Talk to Me
2 Capítulo II - Não
Notas iniciais

“day_tripper: confesso estar um tanto envergonhada”.
“lifeinrhapsody: não é algo muito diferente do que eu já tenha feito”.
“day_tripper: quer dizer que você faz sexo com pessoas que conhece na internet constantemente?”.
“lifeinrhapsody: não, aliás, é a minha primeira vez aqui. Quis dizer que comparado com outras coisas relacionadas a mim, isso não chega a ser absurdo”.
“day_tripper: eu devo me preocupar com essa constatação?”.
“lifeinrhapsody: não sei. Talvez”.
— Já acordada, Anne? – minha mãe entrou subitamente na cozinha. – Você costuma dar trabalho para acordar durante a semana, é estranho te ver de pé a essa hora no sábado.
Eu já estava conversando há tanto tempo com o meu “novo amigo” que havia perdido a noção das horas. Eram seis da manhã e o sono ainda estava longe de me alcançar.
— Não consegui dormir – eu disse, baixando a tela do computador. Minha mãe havia começado a preparar o café da manhã. – Tive uma briga séria ontem com Tony.
— Mas ontem parecia ser um dia tão feliz...
— Tony é um idiota – finalizei, alcançando um pedaço de torrada no prato que ela havia colocado sobre a mesa.
Arrastei-me até o quarto com o notebook embaixo do braço. Rosa estava estatelada na cama como se tivesse sido atingida por uma pedrada na cabeça. Deitei-me no pequeno espaço que Rosa estava deixando livre na cama, alcançando, em seguida, meu celular no criado-mudo.
“day_tripper: você parece se divertir com a minha apreensão”.
“lifeinrhapsody: porque é engraçado”.
“day_tripper: não é. Várias pessoas já morreram durante encontros com parceiros virtuais”.
“lifeinrhapsody: e você, ao invés de falar isso para alguém de confiança, está aqui falando para alguém que pode ser um assassino em potencial?”
“day_tripper: você é esperto. Quando vamos nos ver?”
Ser direta daquela maneira não estava nos meus planos, mas minha intuição me dizia que ele era alguém que eu não me arrependeria de conhecer – e tudo o que eu menos precisava era de mais um arrependimento.
Nós marcamos de nos encontrar à noite, naquele mesmo dia. Rosa iria visitar os pais, que moravam em um bairro nobre próximo ao centro e eu iria com ela. Nós iríamos nos encontrar em uma casa de show que, por coincidência, ficava próximo à escola onde eu estudei.
— Você tem certeza que ficará bem? – Rosa perguntou quando eu contei o meu plano. – Eu vou passar a noite preocupada com você.
— Rosa, eu vou ficar, não se preocupe – tranquilizei-a. – Você está há meses sem ver os seus pais, eles estavam viajando há meses, não é justo que você deixe de passar um tempo com eles por minha causa.
— Ok, mas quando chegarmos em minha casa nós vamos continuar essa conversa.
Nós passamos no restaurante para que eu pudéssemos nos despedir dos meus pais e depois seguimos até a praça para pegarmos um táxi. No caminho, Rosa abriu uma conversa sobre Tony após ler, sorrateiramente, uma mensagem que ele havia me mandado.
— Por que você não termina logo o seu namoro? – ela perguntou, encarando-me profundamente.
Estava tão concentrada em tentar não odiar Tony pelo que havia escrito que nem havia ligado para o fato de Rosa estar espiando. “Você deveria se importar mais comigo ao invés de ficar por aí dando pitis desnecessários. A sua função é me apoiar e cuidar de mim. Aceite que nem sempre estarei a sua disposição”. Aquilo era tão revoltante. Eu havia dedicado três anos da minha vida a ele, assisti-o crescer como atleta sem nunca receber um agradecimento. Agora assistia-o regressar como pessoa e a única coisa que eu conseguia era ser ignorada.
— Não sei se estou pronta para isso, Rosa. Estamos juntos há anos, acho que não suportaria a ideia de ficar sozinha. Além disso, no fundo eu ainda sinto algo muito forte por Tony.
— Ninguém morre de amor, Schopper. Além do mais, olhe pra você! Não é certo o que ele faz e nem o que você faz para si – se não estivéssemos na companhia de outra pessoa, ela estaria me sacudindo pelos braços naquele momento. – Tenho certeza que existem homens e mulheres caindo aos seus pés e Tony não é capaz de dar valor?
— É, talvez você esteja certa...
***
Os pais de Rosa moravam na cobertura de um dos prédios mais caros da cidade, no entanto, tudo dentro o apartamento era bem simples, pois eles passavam boa parte do ano viajando. O pai dela ocupava o cargo de diretor de fotografia de uma revista de circulação internacional, enquanto sua mãe era piloto de avião. Após a mudança de Rosa, seus pais decidiram aliar o trabalho ao lazer.
— Mãe! Pai! – Rosa chamou ao atravessar a porta do apartamento. – Finalmente vocês voltaram para casa! – ela correu para o meio da sala, abraçando-os com força.
— Meu amor! Você cresceu! – Cath, a mãe de Rosa, comentou, segurando as mãos da filha.
— Não podemos falar o mesmo da pequena Anne – seu pai sacudiu arrepiou os meus cabelos, como sempre fazia desde que nos conhecemos. – Como você está? Rosalice nos disse que saiu da faculdade, ficamos preocupados – contive o riso quando vi Rosa revirar os olhos ao escutar seu nome completo.
— Tive que sair. Direito era o sonho dos meus pais, mas não era para mim.
— Você escolheu sabiamente, querida – a mãe da minha amiga veio até mim, me abraçando como havia feito com a filha. – Quando conheci Philipe, seus pais não aceitavam que ele cursasse Cinema. Hoje, eles fingem não lembrar que o criticavam.
O pai de Rosa deu de ombros.
— Se tudo der certo, você logo estará cursando...
— Jornalismo.
—... Jornalismo em Anglo.
Nós passamos mais algum tempo conversando sobre as viagens e sobre o trabalho deles ao redor do mundo, mas Rosa acabou me lembrando do meu compromisso e nós encerramos a conversa. Seguimos para o segundo andar, onde ficavam os quartos e o banheiro social. O apartamento era tão grande que se tornava quase impossível vagar por ali sem um guia.
— Eu vou dizer para eles que você vai se encontrar com um amigo, mas que voltará para dormir aqui. Pode ficar com a minha chave essa noite.
Arrumei-me o mais rápido que pude e, antes que eu pudesse dar tchau para Rosa, ela me empurrou na cama, fazendo-me sentar.
— Tome isso – ela me entregou um spray de pimenta. – Caso ele tente te atacar, lembre-se dos pontos fracos: olhos, pomo de adão, diafragma e joelhos – ela recomendou, contado cada um nos dedos. – Leve esse celular escondido na sua calcinha para o caso dele tentar tirar a sua comunicação – continuou, entregando-me seu celular antigo. – Meu número está na discagem rápida. Por favor, Anne, não morra.
***
Chegando à casa de show, o meu “parceiro de aventura”(havia descoberto essa denominação nas instruções do aplicativo quando estava no táxi) enviou uma mensagem informando que estava usando um casaco verde militar e uma camiseta de filme.
Eu não conseguia parar de pensar em como ele era. Na minha mente, ele não passava de um garoto comum que curtia humor irônico e cultura pop. Mas o que eu podia exigir? Eu era uma garota de quase vinte anos com a altura de uma criança de doze que ainda tinha que apresentar a identidade na porta de casas noturnas como aquela. Além disso – e eu não ouso dizer que estava absolutamente fora do padrão por causa disso –, estava longe de ter um corpo escultural de uma Angel como Rosa. Na verdade, eu não passava de uma pessoa bastante comum.
— Eu já disse que sou maior de idade! – disse, vasculhando a minha bolsa.
— Desculpe, menina, mas faz parte do meu trabalho – o segurança argumentou, devolvendo a minha carteira de identidade.
Entrei rapidamente, fazendo questão de pisar no pé do brutamontes, o que não fez absolutamente nenhuma diferença. Eu já havia ido ali antes – quando eu era menor de idade e usava identidade falsa – e o local não havia mudado absolutamente nada. Last Kiss continuava sendo uma casa de show um tanto quanto derrubada, mas que era acessível para pessoas com nem tanto dinheiro – eu – e pessoas com muito dinheiro, mas que tinham pena de gastar em locais chiques – Rosalice –. Nós passamos praticamente toda a nossa adolescência nos embebedando em locais suspeitos e, sinceramente, esse era o mais “aceitável” que nós frequentávamos.
E isso é algo do qual eu posso me orgulhar.
As paredes, originalmente amarelas, permaneciam com o tom amarronzado de encardido e o chão um tanto quanto grudento devido às bebidas que as pessoas derramavam. Além disso, as bebidas boas e baratas permaneciam sendo vendidas no bar. Tudo continuava do jeito que eu gostava.
— Você está só, florzinha? – senti um braço envolver o meu pescoço, junto com um bafo de uísque barato. Tive vontade de vomitar.
— Sim. E você não vai conseguir nada com ninguém se continuar por aí com esse bafo tóxico de chorume de lixão a céu aberto – eu o cortei, retirando seu braço do meu pescoço. – Com licença, estou ocupada.
— Eu gosto quando vocês se fazem de difíceis, sabia? – ele voltou a me segurar, se aproximando.
— Saia daqui – disse, empurrando-o.
O homem continuou insistindo, até que o segurança que havia me importunado na entrada o arrastou para longe de mim.
— Obrigado, Zeke! – escutei alguém falar perto de mim. Virei-me, com a intensão de agradecer quem tinha dado a ordem para segurança (agora não tão brutamontes). – Ah, você não.
Eu conhecia muito bem o rapaz que estava parado em minha frente com as mãos nos bolsos e uma expressão quase morta de deboche no rosto. Aqueles cabelos bagunçados e aquele corpo alto e esguio tinham um dono. Um dono insuportável, egocêntrico e extremamente infantil.
— Olá, Thomas! – disse, fingindo um sorriso. – Como você está?
Como eu já esperava, ele apenas deu as costas para mim, caminhando em direção ao bar. Thomas foi a criatura mais petulante que havia cruzado o meu caminho em todos os meus anos de vida, e foi ele o responsável pelos momentos mais embaraçosos que eu já havia vivido durante o tempo de escola.
Caminhei em direção ao bar, sentando-me ali perto. Alguns minutos se passaram e eu comecei achar que tinha levado o maior bolo da terra quando o meu celular vibrou dentro da minha bolsa.
“lifeinrhapsody: onde você está? Estou plantado aqui há anos”.
“day_tripper: estou perto do bar”.
“lifeinrhapsody: impossível”.
“day_tripper: impossível é que você não esteja vendo uma garota de vestido amarelo perto de você”.
Perto de mim, pude escutar um longo e entoado grito de “Não!”. Antes que eu pudesse identificar a pessoa responsável pelo drama, alguém se materializou em minha frente.
— Não! – Thomas exclamou. – Não pode ser você! Não, não, não, não, não – cruzei os braços, encarando-o. Thomas era o dono das cenas dramáticas e aquele momento não poderia ser diferente. – Não – ele finalizou, após uma profunda inspiração. – A pessoa interessante e linda que eu imaginei não pode ser você.
— Bom, eu esperava um cara bonito, charmoso, inteligente e que me desse vontade de tirar a roupa no mesmo instante que o encontrasse. No entanto, é você que está diante de mim e não está me vendo reclamar – encarei-o profundamente, erguendo uma das sobrancelhas.
— Eu vou embora.
— É o que você sempre faz mesmo – provoquei, bebendo um gole da bebida que o garçom havia colocado sobre a minha mesa.
Thomas girou nos calcanhares, retornando para perto de mim. Sua expressão era de puro desafio, a mesma que eu vi estampada em sua face no dia em que tivemos que debater pela liderança da turma. Após alguns argumentos, Thomas se retirou do palanque legando estar passando mal e toda a escola enxergou aquilo como um ato covarde da sua parte.
— Primeiro, eu intolerância à lactose. Você só ganhou aquele debate por um erro meu de ter comido algo na cantina sem checar antes. Segundo, você não vai conseguir fazer com que eu transe com você me desafiando. Nós não somos mais criança.
Eu ficava cada vez mais impressionada com a prepotência masculina. Meu pai achava que era homem suficiente para provocar ciúmes em minha mãe sempre que ela não dava moral para algum capricho seu. Tony tinha a ideia absurda de que eu deveria esperar a sua boa vontade para voltar a me sentir ao menos desejada.
E agora, aquele projeto de ser humano que me encarava se achava no direito de pensar que eu estava sedenta pelo seu corpo. Não. Eu não podia deixar que aquela ideia sequer transpassasse à sua mente.
— Escuta aqui, Thom-thom – eu sabia que ele odiava aquele apelido. – Estou tão surpresa quanto você – disse, dando de ombros. – Mas essa é a graça, não é? Poderia ser a Emma Watson e poderia ser eu. Poderia ser o Alex Turner... e poderia ser você. Mas você quer estragar a sua noite? – perguntei, tomando outro gole. – Eu não vou estragar a minha – finalizei, levantando-me.
Eu quase pude ver Thomas organizando uma lista de prós e contras em sua mente. Aquilo era típico dele. Não importasse qual fosse a situação, Thomas iria ponderar. Admirava-o pela sua sensatez, confesso, mas odiava-o pelo mesmo motivo.
— Ok. Acho que ficar aqui com você não é a morte – ele deu de ombros, parecendo tentar se convencer do que acabava de falar. – Poderia ser pior.
Chegamos à conclusão que a única forma que poderia fazer com que nós convivêssemos em paz naquele ambiente seria com muita bebida – bebida forte, diga-se de passagem. No entanto, na sexta rodada, já conseguíamos manter um nível de conversa não tão baseado no deboche.
— Eu não conseguia entender como você podia ser tão insuportável, sabia? Você ria de mim sempre que eu apresentava trabalhos e sempre tentava me atrapalhar com perguntas fora de contexto.
— Você já parou para prestar atenção em si mesma quando está nervosa? – ele perguntou, rindo. No fundo, aquela risada me soou encantadora. – Você começa a mexer freneticamente no cabelo e sua voz fica ainda mais aguda. Parecia um garoto que ainda estava entrando na puberdade – ele riu novamente, sacudindo os cabelos bagunçados. – E você? Eu sei que foi você que colocou aquela barata no meu armário, sabendo do meu medo. Confesse que era uma via de mão dupla, nós devolvíamos na mesma moeda.
— Sim, porque, ao contrário de mim, você era um garoto na puberdade e aquele seu grito assustado por muito tempo foi a minha música preferida – eu ri, e pude jurar que ele parou alguns instantes apenas para prestar atenção. – E, bom, não tenho o que confessar, pois eu apenas me defendia.
— Ah, sim. Você não passava de um lobo em pele de cordeiro. Andava por aí se fazendo de menina nerd boazinha.
Nossa conversa continuou fluindo até que eu cheguei ao meu limite de bebida, quando eu começo a falar mais besteiras que o normal, perco a noção de tempo e espaço, e não me aguento mais e pé. Thomas, diferente de mim, parecia um pouco menos afetado.
— Ok, eu sinto que isso é culpa minha – ele disse, se referindo à minha condição. – Vamos eu te levo para casa em um táxi.
— Eu não estou em casa – disse, assim que ele me ajudou a levantar da cadeira.
— Tudo bem, então onde você está?
Dei de ombros. Suas palavras já não faziam mais sentido na minha mente. Todo o meu corpo estava dormente e o bar girava à medida que nós caminhávamos em direção à saída.
— Eu jamais poderia imaginar que um dia teria que cuidar de você bêbada – escutei-o dizer enquanto se esforçava para me manter de pé. – Será uma noite para se guardar na memória, Annelise.
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