Talassofobia
1 Salva-vidas
"Esta é a Aurora. Uma espaçonave concebida para uma colônia inteira das mais diversas populações do planeta Terra. Nossa tripulação está sempre pronta a resolver qualquer eventualidade ou dúvidas de nossos passageiros. Em nosso trajeto em direção à filial Ariadne, da Corporação Alterra, na constelação de Alfa Centauri, faremos uma manobra de gravidade estratégica no planeta 4546B, onde circundaremos o polo norte do planeta aquático. Esta manobra durará 5 dias. Até lá admirem imagens do planeta desconhecido em seus PDAs. A tripulação agradece sua paciência e compreensão. Tenham um bom dia."
A mensagem em voz feminina foi retransmitida em cada espaço, ambiente, sala ou cubículo da enorme espaçonave.
Maureen Robinson, engenheira aeroespacial estava confraternizando com outros técnicos e cientistas na área de hidropônicos da nave Aurora. A mudança de espaçonaves servia mais a seus propósitos de estabelecer-se em uma colônia em outro sistema estelar, do que a precursora nave Resolute, cujo perfil exigido de desbravamento e aventura estava muito acima do aceitável para sua família.
Seu marido John Robinson, na verdade ex-marido, uma vez que haviam chegado a um consenso de que não funcionavam mais como casal, estava mais acostumado a missões de sobrevivência em ambientes inóspitos, uma vez que era ex-fuzileiro naval, mas não seus filhos.
Judy, Penny e Will eram crianças normais. Na medida do possível tentavam viver como a maioria dos jovens de sua idade, mas é claro, para serem aceitos no programa espacial tiveram um upgrade na sua formação escolar. Por isso, Judy se graduou em medicina em tempo recorde, para uma jovem de 18 anos, enquanto Penny e Will tiveram treinamento destinado a astronautas e militares.
Ao lembrar do teste de Will, seu caçula, Maureen balançou a cabeça tentando esquecer uma contrariedade. Na verdade Will não correspondeu às expectativas, e por isso seria vetado pelo programa espacial.
"Eu tive que fazer isso. Qualquer mãe teria feito isso." Maureen justificou sua infração para si mesma. Foi a primeira e última vez que ela cometeu um crime, ao autorizar um hacker a corromper os arquivos de avaliação de Will. "Ele é só uma criança. Precisa de mim mais do que os outros. Não poderia deixá-lo para trás."
Ela foi retirada de seu devaneio com violência. Um enorme estrondo a deixou momentaneamente surda. Sentiu-se sacudida em pleno ar, sem o efeito de gravidade artificial a que estava acostumada. Na verdade a sala inteira virou de pernas pro ar. Ela observou absolutamente impotente seus colegas cientistas serem arremessados contra a parede, bem como as diversas plantas do jardim hidropônico serem esparramadas em pleno ar, dando a impressão de que estavam em um aquário de terra, lama e verde.
"As crianças!" Assim que o pensamento cruzou sua mente, seu instinto materno ativou o modo supermãe. Foi o suficiente para que Maureen passasse a literalmente nadar entre os corpos, plantas e objetos suspensos no ar. Ela rapidamente alcançou a porta. Passou seu cartão liberando acesso. No corredor ainda havia gravidade, o que permitiu que corresse. As luzes piscavam e uma sirene de alarme começou a soar, junto com uma irritante voz anunciando evacuação iminente. "Ainda não. Preciso achar minhas crianças primeiro."
Uma horda de passageiros em pânico esbarrou nela. Todos se dirigiam à doca de naves salva-vidas. Tentavam puxa-la para acompanha-los, mas ela se desvencilhava com violência, o que os deixava chocados e magoados.
— Você precisa se salvar, Robinson.
— Não sem meus filhos. Solte-me!
— Maureen, Maureen! Eu vi Judy e Penny lá na frente, elas já devem ter entrado nos salva-vidas.
— E Will? Você o viu também?
— Não, sinto muito!
— Preciso encontrá-lo.
Maureen correu, desviando-se de passageiros desesperados. O fogo começou a crepitar aqui e acolá. Havia ambientes cheios de fumaça, praticamente irrespirável. Ela finalmente alcançou o camarote de sua família.
— Will! Will! Onde você está?
Ela não o viu, pois seu camarote rapidamente foi envolvido por fumaça e a luz apagou. Mas ela sentiu quando bracinhos envolveram sua cintura. Ela rapidamente o suspendeu nos braços e falou ofegante.
— Will, não tenha medo. Vamos conseguir sair daqui. Penny e Judy já alcançaram os salva-vidas. Vamos encontrá-las, ok?
Ele assentiu com a cabeça sem dizer nada. Estava aterrorizado.
Maureen fez o caminho inverso e alcançou a doca quando o fogo já se alastrava pela nave, apesar dos esforços da tripulação e seu trabalho para extinguir as chamas. Entrou em uma cápsula salva-vidas que infelizmente só comportava 2 pessoas por vez. Ajeitou Will em sua cadeira passando a trava de segurança e a seguir sentou-se na sua própria. "Deveria ter ido checar as meninas". Pensou com uma ponta de remorso. Quanto ao marido, bem ele era fuzileiro naval, estava mais do que apto a uma situação de emergências dessas. Tinha certeza que ele já estava em segurança.
Qualquer que fosse sua preocupação, não poderia fazer mais nada. Sua cápsula desprendeu-se da nave Aurora. Pelo vidro da escotilha ela pôde ver a última explosão na área da doca das naves salva-vidas. Havia 200 famílias na Aurora. Sabia que nem a metade havia conseguido escapar. Tudo começou a tremer e Maureen se deu conta que estavam em queda livre em direção a um planeta alienígena e que talvez não resistissem à queda. O ar ficou opressivo. Os diversos objetos do interior da cápsula começaram a flutuar, para depois girarem velozmente. Ela olhou para Will que mordia os lábios e olhava assustado para ela. Tentou animá-lo e reconforta-lo mas um dos objetos soltos na cápsula atingiu-a em cheio na cabeça, fazendo com que o mundo se apagasse para ela.
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