Tabula rasa
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Espero que gostem!
Não importa quantas vezes tenham rabiscado, as folhas sempre podem ser arrancadas, novas páginas escritas, e uma história transformada.
Não vou mentir, é um processo doloroso.
I- Sob o adejar¹ do destino
Lúcida e sem o desespero da noite anterior, quando sonhara com Sirius sendo capturado e Harry Potter sendo levado como cúmplice, ela sentou na cama e lutou contra o desejo de perguntar ao amigo se ele vinha recebendo mensagens do padrinho. Era perigoso demais manter contato com alguém procurado por todos os aurores ingleses. Não queria que o amigo se colocasse em risco, embora Sirius Black parecesse — embora disfarçasse — gostar das atitudes levianas de Harry.
Faltavam dez dias para o retorno das aulas. Ainda passaria um período considerável na companhia dos pais e dos amigos dentistas, acompanhando com enfado as conversas sobre canais, cáries, exodontias e profilaxias. Dizer adeus aos amigos sempre ficava mais difícil quando se lembrava dos passeios cansativos e de todas as restrições ao açúcar que enfrentaria na companhia dos pais. Hermione adorava ficar com sua família, tinha orgulho da origem trouxa, e sentia-se acolhida quando estava com seus pais, mas não reclamava quando era chegada a hora de partir. Não poderia, no entanto, comparar-se a Harry que, provavelmente, rezava todos os anos para que as férias durassem o menor tempo possível.
Férias. Viajariam até a aldeia de Somerset, em Wrington, e Hermione teria a oportunidade de escolher o "roteiro divertido" da viagem enquanto seus pais ficavam presos às conferências de odontologia por três dias. O acordo foi que, durante o período em que estivessem ausentes, dariam a filha permissão para alguns poucos passeios não assistidos por um adulto, à lugares onde ela se sentisse um pouco mais confortável.
Enquanto terminava de arrumar sua mala de viagem, Hermione notou como o quarto parecia pequeno agora que ela já tinha catorze anos. Suas bonecas estavam ensacadas individualmente e por ordem cronológica, seguindo as data em que foram compradas ou ganhadas.
Hermione sabia que a mãe sentia muita falta dela durante o período em Hogwarts, de modo que organizar as coisas da filha era uma maneira de tê-la por perto.
Apenas uma cama rosa e um guarda-roupa com ursinhos desenhados ainda davam ao lugar o aspecto de quarto infantil. Hermione já havia mudado os lençóis, as fronhas e as cortinas. Estava em um período de transição da infância para a adolescência e esse ritual de passagem estava se cumprindo lentamente.
—Terminou de fazer as malas, querida? Se quiser posso ajudá-la.— Jane Granger perguntou assim que entrou no quarto da filha.
Hermione, que estava sentada na cama, analisando todos os pertences e, eventualmente sentindo-se estranha naquele lugar impecável e praticamente intocado, sorriu para a mãe.
— Não, mãe, está tudo bem. — Hermione respondeu, mas arrependeu-se assim que percebeu uma sombra de desapontamento no semblante de Jane. — Bem, na verdade, eu preciso de uma bolsa reforçada para levar meus livros.
—E onde está a bolsa que sua tia Ellen deu no ano passado. Você costuma andar com ela em todo lugar. — Jane perguntou.
— Eu não sei. Devo tê-la deixado em Hogwarts. — a garota mentiu.
— Você precisa prestar mais atenção em suas coisas, mocinha. — a mãe bronqueou— Não posso cuidar de você para sempre. Mães não são eternas! Vou emprestar minha bolsa, mas seja responsável e cuide dela.
Hermione sabia que aquele discurso era o preferido de sua mãe. Sabia, também, que ela precisava dele para sentir que ainda mantinha o controle da família. Ter uma filha bruxa, que possuía autonomia para realizar quase todas as suas tarefas sozinha, e ainda fazê-las melhor do que qualquer pessoa bem treinada, era uma realidade de difícil adaptação.
A garota sorriu enquanto a mãe dava um longo e cansativo sermão. Era melhor assim, enquanto as coisas ainda pudessem ser normais, deveriam ser mantidas desta forma.
—x—
Ele estava faminto. Correra duas vezes em volta do lago para esquecer seus problemas juvenis — e pouco importantes, ele admitiria no futuro.
Com as férias chegando ao fim, e os rumores que seu pai escutara nos corredores do Ministério da Magia sobre Hogwarts ser a escola escolhida para sediar o próximo Torneio Tribuxo, seus nervos estavam à flor da pele.
"Tente ser escolhido, e vença em alguma coisa uma vez na vida." Foi o que Lucius Malfoy falou a princípio, mas duas semanas depois se calou e resolveu que ficar trancado em sua sala de leitura, mantendo o mínimo contato — alguns dias não chegava sequer a descer para as refeições— com seu filho e esposa, era o melhor a ser feito.
Das vezes que Draco se lembrava de ter visto Lucius, notou que ele massageava o antebraço esquerdo constantemente, e os elfos domésticos estavam sempre seguindo o seu senhor, levando bandagens, bacias cheias de pomadas esquisitas e poções que Draco desconhecia.
Lucius havia perdido peso e suas bochechas estavam fundas. Ele ainda tinha olhos e ouvidos para Narcissa; os conselhos da esposa nunca eram desprezados. Mesmo que ele demonstrasse certo desdém ao ouvir as palavras da bela mulher, ainda assim, realizava aquilo que ela sugeria.
Foi numa das noites insones, planejando métodos para burlar a seleção do Torneio Tribuxo a fim de poder entrar na competição, que Draco olhou o relógio exuberante de seu quarto e, percebendo o avançado das horas, resolveu caminhar um pouco pela casa, ler algum livro ou tomar um copo de cerveja amanteigada.
A mansão estava silenciosa. O melhor horário para perambular pelos corredores escuros da Mansão era durante a noite. Os quadros ficavam em silêncio absoluto, como todos os três moradores vivos da casa.
Exceto pelo quarto de Lucius e Narcissa, onde, naquela noite, sussurros e cochichos podiam ser ouvidos quando Draco passou pela porta.
—Estou sendo chamado, Cissa. — a voz fraca e fria de Lucius ressoou por entre os vãos da porta. Draco apertou as orelhas na madeira com tanta força que sentiu o relevo dos entalhes marcando a cartilagem.
—Mas... Já? — Narcissa parecia alarmada, assustada até. —Você tem certeza?
—Malcebier, Goyle, Crabbe, Nott, Parkinson... Todos sendo chamados novamente. A primeira aparição acontecerá na Copa Mundial de quadribol.
—Você atenderá o chamado?
—Só quando a situação se tornar muito evidente. Não é como antigamente, ainda, mas sinto algumas dores e não acho que seja apropriado ir ao Ministério, não com o verme do Weasley me encarando como se soubesse de algo.
Narcissa suspirou, e Draco poderia dizer que ela havia torcido o nariz à menção do sobrenome "Weasley".
—Lembro-me como se fosse hoje. Você ficou com o braço imobilizado por semanas da primeira vez. Nos casamos e você mal conseguia segurar meu braço até o altar.
—Um homem deve escolher suas prioridades, e naquele momento, eu era um soldado. —Lucius sussurou, sem doçura alguma na voz. Apenas atestou um fato que Narcissa estava ciente desde o dia em que aceitara se casar com ele. — Pela graça de Salazar você não fazia o tipo romântica. Foi um acerto ter casado com você, embora seu pai não parasse de me empurrar suas outras irmãs.
— Não consigo enxergá-lo casado com Andrômeda. Ottery St. Catchpole faz muito mais o estilo dela. Esta mansão estava destinada a ser minha — Narcissa falou com desdém. Pronunciar o nome da irmã parecia difícil e algo que ela detestava fazer.
Subitamente eles ficaram em silêncio, e Draco se afastou da porta do quarto do casal, pois era possível que ele tivesse feito algum barulho e, na adrenalina por estar cometendo uma das mais graves infrações de sua casa —ouvindo conversas atrás da porta— não percebera.
Ele refez o caminho, voltando para o quarto e esquecendo-se completamente da cerveja amanteigada. Estava, agora, curioso demais para poder dormir. Seus pais conversavam sobre algo muito sério, o que podia ser percebido pelo tom de voz de Lucius. Algo estava incomodando o altivo, arrogante e inatingível homem, pois ele carregava medo em sua voz, e uma solene reverência ao mencionar a dor no antebraço que Draco jamais vira o pai ter por coisa alguma, mesmo seu avô.
O corredor até o quarto era bonito na opinião de Draco. Cheio de quadros antigos com fotos dos antigos moradores da casa. Sua bisavô, Verna Malfoy, dormia tranquilamente em uma das molduras douradas que ocupava. Descrita como a mulher mais inteligente de sua época, e conhecida por descobrir a cura para as doenças transmitidas pelos piolhos de Occamis.
Não estava autorizado a tirá-la da parede, mas sempre que passava perto do quadro, fazia questão de cumprimentá-la, ou contar sobre seu dia.
—Boa noite, Verna. — ele sussurrou, temendo ser ouvido por seus pais.— Eu vou descobrir uma maneira de participar deste torneio. Deixarei todos orgulhosos e meu quadro será colocado junto ao seu. Isso é claro, se ele não ficar do lado do seu.
Malfoy saiu, confiante e cheio de si. O diálogo dos pais não sumira de seus pensamentos, mas ele optou por colocá-lo numa caixa isolada em seu cérebro, porque não tinha tempo nem disposição para se preocupar com as conversas das quais ele não não fora convidado a participar e que deveriam ser mantidas em segredo. Quando seu pai resolvesse abrir a boca, ele dedicaria sua atenção ao assunto.
—x—
Na casa de Owen Silverstone não havia ninguém da idade de Hermione, por isso, a viagem tornou-se mais fastidiosa do que o planejado. O homem de cabelos castanhos e barba cheia era um dos dentistas mais famosos de Londres. Realizava cirurgias em toda a Europa e pelo mundo através de projetos humanitários.
Além de dentista, era um grande apoiador das causas menor expressão dentro da sociedade, como a proteção dos trabalhadores rurais de Highferret, condado quase inexistente no sul da Inglaterra
Hermione admirava essa característica de Owen. Ela mesma sentia-se impelida a lutar por algo, só não sabia o quê. Brigar por seus direitos como nascida-trouxa parecia contraproducente, pois em Hogwarts não havia com o que se preocupar, Dumbledore mantinha as rédeas curtas quando o assunto era a proteção de trouxas, nascidos-trouxas e minorias em geral.
Na primeira manhã da viagem até Wrington, Owen e os pais de Hermione saíram para a primeira sessão de palestras da conferência regional de dentistas e cirurgiões bucomaxilofaciais. Falariam sobre assimetria, má formação dos ossos da face e tantas outras coisas que fariam Hermione implorar por coisas como aulas de adivinhação.
O amigo do senhor e senhora Granger deu à Hermione o endereço da biblioteca local. Ele conhecia bem a garota, por isso sabia que estava confiando à ela um tesouros em forma de papel.
A biblioteca de Wrington era modesta, mas a bibliotecária era bastante amável, diferente de Madame Pince, e indicou bons livros para Hermione passar o tempo. A literatura trouxa era muito boa, principalmente os livros de história e romances clássicos.
—Bom dia, senhorita— a mulher cumprimentou Hermione quando a viu na biblioteca pela a segunda vez naquela semana.—Sua presença neste lugar coloca por terra minha teoria de que garotas da sua idade não se importam com cultura.
—Bom dia, senhora Hawthorne. Tenho prazer em ser a exceção. — Hermione respondeu sorrindo.
A garota rumou até a estante de filosofia trouxa. Sabendo que ali estavam guardadas obras que influenciaram boa parte do pensamento da sociedade na qual ela também estava inserida.
Apesar do chão de taco e dos móveis de madeira frágil, a seção era muito tentadora para alguém que nunca havia tocado em um livro de filosofia.
Hermione puxou as biografias de Thomas Hobbes e Montesquieu, e levou até a mesa de leitura, onde duas garotas davam risinhos abafados. Deveriam ter a mesma idade que Hermione, mas, claramente, não possuíam os mesmos interesses que ela.
—John Louco — a mais magra falou, e a outra explodiu numa gargalhada imbecil.
Elas estavam segurando um livro robusto, antigo e cheio de detalhes na capa. Hermione logo se interessou pelo exemplar.
—Odeio essas tarefas de férias, Lena. — a garota mais encorpada comentou, revirando os olhos e jogando o livro na mesa como se ele fosse algum inseto nojento.— Dylan e Kyle estão na sorveteria hoje, sabia? Eu morreria para estar lá.
—Nós podemos fazer isso depois, Hayden— a primeira garota falou com escárnio — temos o verão inteiro. E se não conseguirmos terminar no prazo, pedimos para Olívia nos passar o trabalho dela. Aquela fracassada não deve ter tido tempo de fazer outra coisa além ficar em casa fazendo tarefas.
—Com aquela aparência, ela tem sorte por ter nascido inteligente.
Ambas saíram ao som das próprias gargalhadas. Hermione desejou que estivessem na biblioteca de Hogwarts, para que Madame Pince as pendurasse na parede da sala de Filch como castigo.
O livro continuava na mesa e Hermione não hesitou em apanhá-lo para ler e descobrir o que havia de tão engraçado nas páginas de "Ensaio sobre o entendimento humano".
O primeiro capítulo tratava sobre a necessidade de examinar cada um as próprias capacidades e observar com quais objetos o seu intelecto consegue, ou não, lidar. Segundo o filósofo ninguém nasce com ideias prontas, mas adquirem ao longo da vida. A partir dessas ideias, conseguem julgar com o que podem ou não lidar.
"Tabula rasa" era a expressão utilizada. Algo como uma folha em branco pronta para ser escrita por quem chegasse primeiro. E continuaria sendo escrita ao longo da vida, de acordo com as experiências e pessoas que encontrasse no caminho.
Não era difícil pensar em si mesma. Muito de sua personalidade se assemelhava com a de sua mãe. O desejo de controlar o mundo a sua volta e a mania de organização. Não era difícil pensar que ela poderia ser como as garotas da biblioteca se tivesse recebido os estímulos errados e andado nas popularmente chamadas "companhias erradas".
Malfoy também veio em sua mente, não voluntariamente, é claro, mas ele surgiu, num pensamento quase inocente. Em uma constatação bastante cabível para o momento. Se ele tivesse crescido em outro lar, acaso seria uma pessoa melhor? Teria sido sorteado para a Sonserina ou para Grifinória? Talvez para a Corvinal. Ele não seria preconceituoso, nojento e completamente intragável.
Exceto pelo fato de que ela não conseguia visualizá-lo como alguém dotado de sentimentos. Ele era mau
—x—
Copa mundial de Quadribol.
ARQUIBANCADA EXCLUSIVA.
O convite dourado reluzia sob os contornos da lamparina preenchida com uma forte chama azulada. Draco contemplava o pedaço de pergaminho com admiração e orgulho. Ser filho de Lucius Malfoy conferia algumas vantagens bastante atrativas, como um assento junto ao Ministro, Cornélio Fudge durante o evento mais badalado do mundo bruxo.
Lucius continuava estranho, mas havia um brilho obstinado em seus olhos. Quando entregou o ingresso para o filho sorriu, presunçoso e cheio de si.
—Assentos exclusivos ao lado do Ministro, Draco. Trate de impressioná-lo, meu filho, porque hoje faremos história! —o homem deu um tapinha na cabeça do garoto —Nesse dia os trouxas e sangue-ruins vão ter o que merecem.
O garoto sorriu para o pai. Era bom quando ele estava de bem humorado, pois não fazia comentários ácidos à respeito das notas de Draco ou de seu desempenho fraco diante de alunos de tão baixa estirpe.
Se Lucius estava feliz, então ele também ficaria. Se assentos ao lado do Ministro era o que faziam o homem esquecer dos problemas que mencionara à esposa noites atrás, então Draco ficaria feliz em mostrar para todo o mundo como o seu pai era a pessoa mais influente e importante do Ministério da Magia.
—x—
Com a permissão de seus pais, Hermione vasculhou os livros de endereços bruxos e encontrou um excelente vilarejo nas proximidades que seria um bom lugar para comprar presentes para Harry, Rony e Gina. Vestiu sua roupa mais confortável para o calor que estava fazendo, um vestido de mangas curtas, feito de algodão.
Optou por ir a pé, já que era verão e não custaria nada andar um pouco até a taverna do tal Reinand, o homem barbudo que estampava o cartaz publicitário de seu estabelecimento. Era um ex-jogador de quadribol aposentado que fizera muitos pontos como batedor no Chuddley Cannon’s.
A taverna era agradável, tinha o cheiro da comida de hogwarts e Hermione agradeceu por ter trazido alguns sicles a mais para que, na volta, pudesse gastar em um generoso pedaço de torta de rins e suco de abóbora.
Precisou pedir que Reinand abrisse a porta para a vila bruxa, e o homem foi muito simpático ao escrever uma permissão para que ela pudesse frequentar todos os lugares sem a presença de um adulto, já que ela era uma bruxa menor de idade.
A vila, que Hermione descobriu se chamar Alderania, era simples, mas tinha seus atrativos, como as casas caricatas e cheias de elementos que só poderiam pertencer à uma residência de bruxos. Chaminés soltavam fumaças coloridas e tinham sistemas de reconhecimento e facial muito peculiar — uma câmera fotográfica descia e capturava a imagem do visitante.
E havia, também, o restaurante. Hermione se lembrava de ter lido algo sobre o famoso restaurante de Alderania. Qualquer um que ali passasse poderia se encantar com a estrutura requintada e se deliciar com o melhor a da culinária bruxa.
Hermione não quis perder a oportunidade, então foi até o restaurante e admirou a bela construção. Os pilares externos sustentavam pequenos espaços privados, onde as pessoas que quisessem mais privacidade poderiam ficar mais à vontade. A garota entrou no restaurante, ciente de que não poderia arcar sequer com o prato mais barato do menu, apenas por curiosidade.
Então o inesperado aconteceu. Sentado em uma das mesas, Draco Malfoy almoçava com elegância e sorria para uma mulher muito bonita e de feições enojadas, que deveria, ela pensou, ser a mãe dele. O garoto tocou o braço da mulher com respeito e soprou um dos olhos dela.
Ele acabara de retirar um cisco do olho da mãe. Ambos sorriam, como bons amigos e cúmplices.
Malfoy parecia uma pessoa normal. Sorrindo, sendo gentil com ela como o bom filho que era. Hermione não conseguiu tirar os olhos do garoto dentro do restaurante. Ela estava sem palavras e sem pensamentos apropriados para justificar uma atitude tão comum vinda de uma pessoa detestável.
O quão fora do padrão era o fato de que Malfoy estava almoçando com os pais em um restaurante. De acordo com o senso comum — no tocante aos alunos da Grifinória, pelo menos— Draco se alimentava da alma de seus elfos e dormia em um caixão. Não era alguém normal, e sim um garoto cheio de tendências homicidas, predisposição para a vilania e incapaz de sentir algo.
Então ele olhou na direção onde Hermione estava, estática, encarando a doce família feliz. Malfoy não fez escândalo, tampouco deixou que outra pessoa, a não ser ele, visse que Hermione Granger estava plantada no meio de um restaurante fino encarando alguém que ela não fazia questão de dirigir a palavra.
Eles mantiveram o contato visual por alguns segundos, até Lucius chegar até a mesa e entregar ao filho uma bolsa que tilintava conforme era sacudida. Estava cheia de moedas douradas e um livro de Runas mágicas. O garoto vibrou e agradeceu o pai.
Hermione saiu apressada do restaurante, evitando pensar em qualquer coisa que não não fosse voltar para a casa de Owen e esperar seus pais voltarem.
II. Sob a luz
Vejo-te em seda e nácar,
e tão de orvalho trêmula, que penso ver, efêmera,
toda a Beleza em lágrimas
por ser bela e ser frágil.
Meus olhos te ofereço:
espelho para face
que terás, no meu verso,
quando, depois que passes,
jamais ninguém te esqueça.
(Primeiro Motivo da Rosa — Cecília Meireles)
O único motivo para estar no baile de inverno era para provar que não estava se sentindo derrotado por não figurar em todos os jornais como participante do torneio Tribuxo. Com o traje caro e tradicional de gala, Draco observou que todos estavam com roupas inferiores deixando que seu rosto demonstrasse exatamente o que ele pensava dos pobres mortais que cruzavam o salão.
O ambiente estava extremamente iluminado. A luz forte poderia confundir os sentidos de qualquer um que olhasse para cima. Pansy não permitiria, de qualquer maneira, pois estava, negativamente, roubando toda a luz para si. A garota que aparecera envolta num vestido caríssimo, embora horroroso, verde-musgo,cheio de drapeados desnecessários e brilhos irritantes. Ela tentava, com aquelas lantejoulas, atrair para si toda a atenção do salão.
Mas foi o azul que conseguiu.O azul que dominava o ambiente e não era deste mundo.
As madeixas castanhas, macias —ele imaginou involuntariamente— escorriam por cima dos ombros. Seu cabelo estava liso, brilhante, e torcido em um nó elegante na parte de trás de sua cabeça, destacando o rosto brutalmente diferente, mas não irreconhecível, de Hermione Granger.
Os sapatos que deslizavam pelo solo escorregadio e brilhoso pararam subitamente. Sorrisos radiantes, forçados e piedosos, comunicavam a todos os presentes os sentimentos que as palavras não se atreveriam a externar.
Ele segurava Pansy num dos braços. Ela parecia tão embasbacada quanto todo o resto do salão.
A gola alta do traje a rigor selecionado a dedo por sua mãe,e feito especialmente para aquela ocasião nunca parecera uma decisão tão idiota. Estava se sentindo sufocado e limitado de todas as suas funções orgânicas.
No íntimo, porém, ele desconfiava que não era a gola alta, mas a garota coberta pelo azul pervinca, seda e babados discretos, tão discretos como o sorriso tímido que lhe escapava pelos lábios cheios e luminosos.
Os degraus não eram infinitos, e Draco amaldiçoou a escola por isso, pois aquela era uma instituição de ensino para bruxos. Era suposto que os degraus fossem infinitos.
Procurou em sua vasta cartela de insultos um que se adequasse a situação, mas tudo o que conseguiu pensar foi no quanto ela estava deslumbrante. E como ele era muito melhor do que Vitor Krum, de modo que, se desejasse, a teria e, então, todos os olhares se destinariam a ele também.
—Uma vez sangue ruim, sempre sangue ruim. Roupas não mudam isso, muito menos um acerto nessa sua dentadura.— Draco falou, assim que Hermione passou por ele, mas ela não ouviu.
Ele havia finalmente recobrado sua habilidade de insultar Hermione, mas pela primeira vez, não sentiu prazer. Talvez porque estivesse mentindo.
Sangue foi a última coisa que ele pensou quando a viu flutuando pelos degraus, sob a luz. A irritante luz que refletia nas lantejoulas do vestido de Pansy, mas que em Hermione Granger parecia revelar um anjo sem asas. A mesma luz que Malfoy culpou por confundir seu julgamento.
Se fosse louco admitiria que as roupas haviam mudado muita coisa. E se fosse ainda mais insano, diria que, sob a meia luz, numa das salas vazias, ele adoraria descobrir como seria beijá-la.
“Atração física é o que o próprio nome diz: Física. Não envolve nada além de sensações e hormônios completamente desvinculados dos sentimentos.”
Draco repetia isso mentalmente todas as vezes que era obrigado a olhar o rosto — e o corpo— de Hermione Granger, rodopiando nos braços de Krum no salão onde as pessoas pareciam só ter olhos para ela.
Ninguém nasce com ideias prontas, mas adquirem ao longo da vida. A partir dessas ideias, conseguem julgar com o que podem ou não lidar.
Este foi o primeiro momento de percepção. Sob a luz suas convicções conflitavam com o que seus olhos contemplavam, e Draco não conseguia lidar com aquilo.
III. Sob o furor da descoberta.
O amor está mais perto do ódio do que a gente geralmente supõe. São o verso e o reverso da mesma moeda de paixão. O oposto do amor não é o ódio, mas a indiferença
(O Arquipélago — Érico Veríssimo)
A semana dos N.O.M’s era deseperadora. Os alunos estudavam como se suas vidas dependessem disso — porque dependia— e como se o futuro profissional de cada um estivesse cravado naqueles pergaminhos — e surpreendentemente estava.
Hermione cumpria com seu cronograma diário. Às vezes estudava com Ronald e Harry, às vezes preferia ficar sozinha. Harry estava estranho, se comportando de maneira agressiva e um pouco mais reclusão, evitando a companhia dos amigos. Era um período difícil para ele, com todas as acusações, o descrédito da comunidade bruxa e a maciça falta de apoio dos colegas da casa. Hermione tentava ajudar como podia, e ele recusava as tentativas da amiga de aproximação.
O sol já estava se pondo quando ela resolveu fazer uma derradeira visita à biblioteca. Sentia que precisava revisar o conteúdo de Defesa contra as artes das trevas, pois o volume de teoria e técnicas explicadas nos livros pouco ajudava na retenção do conhecimento. Páginas e mais páginas com letras miúdas embaçavam a visão de qualquer aluno que ousasse se debruçar sobre os livros maçantes.
Hermione sabia que o ânimo para se dedicar à disciplina também dependia do professor e seu compromisso com a arte de lecionar. Não era o caso de Umbridge, a nova professora pomposa e rechonchuda que parecia achar divertido o ato de impor regras ditatoriais e castigos violentos. Ela contrastava em absoluto com com os babados e acessórios cor-de-rosa.
Hermione não ficaria muito tempo na biblioteca, pois precisava voltar ao dormitório antes do severo toque de recolher que a rabugenta professora — e diretora de Hogwarts— havia imposto. Portanto, atravessou o salão principal correndo e acabou por esbarrar na última pessoa que esperava ver voltando da biblioteca.
Malfoy.
O encontrão foi violento, de modo que ambos caíram no chão. E teria sido uma queda normal se não fosse a ideia estúpida e repentina de Crabbe e Goyle que, a fim de agradar e vingar Malfoy da ousadia de Granger em esbarrar nele, lançaram o feitiço do adesivo permanente ao mesmo tempo para prendê-la ao chão em posição vergonhosa.
Qualquer um poderia prever uma desgraça, tendo em vista os portadores da varinha. Por isso, o feitiço ricocheteou para todos os lados, atingindo não só Hermione, mas Draco deixando ambos colados no chão.
Com violência ele tentou se desgrudar, mas acabou se complicando ainda mais, pois a posição em que se encontrava era humilhante. Colado ao chão com o corpo de Hermione Granger sob o seu.
Qualquer um que olhasse para ambos naquela situação diria que as têmporas e músculos de Draco estavam tão contraídos porque tocar em qualquer parte do corpo daquela garota seria como contaminar a si mesmo e queimar no inferno da purificação do sangue. Mas, estranhamente, não era esse o pensamento que consumia os miolos do garoto, e sim algo muito mais inapropriado.
Ela era fria, ou estava fria, ele sentiu quando os braços acidentalmente se tocaram. As roupas que ela vestia eram comuns e não as habituais vestes escolares. Se Umbridge visse, ficaria uma fera.
Hermione estava segurando a respiração com tanta disciplina que parecia não querer sentir o perfume de Malfoy. Ela estava com o rosto virado, evitando encará-lo e todos os seus esforços estavam concentrados em não ser submetida a qualquer contato físico.
Aquilo irritou Draco. As reações da garota impura, e não merecedora dos privilégios dos genes mágicos, o afrontou de forma perigosa.
—Não torça esse nariz nojento para mim, Granger, pois eu estou me segurando para não vomitar em sua cara. — ele falou com a voz trêmula.— SEUS IDIOTAS, BUSQUEM A AJUDA DE ALGUÉM.
Crabbe e Goyle correram, colidindo um no outro a procura de algum professor, ou qualquer pessoa que fosse mais inteligente do que eles. O que, pode-se imaginar, não seria uma tarefa difícil, exceto pelo fato de que ambos eram criaturas estúpidas e sem nenhuma percepção. Por isso demoraram mais do que Draco imaginava ser possível.
— Você estava se esgueirando por aí, com essa confiança cega, Granger. Sabe que o toque de recolher é uma realidade, não sabe? E que os castigos são horripilantes...
—Porque não consegue lidar comigo, Malfoy? É tão difícil aceitar que sou indiferente a você?! — Hermione finalmente olhou para Draco. — Você não cresce, não supera, não aceita. Pare de falar comigo, Malfoy. Não precisamos conversar só porque estamos colados no chão.
O garoto sentiu as bochechas pegarem fogo. A vontade de contrariá-la cresceu no peito de Draco e tudo o que ele quis fazer foi aquilo que ela não queria, porque ninguém era indiferente a ele.
—Você está sozinha.— ele falou — Desde quando anda por aí sozinha? Weasley se cansou da sua companhia? Ou Krum deixou de escrever para você depois que a viu sob a claridade?
Hermione fechou os olhos e começou a rir descontroladamente.
—Intriga você o fato de que eles sejam homens e você uma doninha. Ou seria um dos gatos de Umbridge?— A garota ergueu a cabeça o máximo que conseguiu para enfrentar Malfoy olhando nos olhos dele, demonstrando que a única coisa que o garoto arrancaria dela seriam risadas e o mais puro desprezo.— Você é patético, Malfoy. Não me espanta o fato de que Parkinson morra de amores por você.
Silenciosamente Draco travava uma batalha. Seus pensamentos se alternavam entre continuar debatendo e insultando Hermione, ou ficar em silêncio, tentando ignorar a presença da garota que não parava de incomodá-lo tão somente por estar ali. Havia também um terceiro e diabólico pensamento, que ele fingia não existir. O de aproveitar-se da situação para descobrir o que Vitor Krum vira nela, e se está haviam mesmo, conforme os boatos, passado todas as noites na biblioteca, estudando “anatomia”.
Levantou o rosto, afastando-se do enfrentamento e fitou Hermione, a expressão que ele sustentava era como uma folha lisa, em branco. Ela esperou pelo erguer de sobrancelhas, o esgar, o queixo erguido e pela maneira que ele curvava os lábios em sintonia com o olhar de esguelha que fazia qualquer pessoa se sentir como o mais inútil e imprestável dos seres humanos. Mas ele a estava observando. Estudando, talvez.
Aquele era, sem sombra de dúvidas —pelo menos no imaginário de ambos— o maior período de tempo na história da raça humana que duas pessoas que se odiavam tanto ficaram se olhando sem nenhum motivo plausível para tanto. Hermione sentiu o desejo de piscar, e ajeitar o pescoço, já dolorido por ficar na mesma posição, mas, de alguma forma, ela sentia que aquilo a faria perder a guerra imaginária que Malfoy iniciara.
Minerva McGonagall chegou correndo pelo salão. Olhou para Crabbe e Goyle com tamanho desprezo que, se fosse possível, eles teriam cavado um buraco no chão e entrado nele.
A professora desfez o feitiço, mas não desanuviou a expressão de desdém e desaprovação. Hermione gostaria de explicar que sentia muito e não tivera culpa, que fora emboscada por aqueles garotos idiotas, mas o olhar de Minerva não dava margem para explicações, e o salão já estava cheio demais. Alunos de várias casas surgiram de todos os lugares e fendas da escola. Alguns riam, outros comentavam o absurdo que era dois alunos se agarrando daquela forma no meio do salão. Por isso, ela tão somente levantou-se e saiu de cabeça baixa em direção à torre da Grifinória.
Malfoy também fez menção de se levantar, e Hermione deu uma rápida olhada para trás. Ele estava sorrindo, um de seus sorrisos que mostravam apenas uma parte dos dentes, daqueles que dividiam o rosto do garoto em duas partes. E uma piscadela quase imperceptível.
Uma piscadela.
Draco Malfoy almoçava alegremente com os pais, como se fosse uma pessoa normal, Draco Malfoy não dirigira insulto imediato à sua aparência quando ela desceu as escadas revelando sua transformação. Ele ficara em silêncio, a encarando com uma expressão enigmática. Agora ele sorria, e dava piscadelas.
Hermione não estava pronta para lidar com aquilo, pois, até o momento, seis anos depois de o ter conhecido, ela nunca vira necessidade de realizar um estudo filosófico e sociológico sobre a personalidade de Malfoy, mas havia algo de humano em almoçar com sua família aos risos, ou ajudar uma colega de casa a atravessar uma poça de lama sem se sujar. Algo não batia com a sua sordidez supostamente pré definida desde o nascimento, ou seus genes de manipulador assassino e psicopata.
—Tabula rasa— ela repetiu baixinho.
O livro que havia lido há quase um ano agora voltava à sua memória. Draco Malfoy e a possibilidade de ainda existir uma página limpa para que novas histórias pudessem ser escritas, novas experiências adquiridas.
IV. Sob o jugo da fraqueza humana
Lucius Malfoy estava preso. Duas noites seguidas Draco sonhara com a alma do pai sendo sugada por dúzias de dementadores.
Narcissa mantinha-se apática e passiva diante dos acontecimentos. Inquéritos é uma chuva torrencial de perguntas eram feitas todos os dias. Ele não culparia a mãe por estar sucumbindo à letargia, vergonha, medo e conformismo, porque também sentia vontade de desistir de tudo, quando se lembrava da situação vexatória em que se encontrava.
A vingança era um sentimento que vinha correndo seu corpo e mente. Tudo o que conseguia pensar era em Harry Potter pagando pelo mal causado à sua família. Potter sendo esmigalhado pela solidão e pelo medo.
Ele tinha prometido que aquela seria sua última garrafa de hidromel, mas isso havia sido dito para as últimas duas.
Ser o homem da casa era, para dizer o mínimo, perturbador. Tinha compromissos e responsabilidades que não estava preparado para lidar aos dezesseis anos, tais como ordenar um exército de 170 elfos domésticos que viviam em função da Mansão Malfoy e precisavam fazer alguma coisa útil.
Quando Voldemort chegou em sua casa anunciando que a Mansão dos Riddle já não era apropriada para sua base de guerra e, como oferta graciosa pelos erros de Lucius, Draco teria o dever de aceitá-lo ali juntamente com seus comensais fiéis, tudo se tornou ainda mais difícil.
No quarto, ao anoitecer, ele pedia para Guilin, o elfo mais velho da Mansão, trazer uma taça de vinho. O vinho ajudava a dormir e, pela manhã, dava-lhe a coragem necessária para olhar o Lorde nos olhos e aceitar a missão que colocaria as coisas em ordem na dívida de Lucius Malfoy.
Beber era uma fraqueza, Draco admitia, mas seu pai estava longe para poder controlar isso, e sua mãe sequer saberia para poder se importar.
—x—
Os boatos eram que Malfoy estava bebendo. Nas aulas de transfiguração ele sempre chegava atrasado com hálito forte de álcool. Não prestava atenção nas perguntas e sua mente parecia distante enquanto os professores explicavam a matéria.
Malfoy estava sozinho, empenhado em ficar livre de qualquer pessoa que tentasse se aproximar. Era uma nova fase do garoto que já não perdia tempo insultando Harry, Rony e Hermione, mas saía sozinho para o cabeça de Javali e voltava ainda mais estranho do que o habitual.
Estatisticamente falando, duas pessoas, ainda que diametralmente opostas, estavam fadadas a ter pelo menos uma coisa em comum. Naquele caso em específico, era a solidão. Ambos tinham seus problemas — não que Hermione quisesse saber quais eram as amarguras de Malfoy, e vice-e-versa — mas ele almoçava como uma pessoa normal, era gentil com garotas aleatórias e bebia, como uma pessoa que tem problemas, e não um ser superior acima de tudo e todos.
Todas as sextas ela encontrava Malfoy espalhado em algum canto escondido, resmungando e tentando enfeitiçar baratas que passavam nas paredes.
— O que você pretende fazer quando enfeitiçar todas elas? Guardá-las em um pote? — Hermione questionou casualmente.
—Não estou encontrando a porta do sala comunal. — ele respondeu com a voz um pouco falhada. —Preciso passar o tempo.
Ele estava em frangalhos. Bêbado, sujo, ferido e quase inconsciente. Hermione não conseguia sentir algo que não fosse compaixão pelo garoto que, aparentemente, tinha problemas demais para se lembrar que quem lhe dirigia a palavra era sua arquiinimiga Hermione Granger.
—Malfoy…
—Bebidas são para pessoas fracas. Meu pai sempre disse que eu era fraco, abaixo das expectativas da família. —ele riu, soltando um barulho engraçado pelo nariz— então eu devo beber, porque ele não está vendo.
— E você gosta de agradar seu pai?
— Eu fui criado para isso.
—Eu também. — Hermione comentou, sentando-se do lado de Malfoy.
—Você é uma nascida trouxa, eu deveria estar preocupada com sua presença — ele tossiu— e proximidade.
Hermione revirou os olhos, provavelmente porque sabia que se arrependeria de ter feito algo, e puxou Draco pelo braço colocando-o em volta de seu pescoço. Ele estava ainda mais pesado, pois o corpo, sob os efeitos da bebida ficava relaxado e desconjuntado, então não foi sem dificuldade que ela carregou Malfoy até o banheiro feminino do primeiro andar, que era o mais próximo que ela conseguiria chegar.
— Eu estou sóbrio,Granger. Não coloque suas mãos em mim. — ele ordenou. Alto demais para alguém que estava fora da cama tão tarde.
—Cale a boca seu idiota. Filch pode ouvir, ou Madame Norra. — Hermione empurrou Draco pela porta do banheiro, verificando os dois lados do corredor antes de entrar em seguida.
A murta estava lá, irritante e faladeira como sempre. Mas preferia quando os garotos vinham sozinhos, por isso, não incomodou muito os dois intrusos em seu banheiro.
Antes de trancar a porta, a garota fez uso do mais novo feitiço aprendido no livro que Harry andava usando nas aulas de poções. Abafiatto.
Hermione não sabia como lidar com pessoas alcoolizadas, e a situação se agravava ainda mais por ser Draco Malfoy o bêbado em questão.
Antes, porém, que pudesse falar ou fazer alguma coisa, ela ouviu o som característico de soluços e pequenos murmúrios. Draco chorava, como um ser humano normal. Ela descobriu quando viu o garoto debruçado no chão apertando o antebraço com força e balbuciando palavras ininteligíveis.
— Você está tão ferrado. — ela falou.
— Eu estou morto. Comemore, Granger.
As palavras tiveram o efeito contrário em alguém que, supostamente, deveria ficar feliz com aquilo. Seria o fim merecido para uma pessoa que no alto de seus dezesseis anos já fizera tanto mal.
Mas e a culpa de Malfoy, onde estava? Ele era um garoto normal que almoçava com os pais, ajudava colegas de classe, bebia como uma pessoa que sofria e chorava como um ser humano dotado de sentimentos, e medos. As diferenças entre ele e Hermione eram abismais, mas isso se dava ao fato de que ambos haviam sido criados de maneira diferente.
—Não vou agradecer por isso. Não espere que eu o trate como você me trata, porque sou diferente, Malfoy. — ela tomou fôlego — Em minha Tabula foram escritas coisas boas.
Ele não entendeu o que Hermione disse, por isso ignorou o que ela estava tentando dizer.
— Eu preciso beber — ele disse, alheio ao desespero de Hermione em querer dizer que ele poderia ser reescrito, refeito, pois as experiências novas também poderiam mudar uma pessoa e se tornarem cruciais na mudança de caráter e perspectiva.
— Você não vai beber. — ela foi incisiva.— Primeiro tomará um banho e depois dormirá.
—Sonserinos trabalham com barganha, Granger. — o garoto levantou a cabeça e olhou para ela. — O que você me dará em troca?
— O meu tempo. — ela respondeu, sabendo que aquilo não seria suficiente, mas sentando-se ao lado dele na espera de uma contraproposta.
— Estou prestes a morrer, então o que recomenda?
—Recomendo algo que nunca fez antes, e nunca se imaginaria fazendo. — ela olhou para o teto azulejado, imaginando o que faria se aquele fosse seu último dia de vida.
Sentiu os lábios de Malfoy em seu ombro, não a sensação real, pois as vestes escolares cobriam a pele, mas a pressão e o calor do hálito do garoto abafado sobre o tecido. Ficaram assim por horas, séculos, milênios, até Hermione perceber que Malfoy estava ressonando.
Draco dormia, como qualquer pessoa normal, e parecia sereno, a despeito das perturbações das quais era vítima.
V. Sob o jugo das más escolhas.
Hermione ficou dois meses na estrada em busca de algo declarado perdido pelo próprio Professor Dumbledore. Harry e Rony disputavam o espaço de Macho Alfa na barraca, e todos conviviam como se aquele fosse o último dia de vida deles.
Dentre os maiores questionamentos existenciais do ser humano, Hermione ia além das habituais perguntas: “Quem somos?, “De onde viemos? e “Para onde vamos?” Ela se estendia para: Quais as reais motivações de Malfoy? Porque ele agia de forma piedosa, inexcrupulosa e, em seguida, duvidosa?
Ele a salvara. Era incontestável, não podia se abster da sua observação tipicamente racional. Draco Malfoy, ainda que indiretamente, e por razões nem um pouco altruístas, salvara a sangue ruim, sabe- tudo que ele, embora alcoolizado, discreta e inocentemente beijara no ombro.
Ele tinha algo de bom, e Hermione Granger notou isso quando leu medo em seus olhos, ou quando sentiu em seu corpo coberto a pureza dos lábios que já haviam proferido insultos imperdoáveis à sua pessoa.
Se ele não havia perdido sua alma para o lado sombrio, talvez houvesse esperança. Mas, a nova pergunta que ecoava com insistência em sua mente era: seria justo haver esperança para Malfoy?
Ela lutava pela justiça, muito mais pela igualdade. A maturidade fê-la enxergar que não poderia separar os indivíduos entre bons e maus exclusivamente, mas não acreditava, ainda assim, que os maus eram as vítimas; todos têm uma escolha, ainda que esta não lhes tenha sido devidamente apresentada ou delineada.
Sirius havia sido o exemplo de uma criança que teve todos os motivos para acreditar no discurso, ridículo, de pureza que sua família tanto prezava .Ele tivera tudo — e mais um pouco — para optar pelo mal, mas não o fez.
A mente da bruxa mais inteligente que a Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts conheceu funcionava logicamente. Não costumava justificar os erros dos outros se baseando em histórias tristes de crianças que foram condicionadas a venerar uma crença devido a sua criação. Não tinha pena. Não achava justo que alguém, em algum lugar do mundo bruxo, tivesse lutado, desvencilhando-se de sua família, desgarrando-se de tudo o que lhe era suposto acreditar, possuísse o mesmo valor que um garoto mimado e covarde, cujo a possibilidade de olhar para o caminho do bem nunca passara pela cabeça. E justiça era o forte de Hermione Granger.
O ser humano é uma tábula rasa. Era o que o filósofo Trouxa dizia. Todos os indivíduos nascem tal qual uma folha em branco. São fruto das experiências adquiridas ao longo do caminho.
Mas isso poderia muito bem ser uma desculpa esfarrapada para justificar as maldades do mundo sem aceitar que algumas pessoas simplesmente não querem escolher o lado certo. Porque no final ele optou por cair nos braços de Voldemort quando o último sino da redenção tocou.
E Hermione assistiu a caminhada incerta do rapaz que havia crescido desde a última vez. Ele suava, tremia e seus dedos tamborilavam em sua coxa.
Malfoy sofria de ansiedade, como um ser humano normal. Tinha manias e tiques, como uma parcela grande da população. Era um ser humano, e o que o diferenciava dos outros eram as vozes de Lucius e Narcissa implorando para que ele fizesse as escolha certa, porque assim deveria ser.
VI. Sobre as histórias e sobre o que nunca contaram
As histórias que contam após qualquer guerra são, na maioria das vezes, exageradas. Os relatos de jornais e noticiários colocam como heróis pessoas que não moveram uma palha para que a vitória fosse alcançada, e se esquecem daqueles que contribuíram verdadeiramente para a causa.
Lupin e Tonks foram citados duas vezes em pequenas notas do Profeta Diário, enquanto que a família Malfoy foi declarada como “Abnegada e corajosa por, no último segundo, enfrentar a face da morte ao contrariar o Lorde assassino”.
O mundo dá suas próprias voltas e acaba por se tornar a mesma coisa todas as vezes. Maquiavel, filósofo italiano dizia com propriedade que a história era cíclica, pois não importava o momento, os mesmos fatos se repetiam, porque o homem nunca muda e comete sempre os mesmos erros, e boas ações.
Hermione sabia que o prestígio dos Malfoy não seria recuperado por completo, mas, compreendia que eles continuariam ensinando seus filhos a cultuarem em segredo a supremacia do sangue puro, e novos Dracos seriam criados em escala industrial. O mesmo aconteceria nas demais famílias. A diferença era que, a partir daquele momento, o ódio seria mantido em segredo e os comensais que haviam se livrado da punição vestiriam máscaras invisíveis nos ambientes externos.
—x—
Ela sentava naquela mesa todo santo dia. Seus clipes ficavam intactos numa caixa de acrílico minúscula e redonda. Ele sequer sabia o porquê de estarem ali, já que nunca eram utilizados.
Os pergaminhos sempre encaixados e organizados de forma doentia em uma pasta de couro sintético, davam a entender que o trabalho da semana havia sido pesado. Muitas pesquisas e pessoas para comandar. Ela gostava daquilo no fim do dia, mandar em todo mundo.
O tamborilar dos dedos na mesa de jacarandá, que permanecia em pé por um milagre da magia, pois ele não imaginava outra justificativa para um móvel tão antigo e tomado pelos sulcos profundos de uma madeira quase podre aguentar a comprida pilha de livros enfileirados por ordem de tamanho.
A mulher massageava o pescoço e nuca como se estivesse consolando a si mesma. Com as unhas curtas esmaltadas de rosa claro, ela apertava com mais pressão os músculos visivelmente tensos.
Ele chegava de forma silenciosa. Ninguém mais questionava a estranha dupla que, na noite de Natal sentavam-se na mesma mesa e dividiam uma caixa de biscoitos açucarados.
—Não me venha com feliz natal. Sabe que não suporto— Draco adiantou antes mesmo de tomar seu assento.— E antes que comece, não vou tomar cerveja amanteigada. Isso é coisa de criança. Estou limpo há seis meses.
Hermione olhou com a mais descarada incredulidade que conseguiu expressar. O empenho em fazê-la acreditar que ele estava se esforçando chegava a comover outras pessoas, mas não Hermione que, com 25 anos, precisava explicar a um homem da mesma idade o porquê de não existirem diferenças entre seis meses e três meses.
— Porque temos que fazer isso mesmo? —ele perguntou, como sempre.
— Para que você possa ser admitido no quadro de funcionários executores de leis mágicas. — ela repetiu, como sempre.— Leis de proteção aos trouxas e a bibliografia indicada pela melhor aluna da Instituição.
— Uma dosezinha minúscula de Hidromel? — ele pediu — Está muito frio hoje e eu não suporto sua arrogância.
—De jeito nenhum. Precisamos terminar esse relatório até amanhã de manhã. — ela sorriu apontando o grosso e envelhecido exemplar de Jonh Locke. Na mesma pilha de livros estavam Montesquieu, Maquiavel, Rousseau e Thomas Hobbes.
— Como Sonserino me vejo na obrigação de tentar persuadi-la. — Draco estreitou os olhos, forçando-se a pensar numa boa estratégia.
—Comore-me doces.— Hermione sugeriu. — Eles são meu ponto fraco.
Aproximando a sua cadeira da de Hermione, Draco afastou os cabelos fartos e semipresos, deixando exposto o pescoço gelado da mulher que, ele sabia, não estava fria, era fria. Pousou os lábios no local e ali deixou um beijo.
—Eu prometo não dormir desta vez — ele sussurrou sob a pele macia e fria.
Hermione recolheu os livros e estendeu a mão livre para Malfoy que, enquanto guardava os demais exemplares em sua bolsa, aceitou o convite para qualquer lugar numa noite de Natal, quando milagres aconteciam e coisas novas nasciam.
Eles poderiam sair dali, depois de alguns anos comprar uma casa e nessa casa, se quisessem, construiriam um lar. Mas, por enquanto, tudo ficaria no campo das ideias, nos contos de fadas.
Por ora estavam satisfeitos com o acordo mudo de que estavam sendo refeitos, para o bem ou para o mal, novas páginas estavam sendo escritas pelas mãos de Draco e Hermione.
E de mais ninguém.
Fim
—---------------
Notas finais
GLOSSÁRIO & REFERÊNCIAS
¹ Adejar: Bater as asas, voar.
BOBBIO, Norberto. Locke e o Direito Natural. Editora UNB, Brasília, 1997.
Fale com o autor