Tal Mãe, Tal Filha
10 Au revoir
Notas iniciais
Depois do jantar, Fred, James, Roxanne, Albus, Rose e Lily saíram para jogar quadribol no quintal d'A Toca. Seus avós recém haviam ido dormir e já fazia aproximadamente uma hora que Lucy, visivelmente cansada de assistir aos primos, arrastara Molly para dentro do carro do pai que, somente após muita insistência, apareceu para buscá-las. Além disso, Lucy e Dominique haviam tido uma discussão nada agradável mais cedo; o motivo, no entanto, era desconhecido pelos outros.
Absolutamente nada lhe segurava naquela casa.
A Sra. Weasley nem teve tempo de ficar magoada, pois estava ocupada repreendendo James e Lily uma última vez, apenas para garantir que eles não se matariam enquanto ela estivesse dormindo. Os dois, ainda furiosos e indignados um com o outro, ignoraram-se pelo resto do dia e tentaram agir normalmente diante das circunstâncias.
Louis que, quando foi ao quarto no primeiro andar, estivera apenas tentando convencer Lily a voltar para a mesa e terminar o café, preferiu ficar longe de James. Pois, embora este soubesse que nada demais havia acontecido, estava bufando para o primo quando os três saíram do quarto.
Era quase meia-noite quando Rose, exausta após jogar quadribol durante horas a fio, decidiu descer da vassoura e correr para tomar banho antes dos primos que certamente acabariam formando uma fila na porta do banheiro quando o jogo terminasse. Assim que ela saiu, os times ficaram desequilibrados com três de um lado e dois do outro — Albus e James contra Fred, Lily e Roxanne —, então todos decidiram parar, pois também estavam cansados e precisados de banho.
Quando saiu do banheiro, de banho tomado, cabelos molhados — tinha bons exemplos para não acabar secando-os com magia — e pijamas, foi ao quarto e tentou dormir, o que não deu certo. Então decidiu ficar na sala por um tempo, fazendo companhia a Dominique.
Rose sentou-se ao seu lado e colocou as pernas para cima do sofá, cruzando-as. Ela ficou em silêncio, encarando a própria varinha que tirara do bolso e ouvindo vozes e risadas — que deviam ser de James e Fred, pois Lily já estava no quarto, dormindo que nem pedra — dos primos enquanto esperavam para entrar no banheiro. Então olhou em volta e percebeu que Louis estivera ali o tempo todo, lendo concentrado, no chão, perto da lareira. Ela não quis atrapalhá-lo, então resistiu à tentação de perguntar sobre o assunto do livro.
— Dominique? — sussurrou Rose, quebrando o silêncio absoluto que havia se formado na sala mal iluminada, o que a deixou um pouco constrangida.
Dominique olhou para Rose com os olhos arregalados, assustando-a, pois, até então não havia percebido que a prima estivera no mundo da mesinha de centro, cuja qual fitara intensamente, como se estivesse desconectada do mundo à volta.
— Hã... Oui? — respondeu Dominique, esfregando os olhos.
— Está tudo bem? — perguntou Rose.
A outra riu.
— Eu estou ótima.
— É que você parecia tão... distante.
— Você também parece às vezes, mon cherry. — replicou Dominique, sorrindo. — Bem, de qualquer forma, muito obrigada por me despertar. — Ela deu um beijo na bochecha de Rose, levantou-se do sofá e saiu na direção da escada. — Bonne nuit.
Louis virou uma página do livro enquanto Rose desejava uma boa noite de volta a Dominique. Ela se sentiu tão infantil e incompreensiva que teve vontade de enfiar a cabeça em uma daquelas almofadas e gritar como uma verdadeira criancinha desesperada. Então tentou conformar-se consigo mesma: ela estava apenas preocupada.
Uma preocupação bem estúpida, por sinal..., pensou.
De repente, Louis ergueu-se. O livro fechado em mãos; ele passou por Rose, parecendo nota-la pela primeira vez — embora ela soubesse que ele apenas estivera muito absorto na leitura.
— Boa noite, Rose. — desejou ele, gentilmente.
A garota sorriu e retribuiu o cumprimento.
Assim que ela teve certeza de que estava completamente sozinha na sala de estar, pegou uma almofada e abraçou-a, nostálgica. Apesar da sensação de constrangimento, não era isso que importava, pois ela realmente havia parado para pensar por alguns poucos segundos e, na realidade, o mais importante era que podia estar ali e que todos — ou quase — também, estavam bem e haviam se divertido.
O problema era o sono... Estava longe de acolher Rose. Ela percebeu que as risadas haviam cessado e que todos deveriam estar caindo de exaustão depois daquela tarde. Então uma mão tocou seu ombro ao que Rose gritou, assustada.
— Poxa, James! — exclamou, com a mão no peito.
— Que foi? — riu-se o garoto. — Eu poderia jurar que não tive a intenção de te assustar. Mas... hum... Eu não gosto de mentir. — Sentou-se no braço do sofá e fitou a prima, que retribuiu o olhar, parcialmente intrigada.
— Pode falar, Jae. — resmungou ela. — Estou ouvindo.
Os olhos de James brilharam e ele sorriu, deu palmadinhas no ombro de Rose, então disse:
— Todos já subiram. Principalmente ela. E... eu preciso de uma ajudinha... — Ele falava baixo; estava anormalmente sério e um tanto desesperado, o que fez passar um choque de perplexidade por Rose. — Rosie, você está me assustando. Por Merlin, não faça essa cara! Você sabe de quem eu estou falando, não sabe? E dá para ver o quanto eu estou desesperado, não dá?
— Para começo de conversa — disse Rose, após recompor-se. —, você ainda está saindo com a Zabini?
James ergueu uma sobrancelha e a garota soube que podia estar comprometendo Roxanne com aquela pergunta estúpida.
— Como você sabe...? — indagou James. — Ninguém podia saber disso.
— Acredito que há poucas pessoas que não souberam dessa história, Jae. — afirmou Rose, o mais convincente possível. — Mas isso não importa. Você ainda está saindo com ela?
O garoto negou com a cabeça.
— Ótimo! — exclamou Rose. — Então, para quê você quer a minha ajuda?
— Roxanne. Dããh. — falou ele. — Eu estou completamente perdido por causa dela. É... é horrível.
— A Roxanne é uma pessoa difícil, James.
— Eu sei disso. — lamentou-se James. — É aí que você entra. — Ele sorriu feliz, convencido de que Rose o ajudaria.
Ela levantou-se, agradecida por estar, enfim, com sono.
— Me desculpe, mas você vai ter de se virar. — respondeu. — E por que você veio pedir ajuda logo a mim? Sinceramente, acho que não tenho como te ajudar, Jae.
O garoto não respondeu, ele mudou o semblante e começou a parecer abatido. Rose murmurou “Fique bem. Boa noite”, sorrindo para tentar reconforta-lo e não acabar se sentindo culpada depois. James continuou em silêncio enquanto ela subia a escada. Rose acabou por preocupar-se de verdade com o primo. Não que ele fosse assim tão digno de pena, mas se James estava realmente gostando de Roxanne, ele iria sofrer.
Aquela atitude era completamente atípica de James: trocar todas as outras “garotas proibidas”, cujas tais ele sempre teve fetiche — o que, para Rose, soava muito estúpido —, por Roxanne. Talvez aquilo fosse somente uma tentação temporária, apenas porque ela era mais difícil de conquistar — apesar de que já havia sido conquistada — e também muito mais complicada do que qualquer outra garota.
No entanto, Rose nunca havia visto James daquele jeito. Se ele estava, de fato, sentindo alguma coisa, correria atrás de Roxanne até não conseguir mais mover as pernas. Os dois tinham personalidades difíceis e a amizade entre eles era no mínimo impossível, porém, ela existia. E era forte.
Rose não duvidava mais de nada, na verdade. Só queria ver Roxanne, tanto quanto James, feliz. Ansiava pelo dia em que um começaria a fazer bem ao outro, do jeito que sempre deveria ter sido.
Ela abriu a porta do quarto, no primeiro andar, sem fazer barulho. Desabou no colchão ao lado da cama onde Lily dormia e ressonava — tão alto que era quase um ronco. Dormiu rápido, pois, enfim, o cansaço do jogo começara a lhe pesar nos ombros.
O dia seguinte fora de sol e havia nuvens enfeitando o céu azul. O vento estava fresco e parecia um pecado não sair com um tempo daqueles lá fora. Quando Rose acordou, olhou ao lado para a cama de Lily e a viu dormindo de bruços; os raios de sol vindos da janela aberta — propositalmente, pela Sra. Weasley, para acordar as netas — batiam no cabelo da menina, fazendo-o refletir um brilho vermelho quase mágico que se fazia semelhante a chamas escarlates.
Piscando rapidamente e esfregando os olhos, Rose levantou-se e debruçou-se na janela para sentir o vento no rosto. Aquela era, sem dúvidas, uma sensação mais que agradável, era familiar, confortável, talvez até nostálgica. Ela aspirou o cheiro das árvores que vinha de longe com o vento e, sentindo-se realmente desperta, dirigiu-se à prima adormecida.
— Lily? — chamou, cutucando-a.
A garota resmungou sonolenta. Rose insistiu e ela tapou a cabeça com as cobertas.
— Certo. Eu não vou esperar por você.
Rose trocou de roupas, penteou os cabelos rebeldes, foi ao banheiro e voltou, Lily continuava dormindo e não parecia próxima de despertar.
Ao sentar-se para tomar café, Rose não pôde deixar de reparar no silêncio, nas caras de sono de Roxanne, Dominique, Fred e James e em suas profundas olheiras. Aquela agradável tranquilidade era um alívio para qualquer um àquela hora da manhã.
Rose perguntou-se onde estariam Albus e Louis — que provavelmente já haviam tomado café — enquanto permanecia em silêncio e torcia para que nada estragasse aquele momento.
Dominique levantou-se após alguns minutos e despediu-se de James, Roxanne, Rose, e deu um abraço apertado em Fred; chamou a avó, que estava na sala e a abraçou também. Louis veio logo atrás dela e despediu-se de todos, mas ele parecia relutante até Lily e Albus chegarem à cozinha.
— Eu não acredito que você estava planejando ir embora sem se despedir de mim! — exclamou Lily, abraçando Dominique.
Rose não estava entendendo a razão pela qual os olhos intensos da filha de Bill estavam úmidos. Ela despediu-se de Albus, e Rose disse:
— Espere aí... Por que você está chorando, Dominique?
Dominique pegou uma mala — ela devia estar ali havia algum tempo — e olhou para a prima.
— Eu estou indo embora, Rosie. — Rose ergueu as sobrancelhas. — Non contei a você... Vou partir para a França hoje mesmo, por isso tentei reunir todo mundo.
Os outros já sabiam disso, mas Rose adiantou-se em abraçar a prima. Embora não convivesse com ela, sabia que sentiria saudade e que não importava quanto tempo havia ou não estado com Dominique, seria estranho vê-la partir.
— Obrigada, Rosie. — disse, então saiu pela porta, Louis em seu encalço.
— Au revoir! — ela dirigiu-se a todos os presentes. Já na rua, pegou a mão do irmão, girou e os dois desapareceram no ar.
Rose sabia que ao dizer “au revoir” — “até logo” —, Dominique estava apenas amenizando o choque do adeus definitivo. Com certeza, demoraria a retornar à Inglaterra.
A Sra. Weasley chorou silenciosamente e Fred foi o primeiro a sair da cozinha. Rose lembrou que ele era tão próximo de Dominique quanto Lucy e, portanto, entendeu que Lucy devia estar, no mínimo, perturbada pela partida de sua única amiga.
Após o café, Rose, que já havia pedido permissão aos pais e à avó para ficar n’A Toca por mais tempo, voou desiludida, junto com Roxanne e Lily — sob o mesmo feitiço — para casa, a fim de pegar mais roupas.
Ninguém estava lá quando as meninas chegaram. Rose foi até o quarto do irmão, supondo que este estivesse dormindo, porém, encontrou apenas a cama porcamente arrumada e vários livros espalhados pelo tapete. Ou Hugo fugira, ou estava no Ministério com os pais; a segunda opção foi a que mais tranquilizou Rose, por isso ela preferiu pensar que era o que havia realmente acontecido.
Sem demora, a garota já tinha uma mochila arrumada com tudo o que precisaria para passar bastante tempo na casa dos avós.
Faltando onze minutos para as nove horas da manhã, Roxanne, Rose e Lily saíram da casa dos Granger-Weasley e, não muito tempo depois, pousaram no quintal d’A Toca.
Na hora do almoço, ninguém mencionou Dominique. Fred parecia abatido e James acabara por não ser auxiliado nas piadinhas diárias. Roxanne parecia apreciar o silêncio contínuo, assim como Lily, que ainda considerava-se de mal com o irmão mais velho. Ela almoçou com um leve sorriso esboçado nos lábios.
Depois de pensar por um bom tempo, Rose percebeu que Dominique faria falta, não só para Fred e Lucy, mas para todos. Compreendeu a antiga necessidade que a garota tinha, sobre sentir-se livre e voltar ao país de origem, mesmo que sua família não estivesse lá para acompanhá-la em sua trajetória.
Talvez ela ainda precisasse se descobrir, deduzira Rose, esperando que fosse mais feliz na França — onde ela costumava dizer ser o seu lar —, do que no lugar de onde ela sempre quisera fugir.
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