Tal Mãe, Tal Filha
18 Autoproteção
Notas iniciais
Enquanto descia a escada de mármore no Saguão de Entrada de Hogwarts, Rose sabia que seus olhos estavam inchados e que a sua expressão era de alguém que passara a noite inteira acordada. Bem, ela havia ido dormir às duas da manhã para que pudesse terminar todos os seus deveres com prazo de entrega para a segunda-feira de Halloween, dali a dois dias.
Ela queria garantir para si mesma que teria o fim de semana inteiro livre para fazer o que quisesse e, talvez, se o tempo ajudasse, passar a tarde de domingo nos jardins sem se preocupar tanto com o começo da semana.
O que Rose não esperava era que, depois de adiantar tudo, ela acabaria entregando ao zelador Filch a sua autorização para ir a Hogsmeade e andando até o vilarejo sozinha. Tentara ser simpática com o velho e rabugento Argus, porém ele já lhe olhava com desgosto e praticamente correu-a de sua frente após verificar a autorização da garota.
Rose caminhou, desanimada, em direção aos portões enormes dos terrenos da escola. Até os javalis alados pareciam estar zombando de sua cara naquela tarde. Ela tentou se concentrar nas folhas secas em tons de laranja e amarelo que caíam lentamente das árvores com o vento e espalhavam-se pelo chão. Por vezes algumas voavam para mais longe e iam parar nos cabelos dos alunos que andavam mais à frente.
Rose não tivera escolha, afinal. Não tinha intenção de ficar no castelo naquele dia. Planejara tudo, adiantara todos os seus deveres. Mas pela manhã, quando acordou e foi tomar café, descobriu que teria de esquecer a ideia de ir a Hogsmeade com pelo menos um de seus amigos.
Por onde Rose poderia começar...?
Deixara Isabella e Joanne na biblioteca, terminando seus relatórios individuais para a primeira aula de Transfiguração da segunda semana de novembro. Aquele era um trabalho importante e, de toda a turma, somente Rose já havia terminado; contudo, isso significava que Izzy e Jo estavam fora de cogitação.
Rose também havia ansiado acompanhar Roxanne, porém acabara descobrindo que esta finalmente fizera as pazes com James e que aquela sua amizade inquebrável havia se reconstituído; o que era realmente estranho, mas Rose jamais questionaria isso, ela torcera muito para que James e Roxanne voltassem a ser como antes um com o outro.
Certo. Era só que não acabava por aí. James e Roxanne melhores amigos novamente significava os dois tipicamente juntos em Hogsmeade. E não, isso não incluía Rose, apenas Juliet Cooper. A garota nem se atrevera a perguntar qualquer coisa que incluísse a si mesma no grupo. Não estava a fim de atrapalhar os três, não queria encontrar David por lá e também sabia que se sentiria deslocada. Portanto, definitivamente, não.
E quem sabe... Lily!
Oops. Rose deveria ter imaginado que a prima mais nova tinha planos: iria apenas com Louis.
Parecia que o trio — Hugo, Lily e Louis — havia se desconjuntado. Mas ninguém diria que Hugo estava triste com isso. Claro que não. Ele convidara mesmo Caroline Boot, como estivera comentando com Jim mais de um mês atrás. A garota aparentemente aceitara e estava com ele em Hogsmeade naquele momento.
O que Rose poderia dizer?
Seus pequeninhos estavam crescendo. Não estavam?
Ela sempre ria baixinho quando esse pensamento lhe ocorria. Era inevitável.
Obviamente, também havia Albus. Albus que não sairia sem Mary. Albus que convencera a namorada a sair para respirar ar puro. Albus que ligava e ligaria Rose e Scorpius por tempo indeterminado porque estava envolvido demais nos problemas de Mary.
Rose não ousaria atrapalhá-los. Desde sua conversa com Scorpius há, no mínimo, cinco semanas, quando os dois concordaram em ajudar Albus, ambos conversaram com o Potter seriamente e... um de cada vez. O clima entre eles ainda estava estranho. Rose não queria deixar tão claro que estava fugindo, mas, como muitas outras coisas em sua vida, era simplesmente inevitável.
No entanto, ela não podia fugir de Albus. Não era hora de deixa-lo sozinho pelos seus caprichos e bochechas coradas demais. E Scorpius também parecera tentar ajudar. Eles fizeram de tudo pelo amigo, separadamente, o que parecia estar funcionando. Rose ficava orgulhosa por isso, e pensar que Albus e Mary iriam ir a Hogsmeade naquele fim de semana lhe instalava uma sensação agradável de alívio e felicidade alheia no peito.
De qualquer maneira, ela continuava sozinha, quase chegando a Hogsmeade enquanto caminhava pisando em folhas na estrada de terra que ia desde os portões ladeados por javalis alados até a rua principal do vilarejo. Quando se lembrava de Albus, não conseguia se sentir mal por estar sozinha. Era como se todas as pessoas em sua volta estivessem se resolvendo, tratando de suas próprias vidas, exatamente o que deveriam fazer, mesmo que para isso Rose tivesse de perambular por aí sem companhia.
E era mais do que óbvio que ela se lembraria das tardes e manhãs de sábado que passara com Scorpius em Hogsmeade. Mas ele não era mais uma opção. As coisas estavam estranhas, Rose não conseguiria se atrever a chegar perto dele. Não sabia se estava sozinho também ou qualquer outra coisa. Talvez estivesse com alguma garota também... Como ela poderia saber?
Rose tentava convencer-se de que não importava. Ela não queria que importasse, havia estabelecido uma regra, ordenado a si mesma que não deveria importar, que o certo era se afastar antes que uma “tragédia” acontecesse. Porém ela só ficaria com tanto medo se fosse possível tal coisa acontecer.
Rose queria pensar que não era, mesmo sabendo do contrário. Por isso, estava levantando todas as suas barreiras que há anos haviam caído e que já estavam bastante empoeiradas por falta da necessidade de uso.
Àquela altura, ela sabia apenas que deveria se proteger. De todas as maneiras possíveis para que não precisasse descobrir do que estava se protegendo.
Era bem simples na verdade. Ela até achava que estava tendo sucesso na tarefa... Então voltou os pensamentos para a sua solidão que lutava para não se tornar entediante.
Rose chegou ao Três Vassouras de cabeça baixa, bocejando — parecia que o sono havia aumentado depois do almoço, e ela percebeu que não gostava de dormir tarde —, enquanto deixava o céu claro e o vento lá fora para adentrar o ar abafado e a pouca iluminação do pub.
Parando com os braços apoiados no balcão, deu sorte de encontrar Madame Rosmerta por ali. Cumprimentou a mulher com um sorriso no rosto e pediu uma cerveja amanteigada para começar a tarde. Assim que Rosmerta lhe entregou a bebida, Rose sentou-se em uma mesa qualquer, não muito longe dali.
O Três Vassouras estava cheio como sempre e ela conhecia a maioria das pessoas que estavam ali. Porém ninguém pareceu nota-la, estavam todos muito entretidos com suas conversas, o que a deixava realmente aliviada, pois a última coisa que ela queria era chamar atenção, mesmo que fosse de uma pessoa sequer.
Rose gostava bastante de observar os outros, principalmente quando sabia que ninguém a estava observando. Era como se fosse invisível e isso com certeza era mais do que agradável para ela.
Por cima do copo, avistou lá perto da saída, o cabelo claro e liso de Alice preso em um rabo de cavalo provavelmente feito às pressas. A garota estava de costas para Rose e parecia bastante animada conversando com Daniel Nott — pelo que Rose sabia, desde janeiro que eles vinham saindo às vezes. Enquanto Alice gesticulava com as mãos, parecendo empolgada em contar — talvez — alguma história qualquer, Daniel a observava recostado na cadeira com as mãos juntas em cima da mesa. Rose achou que ele devia estar prestando atenção nas palavras de Alice, pois hora ou outra sorria e mantinha os olhos nela, não os desviando nunca.
Quando a cerveja de Rose estava acabando, ela voltou os olhos para Alice e Daniel, os quais havia parado de observar para não parecer maníaca ou qualquer coisa do tipo. Viu quando Alice finalmente parou de falar, de modo que Nott inclinou-se lentamente para frente, desencostando-se da cadeira e se apoiando com os cotovelos na mesa. Rose notou que ele ainda olhava fixamente para sua amiga e deduziu que encarava seus olhos. Ele sorriu e disse algo. Alice inclinou-se mais sobre mesa também, apoiando o queixo nas palmas das mãos, provavelmente sentada na ponta da cadeira.
De relance, ao levantar-se para devolver o copo no balcão e pagar a cerveja amanteigada, Rose viu quando Alice roubou um beijo rápido dos lábios de Daniel, que pareceu assustado no começo, arregalando os olhos, mas depois apenas alargou o sorriso.
Rose tirou a atenção dos dois, virando-se de costas e indo até o balcão enquanto deduzia como Alice iria chegar ao dormitório naquela noite; provavelmente com um sorriso maior que a extensão de um lado ao outro do rosto, muito bem humorada e suspirando toda hora. Isso já acontecera algumas vezes, na verdade.
E então Rose pagou e saiu do estabelecimento, ainda sem ser notada e fazendo total questão de manter-se assim.
O vento forte bateu em seu rosto e levantou seus cabelos quando ela começou a caminhar para qualquer lugar que lhe fosse confortável no momento. Dedosdemel. Foi o primeiro que lhe veio à mente: quente, aconchegante e cheio de doces.
Rose apressou seus passos, ansiando chegar à loja o mais rápido possível para se livrar dos calafrios que toda aquela ventania lhe causava. No caminho, avistou James, Roxanne, Juliet e Dave ao longe, mas desviou os olhos logo em seguida, torcendo para que não a notassem por ali. De outro lado, ainda mais ao longe, pelo canto do olho, fora possível ver Molly e Lucy — a mais velha estava de braços cruzados ao lado da irmã; que novidade — paradas à frente da Dervixes e Bangues, instrumentos mágicos e artigos sortidos.
A garota pensou que talvez tivesse sido bom ir até elas e tentar conversar um pouco, porém abriu a porta da Dedosdemel antes que pudesse ponderar mais sobre o assunto.
Quente e sem vento algum para içar seus cabelos para o alto, o ar era quase açucarado e as prateleiras cheias e coloridas. Ah, que tentação. A loja não estava lotada, mas também não tinha pouca gente, então Rose achou um jeito de se enfiar por entre duas prateleiras quaisquer e simplesmente admirar aquele paraíso, decidindo-se sobre o que teria o prazer de levar para Hogwarts.
Doces antigos, da época de seus pais ou até de muito antes, novos também. Era realmente muita coisa, e Rose distraiu-se ali, meio entorpecida pelo ar, inclusive, como sempre acontecia. Ela estava se sentindo tão bem...
Alguns minutos se passaram, ela não sabia quantos. Por entre prateleiras e mais prateleiras, encontrara Sarah, que sorrira para ela de uma maneira atipicamente agradável; Lily e Louis também estavam por ali e pediram para que Rose não dissesse nada a ninguém sobre tê-los visto de mãos dadas e obviamente em um encontro. E era apenas aquilo, ela estava sozinha com os doces mais uma vez, ainda que rodeada de gente.
Até que Rose bateu de lado em alguém.
Os dois olharam para o lado ao mesmo tempo e, assim, Rose xingou-se pela primeira vez por ter entrado na Dedosdemel aquela tarde.
— Er... Me desculpe, não te vi aí. — disse ele, visivelmente sem graça.
— Não, tudo bem. Eu que esbarrei em você — Rose sorriu fraco, mas sinceramente.
Sem dizer mais nada, eles voltaram a examinar as prateleiras, cada um procurando por algo específico. Rose começou a perceber o quão agradável era o fato de que não existia silêncio ali, pois diversas pessoas falavam, de todos os cantos possíveis e sem parar, criando um ruído que chegava a se tornar confortável devido à situação.
Scorpius pigarreou e Rose quase saiu correndo de seu lado, pois sabia que ele ia dizer alguma coisa. Ela só queria privar-se de ouvir a voz dele ou fazer qualquer coisa que envolvesse ficar perto de Scorpius Malfoy por mais de dois segundos.
— Como você está?
Ela resistiu à tentação de olhar para o lado e respondeu, tentando parecer indiferente:
— Bem. E você?
— Nada mal.
Por dentro, Rose torceu, rezou, implorou silenciosamente para que Scorpius não seguisse a conversa e não lhe desse motivos para olhar para o lado e nem para continuar próxima a ele.
Mas Rose sentia que Scorpius realmente queria conversar.
Sentia sua ruína perto o suficiente para ameaça-la sem ter noção de seu poder, a qual estava bem ao seu lado, mantendo-se clandestinamente alojada em alguém que transpassava inocência e calor de olhos cinzentos e contrários às regras naturais das cores.
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