Tales of Love and Revenge
9 Doce visão - Zeus e Hera
Vingança
Zeus e Hera
Era um sonho horripilante. Ah, meu senhor, você me magoou tanto.
Eu queria ser abraçada, queria que alguém me tomasse nos braços e me dissesse que tudo iria ficar bem. Queria ouvir que era mentira, que aquilo não havia acontecido. Não era um sonho, era insípida realidade.
Mas é claro que ele fez novamente. Ele não se importa. Desejava sumir, me esconder. Minha natureza divina estava quebrada. Morta. Tentava juntar seus pedacinhos, para tentar ser inteira outra vez.
. . .
Eu estava sozinha e para onde quer que eu olhasse só havia areia, montanhas esparsas e pedra. O vazio imitando o buraco oco que era meu coração.
— Tic Tac.
Não o ouvi se aproximar. Trajava um manto longo, com um leve brilho que tornava possível distingui-lo na escuridão do deserto. Sua presença era poderosa, completa. Divina. Era uma visão ao mesmo tempo perturbadora e doce, enervante.
— O tempo passa, rainha – reverenciou-me – mesmo que isso pareça impossível, mesmo que o tilintar dos ponteiros do relógio faça o coração doer, como sangue jorrando de uma ferida. Desigual, abrupto e em estranhos solavancos, ele passa, levando a dor embora. Ele passa, mesmo para nós.
— Estou honrada por sua presença – consegui sorrir, em meio ao turbilhão de pensamentos sombrios que me assolava.
— Tempo – continuou, absorto em seus próprios pensamentos – A única coisa que pode aplacar o destino. A única coisa que pode me aplacar. Nada além. Nem seu Senhor, nem a própria vida.
Os olhos cor púrpura brilhavam perigosos e excitados. Os cabelos cortados desiguais agitavam-se no ar gélido e desértico. Parecia tão jovem, tão cheio de vida, ainda que fosse muito mais antigo que o próprio mundo. Tão poderoso, tão...
Um estranho sentimento se apoderou de mim. Deixe-o vir, pensei selvagem. O deus primordial observava-me com cautela, mas com interesse inegável. Sua mão correu tímida por meu braço, deixando arrepios no local. Cantarolava em um idioma já esquecido, desafiando-me a retribuir seu desejo, incitando-me a ser sua, a pertencer-lhe, a restaurar minha honra em sua companhia. Deseja me fazer viva outra vez.
— Moros – Sussurrei seu nome, fazendo-o sorrir.
No mesmo instante, um trovão agitou os céus, enquanto um raio cortava o horizonte.
Zeus sabia. Ele nos observava e aquilo me encheu de coragem. De qualquer forma, o que determina o caráter de Moros como um deus é a inevitabilidade. Destino é algo de que não se pode fugir.
Meu senhor não pode aplacar o Destino. Pode zangar-se. Pode explodir os céus com raios e trovões, mas nada poderia fazer contra Moros. Zeus o temia, devia a ele reverência. Tudo o que se amolda na história do mundo compete ao deus primordial que me encarava malicioso.
Como em um antigo romance, me estendeu a mão, me chamou de sua rainha. Eu não era apenas mais uma. Não era uma descartável mortal.
Num movimento ágil, fui trazida para seus braços, areia escorrendo por nossas roupas. O céu se abriu no mais incrível temporal. Aquilo era tão excitante. O toque lento de nossos lábios fez avivar em mim uma sensação há muito esquecida. Deixe-a vir.
As próximas horas foram um borrão de carícias e amor selvagem, sob os céus, sob o olhar de todos os deuses. Eu ultrajei o senhor dos céus. Eu o expus ao ridículo perante todos. Olho por olho, meu senhor.
A tempestade cessou e o dia surgiu, como se o sol não soubesse o que havia acontecido, cobrindo o deserto do Mojave com sua luz. Eu não voltei ao Olimpo naquele dia. Nem na outra semana, nem na próxima. Foram anos afastada.
O senhor dos céus não me procurou. Sabia, de qualquer forma, que sua ira me aguardava. Moros também não me procurou. Eu era descartável, afinal. Minha natureza divina ainda estava quebrada, aguardando um abraço forte para juntar todos pedacinhos quebrados.
Deusa pedinte, já cansada de andar em círculos entre deuses e homens. Busquei vingança e alcancei desilusão. Eu deveria ser a domadora de deuses e homens, e não o contrário. O matrimônio deveria mantê-los sob regras.
Mas então eu já havia sido deixada para trás milhares de vezes, já havia aprendido a dançar com a solidão. Fechei meus olhos e me dissolvi em luz, enquanto o caminho de volta para casa trazia consigo a esperança de melhoras.
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