TERCEIRO SET
1 Prólogo: Vai me Esquecer Eventualmente
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O despertador tocou duas vezes antes de Maurício encontrar o celular perdido entre o travesseiro e a parede. Silenciou o alarme sem abrir completamente os olhos, a casa ainda respirava devagar.
Da cozinha vinha o chiado da chaleira. Um rádio antigo insistia em tocar uma estação que mal conseguia atravessar a estática. Entre uma música sertaneja e outra, o locutor comentava qualquer coisa sobre o trânsito na Marginal Pinheiros, como fazia todas as manhãs.
Maurício ficou mais alguns instantes encarando o teto. Domingo ensolarado, seu aniversário, deveria estar feliz. Em vez disso, a primeira coisa que fez foi calcular quanto tempo ainda tinha antes de seu avô enfiá-lo em alguma atividade contra sua vontade.
Sentou-se na cama, o quarto era pequeno, dividido com Adriana desde que seu cunhado havia partido. A irmã já não estava ali. A cama já estava arrumada. Adriana devia estar de pé havia algum tempo
Vestiu a primeira camiseta velha do Coldplay que encontrou. Achava a banda bem mais ou menos. A camiseta, não. Era bonita.
O piso gelado ajudou a despertar mais do que qualquer café.
— Finalmente.
Adriana apareceu da cozinha carregando duas canecas.
— Achei que ia precisar te rebocar.
— Cinco minutinhos.
— Você falou isso faz meia hora.
Ela lhe entregou uma das canecas antes mesmo que ele pedisse. Café com leite, do jeito que ele gostava. Maurício tomou o primeiro gole e fez uma careta.
— Tá quente.
— Café costuma ser.
— Não precisava dessa violência logo cedo.
Adriana ocupou a cadeira à frente dele, observou o irmão por alguns segundos. Havia alguma coisa diferente naquela manhã, não no rosto, no jeito. Ele parecia mais silencioso do que de costume.
— Tá pensando em quê?
Maurício deu de ombros.
— Nada.
— Você sempre pensa "nada" olhando pra parede.
Ele acompanhou o olhar dela até o calendário preso na geladeira. Um círculo vermelho marcava o dia.
23 de Abril
Sorriu pelo nariz.
— Vinte anos.
— Vinte e um.
— Tá. Vinte e um, pior ainda.
— Dramático.
— Realista.
Adriana apoiou os cotovelos sobre a mesa.
— Sabe qual é teu problema?
— Tenho medo da resposta.
— Você trata aniversário como se fosse uma penitência anual. Você não acorda nesse mal humor nem no dia de fazer ENEM.
Maurício riu pelo nariz.
— É que passa rápido.
Ela inclinou a cabeça.
— O quê?
— Tudo.
A resposta saiu baixa, quase sem querer. O silêncio que veio depois não era desconfortável. Era daqueles que só irmãos conseguem dividir.
Da cozinha era possível ouvir o relógio da parede marcando os segundos. Lá fora, um vendedor de gás anunciava a própria chegada com a mesma melodia desafinada de todas as semanas.
Adriana desviou os olhos para a bancada. Havia um envelope branco escondido sob um pano de prato. Empurrou-o para perto dele.
— Feliz aniversário.
Maurício franziu a testa.
— Ué.
— Abre.
Ele virou o envelope nas mãos, pesava menos do que um aniversário deveria pesar. Imaginou um cartão, talvez algum dinheiro. Quando puxou o conteúdo, ficou imóvel. Dois ingressos.
Por um segundo, apenas encarou o papel, depois leu outra vez e mais uma. Como se as palavras pudessem desaparecer.
Final da Superliga Masculina.
Matero x Carrancas.
Olhou para Adriana, depois para os ingressos, depois voltou para ela.
— Dri...
Ela abriu um sorriso pequeno, daqueles que tentam parecer menores do que realmente são.
— Gostou?
Maurício não respondeu. Continuava olhando para os ingressos, os dedos percorriam a impressão prateada da borda, conferindo se eram reais.
— Isso... isso é de verdade?
— Até onde eu sei, sim.
Ele levantou os olhos devagar.
— Quanto você pagou nisso?
A pergunta saiu antes da felicidade. Adriana já esperava.
— Não estraga o presente.
— Dri.
— Maurício.
— Você vendeu o quê?
Ela desviou o olhar por um instante. Só um, tempo suficiente para ele perceber que havia acertado.
— Não interessa.
— Claro que interessa.
— Não.
Interessa que hoje é teu aniversário. Interessa que você passa o ano inteiro vendo jogo pelo celular, reclamando da imagem travando e interessa que você nunca entrou naquele ginásio.
Ela respirou, procurando a próxima frase, quando voltou a falar, a voz já não tinha o mesmo tom leve.
— E também interessa que eu tava cansada de ver você acreditar que coisas boas só acontecem com os outros.
Maurício permaneceu em silêncio com os ingressos ainda em suas mãos. De repente pareciam pesados, muito mais do que dois pedaços de papel deveriam ser.
— Eu não precisava disso.
— Precisava, sim.
Ela respondeu sem aumentar a voz.
— Você só ainda não sabe.
Os olhos dele começaram a percorrer novamente os ingressos. Dessa vez, mais devagar.
A data.
O horário.
O nome dos times.
O assento.
Tudo existia e era real.
Adriana levantou-se para buscar mais café, parou atrás da cadeira dele por um instante. Bagunçou-lhe o cabelo com a mesma intimidade de sempre.
— Agora termina de comer. Porque a gente tem uma final pra assistir.
Por alguns instantes, a pequena casa deixou de existir. Maurício já caminhava pelos corredores do ginásio antes mesmo de terminar o café.
A chaleira voltou a chiar antes que Adriana alcançasse a cozinha. Ela enchia as canecas outra vez quando a porta do quarto ao lado se abriu devagar, Otoniel apareceu apoiando uma das mãos no batente. Vestia uma camiseta do Palmeiras tão antiga que o tecido parecia lembrar do primeiro título do clube. O cabelo grisalho ainda guardava marcas do travesseiro e os joelhos pareciam reclamar da caminhada até a mesa mais do que ele próprio.
Parou ao ver os ingressos sobre a bancada, não perguntou de quem eram. Já sabia.
— Então vocês vão mesmo nessa presepada.
Adriana continuou servindo o café.
— Vamos.
Otoniel puxou a cadeira com cuidado, como quem negociava cada movimento com as costas.
— Quanto foi essa brincadeira?
Maurício abaixou os olhos para a mesa. Adriana respondeu antes que ele pudesse abrir a boca.
— Já foi.
— Não foi isso que eu perguntei.
Ela empurrou uma caneca na direção do avô.
— Bom dia pro senhor também, Seu Otoniel.
Ele aceitou o café, não insistiu. Mas também não mudou de assunto.
— Esse dinheiro faz falta.
A cozinha ficou quieta por alguns instantes, não havia acusação na voz dele. Só um cansaço antigo.
Adriana sentou novamente.
— Dinheiro sempre faz.
Otoniel passou o polegar pela alça da caneca ainda quente.
— Justamente.
Maurício girava os ingressos entre os dedos, sentia que qualquer palavra poderia transformar aquela manhã em outra coisa.
Preferiu esperar.
O avô olhou para ele.
— Não tem treino hoje?
— É domingo, vô.
Maurício já conhecia aquele caminho.
— Devia aproveitar pra procurar emprego. Ou faculdade. Alguma coisa. O vôlei não vai durar pra sempre, você já tá um homem, precisa assumir suas responsabilidades.
A frase caiu sobre a mesa com a naturalidade de quem a repetia havia anos. Maurício levantou os olhos, não irritado. Só cansado.
— Eu sei.
— Sabe?
Otoniel recostou-se na cadeira.
— Porque toda vez que eu falo parece novidade.
Adriana respirou pelo nariz.
— Vô...
— Eu tô mentindo?
Ela não respondeu, também não concordou. O silêncio bastou, Otoniel voltou a olhar para o neto.
— Sonho é bonito. Mas conta nunca esperou ninguém acordar.
Maurício passou o polegar pela borda do ingresso. O papel, há poucos minutos, parecia leve, agora pesava quase tanto quanto a conversa.
— Eu não tô deixando de estudar.
— Ainda.
Otoniel respondeu sem elevar a voz.
— E quando esse clube resolver que não tem lugar pra você? O que sobra?
Maurício demorou a responder, não porque não tivesse uma resposta. Porque, pela primeira vez, percebeu que também não tinha uma garantia.
— Eu dou um jeito.
O avô balançou a cabeça devagar.
— Essa frase sempre chega antes da conta.
Adriana apoiou a mão sobre a mesa. Não para interromper, para encerrar.
— Hoje não.
Os dois olharam para ela. Ela sustentou o olhar do avô com a tranquilidade de quem fazia aquilo desde menina.
— Hoje ele só vai assistir a uma final com a irmã. Mais nada.
Otoniel permaneceu em silêncio e levou a caneca aos lábios, bebeu um gole. Depois voltou os olhos para Maurício.
— Então assiste direito.
Maurício franziu a testa. O avô deu um pequeno gesto com o queixo, apontando para os ingressos.
— Não fica olhando só pra torcida. Olha como os caras se posicionam, como conversam, como resolvem quando o jogo aperta. É isso que vai te fazer tirar proveito disso.
Foi a frase mais longa que Otoniel disse naquela manhã. Maurício demorou um instante para entender, depois percebeu. Aquilo era o jeito torto que o avô encontrava de desejar boa sorte.
Um sorriso ameaçou aparecer, ele não deixou. Sabia que Otoniel não daria importância.
— Pode deixar.
O avô apenas assentiu. Terminou o café e levantou-se com a mesma calma de quem chegou. Quando desapareceu pelo corredor, Adriana soltou o ar pelo nariz.
— Viu?
Maurício olhou para ela.
— O quê?
— Ele tá se esforçando.
Maurício riu baixo.
— Se isso é se esforçando, eu tenho medo da versão desinteressada.
Ela recolheu as canecas da mesa.
— Agradeça por isso.
Poucos minutos depois, Maurício guardou cuidadosamente os ingressos dentro da bolsa, conferiu se ainda estavam ali, depois conferiu outra vez. Adriana pegou a bolsa, girou a chave do carro entre os dedos e abriu a porta. O cheiro de café ficou para trás.
Lá fora, o sol já estalava no asfalto, o carro de Adriana parecia conhecer o caminho melhor do que os dois.
Saíram do bairro ainda comentando a discussão com Otoniel. Aos poucos, as ruas estreitas deram lugar às avenidas largas da cidade. O trânsito começava a engrossar, mas ninguém parecia realmente incomodado. Em quase todos os carros havia alguma camisa de time, bandeiras presas às janelas ou crianças espremidas no banco de trás tentando enxergar qualquer coisa pela janela.
Maurício percebeu primeiro.
— Tá todo mundo indo pra lá.
Adriana sorriu sem desviar os olhos da pista.
— Talvez seja porque estamos no mesmo caminho, não é como se fosse copa do mundo, relaxa.
Ele apoiou o braço na janela.
O vento bagunçava o cabelo enquanto observava uma família parada ao lado deles no semáforo. O pai usava uma camisa do Matero. O filho, uma do Carrancas. Os dois discutiam sobre escalação ou algo assim.
Maurício acompanhou a cena até o sinal abrir.
— Imagina crescer assim.
— Assim como?
— Sabendo que teu time vai disputar final quase todo ano.
Adriana olhou rapidamente para ele.
— Quem disse que não pode ser você um dia?
Ele soltou um riso curto.
— Gosto do seu otimismo.
— Hoje eu acordei radicalmente otimista.
Maurício riu outra vez.
A conversa morreu naturalmente quando as primeiras placas indicando o Complexo Esportivo Ibirapuera começaram a aparecer.
O coração dele pareceu adiantar alguns quilômetros, não porque nunca tivesse visto aquele lugar, já conhecia cada corredor por vídeos na internet. Cada entrada, cada arquibancada. Mas tela nenhuma preparava para o tamanho das filas. Dezenas de pessoas ocupavam a calçada. Vendedores anunciavam bandeiras, bonés, chaveiros, camisetas e pipoca numa mistura caótica de vozes que se confundiam com buzinas e apitos de trânsito.
Adriana conseguiu uma vaga algumas quadras depois, quando desligou o carro, Maurício continuou sentado. Os olhos presos ao movimento do lado de fora.
— Vai perder a bola inicial.
Ele piscou.
— Desculpa.
Saiu quase tropeçando no próprio cinto. Assim que colocou os pés na calçada, uma lufada de cheiro de milho cozido misturado com pipoca amanteigada atravessou o ar. Uma criança passou correndo entre eles carregando um balão verde. Logo atrás, o pai tentava alcançá-la sem derrubar dois copos de refrigerante. Maurício acompanhou os dois até desaparecerem no fluxo de pessoas.
Tudo parecia maior do que imaginava, mais barulhento, mais vivo.
Enquanto caminhavam em direção à entrada principal, um senhor vendia chaveiros pendurados numa placa improvisada.
Cada um trazia o escudo de um clube diferente, Maurício diminuiu o passo. Adriana percebeu.
— Vai.
Ele sorriu sem jeito.
— Não precisa.
Ela já tirava algumas notas da bolsa.
— Eu sei.
O vendedor entregou um chaveiro do Matero, pequeno e simples. O metal refletia o sol de um jeito quase exagerado. Maurício passou o polegar sobre o escudo em relevo.
— Obrigado.
Guardou o chaveiro no bolso da calça como quem guarda alguma pedra preciosa. Continuaram andando.
Quanto mais se aproximavam da arena, menos dava para distinguir uma conversa da outra. Os sons se transformavam numa única massa. Um coro distante ensaiava cântico, alguns tambores marcavam um ritmo constante. Em algum lugar alguém testava o sistema de som.
As portas principais estavam abertas. Do lado de dentro, um corredor largo conduzia o público até as arquibancadas. Maurício entregou o ingresso ao funcionário, recebeu um pequeno aceno em troca.
Só isso.
Era um gesto simples. Mas, ao cruzar aquela entrada, sentiu uma estranha impressão de pertencimento. Como se, durante alguns segundos, deixasse de ser apenas espectador.
Subiram a primeira escada, depois outra. O barulho aumentava a cada lance. Foi apenas quando alcançaram a abertura da arquibancada que Maurício parou completamente.
A quadra apareceu inteira diante dele, o piso brilhava sob a iluminação. As cadeiras ainda enchiam aos poucos, jogadores aqueciam dos dois lados da rede. Pareciam pequenos, não porque fossem baixos, porque o ginásio era imenso.
Adriana não disse nada. Conhecia o irmão o suficiente para saber que algumas experiências não necessitam comentários. Maurício apenas apertou o chaveiro dentro do bolso e deixou que os olhos corressem pela quadra como se tentasse decorar o lugar.
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O vestiário do Matero cheirava sempre igual. Álcool, borracha, pomada para dor muscular e algum resquício de detergente usado cedo demais pela equipe de limpeza. Felipe gostava disso, era um dos poucos lugares onde o cheiro nunca mudava.
Sentou-se diante do próprio armário, a camisa verde permanecia cuidadosamente pendurada no vestiário. O número nove aparecia apenas parecia reluzente sob a luz do ambiente. Antes de qualquer partida, seguia a mesma ordem.
Fita nos dedos.
Tornozeleira.
Tênis esquerdo.
Tênis direito.
Retirou um dos fones do bolso da mochila. A música começou antes mesmo que a tela do celular apagasse, não precisava escolher. A playlist fazia isso por ele havia anos.
A primeira batida ocupou o silêncio do vestiário, do lado de fora alguém empurrava um carrinho carregado de bolas. O som das rodas atravessou a parede exatamente entre um verso e outro. Felipe percebeu. Gostava quando o mundo parecia respeitar o tempo da música.
— Tá ouvindo o quê?
Gabriel surgiu ao lado do armário já vestido para o aquecimento. Felipe retirou apenas um dos fones.
— Nada novo.
Gabriel esticou o pescoço para tentar enxergar a tela do celular.
— Você escuta as mesmas músicas desde que eu casei.
— E continua funcionando.
— Minha esposa chamaria isso de falta de personalidade.
Felipe guardou o celular.
— Ela também casou com você.
Gabriel riu pelo nariz.
— Também acho loucura.
Seguiu em direção ao centro do vestiário, onde alguns jogadores começavam a trocar comentários sobre o adversário. Felipe permaneceu sentado mais alguns segundos, passou a palma da mão pela camisa antes de vesti-la. Não era superstição, apenas costume. As costuras precisavam estar alinhadas, a gola não podia dobrar, assim como as mangas. Pequenos detalhes, coisas que ninguém notava. Ele notava.
Quando terminou de amarrar o segundo cadarço, Murilo entrou. A conversa morreu quase instantaneamente. Não porque ele exigisse silêncio, porque sua presença costumava organizá-lo.
Trazia uma prancheta debaixo do braço e um copo de café na outra mão. Cumprimentou alguns atletas com um aceno discreto antes de apoiar a prancheta sobre a mesa.
— Cinco minutos.
Ninguém respondeu, cada um terminou o que estava fazendo. Murilo observou o grupo durante alguns instantes, os olhos passaram por todos, pararam em Felipe por um segundo a mais. Quase imperceptível. Depois seguiram adiante.
— Fernando começa hoje.
O silêncio voltou antes que qualquer reação aparecesse, Fernando ergueu a cabeça, claramente surpreso. Felipe não. Continuou ajustando a faixa do punho esquerdo. Murilo virou mais uma página da prancheta. Felipe nunca entendeu a resistência dele a usar um tablet, era um homem analógico.
— Felipe entra quando eu mandar.
Gabriel olhou discretamente para Felipe, havia menos de uma semana que se tornou capitão, esperava algum tipo de questionamento. Não veio.
— Certo.
Foi só isso. Murilo assentiu, satisfeito.
— Então vamos trabalhar.
Os jogadores começaram a deixar o vestiário, Gabriel reduziu o passo até alcançar Felipe no corredor.
— Tá tudo bem?
Felipe terminou de fechar o zíper da mochila.
— Tá.
Gabriel esperou. Conhecia aquela resposta, era curta demais para ser verdadeira.
— Não vai dizer nada mesmo?
Felipe balançou a cabeça.
— Depois do jogo.
Guardou os fones no bolso da mochila. Do outro lado do túnel, o barulho da torcida atravessava o concreto como uma onda constante.
Felipe ergueu os olhos, respirou apenas o suficiente para organizar o próprio ritmo. Depois caminhou em direção à quadra.
Sem saber que, do outro lado daquela parede, havia um garoto que atravessou a cidade inteira apenas para vê-lo jogar.
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O primeiro apito ecoou pelo ginásio antes mesmo de as arquibancadas terminarem de encher. As conversas diminuíram naturalmente, os refletores pareciam mais fortes agora. Maurício inclinou o corpo para a frente, os cotovelos apoiados nos joelhos.
Quando os atletas do Carrancas apareceram primeiro pelo túnel, parte da torcida levantou para aplaudir. Logo atrás vieram os jogadores do Matero.
As camisas verdes surgiram uma a uma. O ginásio respondeu antes mesmo que o locutor anunciasse qualquer nome, um coro grave começou atrás de um dos fundos de quadra. Poucos segundos depois, todo o setor do Matero acompanhava.
Maurício tentou reconhecer os jogadores enquanto caminhavam para a rede, alguns conhecia apenas por vídeos. Outros, pelas entrevistas que assistia escondido durante as aulas. Até que encontrou quem procurava.
— É ele.
Nem percebeu que tinha falado em voz alta, Adriana acompanhou seu olhar. Felipe caminhava alguns passos atrás do restante da equipe. Não fazia nenhum gesto para a torcida, também não parecia ignorá-la. Apenas seguia o grupo.
Uniforme perfeitamente alinhado, mangas na mesma altura. A joelheira sem uma dobra sequer. O locutor anunciou seu nome. A arquibancada respondeu com um rugido, Felipe levantou apenas uma das mãos. O suficiente para agradecer, depois voltou a olhar para a quadra.
— Ele parece...
Maurício procurou uma palavra.
— Menor?
Adriana perguntou.
— Não. Mais... normal.
Ela sorriu.
— Ainda bem. Imagina se famoso crescesse.
Maurício nem respondeu, continuava acompanhando Felipe com os olhos. Esperava alguma comemoração, alguma pose ou gesto para as câmeras. Nada.
Felipe amarrou os cadarços da garotinha que entrou em quadra junto com ele, caminhou até a linha de fundo e recebeu uma bola. Fez dois saques de aquecimento. Os movimentos eram tão parecidos que pareciam a repetição da mesma imagem, sem pressa, sem força desnecessária ou espetáculo. Só precisão.
Maurício não conseguiu desviar os olhos.
— Ele nunca desperdiça movimento.
Adriana olhou novamente para a quadra.
— Você percebe umas coisas...
— Olha. Quando ele pega a bola... Ele nunca segura do mesmo jeito que os outros.
Adriana tentou acompanhar, mas não conseguiu. Maurício continuou.
— O cotovelo fica mais fechado. A mão esquerda entra antes. Ele muda o peso do corpo um pouquinho antes do saque, por isso ele consegue esconder a direção até o último instante.
Adriana riu baixo.
— Eu não entendi metade.
— Nem precisava.
Felipe devolveu a bola ao gandula, cumprimentou rapidamente um árbitro e caminhou em direção ao banco.
Maurício franziu a testa.
— Ué.
Os outros permaneceram aquecendo, Felipe não. Sentou-se, retirou uma garrafa de água da mochila, bebeu um gole. Murilo aproximou-se dele. Os dois trocaram poucas palavras. Felipe apenas assentiu.
Nenhum dos dois demonstrava incômodo, mas havia alguma coisa estranha naquela conversa. Difícil explicar, pareciam pai e filho, sem parecer.
— Ele vai começar no banco?
Maurício perguntou mais para si do que para Adriana. Ela procurou a escalação no telão. Demorou alguns segundos.
— Vai.
— Mas...
Ele olhou outra vez para a quadra, não fazia sentido. O melhor jogador do campeonato, capitão, passar a final no banco. Tentou encontrar alguma resposta. Lesão, talvez, ou desgaste. Talvez alguma estratégia. Não parecia.
Na quadra, Fernando terminou um ataque de aquecimento e recebeu um cumprimento de Murilo. Felipe permaneceu sentado. Os olhos acompanhavam cada movimentação dos companheiros. Àquela distância, Maurício não podia ouvir uma palavra, mesmo assim, teve a impressão de que ele continuava jogando. Só que sem tocar na bola.
O segundo apito atravessou o ginásio, os titulares caminharam para a rede. Felipe continuou no banco, Maurício ajeitou-se na cadeira.
Aquela altura, a torcida inteira passou a esperar por uma pessoa que talvez nem pisaria em quadra.
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O apito inicial dissolveu o restante da expectativa. A bola subiu. O ginásio inteiro pareceu prender o ar junto. Maurício acompanhava cada troca como quem tentava decorar uma língua nova. Não porque não entendesse vôlei. Entendia, mas assistir daquele lugar era diferente. A velocidade parecia outra, a força também. A televisão nunca mostrava quanto espaço existia entre um bloqueio e outro, nem o barulho que a bola fazia ao encontrar o piso.
Os primeiros pontos vieram equilibrados. Carrancas errava pouco, o Matero também. Ainda assim, havia alguma coisa fora do lugar. Maurício percebeu antes do placar mostrar. Os jogadores quase não se olhavam, um levantador comemorava sozinho, o central voltava para a posição sem esperar o restante do time. Quando alguém errava, cada um parecia resolver a frustração em silêncio.
— Tá vendo?
Adriana virou discretamente o rosto.
— O quê?
Maurício continuava olhando para a quadra.
— Eles jogam bem... — Fez uma pequena pausa. — Mas não jogam juntos.
Ela voltou a observar a partida, não conseguiu enxergar. Confiou.
O Carrancas abriu três pontos, Murilo pediu tempo. Do banco, Felipe levantou-se imediatamente, não falou alto, nem fez gestos exagerados. Apenas caminhou até a roda formada pelos companheiros.
Maurício não conseguia ouvir uma palavra, mesmo assim, era impossível não notar que todos os olhos estavam voltados para ele.
Fernando assentia, o levantador também. Até Murilo permanecia em silêncio.
O tempo terminou, Felipe voltou ao banco. O Matero também voltou para a quadra, nada mudou. O Carrancas fechou o primeiro set e o ginásio perdeu volume pela primeira vez naquela tarde.
Alguns torcedores reclamavam da recepção, outros culpavam o saque adversário. Maurício balançou a cabeça.
— Não é isso.
Adriana já havia desistido de tentar acompanhar a leitura tática do irmão.
— Então é o quê?
Ele demorou um pouco, buscava uma imagem.
— Parece... quando tem trabalho em grupo e cada faz sua parte de casa e quando chega pra apresentar vira uma bagunça.
Ela olhou para ele.
— Fez sentido.
O segundo set começou ainda pior. O Carrancas passou a sacar sobre o líbero, o bloqueio do Matero chegava sempre um instante atrasado. As coberturas demoravam, os ataques ficavam previsíveis. Tecnicamente, ninguém jogava mal. Mesmo assim, o time parecia pesado.
Felipe continuava no banco. Às vezes levantava para conversar rapidamente com alguém que voltava da quadra, outras apenas observava. As mãos apoiadas sobre os joelhos, o olhar nunca permanecia preso na bola. Percorria os seis companheiros o tempo inteiro como um maestro ouvindo uma orquestra desafinar.
Maurício começou a entender, não sabia exatamente o motivo. Mas tinha certeza de uma coisa. Felipe não assistia ao jogo, tentava reorganizá-lo.
O segundo set terminou. Carrancas novamente.
O placar no telão parecia mais duro do que realmente era, a diferença entre os dois times não cabia nos números. Cabia em pequenas hesitações. Um passo dado tarde demais uma cobertura esquecida, uma comemoração que nunca chegava inteira.
Enquanto os atletas caminhavam para o banco, Maurício voltou os olhos para Felipe. Pela primeira vez desde o início da partida, ele deixou de parecer tranquilo. Não era raiva, era concentração levada ao limite.
Murilo aproximou-se. Os dois trocaram poucas palavras, Felipe ouviu tudo sem interromper. Quando o técnico terminou, ele apenas retirou o agasalho. Dobrou-o cuidadosamente sobre a cadeira, depois levantou. O ginásio inteiro percebeu antes mesmo de o locutor anunciar.
A arquibancada explodiu, Maurício também. Sem pensar, levantou junto. Não conhecia ninguém ao redor.
Mesmo assim, batia palmas como se estivesse esperando aquele momento desde o primeiro saque.
Felipe caminhou em direção à linha lateral, não olhou para a torcida. Olhou para a quadra como quem finalmente voltava para casa.
O terceiro set começou antes que o ginásio terminasse de aplaudir. Felipe cruzou a linha lateral num trote curto. Cumprimentou Fernando antes mesmo de ocupar sua posição, não disseram uma palavra. Bastou um toque rápido entre as mãos.
A diferença parecia pequena, não era. Maurício percebeu antes mesmo da primeira bola.
Os seis jogadores do Matero se aproximaram naturalmente, formando um círculo apertado perto da linha de saque. Ninguém discursava. Felipe dizia alguma coisa curta enquanto apontava duas regiões da quadra. O levantador concordou. O líbero repetiu a orientação para o central. Quando o árbitro autorizou o reinício da partida, cada um caminhou para sua posição como se finalmente soubesse exatamente onde precisava estar.
— Mudou.
A palavra escapou da boca de Maurício.
Adriana continuava olhando para a quadra.
— Quem?
— Todo mundo.
A bola voltou a subir. Dessa vez, o primeiro ataque nem passou por Felipe, o levantador escolheu a ponta. Gabriel encontrou o bloqueio adversário e a bola voltou viva para o lado do Matero.
Felipe já estava ali, nem tentou atacar, apenas amorteceu o toque para manter a jogada respirando. O levantador reorganizou a equipe.
Nova distribuição, outro ataque. Ponto.
A arquibancada respondeu imediatamente, não pelo ponto, pela construção. Maurício acompanhava tudo com atenção quase obsessiva.
Felipe mal havia tocado na bola, ainda assim, parecia estar em todos os lugares. O rally seguinte terminou com um bloqueio do Carrancas.
Antes que qualquer jogador do Matero pudesse abaixar a cabeça, Felipe já estava no meio deles. Encostou rapidamente na nuca do central, apontou para o espaço entre os dois bloqueadores. Falou alguma coisa que ninguém na arquibancada conseguiu ouvir.
Quando a bola voltou ao jogo, o mesmo atacante encontrou exatamente o corredor indicado. Dessa vez, a bola morreu do outro lado da rede, Gabriel virou imediatamente para Felipe.
Recebeu apenas um aceno discreto. Nada além disso.
Maurício sorriu sozinho. Não porque o Matero diminuía a diferença, porque finalmente enxergava o jogo que sempre tentava explicar para quem nunca jogara vôlei.
As jogadas começaram a durar mais, os pontos também. Agora, quando alguém defendia uma bola improvável, o restante da equipe corria junto.
As comemorações deixaram de acontecer em ilhas, todo ponto terminava do mesmo jeito.
Um toque nas mãos.
Um empurrão no ombro.
Alguém puxando outro de volta para a roda. O Matero parecia respirar no mesmo ritmo.
— Era isso.
Adriana olhou para o irmão.
— O quê?
— Eles voltaram a conversar.
Ela tentou acompanhar aquela conversa invisível, os olhares, os gestos. As pequenas aproximações entre uma jogada e outra. Nunca teria percebido sozinha, agora não conseguia deixar de ver.
Felipe finalmente recebeu uma bola alta na saída de rede, não havia espaço. O bloqueio do Carrancas já esperava por ele. Mesmo assim, o braço acelerou no último instante, a bola encontrou exatamente a única fresta disponível. Nem parecia um ataque forte, parecia inevitável.
O ginásio levantou.
Felipe apenas virou para o levantador, os dois encostaram as mãos por menos de um segundo. Depois cada um voltou ao próprio lugar, sem comemoração, como se aquele ponto fosse apenas o próximo passo.
O terceiro set terminou para o Matero. O quarto também.
Entre um set e outro, Maurício perdeu a conta de quantas vezes olhou para o banco adversário. Os jogadores do Carrancas continuavam bons, mas já não pareciam tão seguros. Não esperavam o empate.
Do outro lado da rede havia um time. O quinto set começou sob um barulho diferente, não era euforia, era expectativa.
Até quem torcia contra entendia que alguma coisa rara estava acontecendo, Felipe caminhou até a linha de saque e recebeu a bola do gandula. Girou-a uma vez entre as mãos. Olhou rapidamente para os companheiros antes de ocupar sua posição.
Nenhum deles precisou dizer nada. Todos já falavam a mesma língua.
O tie-break começou antes que o ginásio terminasse de se sentar, ninguém parecia disposto a piscar.
A cada troca de bola, o barulho crescia e desaparecia de novo, como se milhares de pessoas respirassem obedecendo ao mesmo pulmão. Maurício já não conseguia permanecer encostado no banco. Apoiava os antebraços na grade metálica da arquibancada, o corpo inteiro inclinado para a quadra.
Sentia as pernas inquietas, como quando assistia aos próprios jogos do lado de fora antes de entrar.
A diferença era que, dessa vez, quem jogava era alguém que parecia fazer tudo parecer simples. Os primeiros pontos foram divididos, um para cada lado. Depois outro. Nenhuma equipe conseguia abrir vantagem. Cada bola demorava uma eternidade para tocar o chão.
Quando finalmente tocava, o ginásio explodia antes mesmo que o árbitro apontasse o vencedor da jogada.
Felipe atravessava aquela tensão de um jeito curioso, não parecia apressado, nem ansioso. Entre um ponto e outro, aproximava os companheiros. Dizia uma frase curta, esperava uma resposta. Afastava-se como se estivesse lembrando cada um deles de alguma coisa que todos já sabiam.
Fernando bloqueou uma bola difícil, o grito veio antes do ponto. Quando a bola caiu do lado adversário, virou procurando Felipe quase por instinto. Felipe levantou o polegar. Só isso. Fernando sorriu como um menino.
Maurício percebeu. Não o bloqueio, o sorriso.
E entendeu que aquele gesto valia mais do que qualquer comemoração espalhafatosa. O placar voltou a empatar, depois mudou outra vez.
Carrancas.
Matero.
Carrancas.
Matero.
O tempo deixava de existir entre um saque e outro. Adriana já não fazia perguntas, nem comentários. Às vezes olhava para o irmão e encontrava o mesmo garoto que passava tardes inteiras vendo vídeos de fundamentos no celular. Só que agora ele estava ali, no meio de tudo.
Os tambores da torcida haviam parado fazia alguns minutos.
Ninguém parecia lembrar deles, as mãos ocupavam outro trabalho. Aplaudiam. Apertavam bandeiras. Seguravam a cabeça. Rezavam.
Murilo permanecia de pé na área técnica, os braços cruzados e o olhar firme. Pela primeira vez durante toda a partida, não corrigia ninguém. Apenas observava.
Felipe passou por ele depois de uma troca de lado, Murilo tocou rapidamente seu ombro. Nem chegou a dizer uma palavra, Felipe respondeu com um movimento quase imperceptível da cabeça. Seguiu caminhando.
Maurício viu a cena de longe. Achou bonito. Pensou que devia ser bom ter um treinador que confiava daquele jeito no próprio capitão.
O placar marcou 13 a 13.
O ginásio inteiro levantou, nem houve pedido. As pessoas simplesmente ficaram de pé, o saque do Carrancas atravessou a rede. A recepção veio limpa, o levantador encontrou Fernando que havia voltado pro jogo. A bola voltou, outra defesa, outro ataque. Felipe apareceu pelo meio, não para finalizar. Empurrou a bola de volta para o levantador no último instante.
A jogada continuou viva, mais um ataque, mais uma defesa. Até que o bloqueio do Matero fechou a porta. A bola encontrou o chão.
Quatorze a treze.
O som que tomou conta do ginásio parecia grande demais para caber ali dentro, Fernando abraçou o central. O líbero apareceu logo depois, alguém puxou Felipe para o meio da roda.
Pela primeira vez naquela tarde, ele riu sem tentar esconder, foi rápido. Mas suficiente para transformar seu rosto inteiro.
Murilo desviou os olhos da quadra por um instante, a tensão que carregava desde o início da partida cedeu espaço a um orgulho discreto. Quase involuntário.
Durou pouco.
O árbitro autorizou o reinício, os jogadores voltaram às posições. Felipe caminhou até a linha de fundo, o gandula lhe entregou a bola. Ela girou lentamente entre seus dedos enquanto ele procurava a posição do saque.
Do outro lado da rede, os adversários se organizavam para a recepção. Na arquibancada, Maurício apoiou as duas mãos na grade, nem percebeu que prendia a respiração.
Não torcia mais apenas pelo Matero. Queria ver aquela última bola sair das mãos de Felipe. O ginásio inteiro pareceu silenciar ao mesmo tempo, Felipe deu o primeiro passo. A bola deixou sua mão esquerda.
Seu braço começou a subir.
E, por um instante, o mundo inteiro coube naquele movimento.
Felipe lançou a bola para o alto, tudo aconteceu como havia acontecido milhares de vezes. O braço acelerou, a mão encontrou a bola no ponto mais alto. O impacto ecoou seco pelo ginásio.
Assim que o saque deixou seus dedos, Felipe soube. Pouco, coisa de centímetros. Mas suficiente. A bola não mergulhou para dentro da quadra, continuou viajando, reta. Mais alta do que deveria.
Do outro lado da arquibancada, Maurício acompanhou a trajetória por reflexo. Levou um segundo para perceber que ela não desceria onde deveria. Menos de um. Não houve tempo para abaixar a cabeça, nem para levantar os braços.
O impacto encontrou a lateral do seu rosto com violência, a cabeça girou antes do restante do corpo. O mundo perdeu direção. O pé buscou um degrau que já não estava onde deveria.
Depois veio o vazio.
Adriana ouviu primeiro o barulho do corpo encontrando a escada, só depois viu o irmão desaparecer para trás da fileira de cadeiras.
— Maurício!
O grito atravessou o ginásio antes que qualquer outra voz conseguisse surgir. O corpo rolou dois degraus, a nuca encontrou a quina de concreto com um estalo surdo. Então parou.
O ingresso escapou de sua mão, girou uma vez no ar. Caiu aberto ao lado dele. O locutor interrompeu a frase no meio, um tambor ainda marcou duas batidas antes de silenciar também.
A bola voltou lentamente para dentro da quadra. Quicou uma vez, depois outra. Ninguém foi buscá-la, Felipe permaneceu imóvel. Os olhos presos ao lugar onde Maurício havia caído.
Não lembraria, anos depois, do impacto do saque. Só da queda, do som, do corpo desaparecendo entre as cadeiras.
Foi o primeiro a correr, nem ouviu o apito, nem percebeu Murilo chamando alguma coisa atrás dele.
Atravessou a quadra, pulou a placa de publicidade e alcançou a arquibancada quase ao mesmo tempo que os seguranças. Adriana estava ajoelhada ao lado do irmão. As mãos tremiam tanto que ela não conseguia decidir onde tocar.
Chamava seu nome repetidas vezes, como se insistir pudesse trazê-lo de volta. Felipe afastou-se apenas o suficiente para enxergar.
Havia um fio de sangue descendo lentamente pela parte de trás da cabeça de Maurício. Muito pouco, quase delicado.
O silêncio dele assustava muito mais.
— Não mexe nele.
A voz saiu firme. Era a primeira frase que Felipe dizia desde o saque.
Um médico da equipe já subia os degraus acompanhado pelos socorristas, Felipe recuou automaticamente para abrir espaço. Mesmo assim, não conseguiu desviar os olhos.
Um dos profissionais iluminou as pupilas de Maurício, outro estabilizou seu pescoço. As perguntas se acumulavam ao redor. Ninguém respondia.
Adriana continuava segurando a mão do irmão, Felipe abaixou os olhos por um instante. O ingresso da final permanecia aberto ao lado do tênis dele, a borda laminada estava dobrada. Havia uma pequena marca de sola atravessando o escudo do Matero.
Ele o recolheu quase sem pensar, dobrou cuidadosamente o papel já amassado. Guardou-o no bolso da bermuda.
Os socorristas prenderam Maurício à prancha rígida, só então o levaram escada abaixo.
O ginásio abriu caminho em silêncio.
Centenas de pessoas assistiam àquela pequena procissão sem lembrar, por alguns instantes, que havia uma final acontecendo. A porta da ambulância já estava aberta quando a maca chegou.
Os paramédicos começaram a entrar, Adriana subiu logo atrás.
Felipe fez o mesmo.
— Felipe!
A voz de Murilo atravessou o estacionamento. Pela primeira vez desde criança, Felipe não respondeu imediatamente. Olhou apenas uma vez na direção do pai, depois voltou-se para a ambulância.
Entrou.
A porta fechou com um ruído metálico. O motorista ligou a sirene. Enquanto o veículo deixava o ginásio, o placar permanecia aceso.
Matero 14.
Carrancas 13.
Ninguém parecia olhar para ele.
O hospital parecia existir num horário diferente do resto da cidade.
Enquanto a ambulância atravessava o trânsito com a sirene aberta, alguém corria pelos corredores empurrando outra maca. Um telefone tocava sem parar atrás do balcão da recepção. O cheiro de antisséptico engolia qualquer lembrança do ginásio.
Maurício desapareceu atrás das portas da emergência antes que Felipe conseguisse perguntar qualquer coisa. Adriana tentou acompanhá-lo.
Uma enfermeira segurou seu braço com delicadeza.
— A senhora precisa esperar aqui.
Ela apenas assentiu.
As pernas cederam antes que encontrasse uma cadeira, Felipe permaneceu de pé. Ainda vestia o uniforme, só então percebeu que havia sangue na própria manga.
Não era dele.
Olhou para a mancha durante alguns segundos. Como se tentasse lembrar em que momento ela havia aparecido.
— Você é da família?
A pergunta veio da recepcionista. Felipe demorou um instante, olhou para Adriana. Ela continuava encarando a porta da emergência.
— Não.
A palavra saiu quase inaudível.
— Sou... do time.
A mulher fez um gesto compreensivo com a cabeça, voltou ao computador. Felipe permaneceu ali, sem saber exatamente onde colocar as mãos. Sem conseguir imaginar qualquer outro lugar para estar.
Pouco mais de vinte minutos depois, uma mulher atravessou a porta automática quase correndo.
O cabelo ainda preso às pressas. O uniforme do mercado escondido sob um casaco fino, os olhos procuravam alguém antes mesmo de entender onde estavam.
— Adriana!
A irmã levantou imediatamente. As duas se abraçaram com tanta força que nenhuma conseguiu falar primeiro. Felipe desviou o olhar, sentia que não pertencia àquele momento.
Mesmo assim... não foi embora.
Elisa aproximou-se da recepção tentando organizar perguntas que saíam todas ao mesmo tempo.
A médica respondeu com calma.
— Ele sofreu um traumatismo importante na cabeça. Precisamos observar as próximas horas.
A tomografia não mostrou necessidade de cirurgia neste momento, mas ele continua inconsciente. A palavra ficou suspensa entre elas.
Inconsciente.
Como se o corredor inteiro tivesse diminuído de tamanho, Elisa levou uma das mãos à boca. Adriana segurou seu braço antes que ela perdesse o equilíbrio. Felipe continuava alguns passos atrás.
Imóvel.
A médica percebeu sua presença.
— Você veio com eles?
Felipe respondeu antes mesmo de pensar.
— Sim.
A médica apenas assentiu.
— Foi importante.
Depois voltou a conversar com Elisa. Felipe baixou os olhos, pela primeira vez desde o saque, sentiu o peso do próprio corpo.
Sentou-se.
O uniforme ainda cheirava ao ginásio, o bolso da bermuda incomodava. Enfiou a mão ali dentro, encontrou o ingresso. Abriu o papel cuidadosamente. A dobra atravessava o escudo do Matero.
Durante alguns segundos, ficou apenas observando aquela marca, depois tornou a dobrá-lo do mesmo jeito.
Guardou-o outra vez.
Pela primeira vez naquele dia, Felipe não colocou música para preencher o silêncio. Ficou apenas ali, esperando que um garoto cujo nome ele nunca tinha ouvido pronunciar abrisse os olhos.
E, sem perceber, escolheu o lado da história do qual nunca mais conseguiria sair.
🏐
Fim do capítulo.
📁 Arquivo MATERO
Sabia que os líberos são os únicos atletas que usam um uniforme diferente?
Eles não podem atacar acima da rede nem bloquear, mas costumam ser considerados o coração defensivo da equipe.
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Nos vemos na próxima partida.
— Henrique Bravi
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