Take Me To Another World
2 Para adocicar a viagem
Notas iniciais
O despertador do meu celular, mesmo já configurado para o horário de Londres, apitou durante três longos minutos, até que me rendi. Marina e Ana Luiza ainda dormiam feito pedras.
- Tão típico – resmunguei, descendo as escadas com disposição enquanto prendia meu cabelo em um rabo de cavalo.
Fui arrumar o café da manhã na comprida mesa da cozinha, e só então me lembrei que ninguém tinha se preocupado com comida. Era cedo demais para qualquer mercado estar aberto, e tudo que tínhamos nas bolsas eram biscoitos amassados.
Para a nossa sorte, eu nunca fui muito do tipo quietinha e tímida. Achei a oportunidade ótima para ir socializar com os vizinhos, e não pensei duas vezes antes de bater na porta da casa azul, que ficava ao lado da nossa.
- Bom dia – recepcionou o garoto que atendeu a porta – Posso ajudar?
Ah, é claro que pode. Quem sabe com uma máscara de oxigênio?
- Oi, bom dia, desculpe incomodar – Me esforcei para fazer o meu melhor sotaque britânico possível – Eu e minhas amigas acabamos de nos mudar para a casa ao lado e esquecemos dos suprimentos básicos. Pode nos emprestar um pouco de sal, açúcar, leite e essas coisas básicas?
- Claro! Mas eu não sei ainda seu nome – disse o garoto com pijama listrado que estava quase me fazendo babar.
- Ah, desculpa! É Leticia, prazer – eu estendi a mão, sorrindo.
- O meu é Louis – ele retribuiu o cumprimento.
Nome bonito, rapaz bonito, casa bonita. É, faz sentido.
Dois minutos depois ele veio me trazer várias sacolas com comida e água suficientes pra uma semana. Ele até me perguntou se não queria entrar um pouco e nessa hora percebi que havia mais gente naquela casa, mas eu recusei o pedido porque achei que era muita sacanagem com Ana Luiza e Marina.
Então, aquele moreno perfeito de olhos azuis me ajudou a carregar tudo pra dentro da minha casa, e pra isso tivemos que fazer três viagens. No final, ele parou de braços cruzados na minha porta e disse:
- Foi mesmo legal conhecer você – Ele soltou, me fazendo parecer um monte de pudim de tão mole – Você disse que tem umas amigas morando aí, certo?
- Sim, elas estão lá em cima, dormindo – Sabe como é, deixando a melhor parte todinha pra mim.
- Ah, entendi – ele disse, piscando pra mim. Piscando. Pra mim. Londres, você é mesmo a cidade dos sonhos.
Droga, ele estava me encarando. E agora?
- Er, então... – podia sentir que estava corando. Ai, que merda.
- Tá afim de passar uma noite com seus novos vizinhos? – ele perguntou, de repente. Se ele não fosse tão charmoso ao ponto de me deixar paralisada, eu juro que daria pulinhos de alegria naquele momento. – Sabe como é, hoje é sábado e nenhum de nós cinco tem nada pra fazer.
Já posso ter um ataque cardíaco? Ele disse nenhum de nós cinco.
- Estaremos lá – eu sorri, acenando com a cabeça.
- Ótimo. Cheguem às oito, no máximo – ele pediu, piscou novamente e voltou pra sua casa.
Fechei a porta, ainda ofegante. Não era possível que em menos de vinte e quatro horas tanta coisa tivesse dado certo. Eu até admito que sou uma pessoa bem confiante, mas não era muito sortuda. Não até agora.
Mas eu ainda tinha que avisar as meninas. Subi as escadas correndo e acordei Marina e Ana Luiza aos berros. Depois que contei a novidade, as duas me surpreenderam ao ficarem mais perplexas do que eu mesma tinha ficado.
- Isso não pode estar acontecendo! – duvidou Ana Luiza, ainda de boca aberta.
- Aquele cara é provavelmente o mais gato que eu já vi – riu Marina, me deixando confusa.
Como assim “que ela já viu”? Alô, era nossa primeira manhã em Londres. Não é possível que Marina consiga sempre estar um passo a frente. Para minha alegria, ela não demorou muito a se explicar.
- Gente, não me olhem assim – ela pediu – Vocês não viram que a janela do meu quarto fica bem na direção da janela de um deles?
- Como assim? – eu nem surtei não, imagina – Marina, como é que você descobre uma coisa dessas e não me conta nada, garota?! – eu me revoltei, batendo em cada parte do corpo de Marina que estava ao meu alcance com uma almofada.
- Ei, relaxa aí – ela pegou a almofada e jogou longe – Eu não queria ter que dividir o Harry com ninguém.
Peraí. Oi?
- Harry?
- É, Letícia, Harry. Bom, era o que estava escrito na parede que eu conseguia ver – ela justificou.
- Dá pra alguém me explicar o que está acontecendo? Tô ficando intrigada – reclamou Ana Luiza.
- Ah, ufa – eu suspirei – Marina, acho que houve um pequeno engano. O garoto que eu estava falando se chamava Louis. – soltei uma risadinha – De qualquer forma, pelo que eu entendi tem mais três, não vai faltar opção pra você, Ana Luiza.
- Vocês são retardadas, só ficam pensando em meninos – reprovou Ana Luiza.
- Ih Marina, olha só, ela tá chateada porque ainda não achou nenhum pra ela – eu disse, pegando a almofada que antes tinha jogado em Marina e jogando, desta vez, em Ana Luiza.
Ela se defendeu com um travesseiro, mas acabou acertando Marina. Ela, por sua vez, jogou o travesseiro dela em mim. E então começamos uma mini Terceira Guerra Mundial, só que com travesseiros e almofadas.
As coisas melhoravam a cada minuto, e o tempo passava devagar.
Quando finalmente deram oito horas, já estávamos todas prontas. Cada uma colocou uma roupa básica, afinal eu não sabia se “passar a noite” se referia mesmo a dormir ali. Será que não era bom demais pra ser verdade?
Toc toc. O dono do sorriso mais meigo do mundo atendeu a porta, me fazendo suspirar.
- Chegaram, Harry – ele gritou, sem tirar os olhos de mim. Ele era hipnotizante, realmente era.
Um garoto que parecia ser um pouco mais novo, de cabelos cacheados e olhos verdes apareceu. Consegui sentir Marina me dando uma leve cutucada. Então esse era o famoso Harry? Nada mal, Marina.
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