TRAGA-ME A MEMORIA

5 Hora DA Verdade


Notas iniciais
PREPARE SEU CORAÇÃO PORQUE AGORA A CONVERSA VAI SER UM TANTO SÉRIA.

Nos fundos da mansão do orfanato existe uma casa na árvore que construímos anos atrás, foi para onde fomos. Luz se negou a subir até que eu a peguei pela cintura e então subi as escadas com certa dificuldade já que ela não parava quieta. Agora estávamos sentados no chão dessa casinha, minutos já se passaram e eu estou tentando encontrar as palavras certas para usar.

— Você vai me explicar porque está se mutilando?

— Eu não sabia que devia explicações para você, quando foi que isso aconteceu?

— Luz presta atenção em mim, eu estou sendo o mais gentil que posso com você, mas você está fazendo eu perder a paciência.

— Você está se intrometendo em um assunto que não te diz respeito, você simplesmente pode me deixar sair daqui e esquecer essa história Caleb.

Respiro fundo e lentamente, me levanto e começo a tirar minha camisa, se ela quer fazer do jeito mais difícil então que assim seja.

— Mas o que você pensa que está fazendo? Eu vou sair daqui agora.

Num estopim de exaustão eu grito com ela, algo que nunca fui capaz de fazer.

— Só olha para mim Luz, olha para mim, está vendo isso?

LUZ

Ele está sem camisa na minha frente e não, isso não parece nada romântico. Suas costas estão cheias de cicatrizes, coloco a mão na boca horrorizada, não sei o que pensar.

— Que tipo de monstro faria isso com alguém?

— Um pouco depois de te mandar aquela carta Luz, eu fui preso e torturado por 4 meses.

4 meses, ele foi torturado por 4 longos meses, eu não estou acreditando.

— Os cristãos da Etiópia tem sofrido perseguições, os meios de comunicação dizem que é uma questão de disputa étnica, mas todos sabem que é uma questão religiosa. Uma das comunidades que ficamos é uma região interligada com o Islã, já havíamos ouvido casos de perseguições nas fronteiras, por isso ficávamos sempre alertas, nunca tivemos problema, mas em uma noite em que sai para fazer minhas orações fui surpreendido por um grupo de mulçumanos que me abordou, eles vendaram meus olhos e me levaram para uma cabana, eu não sei nada sobre o idioma deles, não adiantava eu tentar me explicar ou entender o que eles me diziam, eu só fiquei ali, vez e outra eles me espancavam com cabo de vassoura em outros momentos jogavam em mim os poucos móveis que tinham naquele lugar.

— E como você saiu de lá?

— Havia dias que eu não conseguia me mexer por conta dos cortes, em um desses dias vieram dois deles até onde eu estava, um começou a falar enquanto o outro traduzia para o inglês, provavelmente eles pegaram qualquer inocente que sabia falar para traduzir o recado.

— E o que eles disseram?

— Falaram que sabiam o que nosso grupo estava fazendo ali e que nós não éramos bem-vindos, disseram que isso foi apenas uma advertência e que na próxima vez eles não seriam tão gentis. Depois me vendaram e me arrastaram até um carro e me deixaram no meio do nada, quando percebi que eles não estavam mais por perto eu tirei a venda e comecei a me arrastar para alguma direção, minhas feridas estavam abertas e debaixo do sol pioraram, graças a Deus o caminho me levou para a cidade local, gritei por ajuda e então me levaram para o hospital onde fiquei um mês sobre os cuidados médicos, passei por duas cirurgias pois duas costelas minhas tinham sido quebradas mas com o tempo me recuperei.

— Você nunca citou os perigos que vocês estavam correndo nas cartas que me mandou Caleb.

— Eu não queria deixar você nem meus pais preocupados.

— Mas você já contou para eles sobre isso?

— Não, eu ainda não sei como contar.

— E por que você está contando isso para mim?

Ele olhou diretamente nos meus olhos, pela primeira vez eu vi tristeza neles.

— Eu estou tentando salvar você de si mesma Luz. Essas marcas que agora possuo não foram por meu intermédio e embora ainda não saiba como falar sobre isso com as pessoas de forma nenhuma tenho vergonha delas, as vezes fazer o bem pode nos machucar e eu estou bem sobre isso mas você, você tem se cortado por conta própria, você tem vergonha de mostra-las para as pessoas porque você sabe que isso é um absurdo – ele pegou meus braços delicadamente e levantou a manga do vestido e disse cautelosamente – olha pra isso Luz, alguém já pagou um alto preço por você, você não precisa disso, isso não resolve seus problemas, tão pouco cura a sua dor – ele levantou meu queixo e olhou meus olhos que estavam cheios de lágrimas.

— Como você pode depois de tudo que passou ainda acreditar em um deus que só nos machuca?

— Não é porque Ele permite que coisas ruins aconteçam que isso signifique que Ele tem parte nelas, o livre arbítrio nos permite escolher se seremos bons ou ruins e infelizmente tem pessoas que escolhem a segunda opção, os sofrimentos fazem parte da vida, ninguém está livre de sofrer, você só tem que se lembrar daquilo que te dá esperança.

— São lindas palavras Caleb, pena que eu estou muito quebrada para conseguir ouvi-las. Para mim um deus que olha para as tragédias e não interfere para que elas não aconteçam é um deus omisso. Eu sempre fiz o que é certo e o que eu ganhei com isso? Quando eu mais precisei onde esse deus estava Caleb?

— Talvez você estivesse profundamente triste que não conseguiu vê-lo, você está tão mergulhada no seu sofrimento que não consegue ver todas as outras coisas.

Numa explosão de emoções e sentimentos eu gritei as palavras que sempre doía muito dizer.

— Minha família foi assassinada Caleb. Meus pais e minha irmã foram cruelmente mortos enquanto dormiam, a Luna tinha só 5 anos, ela era só uma criança. Eu tive que enterrar as três pessoas que mais amei na vida de uma só vez, tive que lidar com tudo isso sozinha, nem você estava aqui – em um rompante de sentimentos eu coloquei para fora tudo que eu estava carregando a tanto tempo – eu só queria ter ido com eles – finalmente admiti.

— Por favor nunca mais diga isso Luz, não diga. Eu sinto tanto por não ter estado aqui para você – ele me abraçou forte e eu retribui, seu abraço ainda era o melhor abraço do mundo, ainda se encaixava perfeitamente a mim – Olha para mim... me prometa que nunca mais vai dizer algo assim? Me prometa que nunca mais vai se cortar Luz?

— Eu não sei se sou capaz disso, eu não lembro de mais nada que me dê esperança nessa vida.

— Então eu vou te ajudar, vamos trazer a memória aquilo que te dará esperança novamente Luz, eu farei o que for preciso para que isso aconteça, nunca mais vou te deixar sozinha – Ele deixou um beijo em minha testa, o jeito com que ele falou foi tão doce e confiante que quase acreditei nelas, quase.

KATRINA – DUAS SEMANAS DEPOIS

— E então, você quer fazer algo mais íntimo ou uma grande festa? Eu te aconselho a escolher a segunda opção, não é todos os dias que fazemos 30 anos. Katrina, você está me ouvindo?

— Ah desculpa, eu me distrai. O que você disse?

— Eu te aconselhei a fazer uma grande festa de aniversário, vai ser divertido!

— Sim, claro, é o que eu vinha pensando. Eu quero fazer uma festa temática “Uma noite de gala “o que você acha?

— Eu acho maravilhoso, temos que ir atrás do vestido perfeito e dos preparativos, seu aniversário é dentro de um mês já.

— Sim, podemos começar essa semana mesmo mas só à partir da tarde, esses dias o consultório tem estado cheio, o Gordo está internado, ele passou pela castração mas teve uma infecção então tivemos que deixá-lo internado por alguns dias.

— Quem é Gordo Katrina?

— O cachorro do Caleb.

— O bulldog? Agora entendi o motivo para a sua distração, vocês dois tem andado bem juntos depois que ele voltou – Lara me olhou inquisitiva.

— Não é nada disso que está passando pela sua cabeça Lara, Caleb e eu somos apenas amigos.

— Sério que você quer mentir sobre isso logo pra mim?

Lara sempre soube dos meus sentimos pelo Caleb, embora eu nunca tenha me iludido com a possibilidade de que algo acontecesse entre nós, ele sempre foi apaixonado pela Luz e ela era minha amiga, é ainda eu acho.

— Lara, eu não quero me iludir sobre isso. Eu e Caleb temos sim nos dado muito bem depois de sua volta, somos amigos e eu não acredito que ele esteja aberto para ter um relacionamento agora fora que tem a Luz nessa história, não sei como ela se sentiria sobre isso.

— Katrina, a Luz sempre será importante para nós e para o Caleb também, mas apesar disso ainda acho que você tem que começar a pensar mais em você, se você realmente gosta dele, porque não ver onde isso vai dar?

—humm... não sei. Eu tenho quase certeza que ele ainda gosta da Luz, eu vi como ele olhava para ela na festa do Orfanato.

— Pode ser que goste ou pode ser só preocupação. Eu mesma disse para ele sobre como a Luz estava, ele deve ter ficado preocupado como um bom amigo fica.

— Bom, eu não sei nada sobre isso. Aliás, preciso voltar para o consultório, o Caleb vai passar daqui a pouco para ver o Gordo, sendo assim nos vemos amanhã.

— Tudo bem, se você não quer falar sobre isso, não serei eu a forçar. Amanhã eu passo te pegar para procurarmos um lugar para festa.

...

— Mais uns dois dias e ele estará totalmente bem para ir para casa, ele já está quase 100%.

— Ótimo, a nossa casa fica um silêncio sem ele, as madrugadas sem o ronco dele do lado da minha cama não são iguais- disse Caleb rindo.

Olho para o relógio, falta pouco para o expediente terminar.

— Humm... o Gordo precisa andar um pouco, tem uma sorveteria na próxima quadra, topa nos acompanhar?

— Eu não recuso um sorvete – ele pegou a coleira do Gordo – vamos garotão, está precisando perder essas gordurinhas, estão te alimentando muito aqui.

Está um começo de noite quente o sorvete até que não foi uma má ideia, Caleb e eu conversamos bastante, rimos quando o Gordo fez manha pelo sorvete mas ele se recusou a dar. Na volta esperávamos o farol fechar para podermos passar mas quando isso aconteceu o Gordo se recusou a sair do lugar

— Vamos garotão, você está nos fazendo passar vergonha.

Não conseguia parar de rir da situação. Caleb resolveu soltar a coleira e levá-lo no colo mas o espertinho assim que se viu livre correu até a banca de jornal e começou a latir em uma moça que ali estava, Caleb saiu atrás dele e eu fui junto.

— Oi garotão. Como você cresceu, está comendo muito – foi então que reparei que a moça era a Luz.

— Parece que ele ainda lembra de você – falou Caleb.

— ah, parece que sim.

— Oi Luz – cumprimentei.

— Oi Lara... Hum... acho que já vou indo.

— Quer uma carona? Perguntou Caleb

— Ah, não precisa, não quero atrapalhar o passeio de vocês.

— Na verdade isso não é bem um passeio, estávamos levando o Gordo para caminhar, ele precisa se exercitar olhe para o tamanho dele.

— Caleb, eu preciso que você assine alguns papéis de pagamento dos dias que o Gordo está ficando no consultório.

— Eu achei que já havia assinado tudo.

— Me lembrei disso agora.

— hã... tudo bem pra você esperar um pouco Luz?

— Eu tenho um compromisso daqui a pouco, é melhor eu ir agora – ela olhava para o relógio toda hora, parecia aérea – nos vemos por aí.

Depois disso voltamos, eu entregue os papéis nada urgentes para o Caleb assinar, percebi que ele ficou com os pensamentos distantes depois do encontro com a Luz.

— Você está bem?

— Desculpa Katrina, só tem algumas coisas passando pela minha cabeça.

— Entendo. Deixa eu te falar, mês que vem é meu aniversário, vou fazer uma festa de gala então você já pode pensar sobre seu traje.

— Humm... procurarei algo a altura do tema senhorita. Você se importaria caso eu levasse a Luz como acompanhante? Ela tem passado por uma fase um tanto sombria, gostaria de tentar traze-la para nós novamente.

E ali estava a resposta definitiva sobre os sentimentos dele por ela, parabéns Katrina.

— Claro que não me importo, afinal, Luz também é minha amiga, se você acha que isso pode ajudar, então não vejo problemas, eu mesma posso convida-la.

— Seria muito legal se você fizesse isso, de verdade!

— Pode deixar, eu falarei com ela.

Esse foi um daqueles momentos tapa na cara, tentar entrar nesse território é inútil e a probabilidade de eu sair machucada são gigantes, é hora de fechar as páginas desse livro.

Notas finais
QUE CAPITULO TENSO MINHA GENTE!