TERCEIRO SET
4 Capítulo 03: Sinais
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O despertador tocou às cinco e meia, Maurício já estava acordado.
Ficou alguns segundos olhando para o teto, tentando entender onde estava. Aos poucos, o quarto deixou de parecer estranho. A parede branca, a mala ainda aberta no canto, o uniforme novo pendurado na porta do guarda-roupa.
Respirou fundo.
Era o primeiro dia de verdade. Levantou-se em silêncio para não acordar Lucas. Tomou um banho rápido, vestiu a roupa de treino e foi para a cozinha.
A cafeteira elétrica ainda parecia nova demais para fazer parte da casa. Depois de alguns minutos de tentativa, finalmente conseguiu fazê-la funcionar. O cheiro de café começou a se espalhar pelo apartamento.
Foi quando ouviu uma voz rouca surgir do corredor.
— Tem incêndio?
Maurício virou.
Lucas apareceu completamente amassado, com um olho quase fechado e a camisa do avesso.
— É café.
Lucas respirou fundo.
— Ainda bem...
Sentou-se à mesa como se cada movimento exigisse um esforço descomunal. Maurício colocou uma caneca à frente dele.
— Bom dia.
Lucas olhou para o relógio do micro-ondas. Cinco e quarenta e dois, depois olhou novamente para Maurício.
— Não.
— Como assim, "não"?
— Isso não é bom dia. Isso ainda é madrugada.
Maurício riu.
— Você queria ser atleta profissional e não sabia que ia acordar cedo?
Lucas tomou um gole do café. Fez uma careta.
— Eu queria jogar vôlei. Ninguém falou nada sobre existir antes das seis da manhã.
Maurício voltou para a cozinha.
— Anda. A gente ainda precisa passar na administração pra entregar os contratos assinados.
— Você leu aquilo tudo antes de assinar?
— Li.
— E?
— Acho que vendi minha alma.
Lucas ergueu uma sobrancelha.
— Nesse nível?
— Trinta por cento de qualquer publicidade. Uso da imagem. Campanhas obrigatórias...
Fez uma pausa.
— E uma cláusula curiosa.
— Qual?
— Não pode se envolver com ninguém do clube.
— Então por que eles colocam centenas de atletas no auge dos vinte e poucos anos presos num lugar se não pode pegar ninguém? Tortura.
Maurício riu.
— Tá muito cedo pra você pensar em sacanagem, adianta teu lado antes que a gente se atrase pro primeiro treino. Aí sim não vamos precisar nos preocupar com contrato.
Lucas ficou alguns segundos pensando.
Depois apontou a caneca para Maurício.
— Realmente, você tem um ponto.
Pouco mais de vinte minutos depois, os dois saíam do condomínio. O ar ainda estava frio, alguns moradores passeavam com cachorros, outros caminhavam em direção ao trabalho.
Lucas bocejou tão alto que um senhor atravessando a rua olhou para ele.
— Cara... Como você tá com esse bom humor essa hora?
Maurício ia responder quando viu a porta do bloco D se abrir. Felipe, vestia a mesma roupa de treino que todos usariam naquele dia. Trazia uma mochila nas costas e a chave do carro na mão.
Maurício diminuiu o passo por um instante, depois acelerou.
— Vamos.
Lucas olhou para ele.
— O quê?
— Anda logo.
Lucas olhou sem entender.
— O quê?
Maurício fez um discreto movimento com a cabeça.
— Antes que ele veja a gente.
Lucas olhou.
— Ah...
— Vai que ele resolve ser gentil de novo.
Lucas abriu um sorriso.
— Mas eu gostei quando ele resolveu.
Maurício acelerou o passo.
— Eu não.
Lucas respondeu quase correndo atrás dele.
— Você dificulta muito a minha vida.
Maurício nem diminuiu o ritmo.
— Vai à merda, Lucas.
Lucas começou a rir enquanto corria para alcançá-lo.
— Você guarda rancor muito rápido.
— Eu não guardo rancor.
— Guarda sim.
— Não guardo.
— Guarda.
— Lucas...
— Tá bom, tá bom.
Os dois atravessaram o portão do condomínio ainda discutindo. Atrás deles, o carro de Felipe saiu calmamente pelo acesso de veículos, passou ao lado dos dois.
Felipe apenas ergueu a mão em cumprimento.
— Bom dia.
Lucas respondeu imediatamente.
— Bom dia!
Maurício demorou meio segundo. Acabou levantando a mão também, o carro seguiu. Lucas esperou alguns instantes antes de falar.
— Tá vendo?
— O quê?
— Ele nem ofereceu carona.
Maurício soltou um suspiro.
— Ainda bem.
Lucas sorriu de canto.
— Agora eu tô um pouco decepcionado. Culpa sua, agora vou ter que caminhar 35 minutos nesse frio.
Maurício empurrou de leve o ombro do amigo.
— Anda logo. Aproveita e leva como aquecimento.
Os dois seguiram pela calçada. À frente, o Matero já aparecia desperto, funcionários cruzavam os portões. Atletas chegavam aos poucos. A pré-temporada começava oficialmente naquela manhã. Assim que atravessou aqueles portões, Maurício teve a sensação de que não estava mais chegando. Pela primeira vez desde que deixou sua antiga vida para trás... estava começando.
O centro de medicina esportiva do Matero ocupava um prédio inteiro ao lado do ginásio principal. Do lado de fora, a fachada de vidro refletia o sol da manhã. Por dentro, corredores claros, aparelhos modernos e um fluxo constante de atletas cruzando de um lado para o outro. Camisas de diferentes modalidades se misturavam sem cerimônia.
Lucas diminuiu o passo.
— Eu achei que a gente ia só... jogar vôlei.
Maurício sorriu.
— Acho que primeiro eles precisam descobrir se a gente sobrevive.
Receberam uma prancheta na recepção.
Nome.
Documento.
Plano de saúde.
Histórico de lesões.
Alergias.
Assinaram mais alguns formulários antes de uma fisioterapeuta aparecer na porta.
— Maurício Oliveira?
Ele levantou a mão.
— Lucas Pequeno?
— Presente. Infelizmente.
A mulher sorriu.
— Podem entrar.
As primeiras avaliações foram simples.
Peso.
Altura.
Percentual de gordura.
Mobilidade.
Amplitude dos ombros.
Joelhos.
Quadril.
Lucas parecia genuinamente curioso com tudo.
— Posso perguntar uma coisa?
O preparador físico assentiu.
— Claro.
— Vocês conseguem descobrir quem mente quando diz que dormiu oito horas?
O homem riu.
— Normalmente, sim.
Lucas olhou para Maurício.
— Ainda bem que eu falei sete.
Depois vieram os saltos. Maurício já conhecia aquele equipamento, passou pelas medições sem dificuldade.
Lucas, por outro lado, parecia transformar qualquer teste em um espetáculo. No primeiro salto, aterrissou um passo à frente da plataforma. No segundo, perguntou se podia repetir "porque agora tinha entendido o espírito da coisa". No terceiro, conseguiu um resultado excelente. O preparador anotou o número.
— Nada mal.
Lucas sorriu para Maurício.
— Viu?
Método científico.
Enquanto aguardavam a próxima estação, outros atletas chegavam. Alguns já conhecidos, Gabriel acenou de longe. Fernando apareceu logo atrás.
— Bom dia, calouros.
Lucas olhou em volta.
— Achei que isso acabava quando a gente saía da faculdade.
Fernando deu um tapinha em seu ombro.
— Você foi a alguma?
— Não.
— Então pronto, aqui é a sua.
Gabriel apontou para a fila seguinte.
— Relaxem. Hoje ninguém morre.
Fernando completou:
— Só amanhã.
Pouco a pouco, o restante do elenco começou a aparecer.
Centrais.
Ponteiros.
Levantadores.
Líberos.
O ginásio ganhava rostos. Alguns conversavam entre si como velhos amigos. Outros ainda pareciam procurar um lugar onde ficar, Maurício tentava decorar nomes.
Desistiu depois do décimo. Lucas resolveu o problema de outro jeito.
— Eu só vou chamar todo mundo de "chefe" até decorar.
A última avaliação era a corrida. Cinco voltas completas na pista ao redor do centro esportivo. Não valia tempo. Era apenas um teste inicial. Mesmo assim, alguns transformaram aquilo numa disputa.
Fernando ultrapassou Gabriel na última reta apenas para erguer os braços ao cruzar a linha imaginária.
— Campeão mundial das avaliações físicas.
Gabriel nem ofegava.
— Parabéns. Seu prêmio é correr mais rápido do apito de Murilo.
Fernando fez uma reverência.
— Obrigado. Sempre sonhei com esse momento.
Lucas olhou para Maurício.
— Acho que gostei desse cara.
Maurício sorriu.
— Eu imaginei.
Pouco antes das onze, os grupos começaram a ser direcionados para o ginásio principal. Um funcionário abriu uma das portas laterais.
— Equipe masculina de voleibol. Podem entrar.
Maurício respirou fundo. Agora veria o elenco completo reunido. E descobriria que, dali em diante, todos começariam a disputar exatamente a mesma coisa: um lugar dentro da quadra.
O ginásio principal estava diferente. Sem torcida, sem iluminação de jogo, sem música. Apenas o som dos passos ecoando pela arquibancada vazia e o cheiro característico da quadra recém-limpa.
Os atletas foram entrando aos poucos.
Alguns jogavam mochilas próximas ao banco de reservas. Outros aproveitavam para matar a saudade dos companheiros depois das férias. Risadas surgiam de diferentes cantos da quadra.
Lucas olhava tudo como uma criança entrando em um parque de diversões.
— Nossa...
Maurício acompanhou o olhar. Era a primeira vez que via aquele ginásio completamente vazio.
Sem barulho, sem pressão. Só o espaço onde tudo aconteceria dali em diante.
— Formem um semicírculo.
A voz de Murilo cortou as conversas.
Em poucos segundos, o grupo inteiro se reuniu próximo à linha dos três metros. Ao lado dele estavam os demais membros da comissão técnica: preparador físico, fisioterapeutas, analistas de desempenho, nutricionista e os auxiliares técnicos.
Murilo esperou o último atleta se aproximar antes de começar.
— Antes de qualquer coisa... bem-vindos de volta. — Olhou rapidamente para os veteranos. — E bem-vindos aos que estão chegando agora.
Fez uma breve pausa.
— Alguns de vocês já conhecem essa conversa. Outros vão ouvi-la pela primeira vez. Em ambos os casos, vale a pena prestar atenção.
O silêncio tomou conta do ginásio.
— Durante os próximos dias vocês serão avaliados em absolutamente tudo.
Alguns atletas trocaram olhares discretos.
Murilo continuou.
— Parte física. Parte técnica. Parte tática.
Olhou para os integrantes da comissão.
— Comportamento, convivência, comprometimento. Tudo conta pro time que queremos montar. Não é novidade pra ninguém que nas últimas duas temporadas ficamos bem abaixo do nosso potencial e não iremos repetir esse mau desempenho pelo terceiro ano.
Maurício percebeu alguns veteranos assentindo com a cabeça. Aquilo claramente não era novidade.
— No fim da pré-temporada realizaremos uma competição interna.
Dessa vez o murmúrio foi inevitável.
Murilo esperou o barulho diminuir.
— Essa competição definirá a composição do elenco para o início da temporada.
Apontou para a quadra.
— Time principal. Reservas. Equipe de desenvolvimento. Ninguém tem lugar garantido. Nem quem acabou de chegar, nem quem já está aqui há cinco anos.
O silêncio que se seguiu foi diferente do anterior.
Mais pesado.
Mais atento.
Lucas descruzou os braços pela primeira vez desde que haviam entrado. Murilo sorriu de leve.
— A intenção não é intimidar vocês, mas se vieram para um clube grande, era exatamente isso que deveriam esperar.
Algumas risadas aliviaram a tensão. Ele então olhou para um dos atletas.
— Felipe.
O capitão deu um passo à frente. As conversas cessaram imediatamente. Murilo colocou uma mão em seu ombro.
— Acho que ninguém melhor do que você para dizer algumas palavras aos novatos.
Murilo se afastou. Felipe permaneceu em silêncio por alguns segundos, olhando para o grupo. Não parecia procurar um discurso.
Quando falou, sua voz saiu calma.
— Todo ano chegam atletas muito talentosos. — Olhou rapidamente para os rostos novos. — E todo ano alguns veteranos acham que isso não faz diferença.
Um sorriso discreto apareceu no canto da boca de Fernando.
Felipe continuou.
— No fim do mês, normalmente, nenhum dos dois grupos está satisfeito.
Algumas risadas surgiram. Ele esperou.
— Não tentem impressionar ninguém. Treinem, escutem, errem. Aprendam rápido. — Olhou para Murilo antes de concluir. — Quem faz isso costuma encontrar espaço. Quem acha que já merece esse espaço... normalmente descobre que merece menos do que imaginava.
Fez um breve aceno com a cabeça.
— Aproveitem ao máximo cada segundo a partir daqui. É isso.
Sem aplausos.
Sem frases de efeito.
Felipe simplesmente voltou para o lugar onde estava.
Murilo sorriu.
— Certo, Felipe. — O rapaz ignorou. — Esse é o espírito, pessoal.
A tensão desapareceu por alguns instantes. Murilo consultou o relógio.
— Estão liberados para o almoço, depois estão dispensados. À noite teremos o coquetel de abertura da temporada. Atletas, comissão técnica, diretoria e patrocinadores estarão presentes. Então façam um favor a vocês mesmos. — Olhou para Lucas, que imediatamente percebeu que tinha sido visto durante toda a manhã. — Não apareçam atrasados.
As conversas recomeçaram enquanto o grupo se dispersava em direção à saída do ginásio. Maurício, Lucas e alguns novatos caminham juntos, alguns comentam:
— Fácil pra ele falar.
Outro atleta responde.
— Quem?
— O Felipe.
— Por quê?
— Porque ele não corre risco nenhum. O pai dele é o treinador.
A pré-temporada ainda não tinha começado de verdade.
Mas todos já entendiam a mesma coisa.
A partir dali, cada treino seria uma disputa silenciosa por espaço, confiança e permanência. É justamente essa percepção que prepara o terreno para o próximo ato, quando as rivalidades e alianças começam a surgir de forma mais pessoal.
O restaurante do clube ocupava o térreo do prédio administrativo.
Era amplo, iluminado e surpreendentemente silencioso para a quantidade de gente que passava por ali. Atletas de diferentes modalidades dividiam as mesas sem muita cerimônia. Em um canto, jogadores do basquete discutiam quem tinha perdido uma aposta nas férias. Mais adiante, duas garotas conversavam baixinho enquanto montavam pratos quase idênticos.
Lucas olhava para tudo.
— Cara...
— O quê?
— Eu nunca vi tanta comida sem sal reunida.
Maurício pegou uma bandeja.
— Pelo menos é de graça.
Lucas sorriu.
— Finalmente um benefício desse contrato abusivo.
Passaram pela fila.
Arroz.
Feijão.
Frango.
Legumes.
Salada.
Lucas encarava uma travessa de brócolis como quem observava um inimigo antigo.
— Eles obrigam?
Maurício riu.
— Mais ou menos, a nutricionista manda a dieta toda semana por mensagem.
— Nesse caso vou fingir que não vi.
Pegou mais uma concha de arroz.
— Isso aqui também é vegetal.
Sentaram-se em uma mesa próxima à janela.
Gabriel e Fernando logo apareceram.
— Podemos?
— Claro.
Fernando largou a bandeja.
— Sobreviveram à palestra do Murilo?
Lucas assentiu.
— Achei que ele fosse anunciar uma guerra.
Gabriel sorriu.
— Não deixa de ser. Todo começo de temporada é assim.
Fernando apontou discretamente para Felipe, que almoçava sozinho algumas mesas adiante.
— O discurso do capitão foi mais curto que o normal.
Lucas riu.
— Ele consegue falar pouco até quando mandam ele falar.
— Se economizar palavras fossem modalidade olímpica, ele já seria tetra.
As conversas seguiam leves. Até que um grupo de veteranos passou ao lado da mesa. Um deles olhou para Maurício.
Sorriu.
— Cuidado, pessoal. Vamo evitar sacar na cara do novato.
Outro completou.
— Dizem que em final ele prefere passar deitado.
Algumas risadas surgiram.
Maurício forçou um sorriso.
Já esperava.
O primeiro continuou.
— Relaxa. Se o capitão tentar te matar de novo, agora tem médico do clube.
Mais risadas.
Lucas já começava a responder quando uma voz surgiu atrás deles.
— Já acabou?
O grupo inteiro olhou.
Felipe. Segurava apenas uma garrafa de água. Seu tom era calmo, quase indiferente. O veterano deu de ombros.
— É brincadeira.
Felipe sustentou o olhar por alguns segundos.
— Ele acabou de chegar.
Outra pausa.
— Acho que a primeira lembrança que ele vai ter daqui não precisa ser de você sendo...
Hesitou por um instante.
— ...babaca, correto?
Ninguém respondeu.
O veterano soltou um sorriso sem graça.
— Tá bom. Foi mal.
O grupo continuou andando. Felipe também, como se nada tivesse acontecido.
Fernando observou a cena desaparecer, depois olhou para Maurício.
— Isso... não costuma acontecer com frequência, relaxa.
Gabriel concordou em silêncio. Lucas apenas levantou as sobrancelhas. Maurício permaneceu alguns segundos olhando para o corredor, sem absorver o que havia ocorrido.
Quando terminou de almoçar, levantou-se para devolver a bandeja. Por coincidência, Felipe fazia o mesmo. Os dois caminharam lado a lado até o balcão, o silêncio durou alguns passos.
Maurício respirou fundo.
— Felipe.
O outro virou levemente a cabeça. Foi a primeira vez desde aquela conversa no primeiro dia que Maurício pronunciava seu nome.
— Obrigado.
Felipe franziu a testa.
— Pelo quê?
— Pelo que você fez agora.
Felipe colocou a bandeja sobre o carrinho metálico.
O barulho do inox ecoou pelo salão.
— Não fiz por você.
Maurício ficou sem resposta.
Felipe continuou.
— Só não gosto de brincadeira fora do tom.
Pegou a garrafa de água novamente.
— Você parece não gostar de brincadeira nenhuma.
Maurício deixou escapar um pensamento. Felipe olhou para ele por um instante como se considerasse responder.
— Aproveita o primeiro mês. Vai passar mais rápido do que parece.
Felipe desapareceu pelo corredor sem olhar para trás. Maurício permaneceu parado por alguns segundos. Ainda não fazia ideia do que pensar sobre ele. Talvez nunca fosse entender aquele homem. E, naquele momento, decidiu que também não precisava.
Havia uma pré-temporada inteira pela frente. Era nela que pretendia concentrar seus pensamentos.
O caminho de volta ao condomínio foi muito mais silencioso do que o da manhã. O sol do início da tarde castigava a calçada, e os dois caminhavam sem pressa.
Lucas foi o primeiro a quebrar o silêncio.
— Acho que gostei do Gabriel.
Maurício sorriu.
— Eu imaginava.
— E do Fernando também.
— Também imaginava.
Lucas fez uma pausa.
— Do Felipe eu ainda tô decidindo.
Maurício não respondeu.
Continuou olhando para frente.
Lucas percebeu.
— Ainda pensando no almoço?
— Um pouco.
— Eu achei que ele fosse ignorar.
— Eu também.
Mais alguns passos.
— Mas isso não muda nada.
Lucas deu um sorriso discreto.
— Se você tá dizendo...
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Quando chegaram ao apartamento, a primeira coisa que Lucas fez foi tirar o tênis e se jogar no sofá.
— Finalmente.
Maurício largou a mochila ao lado da porta.
— Você não fez quase nada hoje.
— Mas tive que aturar esporro logo cedo e olha que a gente nem tocou na bola ainda. Tô cansado só de pensar nos próximos dias.
Maurício riu. Abriu a geladeira. As dezoito caixas de leite ocupavam praticamente uma prateleira inteira.
Lucas apareceu atrás dele.
— Continua sendo uma boa compra, viu.
— Continua.
— Você vai agradecer quando acabar a água e só sobrar leite.
Maurício fechou a porta.
— Espero que o apocalipse venha antes do vencimento.
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Depois do banho, o apartamento mergulhou num silêncio confortável. Cada um ocupava um canto, Lucas mexia no celular. Maurício organizava algumas roupas no armário. Foi Lucas quem voltou a falar.
— Vai de camisa?
— Pro quê?
— Pro coquetel.
— Ainda se usa "coquetel" hoje em dia? Não tem um nome em inglês pra isso? Happy hour... networking...
Lucas deu de ombros.
— Deve ter. Mas foi o Murilo que chamou assim. Ele ainda usa caneta e papel, então...
Lucas fez uma expressão de sofrimento.
— Eu odeio roupa social.
— Você tem alguma?
Silêncio. Maurício virou devagar. Lucas sorriu sem mostrar os dentes.
— Defina "ter".
— Lucas...
— Eu até tenho, mas tá com a minha mãe.
Maurício fechou os olhos por um instante.
— Você veio pra uma apresentação oficial do clube sem roupa social?
Lucas abriu os braços.
— Eu achei que só se usasse roupa esportiva aqui.
— A diretoria inteira vai estar lá.
— Eu sei disso agora.
Maurício caminhou até o quarto. Abriu a mala e retirou duas camisas. Estendeu uma delas para Lucas.
— Veste essa.
Lucas segurou a peça como se tivesse recebido um prêmio.
— Você acabou de salvar minha reputação.
— Acredito no seu potencial de acabar com ela sozinho ainda essa noite.
Lucas entrou no quarto para experimentar. Maurício permaneceu sozinho na sala. Sem perceber, voltou a pensar na conversa do almoço.
"Não fiz por você."
Repetiu mentalmente a frase. Parecia sincera, talvez fosse justamente isso que mais o incomodava.
Porque, se Felipe realmente não tinha feito aquilo por ele por que havia se irritado tanto?
Maurício balançou a cabeça.
Chega.
Olhou para o relógio. Ainda faltavam algumas horas para o evento.
Respirou fundo. Decidiu ocupar a mente com qualquer outra coisa.
A noite prometia apresentar um Matero completamente diferente daquele que conhecia até então. Não haveria uniformes de treino, cronômetros ou avaliações. Atletas, treinadores, dirigentes e patrocinadores dividiriam o mesmo espaço, longe da quadra. Ali, as relações também eram parte do jogo.
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Fim do capítulo.
💬 Agora eu quero saber de você:
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Nos vemos em breve na próxima partida.
— Henrique Bravi
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