TERCEIRO SET
25 Capítulo 24: Deixe sua Natureza se Manifestar
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— Não, não foi assim.
Fernando estava deitado de barriga para baixo, os pés balançando no ar enquanto segurava o celular diante do rosto.
— Foi exatamente assim — Maurício corrigiu da outra cama.
— Eu tava lá, posso contar?
— Mas tá contando errado.
A voz de Lucas saiu pelo alto-falante:
— Vocês podem parar de discutir e alguém me contar como foi o jogo?
— A gente ganhou — Maurício respondeu.
— Isso eu sei, imbecil. Três a zero. Eu acompanhei pela TV.
Fernando virou a câmera para Maurício.
— Ele quer saber se o namorado dele jogou bem.
— Não é meu namorado.
— Tava falando de mim.
Maurício pegou um travesseiro e arremessou.
Fernando desviou por pouco.
— Viu? Agressivo.
Lucas riu do outro lado.
— O Mau entrou?
— Entrei.
— E?
— E nada. Joguei.
Fernando virou a câmera outra vez.
— Olha a cara dele. Parece que perdeu de três a zero.
— Eu tô cansado.
— Sei.
Maurício mostrou o dedo do meio e voltou para o celular.
A vitória tinha sido fácil. Rápida até. O Matero estava na semifinal e, algumas horas antes, aquilo teria sido motivo suficiente para deixá-lo elétrico pelo resto da noite. Mas agora havia um cansaço estranho sobre o corpo.
Talvez fosse só a sequência dos últimos dias. Talvez fosse Felipe.
Não queria pensar nisso.
O celular vibrou. Maurício olhou para a notificação e ergueu ligeiramente as sobrancelhas.
— Ah.
Fernando virou imediatamente.
— Que "ah" foi esse?
— Nenhum.
— Houve claramente um "ah".
— Cuida da sua vida.
— Mostra.
Maurício virou o celular contra o peito.
— Fernando.
Tarde demais.
Ele já tinha levantado da própria cama.
— Mostra.
— Sai daqui.
Os dois começaram uma disputa silenciosa pelo aparelho até Fernando conseguir enxergar a tela. Parou.
Depois abriu um sorriso.
— Ah, não.
— O quê? — Lucas perguntou.
Maurício tentou puxar o celular.
— Nada.
Fernando levantou o braço.
— O Otávio começou a seguir ele.
Silêncio do outro lado.
— Que Otávio?
Fernando olhou para Maurício.
— O Otávio.
— Ah.
Maurício finalmente recuperou o aparelho.
— Por que todo mundo tá fazendo "ah"?
— Ele é bonito — Lucas concluiu.
— Meu Deus.
— Muito — Fernando concordou.
— Vocês são insuportáveis.
Maurício abriu o perfil. A notificação continuava lá. Por algum motivo, sorriu.
Era estranho.
Até dois dias antes, Otávio era alguém que ele acompanhava pela televisão. Agora tinha conversado com ele praticamente sem roupa num quarto errado e ganhado dez voltas de punição por isso.
Fernando apontou:
— O namorado do Maurício ganhou concorrência.
— Não tenho namorado.
Lucas respondeu antes que Fernando pudesse:
— Ainda.
Maurício ficou quieto.
Só por um segundo.
— Vão se foder.
Fernando riu e voltou para a cama.
A conversa seguiu.
Lucas reclamou das sessões de fisioterapia, Fernando perguntou pela terceira vez se ele tinha feito gelo, Maurício ouviu os dois discutirem sobre alimentação até começar a sentir sono.
Mas aquela palavra ficou.
Ainda.
Maurício e Felipe nunca tinham conversado sobre aquilo. Tinham conversado sobre discrição. Sobre riscos. Sobre o clube. Sobre o que não podiam fazer na frente dos outros. Nunca sobre o que eram quando ninguém estava olhando.
Maurício abriu novamente a notificação.
Seguiu Otávio de volta.
Ou melhor, não precisou. Já o seguia.
Sorriu sozinho.
Talvez Fernando tivesse razão sobre uma coisa. Era fã mesmo.
◉◉◉◉
A manhã seguinte chegou rápido demais. O clima no CT havia mudado.
Menos delegações circulavam pelos corredores. Algumas malas já desapareciam da recepção. Os eliminados começavam a voltar para casa enquanto quatro clubes permaneciam.
Quatro.
Maurício percebeu aquilo no caminho até a sala de vídeo. Estava entre os quatro melhores times da Supercopa.
A constatação fez o estômago apertar.
— Nervoso? — Gabriel perguntou.
— Não.
— Mentiroso.
— Um pouco.
Entraram. Murilo já estava diante da televisão, acompanhado pela comissão técnica. Felipe ocupava uma das cadeiras da frente.
Maurício passou.
Os olhos dos dois se encontraram. Dessa vez não houve indireta, nem provocação.
Felipe apenas fez um pequeno aceno.
Maurício respondeu.
A estranheza do dia anterior ainda existia, mas parecia cansativa demais para aquela manhã. Murilo esperou todos sentarem.
— Hoje a conversa é curta.
A tela mostrava a formação adversária.
— Eles têm um saque agressivo e ontem fizeram estrago na linha de recepção. Se a gente controlar isso, obriga eles a jogarem como não gostam.
Maurício prestava atenção.
— Por isso vamos fazer uma alteração.
Paulo, algumas cadeiras à frente, levantou os olhos.
Murilo continuou:
— Oliveira começa.
Maurício demorou um segundo para entender. Fernando virou imediatamente. Gabriel também.
— Eu? — escapou.
Murilo olhou para ele.
— Tem outro Oliveira aqui?
Alguns riram.
— Não.
— Então você.
Maurício assentiu.
— Certo.
Sentiu as mãos suarem.
Titular.
Numa semifinal.
Tentou prestar atenção no restante das instruções, mas algumas palavras simplesmente passavam por ele. Quando a reunião terminou, todos começaram a levantar.
Paulo passou ao seu lado.
Parou.
— Parabéns.
Maurício olhou.
Não conseguiu identificar o tom.
— Valeu.
Paulo assentiu.
— Aproveita.
E seguiu.
Maurício ficou parado. Não teve tempo de interpretar.
— Mau.
Virou. Felipe estava diante dele. Por um instante, todo o desconforto dos últimos dias desapareceu do rosto. Só havia orgulho.
— Você merece.
Maurício sentiu o peito aquecer.
— Obrigado.
Felipe bateu uma vez em seu ombro. Um gesto completamente normal entre capitão e companheiro de equipe. Mas Maurício conhecia aquela mão. Conhecia aquele olhar.
Sorriu.
— Vai dar certo? — perguntou.
Felipe franziu a testa.
— Você tá perguntando pra mim?
— Tô.
— Então não.
Maurício arregalou os olhos.
Felipe sorriu.
— Vai dar muito errado.
— Idiota.
— Relaxa.
Felipe começou a se afastar.
— Você sabe jogar, confio em você.
Maurício ficou olhando.
Era engraçado. Felipe conseguia deixá-lo nervoso como ninguém. E, ainda assim, bastavam algumas palavras para fazê-lo acreditar que podia enfrentar qualquer coisa.
○○○○
O primeiro set provou que talvez três palavras não fossem suficientes. Maurício errou a recepção. A bola escapou para trás. Ponto adversário.
Respirou.
Próxima.
O saque seguinte veio nele outra vez. Recebeu. Ruim.
Fernando ainda conseguiu salvar a jogada, mas o ataque morreu no bloqueio. Maurício bateu nas próprias pernas.
— Bora!
Tentou parecer mais seguro do que estava. A semifinal era diferente. O ginásio parecia menor. O barulho, maior. Cada erro parecia permanecer no ar alguns segundos além do necessário. O Matero perdeu o primeiro set.
No banco, Maurício pegou a garrafa e bebeu água rápido demais.
— Oliveira.
Olhou.
Felipe estava em pé diante dele.
— Hm?
— Você sabe jogar vôlei?
Maurício franziu a testa.
— O quê?
— Sabe ou não?
— Claro que sei.
— Então para de tentar provar.
Maurício ficou quieto.
Felipe apontou para a quadra.
— Joga.
E saiu.
Maurício observou suas costas. Respirou fundo.
Joga.
Só isso. No segundo set, quando o saque veio, Maurício não pensou na semifinal. Nem em Paulo no banco, nem em Murilo, nem em quem estava assistindo. Recebeu. A bola chegou limpa nas mãos de Fernando.
Ponto.
Depois outra.
E outra.
Aos poucos, o jogo voltou a ser aquilo que sempre tinha sido. Uma bola. Uma quadra. Um corpo reagindo antes da cabeça. O Matero empatou.
Virou no terceiro.
No quarto, Maurício já não sentia as pernas pesadas. No último rally, mergulhou numa bola que parecia perdida. Ela subiu, Fernando correu. Felipe atacou. Chão.
Por um segundo, Maurício continuou deitado.
Então ouviu o ginásio explodir.
Três a um.
Final.
Maurício levantou aos gritos, Gabriel o abraçou primeiro. Fernando veio logo depois. E Felipe apareceu no meio daquela confusão. Não houve tempo para pensar. Felipe o puxou contra o peito. Forte.
Maurício abraçou de volta. Por alguns segundos, não existia diretoria. Não existia Murilo. Não existiam corredores onde precisavam medir distância. Só aquela quadra. Quando se separaram, Felipe segurou seu rosto por um instante.
— Eu falei.
Maurício ria, ainda sem ar.
— Falou o quê?
— Que você sabia jogar.
Felipe desapareceu entre os outros antes que Maurício pudesse responder. E, pela primeira vez em dias, tudo pareceu exatamente onde deveria estar.
○○○○
— Oliveira!
Maurício já estava quase entrando no corredor quando ouviu. Virou.
Uma repórter fez um gesto.
— Rapidinho?
Ele olhou para trás.
— Eu?
Ela sorriu.
— Você.
Maurício respirou fundo e voltou. A entrevista foi curta. Primeira titularidade numa semifinal, adaptação ao Matero, expectativa para a decisão.
Até que veio:
— Hoje você começou no lugar do Paulo, um dos jogadores mais experientes do elenco. Sente que essa atuação pode mudar a hierarquia da posição?
Maurício demorou um instante.
— Eu não substituo ninguém.
A repórter esperou.
— O Paulo é um jogador enorme e eu aprendo muito com ele. O treinador fez uma escolha pra partida e eu tentei aproveitar minha oportunidade. Acho que todo mundo aqui quer a mesma coisa.
— E agora, final?
Maurício sorriu.
— Agora a gente espera pra saber contra quem.
— Pode ser o Carrancas.
— Primeiro eles precisam chegar.
A repórter riu.
— Obrigada, Maurício.
— Valeu.
Quando se afastou, Fernando estava esperando.
— "Primeiro eles precisam chegar."
— Que foi?
— Duas partidas como profissional e já tá provocando rival.
— Eu não provoquei ninguém.
— Tá marrento.
— Vai se foder.
Fernando passou o braço por seus ombros.
— Jogou pra caralho, baixinho.
Maurício sorriu.
Talvez aquela fosse a única provocação que aceitaria naquela noite.
Felipe só percebeu que estava sozinho quando tentou fazer um comentário e ninguém respondeu. Olhou ao redor.
A sala reservada para os atletas estava praticamente vazia. A maior parte do time tinha seguido para a recuperação; outros ainda falavam com a imprensa. Ele tinha ficado para trás respondendo algumas mensagens da comissão e esperando o horário da reunião técnica.
Guardou o celular.
— Sponatti.
Felipe fechou os olhos por um instante.
Virou.
Otávio vinha pelo corredor com uma garrafa de água na mão e o cabelo ainda úmido. Já tinha trocado o uniforme do Carrancas por uma camiseta do clube.
— Otávio.
— Parabéns.
Felipe arqueou uma sobrancelha.
— Pela final?
— Pela semifinal. A gente ainda precisa jogar.
— Finalmente alguém sensato.
Otávio riu e encostou na parede ao lado. Felipe olhou para o relógio. Dez minutos.
Conseguia sobreviver.
— Vi um pedaço do jogo de vocês — Otávio comentou.
— Espionagem?
— Profissionalismo.
— Sei.
— O Oliveira jogou bem.
Felipe virou o rosto.
Claro que era sobre Maurício.
— Jogou.
— Primeira vez de titular?
— Numa partida desse tamanho, sim.
Otávio assentiu.
— Moleque é bom.
— É.
Felipe respondeu rápido demais.
Otávio não pareceu notar.
— Chegou esse ano?
— Chegou.
— Base?
— Não.
— De onde?
Felipe olhou para ele.
— Por que você quer saber?
Otávio franziu a testa.
— Curiosidade.
Felipe percebeu o próprio tom.
Respirou.
— Interior.
— Ah.
Otávio bebeu um pouco de água.
— Engraçado pra caralho também.
Felipe não respondeu imediatamente.
Sabia.
Sabia como Maurício conseguia transformar qualquer história idiota numa coisa engraçada. Como fazia piada quando estava nervoso. Como começava a rir antes de terminar as próprias frases. Como ficava mais barulhento quando estava confortável e como seu rosto inteiro parecia participar quando sorria de verdade.
Sabia tudo aquilo.
Não precisava que Otávio descobrisse também.
— É — respondeu.
Otávio sorriu.
— Fiquei quase meia hora conversando com ele e esqueci que precisava me trocar.
Felipe apertou a mandíbula.
— Percebi.
— Como?
Merda.
— Ele chegou atrasado no treino.
— Ah.
Otávio riu.
— Fiquei até com peso na consciência depois.
— Não precisa.
— Ele levou bronca?
— Levou.
— Coitado.
Felipe olhou de lado.
Coitado.
Por algum motivo, até aquilo o incomodou.
Era impressionante. Otávio não tinha feito absolutamente nada e Felipe já queria que a conversa acabasse havia cinco minutos. Talvez Fernando estivesse certo.
Não.
Não estava.
— Soube que é meu fã — Otávio continuou.
— Eu sei.
— Falou pra você?
— Algumas vezes.
— Deve ter sido estranho me encontrar daquele jeito.
Felipe lançou um olhar.
Otávio começou a rir.
— Relaxa, capitão. Eu não tava pelado.
— Não perguntei.
— Sua cara perguntou.
Felipe respirou pelo nariz.
Filho da puta. Otávio continuou completamente à vontade.
— Mas gostei dele. Gente boa.
Felipe olhou para frente.
— É.
Dessa vez a palavra saiu mais baixa porque concordava. Esse era o problema. Otávio não estava errado em nada.
Maurício era bom, engraçado, divertido, bonito. Felipe só não sabia por que aquele homem precisava perceber tudo isso também.
— Ele namora?
Felipe virou o rosto.
— O quê?
Otávio deu de ombros.
— Ele namora?
A pergunta era simples. Tão simples que Felipe deveria ter conseguido responder imediatamente. Mas não conseguiu.
Maurício dormia com ele, cozinhava para ele, usava suas roupas, conhecia sua casa. Tinha conhecido partes dele que Felipe passou a vida escondendo. Felipe sabia como Maurício gostava do café. Sabia quando estava mentindo que estava bem. Sabia que ele fazia carinho com o polegar quando segurava sua mão. Sabia como era acordar com Maurício sobre seu peito.
Sabia que o amava.
Mas aquela não tinha sido a pergunta.
Ele namora?
Felipe engoliu em seco.
— Não sei.
A resposta doeu assim que saiu. Otávio franziu ligeiramente a testa.
— Não sabe?
— A gente não conversa muito sobre essas coisas.
Outra mentira.
— Ah.
Otávio assentiu.
E, para piorar, não fez nada. Não abriu um sorriso malicioso. Não anunciou intenção alguma. Não pediu número.
Apenas bebeu água.
— Enfim, preciso ir.
Felipe assentiu.
— Boa sorte.
— Valeu.
Otávio começou a se afastar.
Parou.
— E fala pro Oliveira que jogou pra caralho, caso eu não encontre ele.
Felipe o encarou.
Otávio sorriu e foi embora.
Felipe ficou parado. Por alguns segundos, apenas olhando para o corredor vazio.
Então passou a mão pelo rosto.
— Puta que pariu.
O Carrancas confirmou a vaga algumas horas depois. Felipe assistiu aos últimos pontos ao lado de parte do elenco. A notícia não surpreendeu ninguém. A final que todos imaginavam desde o início da competição finalmente existia.
Matero contra Carrancas.
Felipe contra Otávio.
Outra vez.
Só que, aparentemente, agora Otávio tinha descoberto um novo jeito de irritá-lo fora da quadra também.
— Vai ser bonito amanhã — Gabriel comentou.
— Bonito nada — Fernando respondeu. — Vai ser um inferno.
Maurício riu.
Felipe olhou automaticamente. Estava alguns passos à frente, encostado numa mesa, celular nas mãos. A tela acendeu. Maurício leu.
E sorriu.
Felipe tentou ignorar. Olhou para Fernando, voltou a olhar. Maurício digitou alguma coisa. Riu outra vez. Felipe resistiu por aproximadamente seis segundos.
Aproximou-se.
— Que foi?
Maurício levantou os olhos.
— Hm?
— Você tá rindo.
— Eu sei.
— Do quê?
Maurício o encarou por um instante.
Então uma expressão divertida apareceu.
— Você quer saber?
— Se eu perguntei.
Maurício virou o celular.
Felipe leu.
Otávio:
vi o jogo hoje. mandou bem, Oliveira 👏
Logo abaixo, outra:
amanhã vou mirar todos os saques em você
E a resposta de Maurício:
fã é assim mesmo, não consegue tirar o olho de mim
Felipe ficou olhando.
Maurício começou a rir.
— É brincadeira.
— Eu percebi.
O celular vibrou novamente.
Maurício abriu.
KKKKK convencido
amanhã passa
Maurício digitou:
quero ver passar do meu bloqueio
Felipe franziu a testa.
— Você é líbero.
Maurício olhou.
— Eu sei.
— Você não bloqueia.
— Ele entendeu a piada.
Felipe ficou em silêncio.
Maurício mordeu o lábio, tentando conter o sorriso.
— Lipe.
— Hm?
— Você tá com ciúme.
— De novo isso?
— Agora tá mais fácil perceber.
— Não tô.
— Tá bom.
— Eu conheço o Otávio há anos.
— Melhor ainda.
— Melhor por quê?
— Você pode confiar nele.
Felipe encarou Maurício.
Era exatamente esse o problema. Confiava. Otávio era um cara legal. E agora sabia que Maurício também era.
Felipe colocou as mãos nos bolsos.
— Só não fica dando informação do time pro adversário.
Maurício arregalou os olhos.
— Ah, claro. Esse era o problema.
— É uma final.
— Entendi, capitão.
Maurício guardou o celular e passou por ele. Felipe acompanhou com os olhos.
Fernando surgiu ao seu lado.
— Cara...
— Nem começa.
— Eu só ia perguntar se você quer jantar.
Felipe olhou. Fernando sustentou a expressão séria por dois segundos.
Então começou a rir.
— Vai tomar no cu — Felipe murmurou.
E seguiu andando. Atrás dele, Fernando ainda ria.
O pior não era Otávio estar interessado. Felipe começava a perceber que o pior era não ter nenhuma resposta razoável caso Maurício perguntasse por que aquilo o incomodava tanto.
Fernando esperou até os dois entrarem no elevador. As portas se fecharam.
— Tá.
Felipe apertou o botão do andar.
— Tá o quê?
— Agora eu posso começar?
— Não.
— Beleza.
Fernando ficou em silêncio. Felipe olhou para o painel. Segundo andar. Terceiro.
— Ele tá interessado.
Fernando virou o rosto devagar.
— Eu não falei nada.
— Mas tá pensando.
— Na verdade, eu tava pensando em pedir alguma coisa pra comer.
— O Otávio tá interessado no Maurício.
Fernando encostou na parede.
— Pode ser.
Felipe virou.
— "Pode ser"?
— O que você quer que eu fale?
— Nada.
— Então beleza.
Quinto andar.
Fernando coçou o queixo.
— Mas ele seguiu o Mau.
Felipe não respondeu.
— Mandou mensagem.
Silêncio.
— E aparentemente anda perguntando dele...
Felipe olhou.
Fernando percebeu.
— Ah.
— O quê?
— Você conversou com ele.
As portas abriram.
Felipe saiu.
— Não foi uma conversa.
Fernando veio atrás.
— Foi o quê?
— Ele apareceu. Falou umas coisas.
— Sobre o Maurício?
— Algumas.
— Tipo?
Felipe passou o cartão na porta de uma pequena sala reservada ao Matero.
— Não importa.
Fernando entrou atrás dele.
— Se não importasse, a gente não tava conversando sobre isso.
Felipe jogou o celular sobre a mesa.
— Ele perguntou se o Maurício namorava.
Fernando parou.
Um sorriso começou a nascer. Felipe apontou.
— Nem começa.
— Eu não vou começar nada.
— Tá sorrindo.
— Porque isso é muito divertido.
— Pra quem?
— Pra mim.
Fernando puxou uma cadeira.
— E o que você respondeu?
Felipe abriu uma garrafa de água.
Bebeu.
— Felipe.
Continuou bebendo.
— O que você respondeu?
Felipe colocou a garrafa na mesa.
— Que não sabia.
Fernando ficou olhando.
— Você falou que não sabia?
— Falei.
— Se o Maurício namora?
— É.
— Você dorme com ele.
— Fala baixo.
— Vocês passam praticamente todo dia juntos.
— Fernando.
— Ele cozinha pra você.
— Isso não—
— Você levou ele pra conhecer sua casa, apresentou pra Lorena, vocês fizeram um almoço de família pros amigos e—
— Eu sei!
Fernando parou.
Felipe respirou fundo.
— Eu sei.
Silêncio.
Fernando perdeu o sorriso.
— Então?
Felipe sentou.
— Então o quê?
— O Maurício é o quê seu?
A pergunta ficou entre os dois. Felipe abriu a boca. Nenhuma palavra pareceu correta.
Amigo?
Ridículo.
Ficante?
Pior ainda.
Alguma coisa?
Covarde.
Namorado?
O coração respondeu antes dele. Mas nunca tinham dito. Nunca tinham perguntado. Nunca tinham estabelecido nada além de que queriam continuar vivendo aquilo e precisavam tomar cuidado.
— Tá vendo? — Fernando disse.
Felipe olhou para ele.
— O quê?
— Seu problema não é o Otávio.
Felipe soltou uma risada sem humor.
— Virou terapeuta agora?
— Não. Só tô vendo você se corroer porque outro cara perguntou se o seu homem tá disponível e você descobriu que tecnicamente não sabe responder.
Felipe recostou na cadeira. Fernando tinha uma habilidade irritante de, ocasionalmente, dizer alguma coisa inteligente.
— Eu sei o que sinto por ele.
— Eu percebo.
— Então pronto.
— Não, não pronto.
Felipe franziu a testa.
Fernando continuou:
— Você sabe. Eu sei. O Lucas sabe. A Laura sabe. A Lorena sabe. Até o Gabriel, que demorou uns cinquenta anos pra entender o que tava acontecendo, sabe.
Felipe riu contra a vontade.
— Mas ele sabe?
O sorriso desapareceu.
— Claro que sabe.
— Não foi o que eu perguntei.
Felipe ficou quieto.
Fernando levantou.
— Você vive falando que não pode deixar os outros decidirem as coisas pelo Maurício.
Pegou a mochila.
— Talvez seja bom não decidir isso por ele também.
Felipe acompanhou o amigo até a porta.
— Desde quando você ficou tão sensato?
Fernando abriu.
— Conviver com o Lucas me tornou uma pessoa melhor.
— Vocês também precisam conversar.
Fernando fechou a porta.
Felipe sorriu.
Covarde.
○○○○
Mais tarde, o quarto estava escuro quando Felipe pegou o celular. Não tinha sono. No dia seguinte disputaria uma final contra o maior rival do Matero. Deveria estar pensando em bloqueios, saque, recepção, Otávio do outro lado da rede.
Infelizmente, estava pensando em Otávio fora dela.
Ele namora?
Felipe virou de lado. Abriu a conversa com Maurício.
Digitou:
dormindo?
Ficou olhando.
Apagou.
Tentou outra vez.
posso ir aí?
Apagou também. Não era uma boa ideia. Além disso, tinham uma final em poucas horas. Felipe deixou o celular sobre o peito. Olhou para o teto.
A pergunta voltou.
O Maurício é o quê seu?
Dessa vez, a resposta veio fácil. O problema nunca tinha sido saber. Era dizer.
Pegou o celular novamente. Abriu o navegador. Ficou alguns segundos olhando para a barra de pesquisa, sentindo-se absolutamente ridículo.
Digitou.
Algumas imagens apareceram. Alianças.
Felipe passou por duas. Três. Parou numa discreta. Tentou imaginar Maurício usando.
Sorriu.
Então imaginou Murilo vendo. A comissão, os outros atletas, uma fotografia, uma pergunta.
O sorriso morreu.
— Não.
Aliança era impossível. Chamaria atenção demais. Fechou a página. Ficou alguns segundos parado, depois tornou a pesquisar. Outras coisas apareceram.
Pulseiras.
Anéis.
Correntes.
Felipe parou. Dois colares discretos. Simples o suficiente para desaparecerem sob o uniforme. Próximos o suficiente da pele para continuarem ali mesmo quando ninguém pudesse vê-los.
Felipe ampliou a imagem.
Gostou.
Pela primeira vez naquela noite, Otávio saiu completamente de seus pensamentos. Não era sobre impedir alguém de se interessar por Maurício. Nem sobre garantir que o mundo soubesse que ele não estava disponível. Na verdade, o mundo não podia saber.
Era justamente esse o problema.
Era sobre Maurício saber.
Felipe fechou os olhos por um instante. Talvez Fernando tivesse razão. Talvez tivesse passado tempo demais tentando proteger aquilo que sequer tinha coragem de nomear.
O celular vibrou.
Felipe abriu os olhos.
Maurício:
dormindo?
Felipe sorriu.
A coincidência pareceu quase uma provocação.
não
A resposta veio rápido.
nervoso pra amanhã?
Felipe pensou.
um pouco
Maurício:
mentira
você não fica nervoso
Felipe olhou para os colares ainda abertos na outra aba.
fico por outras coisas
Os três pontinhos apareceram. Sumiram.
Voltaram.
tipo?
Felipe quase respondeu.
Você.
Apagou antes mesmo de enviar.
amanhã eu te conto
Demorou alguns segundos.
você anda falando muito isso
Felipe soltou uma risada baixa.
Justo.
eu sei
Silêncio.
Felipe tocou novamente na conversa.
boa noite, mau
Maurício respondeu:
boa noite, lipe
Felipe continuou olhando. Não queria repetir a noite anterior. Não queria dormir outra vez sentindo que alguma coisa tinha faltado.
Digitou:
queria te dar um beijo
Dessa vez não apagou. A resposta demorou pouco.
eu também
Felipe sorriu.
amanhã
Maurício:
promessa?
Felipe voltou para a página anterior. Olhou mais uma vez para os dois colares. Depois retornou à conversa.
promessa.
Deixou o celular ao lado do travesseiro. No dia seguinte, teria um clube inteiro esperando que ele vencesse. E, pela primeira vez em muito tempo, Felipe tinha uma pergunta que lhe causava mais ansiedade do que qualquer partida.
Só precisava descobrir como fazê-la.
🏐
Fim do capítulo.
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Nos vemos muito breve.
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