguentar em pé, até que senti o chão frio e convidativo me envolver com ternura e cuidado. E eu segurei sua corrente uma última vez. E senti uma última lágrima no canto do rosto.
Queria sorrir sem mais repetições...
"Eu sei que você está por aí, em algum lugar
Algum lugar muito longe."
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