Faziam exatos quarenta e cinco dias desde que Quinn havia ido embora. Embora da nossa casa, embora da minha vida. Deixando apenas um vazio inexplicavelmente doloroso dentro do meu peito.

Me amaldiçoo todos os dias por ter sido tão estúpido a ponto de deixa-la ir daquela maneira, por ter me perdido entre tanto trabalho, por ter simplesmente trocado minha vida feliz ao lado do amor da minha vida, pela vida gananciosa em que eu me afundei a partir do momento em que comecei a subir na minha carreira. Ser grande e poderoso dentro de uma multinacional que tinha como objetivo vender ações falidas para clientes ingênuos não deveria ser motivo de orgulho.

E Quinn sempre me dizia que eu não precisava daquilo e poderia muito bem usar minhas capacidades de persuasão, adquiridas e aperfeiçoadas em minha faculdade de direito, para o bem, que eu seria grande como advogado e que não precisava mais me afundar naquela vida patética apenas por ganância.

Deixe-me explicar. Assim que me formei na faculdade de direito, Quinn cursava seu ultimo ano de jornalismo, e não tínhamos dinheiro para nada, me mudei do alojamento da faculdade para um pequeno apartamento perto do centro e minha Quinn decidiu se mudar comigo, para começarmos nossa vida juntos como havíamos sonhado durante os dois anos que já havíamos passado juntos. Então, sem conseguir nenhum sucesso em escritórios de advocacia, eu me vi desesperado quando nossas economias estavam próximas de acabar, e de forma alguma eu poderia deixar que Quinn passasse mais aperto que ela já estava passando por minha causa. Aceitei um emprego aparentemente fácil de estagiario para manter o nome de uma empresa de ações limpo diante das jogadas corruptas que cometiam. Em poucos meses eu já fazia parte de seus esquemas e apoiava as ideias de investimentos em microempresas que não dariam absolutamente lucro nenhum para os coitados trabalhadores que investiam, completamente convencidos pela lábia dos corretores e completamente iludidos com a minha capacidade de convencê-los de que tudo estava completamente dentro da lei. Assim que Quinn concluiu a faculdade, nos mudamos para um apartamento maior, e o que eu ganhava já nos proporcionava uma vida muito melhor do que a que tínhamos no começo.

Porem, conforme a empresa foi crescendo, os golpes foram aumentando, e os donos sempre muito espertos, não mexiam com peixes grandes, mantinham-se na linha segura de vender as ações para trabalhadores que investiam suas economias na esperança de terem um lucro dobrado que nunca vinha. Quinn repudiava com todas as suas forças o que eu fazia. Desde que comecei a crescer dentro da empresa e ela descobriu o que realmente fazíamos, ela insistia todos os dias que eu deveria deixar esse emprego e procurar outro em uma área descente em que eu pudesse realmente ajudar as pessoas.

Eu a ignorei as milhões de vezes que ela tentou me convencer, pois eu estava simplesmente tomado pela gana de mais, de ter mais. Um ano se passou e eu comprei um apartamento em uma cobertura incrível em Miami, com dois andares, piscina, churrasqueira, e agora estou miseravelmente sozinho deitado em nossa cama king size, sem Quinn, sem minha felicidade.

As coisas pioraram na primeira vez que me deixei levar e me embebedei com todos que trabalhavam comigo. O lucro mensal havia sido tanto que saímos e perdemos completamente a noção e o controle das coisas, bebi mais do que pensei que seria capaz de aguentar, e como eu trabalhava com idiotas que não se importavam com nada alem de seus traseiros infelizes, acabamos nos metendo em uma briga no bar e Quinn teve que me buscar na delegacia em que eu estava detido por desacato a autoridade. Me lembro perfeitamente do quanto minha garota gritou comigo naquela noite, ela parecia estar a beira de um ataque de nervos enquanto jogava na minha cara o nível que eu havia chegado. Apesar de ainda estar com muito álcool correndo no meu sangue, me lembro de chegarmos em casa e Quinn desabar em nossa cama, chorando desesperada, me pedindo para voltar a ser o Noah dela, me pedindo para simplesmente abrir os olhos e esquecer tudo onde eu havia me metido. Quinn me pediu para voltar pra ela, e eu simplesmente a ignorei.

Maldita seja esse Noah que eu me tornei. Eu tirei de mim mesmo o que eu tinha de melhor, a única coisa boa e pura que eu tinha em minha vida. Perdi minha Quinn, minha luz, minha felicidade, a troco de nada.

Um dia desses, andando na rua de noite, eu havia tomado alguns calmantes e tinha em uma das mãos uma garrafa de bebida, não me lembro de qual tipo, mas certamente era alguma que continha um alto teor alcoólico, eu simplesmente passei a ter alucinações, para cada lado que eu olhava, eu via o rosto de Quinn, parecia que ela estava em toda parte me olhando, me vigiando, com aquela expressão desapontada que não abandonava seu rosto nos últimos tempos. Cheguei a correr atrás de uma moça que fugiu desesperada de mim, achando que poderia ser realmente a minha Quinn. Tudo em vão.

E quando penso que nada pode piorar, Santana, uma grande amiga minha e de Quinn, chega no meu apartamento furiosa, me amaldiçoando por ter deixado minha Quinn mal. E o pior de tudo é ter que concordar com minha amiga, eu fui de príncipe encantado a pior vilão do nosso conto de fadas, eu destrui tanto Quinn por dentro ao longo dos anos que quando dei por mim tudo estava irreparável e os pedaços de seu coração tão puro estavam contaminados com a minha infeliz falta de caráter.

Eu nunca trai Quinn. Meu corpo seria incapaz de traí-la, minhas células rejeitavam qualquer tipo de aproximação de qualquer outro ser humano que não fosse a minha pequena. Já tive muitas tentações, mulheres tão desejáveis que qualquer babaca daria a própria vida para estar com eles, pessoas que viviam de luxuria, da podridão do mundo do sexo pago. Mas nessa desgraça eu posso me orgulhar em dizer que nunca cai, nem tomado pela pior das bebedeiras, eu simplesmente recusava qualquer pessoa. E nesses dias, quando eu chegava em casa e encontrava minha Quinn dormindo como um anjo, eu agradecia aos céus por ter a perfeição ao meu lado.

Ao mesmo tempo que eu tentava convencer a mim mesmo que o que eu fazia era errado, outra parte dentro de mim gritava para que eu continuasse, eu queria dar a vida mais perfeita do mundo para Quinn, queria que ela pudesse ter tudo, que ela trabalhasse apenas se quisesse, por hobbie, queria lhe dar o melhor carro, os melhores presentes e os melhores passeios. No dia em que cheguei em casa com a chave de um iate e lhe entreguei de presente, Quinn chorou e me abraçou, pedindo novamente que eu não me afundasse mais nesse mundo em que eu estava. Senti como se ela estivesse me ofendendo por negar um presente tão caro e cheio de significado, e no mesmo momento em que viu a decepção nos meus olhos, Quinn puxou o cordão de seu pescoço e revelou uma corrente prateada com um pingente simples de estrela que eu havia dado a ela no inicio do nosso namoro, e ela gritou na minha cara que aquele sim era um dos melhores presentes, por todo o significado que tinha. Meu chão seu abriu sob meus pés, a visão de Quinn chorando agoniada e me balançando pelos ombros nunca irá sair de minha miserável mente.

Como eu queria voltar atrás. Como eu queria ter dado ouvidos a ela na primeira vez que ela me pediu para largar tudo e voltar para o caminho certo. Eu queria tê-la aqui. Eu daria tudo de mim para ter Quinn de volta.

Tudo o que eu sentia eram dores insuportáveis por todo o meu corpo, abri os olhos com dificuldade e tudo o que enxerguei foi uma luz branca, comecei a lembrar de alguns flashs de memória dos meus últimos instantes antes de chegar naquele lugar.

Sai de casa determinado a ter Quinn de volta, eu escalaria o prédio de Brittany e faria o que fosse preciso para tê-la de volta. Já estava com meu discurso pronto, flores e chocolates comprados, os mais simples, do jeito que Quinn gostava, já que os últimos presentes que tentei mandar, ela recusava e os mandava de volta para que eu sofresse em minha miserável solidão. Me lembro de pegar o carro e dirigir com atenção, eu estava sóbrio, coisa que eu não havia conseguido ficar no ultimo mês, estava com uma roupa que eu sabia que ela gostaria, com minha jaqueta de couro que ela tanto gostava de se esconder dentro no meio dos nossos abraços, eu iria tê-la de volta. Porem tive a infelicidade de cruzar uma rua onde estava havendo uma perseguição de carros, policiais atrás de bandidos, e tive o infeliz azar de receber o ataque de alguma bala perdida, que perfurou a lataria do meu luxuoso carro e me atingiu certeiramente na perna esquerda, fazendo com que eu perdesse o controle do carro e capotasse incontáveis vezes.

Depois disso me lembro de gritos, pessoas apressadas ao meu redor, mãos me resgatando, me lembro de um frio me atingindo e por ultimo dos olhos, aqueles olhos verdes tão marcantes, os olhos da minha menina, minha Quinn, Quinn! Ela esteve aqui, eu a vi, não é apenas um delírio, ela veio ao meu socorro.

Senti meu coração disparar e meu corpo começar a perder o controle da situação, ao longe ouvia as vozes desesperadas dos médicos pedindo que me injetassem remédios que eu nunca havia ouvido falar, um deles gritou que estavam me perdendo, e eu me desesperei preso dentro de um corpo imóvel. Eu não iria morrer, apesar de todos os meus erros e de eu merecer ter esse fim tão infeliz, eu não morreria, eu não deixaria Quinn, não perderia minha Quinn mais uma vez. Me recuso a simplesmente morrer sem ter passado uma vida ao lado da mulher que eu amo.

Lutei contra mim mesmo com todas as minhas forças, não permiti que meu espírito sucumbisse as forças que tentavam separá-lo do meu corpo. Ao longe ouvi um bipe que indicava que meu coração voltava a bater lentamente, ritmando seus movimentos aos poucos, e deixei que o alivio tomasse conta de mim por um instante. Eu lutei e venci a morte pela minha Quinn, irei acordar e tê-la de volta.

Não percebi o momento em que adormeci, mas me lembro de acordar preso a aparelhos, com tubos no nariz, ouvindo os bipes das maquinas que estavam ligadas a mim. Antes que eu pudesse abrir meus olhos ouvi uma voz grossa que aparentava pertencer a um médico, e me concentrei em ouvir suas palavras.

- Pode-se dizer que por um milagre o senhor Puckerman está vivo, e ele pode demorar mais alguns dias para acordar

- Mas já fazem quatro dias Doutor – reconheci o desespero na voz de meu irmão Jake

- Sei disso, mas ela está vivo, e estamos fazendo de tudo para que ela continue se recuperando

- Ele ficará com alguma sequela Doutor? – foi a vez da voz de Marley se fazer presente

- Possivelmente – ele respondeu – Apenas saberemos quando ele acordar

- Podemos fazer alguma coisa para acelerar esse processo? – Santana perguntou com a seriedade estampada em sua voz

- Conversem com ele. Sabemos que não se trata de um coma profundo, então pode ser que os estímulos de vozes conhecidas acelerem o reconhecimento de seu cérebro pelo tempo e espaço em que ele se encontra

- Obrigada Doutor – os três responderam em uníssono, e eu senti o desanimo invadindo meu consciente com o pensamento de que Quinn não estava ali

- Seu marido realmente tem muita sorte em estar vivo Quinn

Quinn? Ele disse Quinn? Então Quinn estava ali! Minha Quinn, como eu pude pensar que não estaria. Minha esposa, ela se identificou como minha esposa. Senti meu coração errar uma batida e os aparelhos apitarem sonoramente ao meu lado.

- O que é isso? O que está acontecendo? – a voz desesperada de Quinn, beirando as lagrimas, se fez presente em meu pensamento

- Enfermeira! – o medico gritou

Usei de todas as minhas forças para abrir os olhos, e quando os abri, consegui fixa-los nos olhos aflitos de Quinn. Sorri fraco ao vê-la gritar meu nome e explodir em um choro desesperado. O medico começou a me examinar e fazer procedimentos que eu não conseguia prestar atenção ao meu lado nas maquinas que estavam presas em mim. Tudo passou insignificante pra mim, o que me importava era ver Quinn entre os braços de nossos amigos, me encarando com uma sombra de alivio em seus olhos.

- Q-uinnie .. – minha voz estava falhada e completamente rouca, tentei chamar um pouco mais alto – Quinn .. eu .. minha .. Quinn .. quero

- Noah! – ela exclamou se desvencilhando dos braços de Santana e correndo até a beira da minha cama – Oh Noah!

- Ele está bem! – o medico falou animado – Ele provavelmente está muito cansado agora, foi realmente uma luta difícil, mas está estável e bem

- Obrigada Doutor – Santana falou com a voz embargada pelo choro presente

- Q-uinn ..

- Shiu meu amor – Quinn falou passando uma mão acariciando suavemente meu rosto – Não se esforce

- M-meu amor – sorri repetindo as palavras dela

- Eu estou aqui amor – ela beijou minha mão e continuou acariciando entre meus cabelos – Estou aqui

- V-volta – respirei fundo tentei novamente – Volta pra m-mim? – suspirei novamente ao vê-la com lagrimas caindo dos olhos – E-eu larguei .. tudo.. Só v-você – apertei os olhos com a dificuldade em falar e tentei novamente – Só v-você importa. E-eu só q-quero você Quinn!

- Eu te amo tanto Noah – ela selou seus lábios nos meus suavemente e eu senti como se todas as forças estivessem voltando para o meu corpo – Eu nunca deixei de ser sua.

- Eu te amo Quinn, só você

Notas finais
Oi, aqui é a MahhLeal..

Espero que gostem do momento de inspiração que guiou essa história a fluir naturalmente.

Beijos
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!