— Eu vou sozinha, Will.

— E se um leviatã aparecer? E se você for atacada? Quem vai te proteger?

— Eu tomarei cuidado. Ficarei mais tranquila se souber que você está aqui em segurança.

— Que adianta ficar em segurança se minha mãe estiver morrendo? — Lágrimas escorreram livremente pelo rosto dele, enquanto mordia os lábios trêmulos tentando se controlar.

Maureen ajoelhou-se no chão, diante do filho. Ela tinha pena dele, e o instinto materno estava lhe gritando bem forte para não abandoná-lo sozinho, enquanto se dirigia para uma missão suicida.

— Agora escute aqui, William Robinson. Seu pai está lá fora, perdido na imensidão desse planeta. Suas irmãs também. Nenhum deles terá a mínima chance de ser resgatado se a nave explodir, com o tanto de turbinas nucleares que ela possui. Todos morrerão. Eu sou adulta, capaz e treinada. Eu não morrerei, eu prometo. E você, como membro desta equipe, ficará aqui me esperando. Eu fui clara?

— Sim, mamãe!

— Ok! Agora me dê um abraço apertado.

Maureen fez das tripas, coração, pra não chorar na frente do filho. A seguir vestiu o elmo de chumbo, de sua veste blindada e subiu as escadas para a escotilha superior. Ficou de frente para o local onde estava o Aurora, e mergulhou.

Levava consigo algumas ferramentas como o "localizador de caminho" e o "deslizador", que ultilizou durante boa parte do trajeto. Seu PDA indicava os limites do bioma, e ela estava atenta. No momento em que o PDA mudou de "águas rasas" para "zona do acidente", ela desligou o deslizador, mas deixou-o a mão. Tinha medo que o menor barulho pudesse alertar algum predador, principalmente do tipo leviatã. Aproximou-se lentamente do Aurora, percebendo a mudança de relêvo, de rocha e vegestação rasteira, típicas das águas rasas, para bancos de areia da área do acidente. Aqui e ali, alguns pequenos predadores, mas nenhum a quem ela pudesse chamar de leviatã.

Adiante, bem mais próximo do Aurora, ela viu uma estrutura redonda, próxima à superfície da água. Ao chegar mais perto, conseguiu ver a numeração 04. "John" ela pensou. Entrou pela escotilha superior que agora encontrava-se de ponta-cabeça. Não havia ninguém a bordo. Isso a entristeceu, mas ela se lembrou de seu objetivo primário, que era de chegar ao Aurora para consertá-lo.

Ao sair da cápsula 04 ela se dirigiu à esquerda, na direção do cockpit da nave, onde estava destruído, e portanto aberto, o que possibilitaria sua entrada. Atenta ao menor ruído e movimento. Sua adrenalina está aflorando na pele, e ela tinha certeza que poderia infartar se fosse sedentária, e não apta a práticas desportivas. O medo era grande, e ela pensava sobretudo na sobrevivência dos filhos, por quem estava zelando.

Finalmente atingiu a parte anterior do Aurora. Escombros e ferros retorcidos, bloqueavam o nado submarino, obrigando-a a nadar na superfície, tendo que por vezes pular algumas estruturas para conseguir avançar. Ao chegar no primeiro compartimento não inundado, foi surpreendida por pequenas formas de vida. Ao ser atacada por aranhas do tamanho de ratazanas, ela se defendeu com sua faca, matando 6 antes que o ataque parasse. As restantes fugiram. Maureen inspecionou seus ferimentos e aplicou band-aids de seu kit de socorros.

A seguir deparou-se com entulhos, pequenos incêndios e salas submersas. Sem ter outra alternativa, ela mergulhou e avançou em direção a portas hermeticamente seladas, ou com dispositivos bloqueadores, ativados por senha. O PDA forneceu algumas dessas senhas, do banco de dados da Corporação Alterra. As outras portas ela abriu com uma ferramenta a laser. Em seu trajeto, ela chegou a uma sala de construção de exo-esqueletos, vestes metálicas, que poderiam ser usadas em ambientes inóspitos, até uma profundidade de 1500 m. Maureen escaneou essas vestes. Poderia construí-las no futuro, uma vez que as atuais estavam em chamas.

Ao chegar no core do reator, ela fez um pequeno inventário das partes destruídas que teria que consertar com uma ferramenta reparadora. A maioria estava submersa. Um movimento contínuo nas águas alertou-a da presença de pequenos predadores, a quem o PDA nomeou "sangradores", por serem hematófagos. Maureen mergulhou nas águas do reator , mas não se movimentou, estava perto de uma escada que lhe permitia sar rapidamente daquela piscina. Esperou pelo ataque dos "sangradores", o que ocorreu como esperava. Ela os matou com sua faca. Ao não perceber mais movimentos nas águas, ela se dirigiu aos reatores. Consertou um total de 24, e o PDA avisou que não havia mais risco de explosão, e que o vazamento de radiação fora contido. Ela sentiu-se aliviada e começou seu trajeto de volta para fora do Aurora.

Ao chegar na área aberta do Aurora, o local com as carcaças das aranhas, ela tomou fôlego e rezou uma pequena prece para conseguir chegar viva a sua cápsula e para junto do filho. Percebeu que entraria em pânico e tentou se acalmar lembrando do treinamento de auto-defesa que tivera na terra. Checou suas ferramentas e tratou de despertar em si a mãe-tigre que era. Nenhum leviatã a separaria de seus filhos. Com esse pensamento ela mergulhou.

Passou pelos escombros e debris e nadou em direção à cápsula 04, pois o trajeto marcado pelo localizador de caminho começava ali. Então era só segui-lo com o deslizador e logo estaria em águas rasas. Foi quando ela ouviu o grito. Não era um grito humano. Parecia um grito de um animal em desespero, ou um alerta, agudo, prolongado, como um choro, e muito alto, a medida que o grito se repetia, como se dissesse "Saia daqui".

O sangue de Maureen gelou nas veias. Era o grito de um predador. Possivelmente um leviatã. Ela atreveu-se a olhar pra trás e o viu. Era parecido com uma enguia branca, mas com a cabeça avermelhada, onde era possível vislumbrar dentes e olhos. Na mesma hora agiu por instinto e ligou o deslizador, passando reto pela capsula 04 e seguindo adiante pelo caminho demarcado pelo localizador. Ela não viu o leviatã destruir a cápsula como se fosse feita de papel, e não viu quando ele rapidamente a alcançou, antes que pudesse sair da zona do acidente.

Maureen sentiu apenas as águas turbulentas o suficiente para desequilibrá-la e ser arremessada no leito arenoso. Ao virar-se para trás, pronta a encarar a morte certa, deparou-se com uma cena chocante: o enorme leviatã de 4 olhos, bocarra de enormes dentes, chifres e pinças anteriores, estava em uma bolha de energia, completamente paralisado.

"Como? Por que? …" Ela pensava. Foi então que alguém a levantou do leito arenoso e apontou para um caminho a seguir. Na verdade 3 pessoas. Ela os seguiu e mergulhou numa ravina em direção a uma floresta de cogumelos gigantes. Ela já estava sem fôlego quando chegaram a um habitat da corporação Alterra. Ao chegar em ambiente oxigenado ela retirou o elmo de chumbo e saudou seus salvadores.

— John, Judy, Penny!

Os quatro se abraçaram chorando.