Take me To Church
1 Único
Notas iniciais
Minha amada tem humor
Ela é a risadinha durante um funeral
Sabe que todos a desaprovam
Eu deveria tê-la venerado mais cedo
George tinha os braços puxados, sentia, no calor que se aproximava em meio à noite fria, que seu fim estava chegando. Gritava, com o fôlego que nunca tivera antes. Antônio, um dos poucos rapazes que reconhecia do grupo, segurava uma espécie de vela que tinha uma chama enorme e alta, guiando-os na escuridão da noite e bradando xingamentos que ele não queria entender.
— VAMOS, DIGA, ONDE VOCÊ ESCONDEU? — perguntou, dando uma bofetada em seu rosto. Ele rangeu os dentes para não gritar de desespero. — Não vai dizer, não é? Pois nós vamos procurar aqui. — Antônio disse, olhando em volta e abaixando a vela. George ainda se contorcia, querendo desesperadamente fugir dali. Com raiva de si mesmo, o rapaz que estava sendo segurado viu uma pá no meio dos arbustos. Dali a pouco, Antônio seguiu seu olhar e sorriu maldosamente, guiando o grupo até lá. — Aqui que você escondeu o queijo, não foi, seu rato? — George continuou calado. — Não precisa falar, George, nós já achamos mesmo.
Um dos rapazes que estava o cercando foi até a pá e cavou tudo aquilo, retirando um pequeno baú cheio de correntes. George olhou-o com desespero. NÃO, NÃO!
— Quantas coisas doentias você não esconde aqui, George? Quantas provas do seu crime? Quanto tempo até a condenação do seu amorzinho nojento? Os oficiais vão amar saber disso. Eu sempre soube de vocês.
— CALE A BOCA! — George gritou, levando uma bofetada de algum dos que usavam lenços — Vocês têm ideais tão idiotas quanto vocês.
— Não ofenda a Ordem. — O garoto que segurava o baú disse, usando um pé de cabra para bater no peito de George. Ele gemeu de dor e um dos que estava atrás dele jogou álcool em cima de sua cabeça.
Inflamável. Ele sabia o que estava por vir. Ouvira as histórias.
Se os céus alguma vez falaram
Ela seria a última profetisa verdadeira
Cada domingo fica mais lúgubre
Um veneno fresco a cada semana
— Vamos. Vamos espera-lo.
E enquanto era arrastado campina adentro, George tentava se lembrar como havia chegado ali.
+++
A estrada era cheia de pedras soltas, mas isso não importava para Matheus. Ele estava cada pedalada mais próximo do seu destino, e isso era suficiente. Ele sabia que em algum lugar, no fim do caminho, George estava esperando, provavelmente fumando um cigarro, a mão livre dentro da blusa de frio e os olhos inquietos. Continuou, ansioso, até poder ver a ponte ao longe. A ponte que agora era apenas um ponto representativo, uma vez que a água abaixo dela era inexistente. Graças à Ordem, não havia perigo de afogamentos. Mas graças à Ordem, tudo era perigoso. Largou a bicicleta no meio de mato alto após a propriedade onde George morava e correu, ansioso e abaixando o capuz. Ninguém frequentava aquela via. Não durante o dia, pelo menos.
Ao ver a cabeça de George, aumentou o ritmo das pernas e o rapaz, que estava sentado quase exatamente como Matheus imaginara, correu a seu encontro, sorrindo.
Nós nascemos doentes
Você os ouviu dizer
George observava os pássaros passando pela cidade, pouco além da ponte. Andou e abraçou o recém-chegado, sorrindo. Não se viam há pouco tempo, mas a saudade era grande quando cada vez poderia ser a última. Começaram a andar sem dizer muita coisa, acharam um jeito de contornar e subir na ponte, e caminharam. Caminhando e passando pelas barras que se estendiam para cima e vez ou outra observando o que antes havia sido tão bonito e tão seguro. Não que agora não fosse seguro. Mas para eles, o tempo da Ordem era o pior. Desceram e começaram a andar pela cidade, ainda sem falar muita coisa. Só a proximidade era o suficiente. Provavelmente um dos garotos mais fiéis à Ordem estaria lá, observando, mas eles não se importavam. Não haviam feito nada que eles pudessem atestar.
O campo de futebol antes ocupado pelos garotinhos da vizinhança, agora vazio por determinação da igreja e da Ordem. A cabeça de Matheus quase raspada e coberta por uma touca prestes a cair. O frio costumeiro de todos os dias. O silêncio inevitável. Estavam se aproximando do pequeno lago, menor ainda agora. Passaram pelas estacas e pularam por cima das pedras.
Minha igreja não oferece dogmas
Ela só me diz "Louve no quarto"
O único paraíso ao qual serei enviado
É quando estou a sós com você
Se alguém aparecesse ali, eles poderiam ver. Ali estariam seguros. A sós. Ali George ofereceu um cigarro a Matheus, que aceitou. O vício em comum. Um deles, pelo menos. Na encosta, a grama escura e tão pequena quanto a barba de George. O lugar onde antes eles conversavam, riam e jogavam pragas contra a Ordem era agora um ponto de encontro silencioso e amedrontado pela ideia de espiões ali. Matheus olhou para trás e fitou George, que encarava o horizonte, procurando algum dos garotos da igreja. Não precisou nem sussurrar para Matheus que estava seguro. O garoto sabia.
Inclinou a mão esquerda, puxando seu rosto para perto. Envolveu seus lábios no dele. Um beijo simples, talvez até puro. De saudades, de confiança, de medo, de pouca segurança. De amor.
Não conseguiam ver como o amor poderia ser algo mau. Como poderia ofender alguém. Mas o motivo pelo qual a Ordem o proibia era simples. Ela proibia tudo o que era bom, tudo o que causava prazer, felicidade. Ela os proibia de existirem.
Eu nasci doente, mas adoro isso
Ordene-me a ficar bem
Amém, amém, amém
Eles sabiam que eles viriam. Que os garotos da Ordem estavam próximos. Que estavam seguindo-os. Eles sabiam que aquilo era o fim para eles. Sabiam, mas estavam cansados de terem que se esconder. Por quê? Por que tinham que estar no oculto, no escuro, na penumbra, e mesmo assim serem descobertos, apenas por sentirem o amor? O amor, que antes a própria Ordem pregava, agora era um crime.
Um crime consumado.
+++
George pegou as roupas suficientes, os objetos suficientes. Não sabia dali a quanto tempo a Ordem apareceria. Mas sabia que era breve. O acontecimento do lago era o estopim para sua vida.
Leve-me à igreja
Louvarei como um cão no seu santuário de mentiras
Ele sabia que estavam perto. Que os garotos estariam com seus lenços no rosto, seus capuzes levantados e suas acusações prontas. Mas ele não estava pronto para se deixar levar por eles. Não podia estar. Para a própria segurança. E a do amado da sua alma.
Pegou o pequeno baú no topo de seu guarda roupa, o que escondia as fotos, as cartas, os vídeos, toda a relação entre ele e Matheus durante aquele tempo. Precisava esconder. Enrolou tudo com uma corrente que estava no guarda-roupa e correu para baixo. Precisava ser rápido. Precisava fazer logo.
Vou te contar meus pecados
Assim você poderá afiar sua faca
Ofereça-me essa morte imortal
Bom Deus, deixe-me dar-te minha vida
+++
Matheus correu, a mochila nas costas, e o ar rareando em seus pulmões. Eles estavam perto demais da casa de George. Eles estavam prontos, com seus archotes, facas e fogueiras. As fogueiras. Ele sabia como era. Já havia sido um dos garotos da Ordem.
Os capuzes escuros escondendo a cabeça, os lenços ocultando o nariz e boca, a pisada uniforme e o ódio no olhar. Tudo pronto, a fogueira acesa, as incriminações perfeitas e o telefone na ponta dos dedos. Só precisavam de um acusado. Alguém para queimar. Alguém para punir. Alguém para odiar.
E, naquela tarde, ele havia lhes dado exatamente o que precisavam.
Mãos com papéis, fotos prontas, sabendo o que procurarem. Eles iriam mata-lo.
Matheus precisava correr.
Leve-me à igreja
Louvarei como um cão no seu santuário de mentiras
Confessarei meus pecados
Assim você poderá afiar sua faca
Ofereça-me essa morte imortal
Bom Deus, deixe-me te dar minha vida
Há muito não acreditava mais no que a Ordem acreditava. As mentiras, o mundo de falsas ideias que eles pregavam. A ditadura de crenças que eles disseminaram. Um arrepio percorreu sua espinha. Os dias que passara lá dentro, do santuário de mentiras, do lar de maldades e da escola de ódio.
Ele se odiava, como havia sido ensinado. Se odiava por amar.
Não havia mais o que fazer ali. Ele precisava correr para salvar a única pessoa no mundo que não odiava. A única pessoa que realmente importava.
+++
Eles fizeram a curva. Passaram pelo ponto de encontro de todas as tardes. Entraram na campina. Viram a casa. Era imperdoável. Era intolerável. Precisavam acabar com o mal. E só com o mal. Aquela coisa inadmissível, aquele amor demoníaco que brotara em dois corações. Precisavam executar a vontade divina e a vontade da Ordem. Nada era mais importante do que isso.
Já haviam presenciado várias cenas, mas a maior evidência estaria com o sedutor. Com George. O que tinha as fotos, os vídeos, toda a forma de propagação do pecado que começara. Era ele que eles deviam matar.
O grupo aproximou-se da casa a passadas uniformes. Um senhor, o pai de George, espiou pela cortina o olhar de ódio nas pessoas. As expressões determinadas e o andar quase disciplinado que tinham.
Antônio incendiou um pedaço de pano e enfiou-o em uma garrafa de álcool pela ponta, jogando pela janela. O que estava na frente arrombou a porta, puxando o homem e perguntando pelo garoto. O pai estava apavorado, claro.
George ouviu o barulho, os gritos e as passadas. Correu em desespero. Eles não podiam estar ali. O que eles faziam ali? Ele viu, ao chegar perto, toda a cena. Correndo, subindo pelos corredores da casa, procurando o que ele havia acabado de enterrar.
Se sou um pagão dos bons tempos
Minha amante é a luz do sol
Para manter a deusa ao meu lado
Ela exige um sacrifício
Drenar todo o mar para pegar algo brilhante
Algo carnudo para o prato principal
Esse cavalo soberano é bem charmoso
George estava completamente desesperado. Então um deles o viu. Gritou em busca dos outros. Sem reação, o jovem ficou parado, esperando a morte certa. Esperando as bofetadas e as perguntas. As afrontas e o ódio evidente.
O que você tem no estábulo?
Nós temos um monte de fiéis famintos
Isso parece saboroso
Isso parece abundante
Esse trabalho é insaciável
“Não”, ele queria gritar. “Saiam, esse é o lugar errado, eu sou a pessoa errada. Me deixem em paz”, ele gostaria de poder falar. Mas ele não podia. Era um criminoso aos olhos da Ordem. Era um criminoso aos olhos da igreja. Era um criminoso para o mundo.
Leve-me à igreja
Louvarei como um cão no santuário de suas mentiras
Confessarei-lhe meus pecados
Assim você poderá afiar sua faca
Ofereça-me minha morte imortal
Bom Deus, deixe-me te dar minha vida
As memórias então invadiram sua mente. O primeiro encontro, a primeira conversa, o primeiro beijo, a primeira — e única — vez. Toda a história, de trás para a frente, da frente para trás. De cor, salteado, em preto e branco, completa, em partes. Tudo na sua cabeça enquanto eles lhe levavam para a morte certa.
Ainda vasculhando a casa, ainda gritando em ódio.
Ainda amando, ainda vivendo, ainda clamando.
Ainda sentindo a dor, a preocupação.
Tudo valera a pena?
Sim, ele sabia que sim.
Bom Deus, deixe-me te dar minha vida
E então, havia o fogo. Havia um garoto tentando arrombar o baú com um pé de cabra, havia Antônio furioso e jogando-o no fogo, havia o grito de desespero de George, havia alguém gravando-o com o celular. Havia a música passando na sua cabeça, havia o calor da fogueira em seu corpo gelado.
+++
Matheus correu o máximo que pôde. Viu a casa destruída, o pai inconsciente de George na varanda, o buraco no quintal. Eles haviam o levado. Para o lugar de sempre. E Matheus não pôde fazer nada. Apenas correr mais para tentar evitar que algo acontecesse.
Conhecia o caminho, conhecia a trilha, o ritual e o final daquela história. Havia estado lá tantas vezes, pelos motivos errados, pelos amores errados, pela vida errada. E agora que estava do lado certo, eles diziam que ele era o errado. Típico da Ordem.
Antes de seguir a trilha — ele sabia que, se fosse rápido, ainda teria como alcança-los —, adentrou na casa e gritou pelo outro garoto, desesperado e inconscientemente sabendo que George não responderia. Subiu as escadas quase voando e vasculhou todos os quartos. Nada, apenas tudo revirado. Eles estavam com ele. Sim, agora ele não podia mais ter nenhuma sombra de dúvida.
Amém, amém, amém
Tinha que chegar a tempo.
+++
Eles arrastavam George pelo chão, ele esperneava e gritava, em busca de socorro ou de alguma gota de compaixão. Sabia que atrás de si estava a fogueira. A noite era fria, mas não ali. O fogo deveria ser enorme. Ele quase sentia as chamas lambendo seu corpo. Havia uma faca perto de seu rosto. Um corte em sua bochecha. Um grito em seus lábios, xingamentos nos de Antônio, uma desconexão no ambiente.
Bom Deus, deixe-me te dar a minha vida
Bom Deus, deixe-me te dar a minha vida
Matheus viu a silhueta de alguém chutando George, inerte no chão. Ele estava perto demais. Inseguro demais. Ele precisava fazer algo, gritar, mas todo seu corpo estava sem ação. Era como se houvessem pregado a sua língua a sua garganta. O grito estava em algum lugar ali. A agonia era presa dentro de si, que estava incapaz de fazer algo para libertar o amado. Para dar um fim àquela agonia.
Quando George parou de gritar, seu corpo parou de se mover e eles pararam de chutar, veio o final. O corpo que Matheus amava lançado ao fogo. A pele, os cabelos, todas as camadas de George, e o seu coração indo junto. Eles viram Matheus. Puxaram-no e carregaram-no até a igreja.
Ele não conseguiu fazer nada. Registrar nada. Porque no momento em que foi deixado à sós, procurou a faca esquecida de Antônio. Nada mais valeria a pena. A morte era preferível ao que viria a seguir.
Se não havia conseguido chegar a tempo para salvar George, pelo menos teria tempo para fazer algo antes que eles voltassem. Então, com esse pensamento, deixou-se afundar na escuridão da igreja antes que a Ordem surgisse.
Leve-me à igreja
Louvarei como um cão no seu santuário de mentiras
Confessarei meus pecados
Assim você poderá afiar sua faca
Ofereça-me essa morte imortal
Bom Deus, deixe-me te dar minha vida
Amém, Amém
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