THE SEASON — Interativa
3 The Smythe Sisters — p a r t 2
LADY AMELIA
The wittiest
— Amanhã você deverá formalizar o pedido de casamento a meu pai.
A frase o pegou de surpresa, mas não deveria. O Conde de Ravenscar encarou os olhos turquesa da mulher, as mechas louras caindo sobre os seios fartos enquanto os dois se deitavam na cama dela, escondidos do mundo enquanto toda a família Smythe estava em um baile qualquer. Ela esticou uma das mãos para o peito do homem, a outra passando os dedos gentilmente pelos fios negros do cabelo de seu amante.
— Eu não sou seu primeiro. — disse ele, num tom meio melancólico, meio divertido.
— E se não pedir, não será o último. — Amelia acariciou o peito do Conde, observando-o com aqueles olhos… aqueles olhos. Ele moveu uma das mãos e a puxou para mais perto, até que seus corpos estivessem colados, quase tão unidos quanto estiveram alguns segundos atrás. Os lábios dela se partiram, cheios e rosados, um verdadeiro convite para que ele os tomasse novamente. Suspirou, a voz baixa e sedutora. — Peça amanhã e serei sua.
— Para sempre?
Ela não respondeu. Apenas envolveu a cintura dele com as pernas e se colocou por cima, os braços ao lado de sua cabeça. Ela cheirava a morangos, embora ele não soubesse como isso fosse possível. Era inverno, por Deus. Mas Amelia… Amelia. Não havia explicação para os sentimentos que ela causava nele — e por ela, ele faria qualquer coisa. Ela o beijou. Longamente. Como se nada no mundo fosse jamais separá-los.
— Pedirei amanhã.
É claro que pediria. Amanhã. Hoje. Não era uma questão, mas sim um fato. Ele faria qualquer coisa. Amelia o tinha — para sempre. Mesmo que ele não a tivesse por muito mais tempo.
III.
LADY AURELIA
The gossip
A jovem dama abraçou o próprio corpo e sentiu o ar frio da noite esvoaçar os fios dourados perfeitamente cacheados, perdida em pensamentos.
A verdade é que Aurelia Smythe nunca teria imaginado fugir para se casar.
Todavia, jamais imaginaria conhecer alguém tão perfeito. Talvez não perfeito para o resto do mundo, mas ideal para ela. A jovem não acreditava em almas gêmeas — o desprezo entre seus pais, o casamento sem amor de sua irmã, as desventuras amorosas de seu irmão e o drama envolvendo sua outra irmã tornaram-na uma cética. Isso, é claro, foi antes de ter encontrado alguém que a complementava de todas as formas — não completava, pois Aurelia era inteira sozinha, mas adicionava e a fazia se sentir maior do que si mesma. Ele dava a sensação de que ela não precisava de água, ar, comida ou abrigo. Por agora, ela sentia, tudo que precisavam era um do outro.
Apesar disso, não poderia imaginar viver o resto de sua vida inteira sem ver seus parentes mais próximos. Contava com a esperança de que, eventualmente, eles a perdoariam. Simplesmente não conseguia conceber uma vida sem sua família. Especificamente, sem suas irmãs.
Vivianne era como o Sol. Todos revolviam ao seu redor, com suas vidas e problemas; ela era essencial e linda. Era o centro gravitacional dos Smythe, mesmo que o cargo de chefe da família pertencesse ao pai; mesmo que ela tecnicamente fosse ser o centro de outra família, como era agora casada com um Duque — que ela definitivamente não amava, por sinal. Era inacreditável como alguém tão incrível e genial como Viv se desse tão pouco valor.
E Amelia… Se Vivianne era o Sol, Amelia era como um nevoeiro. Ainda que as três Smythe fossem quase idênticas, todos concordavam que era Amelia a mais bela dentre elas, e isso se dava ao misticismo de Amy — era quase um dom divino. Ela tinha um jeito arriscado, misterioso e incerto como a névoa. Algo quase mágico e um pouco sinistro pairava ao seu redor. Era Morgana, dos velhos contos arturianos que o pai gostava de ler. Por isso, ela era sempre um ímã; todos eram atraídos para Amy com admiração e espanto, meros mortais diante das forças inexplicáveis da natureza tornadas corpóreas em Amelia Smythe.
Blackburn. Era Amelia Blackburn agora, a condessa de Ravenscar, assim como Viv era Whitethorn, duquesa de Carstairs. Duas famílias unidas por séculos de amizades, inimizades e intrigas, tão épicas quanto os Capuletos e Montéquios de Shakespeare.
Assim, mesmo quando estavam lado a lado em Londres, Aurelia não podia estar mais longe das duas. Não havia uma terceira família, não haviam Grays. Era a última das Smythe, e deixaram-na para trás.
A caçula do barão de Grantham se via como a chuva, e ela definitivamente não gostava disso. Sabia que era uma pessoa instável — ora a garoa, ora a tempestade —, mas isso era parte de si desde sempre e não era o que a incomodava. Era a tristeza da chuva que atiçava seus nervos; a melancolia parecia a perseguir de um jeito odioso. O modo como as solteironas olhavam para Vivianne e Amelia nos bailes londrinos e depois lhe dirigiam um sorriso caridoso. Ugh. Aurelia odiava a chuva, odiava dias cinzentos e odiava o sentimento de ter que ficar presa em casa pois estava molhado demais do lado de fora.
Na América, diziam, os dias eram mais quentes. E talvez, só talvez, no Novo Mundo ela pudesse finalmente se sentir o Sol.
Everett Saint Clair queimava. Ele a tratava como a única coisa importante no Universo. Além, é claro, de seus ideais. Era entusiasmado, alegre e discursava apaixonadamente com aquele sotaque adorável para quem quisesse e não quisesse ouvir. Diferente dos lordes ingleses para quem sua mãe a empurrava, Saint Clair não parecia ter uma fruta na boca enquanto falava. Suas mãos eram calejadas pelo trabalho duro e honesto, os braços eram fortes e ele não media cada sentença na cabeça como se seguisse o entediante roteiro da sociedade que tanto desprezava.
Aurelia nunca se sentiu em casa, não de verdade. Não em Londres, não em Grantham. Claro que amava sua família, mas aquele sentimento de pertencimento sempre lhe faltou em meio a alta sociedade inglesa. Estava cansada, e era nova demais para nutrir tal sentimento. Mas eram novos ares, aquele que lhe desprendia os cachos e esvoaçava o xale. Uma nova vida, inteiramente sua, para ser e fazer o que quiser.
Aurelia Smythe passou o polegar pelo dedo anelar, onde o anel de noivado pesava de forma estranha. Um estranho bom, pensou ela, admirando a joia delicada em seu dedo, incapaz de conter o sorriso.
Levantou o olhar e viu o porto de Nova York a distância. Ela estava, finalmente, em casa.
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