Tales of Love and Revenge

3 Tradição mundana - Poseidon e Atena


Notas iniciais
Quem já leu alguma história minha sabe da minha obsessão pelo fim, então claro que ele não poderia faltar aqui também rs

Amor

Poseidon e Atena


Ele disse a ela que o amor é renúncia.

Ela amava então, pois já renunciou a tanta coisa. E ele ainda a chamava de indesejável, mas isso era apenas porque ela dizia a indesejada verdade tantas e tantas vezes. Sempre tão certa, tão irritantemente certa, que chegava a incomodar.

A deusa vagava sozinha por um parque de diversões quase vazio em Manhattan, com passadas longas, tempestuosas. Em sua mente as cenas da última discussão no Olimpo ainda rodavam, deixando-a tonta. “Você pode não saber Atena, mas é assim, o amor é renúncia”, havia dito Poseidon sobre ter deixado Anfitrite sozinha para passar a virada de ano com os demais deuses no Olimpo. Ele nem ligava para ela, como ainda podia dizer que aquilo era amor? Perfeito, Anfitrite sim renunciava a muita coisa, enquanto ele, nada.

- Os finais são leves, rápidos. Não acha? – Uma voz rouca e boa de ouvir tirou sua concentração. Seu sangue ferveu no mesmo instante ao ver o belo homem parado ao seu lado, encostado na mureta baixa que dava uma bela visão do parque.

- Sim, os finais são sempre assim. É por isso que eu os adoro – falou, tirando uma calma não se sabe de onde. Poseidon não iria irritá-la, não hoje.

- Acho que eu os adoro também. O estranho é que os humanos associam finais a coisas que não gostam, ou mesmo a coisas terríveis. Espero que os finais não fiquem zangados com essa, como posso chamar, tradição mundana? Acho que sim.

Atena jamais imaginou ter uma conversa tão... Levemente produtiva com Poseidon. Talvez, apenas talvez, ele fosse mesmo um ser pensante no fim das contas.

- Quanta eloqüência, — zombou – Nem imaginava que você era capaz disso Poseidon. E sim, finais são dádivas, começos podem ter seus atributos, mas nenhum começo é tão magnífico quanto o fim. Já me identifiquei com tanta coisa nesse mundo, mas certamente nada me chama mais atenção que o final.

- E acredite – Poseidon olhou para seu relógio de pulso – Estamos há dois minutos e quatorze segundos sem discutir. É por alto um record. Agora, o que faz aqui sozinha quando o novo ano já está para chegar?

- Aposto que ninguém notou que saí, a está altura Dionísio já se ocupou de embebedar a todos.

- Por aí – Poseidon sorriu – Mas ainda não me respondeu. Ah, três minutos e dois segundos.

- Para poder admirar mais este fim. Sozinha – Suspirou, sentindo-se estranha ao ver a súbita aproximação de Poseidon. Era como se algo a sacudisse por dentro.

- Como pode crer tanto que é auto-suficiente Atena? Veja eu, por exemplo, com todos esses anos de existência ontem à noite, da praia, vi o céu estrelado e compreendi então que me enganaram. Enganaram-me desde sempre.

- Enganaram?

- Essas questões de amor e dor – Falou como se apenas isso devesse bastar como uma explicação.

- Lamento dizer, mais aí estão duas coisas em que se pode ser auto-suficiente. Você pode sentir-se pleno apenas sabendo que ama a si mesmo e apenas quem sabe a dor que carregamos somos nós mesmos, não é?

Atena sorriu satisfeita, porém Poseidon não parecia estar.

- Não sente como se algo lhe faltasse? Em todo esse tempo, não há lembrança alguma referente a sentir como se algo faltasse para você?

A deusa suspirou. Tenho leve temor somente em pensar em acessar as antigas lembranças, porque, o que posso dizer? As facadas que me deste ainda não sararam; pensou, mas jamais chegaria a verbalizar tais palavras.

- Tudo o que carrego comigo, todas as marcas das feridas das batalhas que travei até aqui, lutando comigo mesma ou contra outros, me bastam para mostrar o quão longe posso chegar sozinha. Mas mesmo assim, tenho feridas que foram tão marcantes que às vezes ainda doem, sinto a cada uma delas, como se um pedaço de mim houvesse sumido – Atena estava surpresa por admitir aquilo, ainda mais na frente de seu suposto inimigo mortal — Mas a pior de todas é certamente a cicatriz que tenho no coração, esta nunca mais sarou. E certamente nem irá sarar – Por que raios ela estava falando aquilo? – Surgiu depois de um golpe dado pela pessoa que mais amei. Hoje esse alguém passa por mim, mas... Pelo meu próprio bem, não quero nem imaginar um dia em que eu venha saber que está pessoa nutre um sentimento por mim.

Ótimo, havia aberto seu coração justamente para Poseidon. Perfeito, ele iria perturbá-la por toda a eternidade, iria querer saber quem Atena amava, apenas para fazer piadinhas.

- Atena, de que vale viver uma vida tão iludida? – Aquilo a surpreendeu, pois nem de longe era o que ela esperava – Tão hipócrita? Tão sem sentido? Pra que mais indiferença do que a sua personalidade implica mesmo a quem estima? Deve ser um golpe para fechar com chave de ouro a série de torturas que esse amor por você me fez passar.

Atena sentiu que aos poucos perdia o equilíbrio das sensações. Ela havia ouvido aquilo mesmo?

- O que disse? – Sua voz não passava de um sussurro tremulo.

- Você ouviu – Respondeu ele, rápido demais, deixando claro seu nervosismo – Tudo bem – Respirou fundo – Acredito que o que vou dizer agora seja apenas um acúmulo de memórias formadas pelo acaso ou por algo que eu simplesmente não controlo mais – Engoliu em seco, sentindo-se estranho por aquele momento – A verdade é que se fosse possível, eu prenderia esse único e longo dia solitário que é não ter você comigo em uma caixa, e na minha eternidade idealizada, no meu para sempre impossível, te teria apenas para mim. É isso aí, não tenho mais medo ou vergonha de admitir isso, de dizer que penso muito em nós dois.

Atena quase sorriu. Sentia-se como Édipo em frente à Esfinge, tendo seu encontro com o destino. Aquilo que ouviu lhe parecia tão confuso, tão certo de um jeito errado que a fazia perder a noção das coisas. E isso a deixava sem palavras, pela primeira vez em milhares de anos Atena não tinha nada ao alcance da mente. O silêncio se arrastou até Poseidon balançar negativamente a cabeça.

- Foram os melhores nove minutos e vinte e sete segundos da minha vida. Desculpe por ter estragado. Finja que não lhe disse nada, nos vemos amanhã então poderá discutir comigo outra vez.

O deus virou-se, deixando-a a encarar suas costas. Faça alguma coisa, ele está indo embora, gritava sua mente.

— Eu deveria ter segurado sua mão, — Sua voz não passava de um sussurro, mas sua própria coragem a deixou feliz — Eu deveria ter beijado seus lábios tantas vezes que você teria se cansado dos meus; eu deveria ter te contado o que eu sentia e implorado que me contasse o que se passava aí dentro – Apontou para o coração do deus — Eu deveria ter te abraçado o mais forte que pudesse e te impedido de fugir de mim.

Mas eu não pude, completou em sua mente. Ela apenas conseguiu ficar ali como uma boba, em pé em frente ao deus, apenas olhando para o seu rosto e sentindo-se uma tola por fazê-lo. Parecia tanta ousadia imaginar algo que fosse além desse olhar bobo e quase insignificante. Talvez fosse medo de que ele enfim descobrisse as proporções gigantescas do amor que ela sentia e que talvez jamais fosse capaz de retribuir tal sentimento. Mesmo assim vez por outra seus olhares se encontravam, e era como se aquele simples gesto valesse mais que qualquer coisa na eternidade deles.

— Sinto – continuou Atena — Mais do que nunca, que tenho que te dizer o que aconteceu comigo durante esse tempo todo, esse tempo em que soube que o amava e não podia fazer nada além de guardar isso para mim mesma. Quero falar sobre todas as minhas experiências movidas pelo mais simples desespero. Só a lembrança disso me traz dores e lágrimas. Creio que tentando permanecer sã, fui adiando isto, mas agora me sinto forçada a falar, transformar os sentimentos, traduzi-los na forma de palavras e isso me parece tão complicado. Não imagina o quão estranho isso é para mim Poseidon – Ela sorriu – Nunca tive dificuldade em encontrar as palavras, elas nunca foram uma coisa incerta para mim.

Atena sentia-se livre pela primeira vez, como se pudesse distribuir o sentimento bom que provava para todo o mundo. Não como Afrodite, que seguia inspirando amor às pessoas, delirando com sonhos impossíveis e desejando sempre mais, apenas como Atena, aquela que estava completamente perdida de amores pelo homem que um dia jurou odiar.

- Que tal começar com um eu também te amo? – O deus dos mares sorriu.

- Pareceu perfeito para mim – Admitiu contente.

Poseidon a tomou nos braços e a rodou no ar, dando um rápido beijo em seus lábios.

- Então ficamos acertados assim, deusa da sabedoria. Sem mais brigas, pelo bem da minha sanidade.

Atena assentiu, sorrindo apaixonada. Passou seus braços pelo pescoço de Poseidon. Quanto tempo passou imaginando exatamente isso? Nem podia lembrar. Ainda faltava uma coisa, mas não sabia bem o que fazer.

Como se compreendesse seu desejo, Poseidon enlaçou sua cintura, trazendo-a para mais perto de si. Os olhos verdes do deus brilhavam em expectativa com o momento seguinte. Na metade de um segundo, ele juntou seus lábios aos de Atena, iniciando um romântico beijo. Aos poucos a deusa se soltava mais e correspondia, fazendo do momento algo único.

- É como ter um sonho realizado, cadê a razão quando se precisa dela? – Disse ela, desvencilhando-se dos lábios do deus, olhando-o meio atordoada – Não vou esquecê-lo jamais.

- Bom, é melhor que não esqueça mesmo – Poseidon riu. Estava contente, foi o primeiro a beijá-la – Mas sei que se você se esquecer de amar, eu amarei por nós, como já tenho feito há tanto. Esteja segura quanto a isso.

O deus retomou o beijo, enquanto os fogos no céu anunciavam a chegada de um novo ano. Um ano cheio de expectativas, que trazia consigo a esperança de melhoras, apenas porque uma hora cansa, e os seus dedos ficam calejados de tanto remar contra a maré, às vezes é melhor apenas deixar as coisas serem como devem, sem mudar nada. Como são belos todos os fins.