TERCEIRO SET
19 Capítulo 18: Tu que Tem esse Abraço Casa
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— Mau.
Silêncio.
Felipe abriu um pouco mais a cortina.
— Maurício.
Um gemido abafado respondeu debaixo do cobertor.
— Morri.
— A gente treina em quarenta minutos.
— Então vai.
Felipe virou para a cama.
— Você também joga no time.
— Problema do capitão.
— O capitão tá tentando impedir você de chegar atrasado.
Maurício puxou o cobertor até cobrir a cabeça. Felipe respirou fundo, depois simplesmente arrancou tudo.
— EI!
Maurício se encolheu.
— Tá frio!
— Tá vinte e três graus.
— Pra mim é frio.
— Levanta.
Maurício abriu os olhos lentamente.
Felipe estava parado ao lado da cama já vestido com o agasalho do Matero, cabelo arrumado demais para aquele horário e uma expressão de quem claramente tinha acordado há tempo suficiente para organizar metade da própria vida.
— Você é insuportável de manhã.
— E você é impossível.
Maurício sorriu.
— Bom dia.
Felipe tentou manter a cara séria. Não conseguiu, inclinou-se.
— Bom dia.
O beijo foi rápido. Familiar, quase automático. Esse era o estranho. Algumas semanas antes, qualquer beijo ainda parecia um acontecimento. Agora existiam beijos antes do café, beijos na porta, beijos rápidos no elevador quando sabiam que ninguém entraria e os beijos de boa-noite, seus favoritos.
A felicidade tinha começado a criar hábitos. Maurício sentou na cama, olhou ao redor. O apartamento de Felipe já não parecia tão intocável quanto antes. Havia uma camiseta sua dobrada sobre uma cadeira, seu carregador estava conectado ao lado da cama. No banheiro, duas escovas de dentes. Uma das gavetas do armário tinha sido silenciosamente esvaziada para algumas roupas suas.
Felipe nunca disse: "Isso é seu." Maurício simplesmente começou a deixar coisas e Felipe nunca mandou levar embora.
Levantou, foi até a cozinha ainda arrastando os pés. Abriu a geladeira. Parou.
— Não acredito.
Felipe pegava duas canecas no armário.
— O quê?
Maurício tirou uma garrafa de Coca-Cola.
Ergueu como se tivesse encontrado alguma relíquia perdida.
— Você comprou Coca.
— Comprei.
— Você não toma refrigerante.
— Eu sei.
— Então comprou pra mim.
Felipe colocou café na caneca.
— Comprei pra casa.
Maurício ficou imóvel. Felipe percebeu.
Tarde demais.
— Não começa.
Maurício abriu um sorriso enorme.
— Pra casa.
— Maurício.
— Você comprou Coca pra nossa casa.
— Minha casa.
— Você me ama.
Silêncio. Pequeno, mas existiu. Felipe olhou para ele. Maurício também percebeu o que havia dito. A palavra ficou no meio da cozinha, grande demais para aquela hora.
Maurício abriu a garrafa.
— Quer dizer... — Deu um gole. — Obviamente.
Felipe arqueou uma sobrancelha.
— Obviamente?
— Quem não amaria?
Felipe pegou o pano de prato e jogou nele.
Maurício desviou rindo.
— Idiota.
— Já ouvi isso antes.
O assunto morreu ali, mas a palavra não.
Saíram vinte minutos depois. Felipe dirigiu até duas quadras antes do Matero. Encostou, Maurício olhou pela janela.
— De novo?
— De novo.
— Isso é ridículo.
— Isso é necessário.
Maurício bufou. Tinham criado aquela pequena coreografia sem perceber. Não chegavam juntos, não saíam juntos. No clube, evitavam sentar próximos demais quando havia gente que não conheciam bem.
Mensagens no celular. Olhares curtos. Toques só quando ninguém via. O segredo também tinha virado hábito, Maurício soltou o cinto.
— Até daqui a três minutos, então.
— Cinco.
— Controlador.
— Discreto.
Maurício abriu a porta. Antes de sair, voltou. Felipe já esperava um beijo. Só um.
— Agora pode ir.
— Obrigado pela autorização, capitão.
— Anda.
Maurício saiu rindo. Felipe esperou que ele dobrasse a esquina antes de ligar o carro novamente. Quando Maurício entrou pelo portão do Matero alguns minutos depois, não olhou para trás. Não precisava.
Felipe chegaria.
Felipe sempre chegava.
Naquele momento, isso parecia uma certeza simples. Talvez a mais bonita que Maurício já tivesse tido.
Cinco minutos depois, Maurício e Felipe não se conheciam. Ou pelo menos era isso que tentavam fazer parecer.
— Bom dia, Oliveira.
Maurício ergueu os olhos enquanto terminava de amarrar o tênis. Felipe estava passando por ele no vestiário.
— Bom dia, Sponatti.
Felipe continuou andando. Maurício acompanhou com os olhos por meio segundo.
— Meu Deus — Fernando disse.
Maurício virou.
Ele estava no banco em frente, terminando de colocar a joelheira.
— O quê?
— Vocês são muito ruins.
— Ruins em quê?
— Nisso aí.
— Não sei do que você tá falando.
Fernando olhou para Lucas, que acabava de entrar.
— Tá vendo?
Lucas nem respondeu. Aproximou-se e estendeu a mão para Fernando.
— Meu café.
Fernando pegou um copo que estava ao lado da mochila e entregou.
— Sem açúcar.
— Valeu.
Maurício olhou para o copo.
Depois para Fernando.
— Desde quando você sabe como o Lucas toma café?
Fernando deu de ombros.
— Desde que eu tenho memória.
— E desde quando você traz café pra ele?
— Desde que ele é folgado.
Lucas tomou um gole.
— E desde que ele é prestativo.
— Não espalha.
Maurício estreitou os olhos. Havia alguma coisa diferente naquilo, não sabia exatamente o quê. Antes que pudesse pensar, Gabriel surgiu atrás deles.
— Se vocês terminaram o programa matinal, a comissão já tá na quadra.
Maurício levantou.
— Bom dia pra você também.
— Meu dia só começa depois das oito.
Fernando olhou o relógio.
— São sete e vinte.
— Exatamente.
A quadra tinha se tornado familiar. Maurício gostava disso, do barulho dos tênis no piso, do cheiro. Da sequência de exercícios que já não precisava observar os outros para saber qual vinha depois.
Até dos gritos de Murilo começava a aprender quais realmente significavam alguma coisa e quais eram apenas Murilo sendo Murilo.
Três semanas tinham sido suficientes para muita coisa mudar sem que ninguém anunciasse. Maurício recebia mais minutos, treinava cada vez mais com a formação principal. Ainda não era titular.
Paulo continuava sendo a primeira escolha na maior parte dos jogos.
Mas já não se importava tanto com a guerra fria entre os dois. Às vezes, durante um treino, Murilo apontava:
— Maurício, entra.
E era só isso. Sem explicação, sem cerimônia. Como se pertencer àquela quadra estivesse deixando de ser uma concessão. Naquela manhã, ele entrou no lugar de Paulo durante um exercício defensivo.
Felipe sacou, Maurício recebeu. A bola subiu limpa.
— Boa! — Gabriel gritou.
Felipe nem olhou para Maurício.
Maurício também não.
Dois minutos depois, Felipe passou por ele na rede.
— Melhorou.
— Eu sempre fui bom.
— Claro.
— Vai se foder.
Felipe seguiu. Nenhum sorriso, até virar de costas.
Maurício viu. E sorriu também.
Era ridículo. Estavam ficando bons naquilo. Ou pelo menos achavam que estavam.
— Junta!
Murilo apitou.
Os jogadores foram se aproximando do centro da quadra. A comissão técnica entrou com algumas pranchetas, e Maurício percebeu que não era apenas uma interrupção para correção.
Sentaram no chão.
Felipe permaneceu de pé por alguns segundos conversando com Murilo antes de se juntar aos outros.
— Seguinte — Murilo começou. — Já temos a programação de Belo Horizonte.
O barulho diminuiu. A Supercopa. Maurício sentiu o estômago apertar. A fase classificatória tinha terminado, agora não havia mais jogo para corrigir o jogo seguinte.
Era a fase final.
— A gente viaja na quinta pela manhã. Treina à tarde em Belo Horizonte e faz reconhecimento do ginásio na sexta. Primeiro jogo, sexta à noite.
Gabriel levantou a mão.
— Ônibus?
Algumas risadas.
Murilo não riu.
— Ônibus.
Fernando deixou a cabeça cair para trás.
— Eu vou desenvolver uma trombose nesse clube.
— Se quiser, pode ir correndo — Murilo respondeu.
— Ônibus tá ótimo.
Mais risadas. Maurício olhou para Felipe, ele não ria. Sabia por quê.
Desde a primeira viagem, as conversas sobre dinheiro tinham deixado de ser apenas conversas. Algumas coisas tinham começado a desaparecer.
Pequenas primeiro.
Material que demorava mais para ser reposto. Equipamentos que a fisioterapia solicitava e não chegavam. Mais viagens rodoviárias, menos dias de concentração. Nada suficiente para impedir que jogassem. Tudo suficiente para lembrá-los de que alguém estava fazendo contas.
— Outra coisa — Murilo continuou. — A partir de agora, não quero ninguém pensando em fase classificatória. Acabou. O que a gente fez até aqui não vale porra nenhuma se chegar em Belo Horizonte e entregar.
Paulo assentiu.
Fernando brincava com o cadarço. Lucas permanecia atento.
Maurício sentiu a pressão conhecida surgir no peito.
— São três jogos possíveis — Murilo continuou. — E eu quero vocês preparados pra jogar os três. Titular, banco, não interessa. Todo mundo vai ter função.
O olhar dele passou rapidamente por Maurício. Dessa vez, aquilo não lhe deu medo, deu vontade.
— A gente tem time pra voltar de lá com essa taça. Mas precisa começar a ganhar essa porra aqui.
Murilo bateu dois dedos na própria cabeça.
— Antes de ganhar lá. — Levantou. — Vamos trabalhar.
Os jogadores se espalharam. Felipe bateu palmas.
— Bora! Ritmo!
Maurício se levantou junto aos outros. Belo Horizonte, fase final. Talvez jogasse, talvez não. Alguns meses antes, só aquela dúvida teria sido suficiente para ocupar sua cabeça inteira. Agora havia tantas outras coisas.
O treino estava intenso quando a porta lateral da quadra abriu. Maurício não teria prestado atenção se Fernando não tivesse errado uma bola fácil.
— Porra! — Murilo gritou.
— Foi mal!
Maurício acompanhou o olhar dele. Três pessoas estavam paradas próximas à lateral, duas Maurício reconhecia da comunicação do clube. A terceira, não.
Um rapaz.
Alto.
Cabelos claros cuidadosamente bagunçados de um jeito que provavelmente dava trabalho para parecer que não dava. Usava o conjunto de treino do futebol, mas Maurício tinha certeza de que nunca o viu antes.
— Quem é? — perguntou baixo.
Gabriel acompanhou seu olhar.
— Acho que é o cara novo do futebol.
— Que cara novo?
— Lorenzo alguma coisa.
— Você sabe tudo desse clube?
— Eu tenho Instagram.
— Ah.
Murilo apitou novamente.
— OLIVEIRA!
Maurício voltou para a posição.
— Foi mal!
Tentou esquecer. Recebeu o saque seguinte, defendeu. A jogada continuou. Quando terminou, o rapaz ainda estava ali. Agora conversava com alguém do marketing, até olhar para a quadra. Os olhos passaram pelos jogadores. Pararam em Felipe.
O sorriso veio imediatamente.
Maurício acompanhou por curiosidade. Nada além disso. O rapaz disse alguma coisa para a mulher ao lado, que assentiu. Minutos depois, Murilo apitou outra vez.
Dessa vez não por causa do treino.
— Felipe!
Felipe virou.
A equipe de marketing entrou alguns passos na quadra. Murilo não pareceu particularmente feliz.
— A gente precisa roubar o Sponatti um pouquinho — disse uma das mulheres.
— Agora?
— Agora.
— Ele tá treinando.
— Ordem de cima.
Murilo fechou a expressão. Felipe aproximou-se, enxugando o rosto com a barra da camiseta.
— Aconteceu alguma coisa?
— Não. Na verdade, temos uma apresentação pra fazer.
O rapaz veio junto.
Parou diante dele.
— Sponatti?
Felipe estendeu a mão.
— Oi.
— Lorenzo.
Aperto de mãos.
— Prazer.
— Finalmente.
Felipe franziu a testa, divertido.
— Finalmente?
— Já ouvi falar pra caralho de você desde que cheguei.
Felipe riu.
— Espero que bem.
— Na maioria das vezes.
— Ótimo.
Alguns jogadores tinham se aproximado. Maurício também, não havia motivo para não fazê-lo. Queria saber o que estava acontecendo.
— Pra quem ainda não conhece — começou a mulher do marketing —, esse é o Lorenzo Moretti, novo atacante do futebol.
Fernando levantou uma sobrancelha.
— Moretti?
Lorenzo apontou para ele.
— Esse mesmo.
— Minha irmã te segue.
— Manda um abraço pra ela.
— Eu não vou alimentar isso.
Todos riram. Lorenzo parecia saber exatamente o que fazer com atenção. Não de uma maneira desagradável, era fácil. Natural.
Como se tivesse passado a vida inteira chegando a lugares onde todos já sabiam seu nome. A mulher voltou para Felipe.
— E vocês dois vão passar bastante tempo juntos nas próximas semanas.
Felipe olhou para Lorenzo.
Depois para ela.
— Por quê?
— Nova campanha institucional do clube.
Fernando imediatamente:
— Ih.
Felipe ignorou.
— Que campanha?
— A diretoria quer trabalhar a imagem do Matero de forma mais integrada. Atrair público novo, fortalecer as modalidades, aproximar os patrocinadores. Você é um dos rostos mais consolidados do clube e o Lorenzo chega como uma das principais contratações da temporada.
Lorenzo abriu os braços.
— Resumindo: somos bonitos.
Felipe soltou uma risada.
— Fala por você.
— Eu tava.
Fernando começou a rir.
— Nasci pra ver o Felipe virar influencer.
Gabriel completou:
— Quero ver dancinha.
Felipe apontou para ele.
— Eu te tiro da fase final.
— Abuso de autoridade.
A mulher do marketing olhou para Murilo.
— Vamos precisar dele pelo restante da manhã.
— Restante?
— Foto, vídeo, algumas entrevistas e reunião com patrocinador.
Murilo respirou fundo.
— A gente viaja semana que vem.
— Eu sei.
— E ele é meu capitão.
Lorenzo ergueu as mãos.
— Eu devolvo inteiro, professor.
Murilo olhou para ele.
— Treinador.
O sorriso de Fernando desapareceu enquanto ele mordia o lábio para não rir.
Lorenzo assentiu.
— Treinador.
Felipe pegou a garrafa.
— Pelo visto não tenho muita escolha.
— Nenhuma — respondeu a mulher.
— Excelente.
Lorenzo deu um tapa leve em seu ombro.
— Relaxa. Eu te ensino a fazer TikTok.
Felipe fez uma careta.
— Prefiro dez horas de ônibus.
Maurício riu junto com os outros.
Felipe olhou para ele. Foi rápido o suficiente para ninguém perceber. Maurício respondeu com um sorriso mínimo.
Vai.
Felipe pareceu entender. Pegou a toalha e acompanhou o grupo. Lorenzo saiu ao lado dele, falando.
Falando bastante.
Felipe respondeu alguma coisa. Lorenzo riu. A porta fechou.
— Certo! — Murilo gritou. — Acabou o programa de fofoca. Vamos trabalhar!
Todos voltaram às posições, Maurício também. Paulo passou por ele.
— Relaxa, Oliveira.
Maurício franziu a testa.
— Quê?
Paulo ajeitou a joelheira.
— O capitão volta.
Maurício ficou parado.
— Eu não perguntei.
— Eu sei.
Paulo sorriu. Foi para sua posição. Maurício respirou fundo. Olhou uma última vez para a porta por onde Felipe tinha saído, depois voltou para a quadra.
— Bora! — Gabriel chamou.
Maurício se posicionou. Não era nada.
E, naquele momento, realmente não era.
Sem Felipe, o treino pareceu ficar mais longo. Maurício sabia que era impressão, sabia também que não devia dar importância à provocação de Paulo. Por isso passou os vinte minutos seguintes dando importância à provocação de Paulo.
— Oliveira!
A bola bateu em seu antebraço num ângulo ruim e saiu pela lateral. Murilo apitou.
— Tá pensando em quê?
— Foi mal.
— Não perguntei se foi mal. Perguntei em quê você tá pensando.
— Em nada.
— Então começa a pensar na bola.
Fernando abafou uma risada do outro lado da quadra. Maurício mostrou o dedo do meio discretamente.
— EU VI ISSO TAMBÉM! — Murilo gritou.
— Porra.
Dessa vez Fernando não conseguiu segurar. O treino continuou, Maurício tentou se concentrar. Funcionou.
Por algum tempo. Até uma das portas laterais se abrir novamente.
Não era Felipe.
Dois funcionários atravessaram o corredor carregando caixas com equipamentos que Maurício não reconheceu. Atrás deles, alguém da produção empurrava um suporte com roupas.
Tudo seguia na direção do prédio administrativo.
— Parece que vão gravar a próxima temporada de uma série — Fernando comentou.
Gabriel olhou.
— Campanha grande.
— Pelo visto.
Paulo, próximo à rede, ouviu.
— Claro que é.
Ninguém respondeu.
Ele continuou:
— Moretti não veio barato.
Maurício ajeitou a joelheira.
— Você sabe quanto ele ganha também?
Paulo sorriu.
— Não. Mas sei quanto custa trazer jogador assim.
— E quanto custa?
— Mais do que nós todos juntos, provavelmente.
Gabriel balançou a cabeça.
— Para de falar merda.
— Tô falando sério. Contratação de peso, campanha, patrocinador novo... O moleque chegou com pacote completo.
Fernando pegou uma bola.
— E nós indo pra BH de ônibus.
— Exatamente.
Dessa vez ninguém riu.
Paulo olhou para Maurício.
— Dizem que o clube tá bancando até apartamento pra ele.
Maurício levantou os olhos.
— Apartamento?
— Uhum.
Paulo jogou a bola de uma mão para a outra.
— Enquanto tiver fazendo gol, deve ganhar até comida na boca.
— Isso não tem nada a ver com ele — Gabriel respondeu. — Se a diretoria quer gastar, problema da diretoria.
— Eu não falei que tinha.
Paulo deu de ombros.
— Só tô dizendo que futebol é outro mundo.
Murilo apitou.
— Se vocês têm fôlego pra fofoca, têm pra mais cinco sequências.
Fernando fechou os olhos.
— Obrigado, Paulo.
— Disponha.
Voltaram. Maurício também, mas uma palavra tinha ficado.
Apartamento.
Não sabia por quê.
Ainda não significava nada.
Quando o treino terminou, Felipe não tinha voltado. Maurício conferiu o celular no vestiário. Nenhuma mensagem.
Digitou:
acabou aqui
Guardou.
Tomou banho.
Quando saiu, olhou novamente.
Nada.
Lucas apareceu ao seu lado, secando os cabelos.
— Vamos?
— Espera.
— O quê?
— O Felipe ainda tá por aqui?
Lucas olhou ao redor como se pudesse encontrá-lo entre os armários.
— Sei lá.
— O carro dele tá lá fora.
— Então deve estar.
Maurício digitou outra mensagem.
onde você tá?
Dois tiques. Nada.
— Mau.
— Hm?
Lucas apontou para a saída.
— Ele deve estar ocupado.
— Eu sei.
— Então para de olhar pro celular como se ele tivesse sido sequestrado.
Maurício guardou o aparelho.
— Não tô.
Lucas riu.
— Tá.
— Vai se foder.
— Amor deixa as pessoas agressivas.
Maurício olhou imediatamente para ele.
— Fala baixo, caralho.
Lucas ergueu as mãos.
— Tá vendo?
Maurício pegou a mochila. Não era ciúme. Recusava-se até a chamar aquilo de inquietação. Felipe tinha sido retirado do treino para trabalhar, era literalmente parte do emprego dele.
O fato de Lorenzo estar junto não significava absolutamente nada. Além disso, Felipe tinha vinte e quatro anos. Não precisava responder mensagens a cada quinze minutos. Maurício sabia de tudo isso.
Ainda assim, quando atravessaram o corredor principal, olhou para cada porta aberta.
Nada.
— Você tá procurando ele — Lucas disse.
— Eu só tô olhando.
— Pra dentro de todas as salas?
— Sou curioso.
— Sei.
Maurício ia responder quando uma funcionária apareceu na extremidade do corredor.
— Maurício? Lucas?
Os dois pararam.
— Oi — Lucas respondeu.
— A administração pediu pra vocês subirem antes de irem embora.
O sorriso de Maurício desapareceu.
— A gente?
— Sim.
— Agora?
— Se puderem.
Ela seguiu pelo corredor, não era como se eles tivessem outra opção. Maurício permaneceu imóvel. Lucas deu dois passos antes de perceber que ele não vinha.
— Mau?
Maurício olhou para o amigo.
— Por que a administração quer falar com a gente?
— Não sei.
— A administração nunca chama a gente.
— Então vamos descobrir.
Lucas voltou.
Maurício sentiu o estômago apertar.
— Será que descobriram?
Lucas demorou um instante.
Então entendeu.
— Não.
— Como você sabe?
— Porque não.
— Lucas.
— Mau, a gente foi discreto.
Maurício olhou para os lados.
Baixou ainda mais a voz.
— A gente dorme junto quase todo dia. Na casa dele. — Suspirou. — Lorena sabe. Você sabe. Fernando sabe. Gabriel sabe. Laura sabe.
— E ninguém falou.
— Como você sabe?
— Não pira, são seus amigos.
— E se alguém viu alguma coisa?
Lucas segurou os ombros dele.
— Maurício.
Ele finalmente parou.
— Respira.
— Eu tô respirando.
— Parece que não.
Maurício puxou o ar.
Lucas continuou:
— Ninguém falou nada. Vocês tomaram cuidado. Se fosse sobre isso, por que estariam me chamando junto?
A pergunta ajudou.
Um pouco.
— Porque você mora comigo.
— Isso não faz sentido.
— Na minha cabeça faz.
— Sua cabeça tá uma merda.
Maurício soltou uma risada nervosa.
— Obrigado.
— Disponha.
Começaram a andar. A cada degrau, Maurício inventava uma possibilidade pior. Alguém os flagrou no carro, entrando juntos no apartamento de Felipe. Algum funcionário tinha percebido os olhares.
Murilo sabia.
A diretoria sabia.
O contrato.
Sua carreira.
Felipe.
Quando chegaram à administração, Maurício já sentia as mãos frias. Foram recebidos por uma mulher que ele conhecia apenas de vista.
— Podem sentar.
Sentaram.
Lucas olhou discretamente para Maurício.
Calma.
Maurício tentou.
A mulher juntou alguns papéis sobre a mesa.
— Bom, como vocês sabem, o clube está passando por algumas mudanças.
Maurício esperou.
— Algumas medidas de redução de custos estão sendo implementadas em diferentes departamentos e, infelizmente, uma delas afeta vocês diretamente.
Não era Felipe.
O ar voltou aos pulmões.
Por um segundo.
— O clube não conseguirá mais manter o apartamento de vocês.
O ar foi embora de novo.
Lucas virou o rosto.
— Como?
— A partir deste mês, o contrato do imóvel deixa de fazer parte da estrutura oferecida pelo Matero.
Maurício piscou.
— A gente tem que sair?
— Sim.
— Quando?
— Vocês terão uma semana para organizar a mudança.
Lucas soltou uma risada curta.
Não havia humor.
— Uma semana?
— Entendemos que é um prazo apertado, mas vamos oferecer todo o suporte necessário.
Maurício mal ouvia. Uma semana. Olhou para Lucas que estava com a mesma expressão. Quatro meses. Tinham morado ali por apenas quatro meses. Parecia pouco quando colocado em números. Não parecia pouco quando Maurício pensava na primeira noite. As caixas espalhadas, os dois sentados no chão porque ainda não tinham organizado a sala. Lucas reclamando que ele ocupava espaço demais na geladeira, os jantares depois do treino. Nas noites em que ficavam acordados conversando sobre o time, em Fernando aparecendo cada vez mais. E em Felipe entrando pela primeira vez, no beijo de boa-noite.
Naquela sala tinha começado tanta coisa.
— E a gente vai pra onde? — Lucas perguntou.
— Os dormitórios do clube estão disponíveis para vocês. Já estamos separando dois lugares.
Maurício finalmente voltou para a conversa.
— Aqui dentro?
— Sim. As instalações internas são ótimas também. Vocês terão tudo de que precisam.
Tudo de que precisavam.
Cama.
Banheiro.
Armário.
Talvez fosse isso que constasse numa planilha.
— É temporário? — Lucas perguntou.
A mulher hesitou.
Foi resposta suficiente.
— Por enquanto, essa é a nova estrutura.
Maurício assentiu sem realmente querer assentir. Não tinha mais perguntas. Lucas também parecia não ter. Receberam algumas orientações que nenhum dos dois prestou atenção suficiente para guardar.
Depois levantaram.
— Qualquer dificuldade com a mudança, podem procurar a administração.
— Tá — Lucas respondeu.
Maurício não disse nada.
Saíram.
A porta fechou atrás deles. Nenhum falou, desceram o corredor. Entraram no elevador, as portas fecharam. Lucas encostou na parede. Maurício olhou para os números diminuindo.
Quatro.
Três.
Dois.
— Que merda — Lucas disse.
Maurício assentiu.
— É.
Térreo. As portas abriram, continuaram. Maurício pegou o celular, nenhuma resposta de Felipe.
Digitou:
Lipe, me liga quando puder
Ficou olhando.
Apagou.
Escreveu de novo.
preciso de você
Enviou.
Guardou o aparelho. No estacionamento, Fernando estava encostado no próprio carro. Maurício estranhou, Lucas não. Tinha mandado uma mensagem enquanto desciam. Fernando percebeu os dois imediatamente. O sorriso com que os receberia desapareceu.
— Que foi?
Lucas tentou dar de ombros.
— Nada.
Fernando se aproximou.
— Lucas.
— A gente perdeu o apartamento.
Fernando parou.
— O quê?
— O clube não vai mais pagar.
Lucas respirou fundo.
— Temos uma semana pra sair.
Maurício viu a mudança no rosto de Fernando. Primeiro surpresa, depois indignação. Mas, antes de qualquer uma das duas, preocupação.
— Ei.
Lucas balançou a cabeça.
— Tô bem.
Fernando não discutiu. Só o abraçou. Lucas ficou rígido por um segundo, depois cedeu. Fernando passou a mão em suas costas.
— Calma.
— Não tem muito o que fazer.
— A gente vai pensar num jeito.
— Fernando—
— A gente vai.
Maurício observou. Em outro dia talvez reparasse mais na facilidade do abraço. Na forma como Lucas escondia o rosto por um instante no ombro dele. No jeito como Fernando não fazia piada. Mas naquele momento seus olhos foram para algumas vagas adiante.
O carro de Felipe.
Ainda estava lá.
Maurício sentiu uma vontade infantil de sair procurando por ele. Abrir cada porta daquele clube até encontrar. Não queria solução, não ainda. Só queria Felipe.
Fernando soltou Lucas e olhou para Maurício.
— E você?
— Tô bem.
Fernando arqueou uma sobrancelha.
— Vocês combinaram essa resposta?
Maurício quase sorriu.
— Acho que sim.
— Vem.
— Pra onde?
Fernando abriu o carro.
— Levo vocês pra casa.
A palavra acertou Maurício de um jeito inesperado.
Casa.
Olhou mais uma vez para o carro de Felipe, depois para o prédio. O celular continuava silencioso. Entrou.
Talvez fosse melhor ir.
Se tinham só uma semana, de repente cada minuto naquele apartamento parecia importante.
O apartamento parecia diferente. Maurício percebeu assim que abriu a porta. Nada tinha mudado.
Os tênis continuavam perto da entrada. A manta que Lucas nunca dobrava continuava jogada sobre o braço do sofá. Havia duas canecas do café da manhã na pia porque nenhum dos dois se lembrava de lavá-las antes de sair. Uma camisa de Maurício permanecia pendurada no encosto de uma cadeira.
Tudo exatamente como naquela manhã. Só que agora tinha prazo. Sete dias.
Lucas entrou atrás dele e deixou a mochila no chão.
Fernando foi o último.
— Mas não explicaram por quê? — perguntou enquanto fechava a porta. — Foi só corte de gasto?
Lucas caiu no sofá.
— Não sei.
— Como não sabe?
— Minha cabeça parou de funcionar na hora. Nem prestei atenção direito.
Fernando continuou de pé.
— Mas falaram alguma coisa de orçamento? De contrato?
— Falaram um monte de coisa.
— Lucas.
— Eu não sei, Fernando.
A resposta saiu mais ríspida do que pretendia. Fernando ficou quieto, Lucas esfregou o rosto.
— Desculpa.
— Tá suave.
— Só... — Olhou ao redor. — É uma merda.
Fernando sentou ao lado dele. Maurício permaneceu perto da porta. Ainda segurava o celular, abriu a conversa. Nada.
— Quer comer alguma coisa? — Fernando perguntou.
Lucas negou.
— Café?
— Não.
— Água?
Lucas olhou para ele.
— Eu consigo pegar água sozinho.
— Eu sei.
— Então para.
— Tá.
Dois segundos.
— Mas quer?
Lucas deixou escapar uma risada.
— Não.
Fernando sorriu. Era provavelmente o que queria. Maurício passou pelos dois e entrou no próprio quarto.
Ali parecia pior. A cama estava desarrumada. Um par de tênis debaixo da escrivaninha, as roupas que ainda não tivera coragem de organizar depois da viagem ocupavam metade de uma cadeira.
Na parede, algumas coisas tinham surgido ao longo dos meses.
Um calendário.
Uma fotografia com Elisa e Adriana.
O credenciamento do primeiro jogo.
Maurício tocou a ponta dele, teria que tirar. Olhou para o armário. Sete dias. Quantas caixas precisaria? Duas? Três?
Talvez nem tivesse coisas suficientes para isso. Era engraçado, chegou ali com tão pouco. Ainda assim, parecia que tinha acumulado uma vida inteira naquele quarto.
Sentou na cama. O celular estava novamente em sua mão. Nada. Maurício jogou-o ao lado, sentiu raiva de si mesmo quase imediatamente. Felipe estava trabalhando.
Sabia disso.
Não tinha desaparecido. Não estava ignorando.
Ainda assim...
Preciso de você.
Era a primeira vez que Maurício tinha escrito aquilo para alguém sem tentar transformar em piada. Talvez por isso doesse mais não ter resposta. Deitou, olhou para o teto. Do lado de fora, ouvia Fernando e Lucas conversando.
Baixo demais para entender.
Fechou os olhos. A campainha tocou.
Maurício abriu na mesma hora. Talvez rápido demais.
Felipe estava do outro lado. Ofegante.
O cabelo, impecável naquela manhã, agora estava bagunçado. Ainda usava parte da roupa que provavelmente colocaram nele para as gravações, e uma credencial do marketing continuava pendurada no pescoço.
— Oi, vida. Desculpa. — Maurício ficou imóvel. — Eu fiquei preso no clube. Me botaram pra fazer TikTok, entrevista, foto, reunião com patrocinador e aquele garoto não parava de falar...
Felipe finalmente olhou direito para ele. Parou.
— O que houve?
Maurício ainda estava na primeira frase.
Oi, vida.
Felipe nunca o chamou assim antes.
Maumau.
Mau.
Oliveira quando estavam no clube.
Idiota algumas vezes.
Baixinho, numa tentativa terrível de ser carinhoso.
Mas nunca... Vida.
Um sorriso escapou. Pequeno. Completamente incompatível com seu rosto até então. Felipe franziu a testa.
— Mau?
Maurício piscou.
— Oi.
— Você tá bem?
— Tô.
Felipe olhou para dentro do apartamento. Viu Fernando e Lucas na sala, depois voltou para Maurício.
— Não tá.
Maurício abriu mais a porta.
— Entra.
Felipe entrou.
— Eu vim assim que vi suas mensagens.
A frase fez alguma coisa dentro de Maurício finalmente ceder.
— Você correu?
Felipe tirou a credencial do pescoço.
— Do estacionamento até aqui.
— Tem elevador.
— Eu sei.
— Então por que você tá ofegante?
Felipe apontou para ele, irritado.
— Eu tava preocupado, porra.
Maurício sorriu outra vez.
— Vem cá.
Não se importou com Fernando. Nem com Lucas. Abraçou Felipe, forte. Felipe demorou só o tempo de entender antes de envolver os braços nele.
— Ei.
Maurício fechou os olhos.
Ali. Era só aquilo que queria desde que saiu daquela sala. Felipe.
Não uma solução. Não dinheiro. Não alguém dizendo que os dormitórios eram ótimos.
Só aquele abraço.
— Que aconteceu? — Felipe perguntou contra seus cabelos.
Maurício respirou fundo.
— A gente perdeu o apartamento.
Felipe se afastou.
— O quê?
— Uma semana. Foi o que falaram — Lucas respondeu.
Felipe estava de pé no meio da sala. A expressão cansada com que chegou tinha desaparecido. Agora parecia irritado. Muito.
— Quem falou isso?
— Uma mulher da administração — Maurício respondeu. — Não sei o nome.
— E qual foi a justificativa?
Lucas deu de ombros.
— Corte.
Fernando soltou uma risada sem humor.
— Corte.
Felipe começou a andar. Maurício conhecia aquilo, Felipe pensando. Só que agora pensava andando.
— Eles ofereceram alguma alternativa?
— Dormitório — Lucas respondeu.
Felipe parou.
— Aqui dentro?
— Uhum.
— Pros dois?
— Acho que sim.
Fernando olhou para Lucas.
— Você acha?
— Eu já falei que não prestei atenção!
— Tá, calma.
Lucas respirou fundo.
— Desculpa.
Fernando tocou brevemente sua perna.
— Para de pedir desculpa.
Felipe voltou a andar.
— Isso não faz sentido.
— Faz — Maurício disse. — É mais barato.
— Eu sei que é mais barato. O que não faz sentido é fazer isso agora.
Maurício observou. Alguma coisa pareceu atravessar o rosto de Felipe. Ele parou.
— Pera.
— O quê? — Fernando perguntou.
Felipe olhou para Maurício.
— O Lorenzo.
O nome produziu uma reação imediata nele.
— O que tem ele?
— Hoje, quando a gente tava esperando uma das gravações, ele comentou que ainda tá num hotel.
Fernando franziu a testa.
— E?
Felipe parecia montar as peças enquanto falava.
— Disse que tava esperando terminarem de organizar o apartamento pra se mudar de vez pra São Paulo.
Silêncio. Maurício lembrou.
Dizem que o clube tá bancando até apartamento pra ele.
Paulo.
— O Paulo falou disso hoje — disse.
Felipe virou.
— Do quê?
— Que o clube tava dando apartamento pra ele.
Fernando soltou uma risada incrédula.
— Não.
Lucas levantou os olhos.
Felipe ficou quieto.
— Você acha que é o nosso? — Maurício perguntou.
— Não sei.
A resposta foi imediata. Felipe não queria afirmar algo que não sabia.
— Pode nem ser o mesmo imóvel. Mas...
— Mas o dinheiro sai do mesmo lugar — Fernando completou.
Felipe assentiu.
Fernando levantou.
— Ah, vai tomar no cu.
— Fernando.
— Não, Felipe. Sério. A gente vai pra Belo Horizonte espremido num ônibus porque o clube tá sem dinheiro. Eles cortam o apartamento de dois jogadores do vôlei porque o clube tá sem dinheiro. Aí chega o novo rei do futebol e tem campanha, hotel, apartamento...
— Eu sei.
— Sabe quanto devem estar pagando pra esse moleque?
— Ele não decide o orçamento — Felipe respondeu.
Fernando parou.
— Eu sei que não.
Felipe também estava irritado. Mas havia uma diferença.
— Se for isso, o problema não é ele.
Maurício olhou para Felipe. A defesa incomodou por um instante, pequeno demais para chamar de ciúme. Talvez nem fosse.
— É a diretoria — Felipe concluiu.
Fernando respirou fundo.
— Então a diretoria que vá se foder.
Lucas deixou escapar uma risada. A primeira desde que chegaram. Fernando olhou para ele.
— Pelo menos isso.
Lucas balançou a cabeça.
— Idiota.
— Tô tentando.
Felipe finalmente sentou ao lado de Maurício.
— Amanhã eu vou falar com eles.
— Lipe...
— Vou.
— Você não precisa comprar briga por causa disso.
Felipe virou para ele.
— Eu sou capitão.
— Isso é assunto da administração.
— São dois jogadores do meu time.
Maurício sustentou o olhar. Felipe completou, mais baixo:
— E é a sua casa.
Aquela foi a parte que desarmou qualquer tentativa de discussão. Maurício olhou para as próprias mãos.
— Era.
— É.
— Por mais uma semana.
Felipe segurou sua mão. Dessa vez, à vista de todos.
— A gente vai pensar em alguma coisa.
Fernando apontou para ele.
— Foi exatamente o que eu falei.
Lucas olhou.
— Você não pensou em nada.
— Mas manifestei intenção.
Felipe quase sorriu.
— Excelente contribuição.
— Obrigado.
Maurício olhou para os três.
— Não tem muito o que pensar, gente. Tem dormitório. Não é como se a gente fosse ficar na rua.
— Não é a mesma coisa — Lucas disse.
Maurício olhou para ele.
Era a primeira vez que Lucas dizia aquilo em voz alta.
— Eu sei.
Silêncio.
Felipe observou o apartamento. Só então pareceu compreender completamente.
— Vocês não querem perder isso.
Maurício riu pelo nariz.
— Demorou, capitão.
Felipe apertou sua mão.
— Então a gente pensa num jeito de vocês não perderem.
— Como?
— Não sei.
— Ótimo plano.
— Me dá até amanhã.
Fernando apontou novamente.
— Agora somos dois com intenção.
Lucas revirou os olhos.
— Estamos salvos.
Maurício finalmente riu, de verdade. E talvez fosse estranho rir naquele momento. Mas ninguém ali parecia achar.
Pediram pizza. Não porque alguém estivesse com fome, porque ninguém queria ir embora.
Fernando continuou no sofá. Felipe tirou a roupa do marketing e vestiu uma camiseta que já tinha deixado ali semanas antes.
Lucas apareceu com quatro copos. Maurício abriu a geladeira.
— Tem refrigerante?
— Tem — Lucas respondeu.
— Graças a Deus. Pelo menos nessa casa as pessoas são normais.
Felipe, atrás dele:
— Eu ouvi.
Maurício virou.
— Você nem mora aqui.
Felipe parou. Lucas e Fernando se olharam.
Maurício percebeu tarde demais.
— Quer dizer...
Felipe ergueu uma sobrancelha.
— Interessante.
— Cala a boca.
Felipe sorriu. Sentou. Por algum tempo, começaram a falar de possibilidades. Felipe tentaria a diretoria. Fernando perguntou quanto custava o aluguel. Lucas respondeu que provavelmente mais do que conseguiriam pagar.
Pensaram em outro apartamento.
Dividir com alguém. Negociar prazo, nada parecia imediatamente viável. Mas continuaram.
Em algum momento, Maurício deixou de prestar atenção. Só observou. Lucas estava sentado no chão, as costas apoiadas no sofá. Fernando tinha descido para ficar ao lado dele e agora discutia algum cálculo no celular.
Felipe estava na outra ponta, procurando o contato de alguém da administração. Nenhum deles precisava estar ali. Fernando podia ter deixado os dois na porta. Felipe podia ter mandado uma mensagem dizendo que conversariam no dia seguinte. Lucas podia simplesmente aceitar o dormitório, Maurício também.
Era o mais lógico. O mais simples.
Mas ninguém estava fazendo o mais simples.
— Mau?
Felipe chamou.
— Hm?
— Tá me ouvindo?
— Não.
— Percebi.
Maurício sorriu.
— Desculpa.
Maurício encostou a cabeça em seu ombro. Felipe imediatamente inclinou a própria sobre a dele. Por ora, era o que conseguiam fazer.
🏐
Fim do capítulo.
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