Tal mãe, tal filho
1 Tal mãe, tal filho
Notas iniciais
Por um momento, Draco achou que poderia escapar quase ileso do jantar na casa dos pais. É claro que, entre a entrada e o prato principal, houvera aquela breve discussão sobre os quadros que Astoria insistia em expor e vender em sua galeria no Beco Diagonal. Não era um assunto novo, entretanto. Para ser sincero, já se habituara àquela pauta constantemente revivida por Lucius e Narcisa, que consideravam ultrajante — para não dizer, uma afronta pessoal — que a nora deles, que carregava o sobrenome Malfoy, desse tanto espaço à arte trouxa em seu trabalho. Draco conhecia a esposa o suficiente para saber que, sim, aquilo era uma provocação aos sogros. Ela nunca escondeu isso, sua mulher era uma provocadora nata.
Porém, aquela não era a única razão, muito menos a principal. Longe disso. Astoria jamais dedicaria sua vida a um objetivo tão mesquinho quanto aquele — irritar Lucius e Narcisa era notavelmente agradável, mas não tão recompensador assim. A verdade é que Astoria amava arte trouxa. Para ela, não existia uma separação entre arte trouxa e arte bruxa: era tudo arte. Pura e simplesmente. Sempre pensara assim, mesmo antes de se casarem. Draco ainda conseguia se lembrar, com bastante clareza, de todas aquelas vezes, de todos aqueles instantes memoráveis, quando ainda namoravam e ela o levava, praticamente arrastado, à museus, concertos, livrarias e festivais trouxas. Ainda o fazia, quando tinha oportunidade.
A grande questão daquela noite, contudo, não fora tanto o tipo de arte que a nora escolhia expor, mas a temática. Com uma expressão consternada, Narcisa contou-lhes que se sentira muito envergonhada quando leu sobre aquilo n’O Profeta Diário e, depois, quando a Srta. Parkinson, durante um chá na semana passada, comentou que Astoria estava promovendo uma mostra sobre sexualidade. A Srta. Parkinson mesma presenciara. Tratava-se de uma sala horrorosa, onde — por Merlin! — havia quadros explícitos com órgãos sexuais masculinos e femininos. Draco nem mesmo se deu ao trabalho de levantar os olhos na direção de sua esposa. Naquele momento, Winifred, a elfa-doméstica, havia chegado com os pratos principais, uma massa deliciosa com frutos do mar, e o homem achou que seria mais útil saboreá-la do que acompanhar qualquer troca de farpas que estivesse acontecendo entre Astoria e os seus pais. Ainda assim, pôde ouvir o riso irônico da sua mulher e, em seguida, um protesto de Narcisa.
— Eu garanto a você, Cissa, que nenhum bruxo menor de idade entrou na exposição — disse Astoria, sem tirar aquele sorriso deslumbrante do rosto e bebendo um pouquinho do seu hidromel. — Até onde fui informada, a Srta. Parkinson é uma mulher adulta e, se entrou naquela sala que, por sinal, possuía um enorme aviso indicativo na entrada, foi por curiosidade própria e não por desaviso. Não estou tentando corromper a mente de ninguém. Além disso — ela fez uma pausa dramática —, como eu poderia me arrepender da mostra, se foi tão boa para os negócios?
— Deveria pensar no seu filho, então — retrucou a matriarca da família —, e no tipo de exemplo que está dando a ele.
— Você se importa, Scorpius? — Astoria voltou-se para o filho.
O menino que, como Draco, preferia se manter às margens das discussões, apenas balançou a cabeça negativamente. Scorpius era bastante verborrágico quando estavam a sós. Ele e Astoria falavam pelos cotovelos, e sempre rápido demais; muitas vezes deixando Draco enlouquecido, em especial porque não conseguia acompanhar todas as referências a peças, livros e músicas que faziam. Mas, na frente dos avós, era sempre um pouco mais contido, optava por ser um mediador a um provocador, exceto quando sentia que era necessário mudar de postura.
— Ora, ele ainda não tem idade suficiente para saber o que é bom e o que é ruim. — Narcisa ainda tentou argumentar.
— Me parece que tem idade suficiente, sim. — Aquela foi a última palavra que Astoria deu sobre o assunto. Narcisa não parecia contente, mas tampouco o prolongou. Depois daquilo, para o alívio de Draco, o jantar prosseguiu com certa tranquilidade. Lucius falou sobre os negócios e a sua incapacidade atual de encontrar bons assistentes, Scorpius comentou que os N.O.M.s não haviam sido tão assustadores assim e que, muito provavelmente, tinha conseguido tirar boas notas, e Narcisa reclamou que não se faziam mais elfos-domésticos como antigamente — não desde que eles começaram a ganhar por seus serviços e tinham todo tipo de direitos trabalhistas —, assim que percebeu que o crème brûlée não estava na consistência ideal. Ou que a geleia de framboesas parecia doce demais.
Quando todos terminaram e saíram para a antessala para um cafezinho final, os ânimos pareciam mais leves. Embora houvesse um tópico, um tópico ainda não mencionado, que o atormentava e que faria com que um Rabo-Córneo Húngaro parecesse uma ameaça mais fácil de ser vencida, Draco considerou que, pelo menos por aquela noite, esse tópico poderia continuar assim: intocado. Lucius acendeu o seu charuto cubano, oferecendo um ao filho, que recusou educadamente, e Narcisa não pareceu se incomodar quando Astoria e Scorpius pediram que Winifred trouxesse canecas no lugar das pequenas e delicadas xícaras francesas, pois era assim que os dois gostavam de tomar o café. Se fosse mais esperto, ele teria compreendido que aquela era a calmaria que sempre antecede a tempestade, por mais clichê que isso pudesse soar.
Porque, assim que a sua mãe, muito despretensiosamente, perguntou a Scorpius sobre as suas namoradinhas, Draco sentiu o ar ficar mais pesado. Ele fechou os olhos, esperando o golpe que logo viria. “Minta”, desejou. “Não diga que está namorando uma Weasley!”. Sabia, no entanto, que o filho jamais mentiria sobre aquilo. Embora não gostasse de se meter em discussões, ele era igual demais à Astoria: sincero, direto e pouco ligado à convenções. Um tanto irônico também, quando queria ser. Ele não tinha medo de enfrentar as situações que o tocavam e que eram importantes. Draco se orgulhava disso, que o único filho tivesse puxado tão pouco a ele e tanto à mulher que amava. Porém, naquele momento, isso não o ajudava nenhum pouquinho. Pelo contrário.
— Eu estou namorando Rose — disse Scorpius, com simplicidade, como se aquela declaração não fosse nada demais. Ou ele realmente não se preocupava ou fingia bem. O pai apostava na segunda.
— Rose? — Narcisa franziu a testa, um pouco confusa. — A filha de Hermione e Ronald Weasley?
Draco prendeu a respiração e pressionou os dedos no apoio da poltrona. Merlin, como odiava os jantares na casa dos pais! Era pior quando Scorpius estava de férias. Por mais que amasse estar com o filho, isso também significava mais jantares na Mansão Malfoy. Seus pais queriam ver o neto com frequência e, considerando que Draco trabalhava para Lucius e dependia financeiramente dele, não tinha muito escolha a não ser aceitar e arrastar sua própria família para aquela situação. Ele já não gostava muito daquela casa, não importava o quão diferente estava, o quão moderna e refinada parecia agora, Draco ainda se lembrava de tudo o que vivera ali, durante a guerra — aquele era um fantasma com o qual precisaria conviver pelo resto da vida. E os conflitos passivo-agressivos entre Astoria e os pais só pioravam aquela experiência já bastante desgastante.
— É — respondeu o garoto, encolhendo os ombros.
Draco abriu os olhos. Um silêncio opressor pairou sobre os cinco. Narcisa estava como que petrificada em sua poltrona, o rosto lívido e os olhos arregalados. Lucius, por outro lado, havia apagado o seu charuto e caminhou devagar e rígido até o bar, onde se serviu com um copo cheio de uísque de fogo. Ele se virou e olhou para Draco, a expressão ainda contida.
— Você sabia disso? — perguntou, a voz soando mais fria que o normal.
— Bom, sim — admitiu. O que mais Draco poderia fazer? Já sabia há algum tempo. Ao menos, desde que Scorpius decidiu lhes contar por meio de uma carta, um pouco antes das férias de verão. Primeiro, escreveu sobre os N.O.M.s, depois sobre uma detenção que recebera injustamente (nem tão injusta assim, ponderou Draco) e que o impediria de visitar Hogsmeade no último final de semana e então sobre Rose. “Acho que estou muito apaixonado”, foi o que deixou registrado no final. Astoria deu gritinhos de satisfação ao terminar de ler. Era a primeira namorada do filho, afinal. Aquilo era especial de algum modo. Segundos depois, começou a chorar, porque Scorpius estava crescendo e eles estavam ficando velhos. Ele riu e precisou puxá-la para o seu colo. Era engraçado pensar que, diante da informação sobre o namoro de Scorpius e de Rose, a primeira reação de Draco não foi surtar, pensar em todos os problemas que aquilo lhe causaria e em como um Malfoy e um Weasley jamais deveriam coabitar o mesmo espaço, e sim consolar a esposa para que ela não continuasse dizendo todas aquelas verdades cruéis: a de que eles estavam ficando velhos. Realmente estavam, ele tinha consciência disso.
No fundo, Draco sabia que aquilo aconteceria, que eventualmente Scorpius e Rose namorariam. Era só uma questão de tempo. No último Natal, aquilo ficara ainda mais evidente. O garoto passara os dias que antecederam o feriado atormentado, em busca de um presente que fosse perfeito; e, antes do almoço que participaria n’A Toca, revirara todo o seu guarda-roupa porque não conseguia encontrar uma roupa que o fizesse “parecer bacana”. Foram estas as palavras que utilizou quando o pai entrou em seu quarto e o questionou sobre a bagunça. Que queria “parecer bacana”. A coincidência daquilo tudo chegava a ser inspiradora. Draco também se preocupava em parecer bacana quando começou a sair com Astoria e, até hoje, não sabia como presenteá-la, pois nenhum presente lhe parecia perfeito o bastante. Digno o bastante. A esposa adorava a todos, mas Draco acreditava que estavam longe de demonstrar tudo que ela significava para ele. Sua salvação. Sua felicidade. O amor da sua vida. E, por vezes, o seu tormento também.
Na ocasião, Draco apenas sorriu. Scorpius era o seu único filho e mentiria se dissesse que não ficava feliz em vê-lo tão alegre e tão ansioso ao mesmo tempo. Ou que alguém pudesse lhe inspirar tais sentimentos. Ele queria impressionar uma garota e, honestamente, não lhe importava de quem essa garota fosse filha. Desde que pudesse fazer Scorpius contente, Draco pensou que também estaria contente. Era bom que o filho pudesse viver essa leveza em sua adolescência, a própria leveza que ele não pudera ter. Por um tempo, temeu que o peso do seu sobrenome amaldiçoado recaísse sobre Scorpius, mas o garoto foi amparado por bons amigos, que o acolheram em Hogwarts e tornaram sua experiência mais tranquila e feliz. Astoria nunca duvidou que isso aconteceria, mas Draco… Draco chegou a pensar que Hogwarts poderia não ser uma boa ideia. Que deveria mandá-lo para outro colégio, em outro país, ainda que o sonho do filho fosse ir à mesma escola que os pais.
Além disso, Draco tinha medo de como Scorpius o olharia quando descobrisse a verdade sobre sua família. Um dia antes do embarque, Astoria e ele decidiram contar tudo que o menino precisava saber. Era melhor que soubesse por eles do que pelos outros. Draco pôde ver a decepção nos olhos dele e aquilo fora difícil. Mais do que achou que seria. Ele poderia suportar o desprezo do mundo, mas não do próprio filho. Scorpius, no entanto, era demasiadamente parecido com sua mãe e, portanto, bom e justo demais para o seu próprio bem. Antes do embarque, o filho o abraçou forte e, naquele gesto, disse tudo o que era necessário. Que estavam bem e sempre estariam. Nada poderia mudar o que sentiam um pelo outro, porque o amor não tinha condições ou não deveria ter. Para o garoto, bastava saber que o pai era um homem bom no presente. Que havia mudado. No mais, não cabia a ele perdoar os erros do pai.
— E concorda com isso? — bradou Lucius.
Draco ficou calado por alguns segundos. Não sabia como responder o pai. Ele não poderia dar a resposta que Lucius queria. Felizmente, Astoria o poupou:
— Claro que concorda, Lucius — disse ela. — Draco apoia as decisões dele. Antes de Scorpius nascer, nós prometemos um ao outro que o apoiaríamos no que quer que fosse. Bom, exceto se ele decidisse cometer algum assassinato, neste caso, não poderíamos apoiá-lo.
— Nem mesmo para me ajudar a esconder o corpo? — brincou Scorpius.
Merlin, aquilo não era hora para brincadeira! Lucius e Narcisa olhavam para os três, estarrecidos.
— Eu nunca pensei a respeito, na verdade — suspirou Astoria. — Suponho que eu o ajudaria, mas isso me tornaria cúmplice e não sei se gostaria de ser cúmplice de um crime. Por mais que eu te ame, Scorpius, eu realmente detestaria passar o resto dos meus dias em Azkaban e não acho que Sookie possa cuidar da galeria sozinha. E também preciso pensar no seu pai, ele não seria nada sem mim.
— Uma Weasley! — soltou Narcisa de repente, indignada. — Uma Weasley!
— Eu a achei perfeitamente adorável — comentou Astoria com um tom de voz melódico e afetado, imitando as damas da alta sociedade bruxa que Narcisa tanto admirava. — Draco, Scorpius e eu tomamos sorvete com ela na quarta-feira passada. Rose é inteligente, tem um senso de humor muito revigorante e também gosta de arte trouxa. Ela ganhou muitos pontos comigo por isso. Não que seja de fato algo tão importante assim, ganhar pontos com a sogra… — riu. — Eu mesma nunca ganhei e aqui estamos.
Lucius virou o copo de uísque de fogo e, em seguida, o apoiou na mesinha de canto.
— Vocês só podem estar brincando! — seu rosto agora era a própria definição de fúria. Ele olhava diretamente para o filho. — Isso é um absurdo, sabe disso, não sabe? Jogar milênios de tradição pelo ralo dessa maneira! Um herdeiro ruivo na nossa árvore genealógica, Draco? É isso o que você quer?
Narcisa, ainda sentada em sua poltrona, piscou.
— Também não é para tanto — ponderou a mulher. — Ninguém realmente se casa com a primeira namoradinha, não nos tempos de hoje. É só um romance de adolescência, Lucius.
— Daphne se casou com o primeiro namoradinho dela — se intrometeu Astoria. — E, para ser sincera, eu também.
— Eu certamente gostaria de me casar com Rose — completou Scorpius.
Lucius parou de olhar para Draco em busca de respostas e voltou-se para Astoria.
— A culpa disso é sua! — esbravejou. — Eu achei que você poderia ser uma boa esposa para Draco. Uma esposa com bons valores, mas nos enganamos. Desde que você entrou nesta família, nós não tivemos um único dia de paz… As suas extravagâncias, a sua rebeldia, esse seu modo de agir e de se portar… Antes Draco tivesse se casado com a filha dos Parkinson! Você é uma decepção para nós e, com certeza, para os seus próprios pais.
Draco lançou um rápido olhar para a esposa antes de intervir. Astoria não sustentava mais o seu sorriso irônico de sempre, seu rosto ficara pálido e tenso. Até mesmo Narcisa parecia um pouco chocada, por mais que Lucius só tivesse verbalizado aquilo que ela própria pensava, mas preferia manter para si.
— Já chega! — pediu Draco. — Nós três estamos indo embora. — Ele se levantou e colocou a mão sobre o ombro de Scorpius, fazendo-o se levantar e ir em direção à lareira. Astoria os acompanhou. Draco a segurou pela cintura, apertando-a levemente, apenas para que soubesse que estava ao lado dela, que sempre estaria, e que não havia mulher no mundo que se comparasse a ela. Que não era uma decepção para quem realmente importava. — Eu espero que vocês estejam mais conformados na sexta-feira que vem, e que se sintam prontos para pedirem desculpas a Astoria. Isto é, se quiserem ver Scorpius de novo.
Nem Lucius e nem Narcisa disseram qualquer coisa a mais. Draco foi o último a usar a rede de flu. Quando focalizou sua própria sala de estar, bem menor do que a dos pais, porém bem mais aconchegante, Scorpius já não estava mais ali. O garoto devia ter subido para o seu quarto. Respirando fundo, ele desfez o nó da sua gravata e se jogou sobre o sofá, exausto. Astoria se servia com um copo de whisky e não falava nada. Ela parecia pensativa. Draco iria chamá-la mais para perto, quando Scorpius reapareceu, descendo as escadas aos trancos. O pai o olhou bem. Ele havia bagunçado os próprios cabelos, tirando-os daquele penteado comportado e cheio de gel que sempre usava na casa dos avós, e tinha vestido uma jaqueta de couro por cima das roupas. Scorpius certamente parecia descolado e bacana agora. O menino passou rapidamente por eles, anunciando:
— Eu já vou! — E se posicionou em frente à lareira, pegando um punhado de pó de flu.
— Vai para aonde? — quis saber Draco, sentindo-se um pouco estúpido. Para aonde o filho, com dezesseis anos recém-completados, pretendia ir no meio da noite? E sem autorização?
— Assistir a um show das Esquisitonas com Rose e Albus.
— Quem disse? — rosnou.
Astoria, que parecia ter acordado de um transe, respondeu:
— Eu disse — Bebeu um gole de sua bebida. — Dei permissão a Scorpius. Teddy e a namorada vão estar lá para cuidar dos meninos.
Draco suspirou. Não lhe passou pela cabeça perguntar porque nunca era consultado sobre aquilo também, não lhe pareceu justo depois da discussão daquela noite na casa dos pais.
— Você volta à meia-noite — disse para Scorpius. Ele olhou para o relógio de pulso. — Portanto, você tem duas horas para aproveitar o seu show.
— Uma da manhã — Scorpius tentou barganhar.
— Meia-noite e meia e não se fala mais nisso. — O garoto resmungou, se dando por vencido, e desapareceu na lareira. Era inevitável, Scorpius estava mesmo crescendo e Draco e Astoria ficando mais velhos. Primeiro, uma namorada. E agora, o filho saía sozinho durante a noite. Draco riu levemente, recordando-se das próprias noites com Astoria, quando eram mais jovens. Os dois não eram tão emocionalmente estáveis assim, eram inconsequentes e, bem, não poderiam ser considerados bons exemplos em nada. Se fechasse bem os olhos, ele poderia evocar aquelas lembranças agridoces e ver aquela antiga Astoria diante de si. Vários anos mais nova, o delineador marcado, o batom vermelho, as meias arrastão. Sua língua afiada. Sua rebeldia e sua vontade de sempre desafiar os próprios pais. Sua predisposição para situações questionáveis, especialmente se fossem com ele. No entanto, Scorpius era um rapaz responsável, que nascera em uma época muito mais tranquila, sem sombras à espreita, e que não precisava carregar qualquer tipo de fardo. Como pai, ele não achava que precisaria se preocupar tanto.
Draco viu Astoria se aproximar dele, muito lentamente. Ela deixou o seu copo de whisky de lado, ligou o toca-disco da sala, que começou a tocar um jazz antigo, e se sentou no colo dele, desabotoando o primeiro botão da sua camisa social. Queria parecer descontraída, mas ele sentia o corpo dela tenso sobre o seu. Anos de casamento possibilitavam isso, que qualquer alteração fosse percebida sem que o outro precisasse dizer nada.
— Você se arrepende? — perguntou ela, por fim, sua voz soando um pouco insegura. — De ter se casado comigo? Acha que outra teria sido uma esposa e uma mãe melhor?
Ele a fitou seriamente.
— Não acredito que esteja pensando nisso, Astoria. — Com um suspiro, ele a beijou delicadamente. Foi apenas um roçar suave de lábios, doce e bastante singelo. Draco costumava achar que gestos valiam mais do que palavras, mas, naquele momento, as palavras eram necessárias, por isso logo se afastou e a mirou novamente: — Como eu poderia ter me arrependido? Você é quem deveria estar arrependida, porque com certeza merecia alguém melhor do que eu e sogros melhores do que os que tem. Você é perfeita, meu amor.
— Você sabe que isso não é verdade. Eu não sou perfeita.
— Não, não é. Quem é? Mas é perfeita para mim. Mais do que perfeita, na verdade — falou, colocando uma mecha do cabelo dela para trás. — Você é inimaginável, porque nem nos melhores cenários eu teria sido capaz de imaginar você e Scorpius.
Astoria sorriu fraquinho. Ela parecia terrivelmente linda naquela noite, Draco se deu conta. Com seus cachos castanhos caindo pelos ombros nus, a blusa de um verde elegante e profundo, a saia lápis preta, a boca vermelha e tão convidativa.
— Você sabe que Scorpius vai mesmo jogar todas as tradições pelo ralo, não sabe? Ele é como eu.
— Que se dane as tradições! — respondeu, já bastante desnorteado com o perfume floral dela tão perto de si, e voltou a beijá-la.
Ela sorriu entre os lábios dele.
— Que se dane as tradições! — repetiu, com um sussurro rouco. Ela abriu mais dois botões da camisa dele, acariciando-o por debaixo do tecido fino, e Draco deixou uma mão escorregar pela coxa esquerda dela. Antes que pudessem continuar, contudo, Astoria se levantou e o puxou pela mão. Ela apoiou a cabeça na curva do pescoço dele e o conduziu em uma dança lenta. Durante algum tempo, os dois apenas ficaram assim, balançando de um para o outro, acalmando os seus corações de todas as intempéries daquela noite. Quando a música que tocava terminou e outra se iniciou, a esposa o encarou, um brilho malicioso perpassando seus olhos amendoados. Ela o provocou, inclinando o rosto para um lado: — Sabe, Draco, eu sempre ficou muito chateada quando temos que jantar na casa dos meus sogros e eu odeio me sentir assim… frustrada.
— É mesmo? — riu.
Ele definitivamente estava gostando do rumo que aquela conversa estava tomando.
— Sim — concordou, passando as mãos ao longo dos ombros dele —, e eu não posso deixar de notar que agora temos a casa inteira só para nós, por duas horas inteiras…
— Duas horas e meia — corrigiu.
— Graças a Merlin! — Astoria o beijou e, dessa vez, não pretendia soltá-lo tão cedo. Nem ele a ela. Draco queria morar naquele instante, naquele beijo. Ainda que o mundo desabasse a sua volta, estaria ocupado demais adorando aquela mulher. Só mesmo a esposa era capaz daquilo, de fazê-lo se sentir tão mais jovem do que realmente era. De fazê-lo se sentir como um adolescente tolo e apaixonado. Naquele momento, Draco soube mais uma vez (porque essa era uma sensação que frequentemente o visitava): era ótimo estar envelhecendo ao lado dela.
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