TERCEIRO SET
17 Capítulo 16: Hoje Sinto Mais Calor
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Maurício acordou sem saber exatamente onde terminava seu corpo e começava o de Felipe, demorou alguns segundos para lembrar. A perna presa entre as dele, um braço pesado sobre sua cintura, o peito quente sob sua bochecha. Então sorriu, continuava ali.
Durante a noite, em algum momento, devia ter se afastado, depois voltado. A cama pequena obrigava os dois a negociarem cada centímetro, e ainda assim Maurício não se lembrava de ter dormido tão bem em muito tempo.
Ergueu um pouco o rosto. Felipe já estava acordado, olhava para o teto.
— Bom dia, príncipe.
Felipe virou lentamente.
A expressão séria durou menos de um segundo.
— Príncipe?
Maurício fechou a cara.
— Eu tava tentando ser fofo, idiota.
Pegou o travesseiro e acertou Felipe no rosto.
— Ei!
Felipe começou a rir.
— Eu gostei, baixinho.
Maurício ficou imóvel.
— Baixinho?
— É.
— Você é péssimo nisso.
Virou de costas, fingindo indignação. Felipe se aproximou.
— Mau.
Silêncio.
— Maumau.
— Não encosta em mim.
Felipe beijou sua bochecha.
— Bom dia.
Maurício tentou continuar bravo, durou pouco. Virou o rosto e encontrou os lábios dele.
— Bom dia.
Felipe sorriu.
E voltou a olhar para o teto. Maurício percebeu.
— Tá acordado há muito tempo?
— Não muito.
— E essa cara inquieta?
— Que cara?
— Essa. — Maurício apoiou o queixo no peito dele. — Parece que tá resolvendo a crise econômica mundial.
— Tava pensando.
— É claro que tava.
Felipe riu. Maurício já conhecia aquilo.
Felipe pensando antes do café.
Felipe pensando durante o banho.
Felipe pensando enquanto dirigia.
Felipe provavelmente pensava enquanto dormia.
— Mas cheguei numa conclusão.
— Toda vez que você fala sério é sinto um arrepio.
— Vou precisar da sua ajuda.
— Claro.
A resposta saiu antes mesmo de Maurício saber para quê.
Felipe olhou para ele. Por algum motivo, ficou quieto.
— O quê?
— Nada.
— Fala.
— Você nem perguntou o que é.
Maurício deu de ombros.
— Você falou que precisa de ajuda.
Como se fosse suficiente. Talvez para Maurício fosse.
Felipe passou os dedos pelos cabelos dele.
— A gente precisa conversar com os meninos.
— Nossos amigos?
Outra pausa. Pequena. Mas Maurício percebeu.
Nossos amigos.
Felipe ainda parecia experimentar certas palavras antes de aceitá-las.
— É — respondeu. — Nossos amigos.
Maurício sorriu.
— Tá. O que você tá pensando?
— Chamar todo mundo lá pra casa. Almoçar. A gente conversa direito, explica que isso não pode sair de lá...
— Gostei.
— Gostou?
— Uhum.
Felipe assentiu, satisfeito com o próprio plano.
— Então preciso que você me ajude.
— Já falei que ajudo. Onde eu entro nessa sua operação?
Felipe pensou.
— Na cozinha.
Maurício levantou a cabeça.
— MACHISTA!
Felipe explodiu numa risada.
— Você cozinha melhor que eu!
— Nem sabe como eu cozinho.
— Comi sua lasanha ontem.
— Uma lasanha não é currículo.
— É isso ou servir amendoim japonês com água com gás.
Maurício encarou.
— Você não tem uma Coca?
— Não tomo refrigerante.
Maurício caiu de costas na cama.
— É claro que não.
— O que isso quer dizer?
— Você tem muita cara de que me calorias a cada refeição.
— Nem é tão assim, só sigo a dieta.
— Foi o que eu pensei.
Felipe tentou acertá-lo com o travesseiro.
Maurício segurou.
— Espera.
Sentou. A ideia parecia ter acabado de chegar inteira à cabeça.
Almoço na casa de Felipe, com os amigos. Eles dois preparando tudo. Por algum motivo, aquilo produziu uma felicidade diferente. Não tinha a urgência dos beijos escondidos. Nem o frio na barriga da piscina. Nem o absurdo de acordar sobre o peito de alguém por quem estava se apaixonando.
Era mais quieta. Mais doméstica. Quase como combinar um almoço de domingo para receber a família. Maurício não disse isso em voz alta, talvez fosse cedo demais para algumas palavras.
— Você já recebeu tanta gente na sua casa?
Perguntou já imaginando a resposta.
Felipe pensou.
— Duas.
Maurício arregalou os olhos.
— Só duas vezes?
— Não. Duas pessoas.
— Ah. Pior.
— Lorena e Rosa.
— Quem é Rosa?
— Minha diarista.
Maurício começou a rir.
— Ela não conta!
— Por quê?
— Porque ela trabalha pra você!
— Continua sendo uma pessoa dentro da minha casa.
— Felipe.
— Você perguntou quem já foi lá.
Maurício ainda ria quando outra pergunta escapou:
— Nem o Murilo?
O sorriso de Felipe diminuiu.
— Não.
Só isso. Maurício viu o olhar dele se afastar, não insistiu. Ainda havia partes de Felipe em que ele não sabia entrar. Um dia de cada vez.
— Então temos outro problema.
Felipe pareceu agradecido pela mudança.
— Qual?
— Você tem pratos suficientes?
— Tenho pratos.
— Pra sete pessoas?
Felipe ficou em silêncio.
— Copos?
Mais silêncio.
— Talheres?
— Talheres eu tenho.
— Sete iguais?
— Por que precisam ser iguais?
Maurício arregalou os olhos.
— Meu Deus.
— O quê?
— Refratários?
— Tenho um.
— Toalha de mesa?
Felipe olhou para ele como se tivesse acabado de inventar o conceito. Maurício começou a rir.
— Você queria receber sete pessoas com amendoim japonês, água com gás e cada um comendo num prato descartável?
— Eu não tinha pensado nessa parte.
— Claramente.
Felipe pegou o celular.
— A gente compra.
Maurício segurou sua mão.
— Na verdade...
Felipe conhecia aquela expressão.
— O quê?
— Eu tenho uma ideia melhor.
— Por que eu tô preocupado?
Maurício já tirava o cobertor.
— Mas a gente precisa levantar agora.
— Agora?
— Agora.
— Mau, é nosso dia de folga.
— Seu plano, suas consequências.
Felipe gemeu e afundou no travesseiro.
— O que essa sua ideia envolve?
Maurício já estava de pé. Olhou para ele com um sorriso.
— Você dirigindo uma hora e meia.
Felipe abriu os olhos.
— Uma hora e meia?
— Talvez um pouco mais com trânsito.
— Pra onde você tá me levando?
Maurício pegou uma camiseta no armário.
— Confia em mim.
Felipe ficou olhando.
Ontem, aquela frase talvez tivesse lhe causado preocupação. Naquela manhã, apenas levantou.
— Tá bom.
Maurício parou.
— Tá bom?
— Eu confio em você.
Dessa vez foi Maurício quem ficou quieto. Felipe passou por ele em direção ao banheiro.
— Agora arruma alguma roupa que caiba em mim.
Maurício voltou à realidade.
— Ah. — Olhou para Felipe, depois para o próprio armário. — Temos outro problema.
— O quê?
Maurício puxou uma camiseta e a colocou diante do corpo de Felipe. A barra mal chegaria onde deveria.
— Você é comprido pra caralho.
Felipe fechou os olhos.
— Vai ser um longo dia.
Maurício sorriu. Esperava que fosse.
A primeira camiseta não passou dos ombros.
— Não vai dar.
— Vai, sim.
— Maurício, eu não consigo mexer os braços.
— Finge que é uma baby tee.
— Uma o quê?
Felipe levantou os dois braços. A camiseta subiu junto e revelou metade de sua barriga. Maurício ficou olhando.
— Tá. Talvez não dê.
— Talvez?
Felipe tentou arrancá-la e ficou preso por alguns segundos. Maurício começou a rir.
— Para de rir e me ajuda!
— Calma!
— Eu tô sufocando.
— Dramático.
— MAURÍCIO.
Ele finalmente conseguiu libertá-lo. Felipe respirou fundo, sem camisa, os cabelos completamente bagunçados.
— Você quase matou o capitão do Matero no dia de folga.
— Seria uma morte muito humilhante.
— Você ia explicar pro Murilo.
Maurício perdeu o sorriso.
— Próxima camiseta.
A segunda serviu ainda pior. A terceira Felipe se recusou a experimentar, Maurício abriu o armário de Lucas.
— O que você tá fazendo?
— Resolvendo.
— Isso não é seu.
— Ele não vai se importar.
— Você sabe disso?
Maurício puxou uma camiseta preta do Sabotage.
— Somos praticamente irmãos.
— Isso não respondeu.
Jogou a peça para Felipe.
— Experimenta.
Dessa vez serviu. Um pouco oversized, mas perfeitamente possível.
Maurício analisou.
— Gostei.
Felipe olhou para o próprio corpo.
— Não é muito a minha cara.
— Por isso eu gostei.
— Vou fingir que foi elogio.
Maurício aproximou-se e ajeitou a gola.
— Foi.
Felipe olhou para ele.
Maurício percebeu tarde demais que tinha chegado perto o suficiente para outra coisa.
— Não.
— O quê?
— Se você me beijar, a gente não sai daqui.
Felipe sorriu.
— Eu nem fiz nada.
— Conheço essa cara.
— Você me conhece há dois meses.
— Tempo suficiente.
Felipe roubou um beijo rápido.
— Felipe!
— Agora vamos.
São Paulo passava pelas janelas enquanto Maurício comandava o rádio como se também fosse proprietário do carro. Felipe suportou três músicas antes de interferir.
— Não.
— Não o quê?
— Isso.
— Isso tem nome.
— Tem botão de próximo também.
Maurício protegeu o celular.
— Motorista não escolhe música.
— O carro é meu.
— Gostava mais quando você mal dizia três palavras por dia.
— Eu só quero ouvir uma coisa decente.
— Lá vem.
Felipe conectou o próprio celular. Os primeiros acordes começaram. Maurício olhou para ele.
— Marisa Monte.
— Algum problema?
— Não foi uma crítica.
Felipe aumentou um pouco o volume.
— Ótimo.
Meia hora depois, continuava Marisa Monte. Uma hora depois, também. Maurício olhou para a tela.
— A gente tá no segundo álbum?
— Você reclamou das minhas músicas.
— Eu não reclamei.
— Fez uma cara.
— Minha cara não fala.
— A sua fala bastante.
Maurício riu e deixou o celular de lado. Não se importava de verdade, gostava de descobrir aquelas coisas. O que Felipe ouvia dirigindo, o jeito como apoiava uma das mãos no volante. O fato de diminuir o volume sempre que precisava prestar atenção no GPS, como se os ouvidos também fossem responsáveis por encontrar a saída correta.
Coisas pequenas.
Felipe Sponatti tinha deixado de ser uma coleção de estatísticas, entrevistas e jogos gravados. Agora Maurício sabia que ele não tomava refrigerante, que pensava demais antes de dormir, que gostava de Marisa Monte, que precisava de silêncio para estacionar.
Era estranho pensar que conhecer alguém talvez fosse exatamente isso. Substituir aos poucos aquilo que imaginávamos por coisas verdadeiras.
— É aqui.
Felipe diminuiu a velocidade. Olhou para o GPS, depois para Maurício.
— Aqui?
— Entra nessa rua.
Os prédios tinham ficado para trás havia algum tempo. As ruas eram mais estreitas. Casas se amontoavam lado a lado, algumas com portões abertos. Uma moto passou por eles. Duas crianças atravessaram de bicicleta e Felipe freou.
— Devagar, tio! — uma delas gritou.
Maurício começou a rir.
— Tio?
Felipe pareceu ofendido.
— Eu tenho vinte e quatro anos.
— Aceita.
— Não aceito.
Maurício apontou.
— Aquela casa.
Felipe estacionou. Finalmente olhou para ela. Simples, um muro baixo. Algumas plantas perto da entrada, a janela aberta deixava escapar o som de uma televisão.
Felipe desligou o carro.
— Onde a gente tá?
Maurício já abria a porta.
— Na minha casa.
Felipe virou imediatamente.
— Na sua casa?
— É.
— Você podia ter me avisado.
— Por quê?
Felipe apontou para si mesmo.
— Eu tô usando a roupa do Lucas.
Maurício gargalhou.
— Você tá bonito.
— Maurício.
— Vem.
Deu a volta no carro. Felipe ainda parecia considerar a possibilidade de permanecer dentro dele. Maurício abriu o portão.
— Mãe!
Entrou sem bater. Felipe respirou fundo e foi atrás.
A primeira coisa que percebeu foi o barulho. A televisão ligada na sala, alguma coisa fervendo na cozinha. Uma janela aberta trazendo sons da rua, passos, portas. Havia vida.
— Ai, meu filho!
Elisa surgiu da cozinha enxugando as mãos num pano de prato. Maurício mal teve tempo de responder antes de ser abraçado.
— Finalmente lembrou que tem casa!
— Eu vim aqui esses dias.
— Esses dias quando?
— Mãe.
— Você só aparece quando tá morrendo de fome.
— Hoje eu vim buscar as coisas.
— Sei.
Foi então que ela percebeu Felipe parado perto da porta. A expressão mudou imediatamente.
— Felipe!
Ele endireitou a postura quase por reflexo.
— Oi, dona Elisa. Com licença.
— Que dona o quê.
Ela atravessou a sala e o abraçou. Felipe demorou um segundo para reagir. Depois retribuiu.
— Que bom te ver. Como você tá?
— Tô bem.
— Entra, menino. Fica parado na porta não. Quer café?
— Eu aceito.
— Mãe, a gente tá com um pouco de pressa.
Elisa ignorou completamente.
— Comeu?
Felipe olhou para Maurício que balançou a cabeça discretamente.
Não adianta.
— Comi.
— Tem bolo.
— Eu aceito.
— Felipe!
Ele sorriu.
— O quê?
Elisa já desaparecia na cozinha.
— Gostei dele — gritou de lá.
Maurício fechou os olhos. Felipe tentou esconder o sorriso.
— Não fala nada.
— Eu não falei.
— Mas tá pensando.
— Sua cara também fala bastante.
Quando chegou à cozinha, encontrou Felipe sentou-se à mesa com uma xícara de café e uma fatia generosa de bolo.
— Você é muito fácil.
Felipe levou outra garfada à boca.
— Tá muito bom.
— Claro que tá. É assim que ela prende as pessoas.
— Funciona.
Elisa apontou para a mesa maior.
— Separei o que você pediu. Vê se serve.
Maurício finalmente olhou. Parou.
— Mãe.
Havia dois jogos de jantar empilhados cuidadosamente. Talheres separados. Travessas de tamanhos diferentes. Uma toalha dobrada. Guardanapos de tecido. Até duas jarras.
— Eu não precisava disso tudo.
— Você falou que ia receber visita.
Como se explicasse. Talvez explicasse. Maurício passou a mão sobre um dos pratos, reconhecia aquele jogo.
— Você usa isso no Natal.
— E daí?
— E se quebrar?
— Isso fica parado o ano todo pegando poeira, foi feito pra usar, Maurício.
Felipe olhou para Elisa, depois para a mesa. Guardou a frase sem perceber.
— Prometo trazer tudo do jeito que peguei — Maurício disse.
— Se quebrar, quebrou.
— Você vai me matar.
— Provavelmente.
Felipe riu.
— Não incentiva — Maurício disse.
— Eu não fiz nada.
— Você existe. Já tá do lado dela.
— Menino educado — Elisa respondeu. — Diferente de você.
— Tá vendo?
Uma voz surgiu no corredor:
— Eu nem acreditei quando mãe falou que você tava vindo.
Adriana entrou na cozinha e abraçou Maurício por trás.
— Sai.
— Saudades também.
— Você me viu semana passada.
— E?
Ela finalmente reparou em Felipe.
— Oi! Tudo bem? Quanto tempo.
Felipe sorriu.
— Oi. Tudo bem. E você?
— Tudo.
Maurício olhou para um, depois para o outro.
Quanto tempo?
Adriana já tinha aberto um armário.
— Mãe, tem café?
— Tem.
Maurício ainda observava. Felipe percebeu.
— A gente se viu no hospital, lembra?
— Ah.
Claro. Mesmo assim, havia uma facilidade estranha ali. Talvez porque Felipe parecesse menos deslocado naquela cozinha do que Maurício imaginava.
— E o vô? — perguntou.
Adriana apontou vagamente para a rua.
— Aquele lá fica o dia inteiro enfurnado naquela banca de flores.
— Eu queria ver ele.
— Então volta mais vezes.
— Todo mundo resolveu me atacar hoje?
— Sim — Elisa e Adriana responderam juntas.
Felipe riu. Maurício apontou para ele.
— E você para de incentivar.
— Eu continuo sem fazer nada.
Elisa colocou outra fatia no prato dele. Felipe olhou.
— Dona Elisa—
— Elisa.
— Elisa, eu ainda nem terminei essa.
— Essa é de chocolate.
Felipe analisou o novo pedaço.
Maurício arregalou os olhos.
— A gente precisa ir.
— Mas ele nem comeu o bolo de chocolate!
Felipe olhou para o bolo, depois para Maurício.
— Tem de chocolate.
— Eu tô vendo!
— Parece bom.
— FELIPE.
Adriana começou a rir.
— Deixa o menino comer.
— A gente tem almoço pra fazer!
Felipe terminou o café e levantou, ainda mastigando.
— Obrigado, Elisa. Tava tudo muito bom.
— Leva um pedaço.
— Mãe, não.
— Pra mais tarde.
— A gente tá indo cozinhar!
— E daí?
Cinco minutos depois, além das louças, havia bolo no carro. Maurício não sabia por que ainda tentava.
Adriana ajudou a levar a última caixa até o portão. Felipe acomodava as travessas cuidadosamente no porta-malas enquanto Elisa ainda recomendava que não empilhassem determinada louça. Maurício apareceu carregando a toalha.
— Acho que foi tudo.
— Mau.
Ele olhou. Adriana tinha os braços cruzados, um sorriso pequeno no rosto. Maurício conhecia aquele sorriso.
— O quê?
Ela olhou discretamente para Felipe. Ele estava inclinado sobre o porta-malas, reorganizando as caixas para nada bater durante o caminho, depois voltou para o irmão.
— Depois me liga.
Maurício estreitou os olhos.
— Pra quê?
— Acho que a gente tem muita coisa pra conversar.
Ele entendeu na mesma hora.
— Adriana.
— Eu não falei nada... ainda.
— Nem fala.
Ela sorriu ainda mais.
— Não esquece, tá?! Me liga.
Maurício sentiu o rosto esquentar.
— Tchau.
— Te amo também.
Ele entrou no carro antes que ela pudesse continuar. Felipe fechou o porta-malas e se despediu de Elisa. Quando se sentou ao volante, encontrou Maurício afundado no banco.
— O que aconteceu?
— Nada.
— Sua cara tá vermelha.
— Calor.
Felipe olhou para o painel.
— O ar tá ligado.
— Dirige.
Felipe riu e deu partida. Maurício colocou música antes que surgissem mais perguntas. A casa foi ficando para trás pelo retrovisor, Felipe olhou uma última vez. Elisa ainda estava no portão. Adriana ao lado.
A televisão provavelmente continuava ligada. O avô de Maurício voltaria mais tarde da banca de flores. Alguém faria café. Alguém reclamaria que Maurício aparecia pouco. Haveria conversa demais e bolo demais e pessoas entrando sem precisar avisar.
Felipe voltou os olhos para a rua, passou menos de uma hora ali.
Ainda assim, uma pergunta o acompanhou durante boa parte do caminho de volta.
Como devia ser crescer num lugar onde alguém sempre percebia quando você não estava?
Durante os primeiros vinte minutos de volta, Felipe falou pouco. Maurício percebeu, claro que percebeu.
— Minha mãe te assustou?
Felipe tirou os olhos da rua por um instante.
— Não.
— Minha irmã?
— Também não.
— Então foi o bolo.
— O bolo tava ótimo.
— Você comeu três pedaços.
— Dois.
— O terceiro tá no banco de trás.
— Tecnicamente, ainda não comi.
Maurício riu.
Depois voltou a observá-lo.
— Então?
Felipe sabia o que ele estava perguntando. Não sabia exatamente como responder.
— Sua casa é...
Parou.
Maurício esperou.
— Barulhenta?
— Também.
— Pequena?
— Não.
Felipe pensou melhor.
— Cheia.
Maurício olhou pela janela.
— É. Minha mãe gosta de gente.
Felipe quase respondeu que tinha percebido. Mas não era só isso, aquela casa parecia preparada para a possibilidade de alguém chegar.
Havia café suficiente, bolo suficiente, pratos guardados para ocasiões que ainda não existiam. Uma mãe que reclamava da ausência do filho porque sentia sua falta. Uma irmã que aparecia na cozinha e o abraçava sem precisar de motivo. Até o avô ranzinza tinha presença.
Aquele lá fica o dia inteiro naquela banca de flores.
Felipe sabia onde ele estava. Sabia que voltaria. Na casa em que cresceu, ausência nunca significou necessariamente saudade.
— Deve ter sido bom crescer lá.
Maurício virou para ele. A frase saiu baixa, quase distraída.
— Foi.
Felipe assentiu. Maurício percebeu que havia mais, não perguntou. Em vez disso, mexeu no rádio.
— Chega de Marisa Monte.
Felipe olhou indignado.
— Você não respeita boa música.
— Já foram dois álbuns.
— Nem chegamos nos Tribalistas ainda.
— Por pouco.
A música mudou. Felipe deixou e Maurício também deixou o silêncio mudar de assunto.
Quando chegaram ao apartamento, Maurício precisou conferir o número na porta.
— É aqui mesmo?
Felipe, carregando duas caixas de louça, olhou para ele.
— Eu te falei o número ontem.
— Ontem tava ocupado olhando pra você.
Felipe quase deixou uma travessa escapar.
— Você não pode falar essas coisas enquanto eu tô segurando a herança da sua mãe.
Maurício abriu a porta rindo. Dessa vez, entrou devagar. Era bonito, muito bonito. E estranhamente impessoal. Tudo parecia ter sido colocado exatamente onde deveria estar. O sofá alinhado ao tapete. Poucos objetos sobre os móveis. Livros organizados. Nada abandonado sobre uma cadeira, nenhuma correspondência esquecida, nenhum copo fora do lugar. Maurício deixou a caixa sobre a mesa.
— Sua casa parece um apartamento decorado.
Felipe entrou atrás.
— Obrigado.
— Não foi elogio.
— Eu sei decorar.
— Não foi isso que eu quis dizer.
Felipe fechou a porta com o pé.
— Eu sei o que você quis dizer.
Maurício caminhou até uma estante. Havia alguns livros, fotografias de obras aleatórias, medalhas que pareciam ter sido colocadas ali mais por obrigação do que orgulho.
Pegou uma delas.
— Posso?
— Já pegou.
Maurício virou a medalha.
— Você ganhou isso quando?
— Sul-Americano juvenil.
— Você tinha quantos anos?
— Dezessete.
Maurício olhou para ele.
— Com dezessete anos eu tava tentando não reprovar em química.
— Conseguiu?
— Não é importante.
Felipe riu.
Maurício devolveu a medalha. Continuou andando. Talvez fosse aquela a primeira vez que entrava verdadeiramente na mente dele. E havia alguma intimidade em descobrir onde Felipe deixava as chaves, quais livros comprava, que fotografias escolhia expor.
Poucas.
Muito poucas.
Maurício encontrou uma com Lorena. Os dois bem mais jovens.
— Meu Deus.
Felipe imediatamente soube.
— Não.
Maurício pegou.
— Esse cabelo.
— Devolve.
— Você tinha mais topete!
— Maurício.
— Isso é fisicamente possível?
Felipe tentou tomar a fotografia.
Maurício desviou.
— Eu preciso mandar isso pra Lorena.
— Se você fizer isso, acaba o almoço.
— Autoritário.
Felipe finalmente conseguiu recuperar a foto.
— Vai arrumar a mesa.
— Tá vendo? Dois dias e já tá mandando em mim.
Felipe colocou a fotografia no lugar.
— Dois dias de quê?
Maurício parou. Felipe também. A pergunta tinha saído sem intenção, os dois se olharam. Dois dias de quê?
Nenhum sabia. Maurício sorriu primeiro.
— Sei lá.
E foi para a cozinha. Felipe ficou parado mais um segundo, depois sorriu também. Um dia de cada vez.
A toalha de Elisa transformou a mesa. Felipe percebeu isso quase imediatamente.
Era uma coisa simples, clara, com pequenos detalhes bordados nas extremidades. Ainda assim, quando Maurício a abriu sobre a madeira, parecia que alguma coisa tinha mudado.
Depois vieram os pratos, os talheres, as taças.
— Isso fica onde? — Felipe perguntou, segurando um garfo.
Maurício olhou para ele.
— Você tá brincando.
— Não.
— Você tem vinte e quatro anos.
— E sei usar um garfo perfeitamente.
— Não tô perguntando se você sabe usar.
Maurício tirou o talher da mão dele.
— Aqui.
— Por quê?
— Porque sim. — Mauricio corrigiu tudo que Felipe havia feito. — Mas por que você tem uma mesa tão grande se nunca pretendia receber ninguém em casa?
— Pergunte ao antigo proprietário. Eu já comprei mobiliado.
Felipe se deu conta que nunca sentou-se em todas as cadeiras todo o tempo que morava ali.
Voltaram ao trabalho.
O cardápio tinha se tornado maior do que o necessário porque Maurício aparentemente não compreendia o conceito de cozinhar pouco. Felipe cortava o que mandavam que cortasse.
— Fernando confirmou?
— Confirmou.
— Lucas?
Maurício olhou para ele.
— Considerando que provavelmente vai vir de lá...
— Justo.
— Gabriel confirmou.
— Laura também.
— Lorena disse que vai atrasar.
Felipe nem levantou os olhos.
— Então confirmou.
— Ela é sempre assim?
— Sempre. Ela vive sobre as próprias regras.
Maurício abriu outro armário.
— Cadê uma travessa grande?
— Não sei.
— Como você não sabe?
— Porque ela chegou aqui hoje.
Maurício abriu o seguinte.
— Achei.
Felipe parou de cortar. Ficou olhando. Maurício atravessava sua cozinha descalço, usando uma camiseta velha, abrindo armários que até aquela manhã só Felipe e Rosa abriam.
Uma toalha que pertencia à mãe dele estava sobre sua mesa. Havia bolo no balcão, louças emprestadas ocupavam a bancada. A música saía da caixa de som. E Maurício parecia estranhamente à vontade no meio daquilo.
Felipe percebeu que estava sorrindo.
— Que foi?
Maurício tinha se virado.
— Nada.
— Tá olhando.
Felipe apoiou as mãos na bancada.
— Posso olhar.
Maurício reconheceu a frase.
O sorriso apareceu devagar.
— Pode.
Voltou para a travessa. Felipe continuou olhando por mais alguns segundos. O apartamento sempre lhe parecia suficiente. Tinha tudo de que precisava.
Uma cama. Uma cozinha. Um sofá. Silêncio.
Durante anos, silêncio era uma qualidade. Naquela manhã, depois de conhecer a casa de Maurício, voltou e encontrou o próprio apartamento exatamente como deixou.
Organizado.
Impecável.
Quieto.
Só que agora Maurício estava dentro dele. Abrindo armários, errando a letra da música. Reclamando porque Felipe cortava uma cebola do jeito errado. Felipe percebeu uma coisa que nunca lhe ocorreu antes. Talvez silêncio demais também pudesse ser uma forma de vazio.
A campainha tocou. Maurício levantou a cabeça.
Felipe olhou para a mesa pronta, depois para ele.
— Preparado?
Maurício sorriu.
— São nossos amigos.
Felipe ainda sentiu alguma coisa diferente ao ouvir aquilo. Mas dessa vez a palavra não pareceu estranha.
🏐
Fim do capítulo.
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