TERCEIRO SET
11 Capítulo 10: Idiota
● ━━━━━━━▶
A primeira coisa que Maurício sentiu ao acordar foi uma dor no pescoço. A segunda, foi o tecido macio entre os braços.
Abriu os olhos devagar. A luz atravessava parcialmente a cortina do quarto. O apartamento permanecia silencioso, durante alguns segundos, não soube exatamente onde estava. Até que baixou o olhar. Sorriu.
Ainda abraçava o uniforme. Em algum momento da madrugada, deitou apenas para observá-lo mais uma vez. Pretendia guardar a camisa com cuidado no armário. Nunca chegou a levantar.
Dormiu ali mesmo, completamente torto na cama, usando a caixa de papelão como travesseiro improvisado e o uniforme como se fosse a coisa mais preciosa do mundo. Passou delicadamente os dedos pelas assinaturas, ainda parecia impossível.
O primeiro ouro olímpico do vôlei brasileiro.
Todas aquelas assinaturas. Agora estavam ali, no colo dele.
Sorriu outra vez.
— Isso é loucura...
Murmurou para si mesmo.
Olhou para o cartão pela décima, talvez vigésima vez.
Pra te dar sorte na temporada.
Bem-vindo ao time.
Nenhuma assinatura.
Nenhum nome.
Mesmo assim... seu pensamento foi imediatamente para o mesmo rapaz de topete impecável que ocupava o apartamento do bloco em frente. Sentiu um calor estranho no peito. Lembrou do abraço depois da final, do sorriso, dos dois tapinhas em seu ombro.
"Bom jogo."
Fechou os olhos por um instante. Era estranho. Quanto mais tentava organizar os acontecimentos dos últimos dias... menos conseguia entender Felipe.
Sorriu sozinho.
— Você é muito esquisito...
Foi então que olhou para o relógio. Dez e sete, ficou completamente imóvel. Piscou uma vez, duas. Então saltou da cama.
— Meu Deus!
Saiu tropeçando nas próprias pernas. Atravessou o corredor quase correndo.
— Lucas!
Entrou na sala já procurando a mochila.
— Cara, a gente tá muito...
Parou. Lucas ocupava praticamente todo o sofá. Bermuda, cabelo completamente despenteado. Um pacote de Cheetos aberto sobre a barriga.
Assistia a um programa qualquer na televisão com a tranquilidade de quem não tinha absolutamente nenhuma obrigação no mundo.
Sem tirar os olhos da tela, respondeu:
— Bom dia pra você também, Bela Adormecida.
Maurício olhou desesperado para o relógio da cozinha.
— Já são... tipo... dez horas?
Lucas finalmente virou a cabeça.
— Uhum.
Maurício levou as duas mãos à cabeça.
— Cara... a gente tá muito fudido.
Lucas pegou mais um salgadinho. Mastigou calmamente, só depois respondeu.
— Irmão... volta pro quarto e tenta acordar direito.
Maurício franziu a testa.
— Como assim?
— Hoje é domingo.
Silêncio. Lucas apontou um Cheeto para ele como quem fazia uma apresentação científica.
— E, se não me falha a memória... ontem você jogou três partidas. Ganhou uma competição interna. Entrou oficialmente pro elenco principal. Quase morreu de cansaço. Então... a gente tá de folga.
Maurício permaneceu imóvel durante alguns segundos. O coração, que parecia prestes a sair pela boca, finalmente desacelerou. Levou a mão ao peito. Respirou fundo.
— Ah...
Lucas riu.
— Já tava imaginando o esporro do Murilo, né?
Maurício passou a mão no rosto.
— Cara... eu vi minha vida inteira passando na minha frente.
— Drama.
— Muito.
Os dois riram. Maurício caminhou até a cozinha ainda tentando recuperar a dignidade. Serviu uma caneca de café. Lucas observava tudo com um sorriso malicioso. Esperou o primeiro gole, depois atacou.
— Tá. Agora me conta.
Maurício ergueu os olhos.
— O quê?
— Aquela caixa. Você recebeu, se trancou no quarto e nunca mais saiu. Nem deixou eu ver.
Maurício permaneceu alguns segundos em silêncio, olhou para a caneca, depois para o corredor. Lucas perdeu a paciência, pegou a primeira almofada que encontrou e arremessou. A almofada acertou o ombro de Maurício.
— Ei!
— Vai buscar.
Maurício bufou teatralmente.
— Chato.
Voltou ao quarto. Alguns segundos depois reapareceu na sala, segurava cuidadosamente o uniforme com as duas mãos como quem transportava uma relíquia. Lucas levantou do sofá num salto. Os olhos arregalaram.
— Cara... Nem ferrando.
Maurício abriu um sorriso orgulhoso.
— Pois é.
Lucas aproximou-se devagar, quase reverente. Estendeu a mão. Maurício deu um tapa leve em seus dedos.
— Nem pensa.
— Eu só queria...
— Jamais ouse tocar nessa preciosidade com essas mãos imundas de Cheetos.
Lucas olhou para os próprios dedos alaranjados.
— Justo.
Os dois observaram a camisa por alguns segundos.
Lucas foi o primeiro a quebrar o silêncio.
— Quem te deu isso?
Maurício entregou o pequeno cartão. Lucas leu, virou o papel. Nada.
— Sem remetente?
— Uhum.
Lucas devolveu o cartão.
Coçou distraidamente a nuca.
— Bom... eu só conheço um filho de ex-campeão olímpico num raio de cem metros deste apartamento.
Maurício sentiu o rosto aquecer imediatamente, desviou os olhos para o uniforme. Era exatamente o que vinha pensando desde a noite anterior. Mas ouvir aquilo em voz alta tornava a hipótese perigosamente real.
Tentou parecer indiferente.
— É... pode ser.
Lucas observou o amigo por alguns segundos. Depois deu de ombros. O interesse pela investigação morreu tão rápido quanto havia surgido.
— Bom. Mudando de assunto. Fernando mandou mensagem.
Maurício ergueu os olhos.
— O que ele quer?
— Almoço. Numa churrascaria que ele diz ser a melhor do mundo.
Maurício riu.
— Até aí nenhuma novidade.
Lucas abriu um sorriso.
— O melhor é essa parte.
Pegou o celular.
Leu em voz alta.
— "Pode vir tranquilo que hoje é por minha conta."
Maurício fingiu pensar por dois segundos.
— Não dá pra recusar comida de graça.
Olhou para a cozinha, depois para o armário.
— Principalmente considerando que nossa despensa é composta por ovos, miojo... — Fez uma pausa. — ...e umas quinze caixas de leite.
Lucas corrigiu imediatamente.
— Dezesseis. Ontem eu tomei duas.
Maurício caiu na risada.
— Você realmente pretende vencer essa batalha contra o vencimento, né?
Lucas apontou para ele com orgulho.
— E eu vou ganhar.
Maurício balançou a cabeça sorrindo. Guardou cuidadosamente o uniforme de volta na caixa, antes de fechar a tampa, passou mais uma vez os dedos sobre o cartão. Sem perceber... sorriu outra vez.
Pouco depois das onze, os dois finalmente deixaram o apartamento. Lucas precisou voltar três vezes. Na primeira porque esqueceu o celular, na segunda porque esqueceu a carteira, na terceira porque esqueceu o celular novamente.
— Você já tinha pego o celular.
— Então... Peguei o controle da televisão achando que era ele.
Maurício apenas balançou a cabeça.
— Um dia você morre sozinho.
— Não. Você vai esquecer de me deixar morrer.
Os dois riram. O sol já aquecia o condomínio quando atravessaram o hall do bloco C. Algumas crianças brincavam perto do jardim, um casal passeava com um cachorro enorme que insistia em farejar absolutamente todas as árvores do caminho.
Lucas abriu o aplicativo de transporte.
— Cinco minutos.
Maurício assentiu distraidamente. Os olhos já procuravam outro lugar. O bloco D, não sabia exatamente por quê.Ou melhor... sabia. Só fingia que não.
Foi então que a porta de vidro se abriu. Felipe apareceu primeiro. Tênis branco, calça jeans clara, uma camiseta preta simples, os óculos escuros pendurados na gola. O cabelo... impecável, como sempre.
Maurício sorriu antes mesmo de perceber. Felipe levantou os olhos na mesma direção, encontrou Maurício e sorriu também. Grande, espontâneo, sem cerimônia. Maurício sentiu o peito aquecer.
Era agora. Ia atravessar a rua, agradeceria pelo uniforme. Talvez dissesse que nunca esqueceria aquele presente. Talvez...
A porta tornou a se abrir. Uma mulher saiu logo atrás de Felipe, cabelos escuros presos num coque despretensioso. Óculos de sol sobre a cabeça. Vestia uma camisa branca de linho e uma calça jeans larga. Segurava um copo de café e uma chave de carro, passou naturalmente pelo portão. Deu um leve empurrão no ombro de Felipe, disse alguma coisa.
Ele riu. Daquele jeito. O mesmo da ligação.
O sorriso de Maurício desapareceu. As peças voltaram ao mesmo lugar.
"Então é ela."
Sentiu um aperto pequeno.
Idiota. Como tinha acreditado em qualquer outra possibilidade?
Felipe levantou novamente os olhos, ainda parecia disposto a atravessar a rua. Maurício foi mais rápido, segurou Lucas pelo braço.
— Vamos.
Lucas quase deixou o celular cair.
— Ué. O Uber nem chegou.
— A gente espera ali na esquina.
— Mas por quê?
Maurício já caminhava.
— Só vamos.
Lucas olhou rapidamente para trás. Viu Felipe, viu a moça, depois olhou novamente para Maurício. Suspirou.
— Cara... Você precisa parar com essa mania de me puxar toda vez que vê o Felipe.
Maurício fingiu não ouvir. Continuou andando.
Do outro lado da rua, Felipe acompanhou a cena por alguns segundos. Franziu discretamente a testa.
— Que foi?
Lorena perguntou enquanto destrancava o carro. Felipe ainda olhava para a esquina.
— Nada.
Mentiu. Ela seguiu o olhar dele. Viu dois rapazes desaparecerem na calçada. Reconheceu um deles imediatamente pela foto que já tinha visto no celular de Felipe. Sorriu de canto.
— Ah...
Felipe olhou para ela.
— O quê?
Lorena apenas entrou no carro.
— Nada. Você vai descobrir.
Felipe permaneceu alguns segundos parado, sem entender absolutamente coisa nenhuma, depois entrou também.
Enquanto o carro deixava o condomínio, Maurício observava discretamente pelo retrovisor do Uber, até perder completamente de vista o bloco D. E, junto dele... o sorriso que havia durado menos de um minuto.
A churrascaria ficava a poucos minutos do condomínio. Fernando fazia questão de dizer que era "a melhor carne de São Paulo", Gabriel sustentava que aquilo era uma afirmação irresponsável.
O restaurante estava cheio, famílias ocupavam mesas grandes. Crianças corriam entre um corredor e outro carregando balões distribuídos na entrada, o cheiro de carne assada parecia impregnado nas paredes. Fernando acenou assim que os viu.
— Finalmente!
Lucas puxou uma cadeira.
— A culpa foi do Maurício.
— Mentira.
— Verdade. Ficou meia hora penteando o cabelo.
— Eu nem penteei.
Fernando observou atentamente o amigo.
— Realmente..
Maurício pegou um guardanapo e jogou na direção dele. Fernando desviou rindo. Laura apareceu logo depois carregando dois refrigerantes.
— Eu ouvi vocês brigando da porta.
— Isso aqui é convivência saudável.
Gabriel completou.
— Eles chamam assim. Eu chamo de surto coletivo.
Os seis riram. As primeiras carnes começaram a chegar. Fernando fazia questão de aceitar absolutamente tudo.
— Picanha?
— Sim.
— Costela?
— Dentro.
— Cordeiro?
— Claro.
— Frango?
— Também.
Gabriel olhou para ele.
— Você sabe que isso não é competição, né?
— Não desperdiço oportunidades.
Lucas ergueu o copo.
— Finalmente alguém que me entende.
As conversas seguiam leves. Treinos. Histórias das categorias de base. Fernando contou, pela terceira vez, como quase foi expulso de um campeonato por subir na rede durante uma comemoração.
Laura revirava os olhos.
— Essa história aumenta toda vez que você conta.
— Porque ela merece.
Maurício percebeu que fazia tempo que não ria daquele jeito. Talvez desde antes da mudança para São Paulo. Talvez desde antes do hospital.
Foi então que Fernando olhou para a entrada. Abriu um sorriso.
— Finalmente.
Todos acompanharam seu olhar.
Felipe. Ao lado dele... Lorena.
Ela usava um vestido azul-marinho simples e tênis branco, como se tivesse decidido que conforto era mais importante que qualquer dress code. Assim que viu Laura, abriu os braços.
— Meu Deus!
Laura levantou imediatamente. As duas se abraçaram como quem retomava uma conversa interrompida apenas no dia anterior.
— Você voltou e nem me avisou!
— Achei que você ia gostar mais da surpresa.
Fernando levantou teatralmente.
— Eu também quero abraço.
Lorena o empurrou pelo ombro.
— Você quer atenção.
— Também.
Ela riu.
— Continua carente.
— E você continua grossa.
— Equilíbrio.
Gabriel puxou discretamente uma cadeira.
— Senta aqui.
Felipe agradeceu com um sorriso. Só então seus olhos encontraram Maurício, e abriu imediatamente aquele mesmo sorriso que viu do outro lado da rua.
— Oi.
Maurício respondeu apenas com um aceno curto, quase automático. O sorriso de Felipe diminuiu por um instante, não desapareceu. Mas mudou.
Sentou-se. Ninguém comentou, mesmo assim... todos perceberam. Laura lançou um olhar rápido para Lorena. Lorena devolveu outro. Fernando escolheu sabiamente fingir que nada havia acontecido.
Lucas apenas mordeu um pedaço de pão de alho.
"Pronto."
"Começou."
Cinco minutos bastaram para Lorena dominar completamente a mesa. Ela perguntava, contava histórias, interrompia Fernando, corrigia Gabriel, provocava Felipe. E, estranhamente... ninguém parecia se incomodar.
— Eu juro pra vocês. Esse homem aqui... — Apontou para Felipe. — Chorou porque perdeu um campeonato de videogame quando tinha doze anos.
Felipe fechou os olhos.
— A gente tinha combinado de nunca mais contar essa história.
— Você perdeu pra uma criança de oito.
Fernando gargalhou.
— Isso explica muita coisa.
Felipe tentou se defender.
— Ela fazia combo.
— Ela tinha oito anos!
A mesa inteira caiu na risada. Maurício observava em silêncio. Felipe ria, respondia. Fazia piadas. Era quase outra pessoa. Muito diferente do capitão sério que atravessava os corredores do Matero. Muito diferente do homem calado que passava horas ouvindo música sozinho.
"Então essa é a versão dele..."
Pensou.
"A versão que fica guardada pra quem ele ama."
Sentiu o estômago apertar. Lorena percebeu seu silêncio antes de qualquer outra pessoa. Virou-se diretamente para ele.
— Maurício.
Ele levantou os olhos.
— É verdade que você ganhou o prêmio de melhor líbero da base quando tinha dezesseis anos?
Ele hesitou.
— Ah...
Foi.
— Felipe comentou comigo.
Maurício olhou automaticamente para Felipe. Ele apenas continuava cortando um pedaço de carne como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo.
— Foi só um campeonato regional.
Respondeu, sem dar muita importância.
Lorena sorriu.
— Mesmo assim... parabéns.
Ele agradeceu com um sorriso educado. A conversa seguiu. Mas Maurício voltou a se calar, porque havia percebido uma coisa. Felipe falava sobre ele.
Não sabia quando. Nem por quê.
Só sabia que, em algum momento, entre tantas conversas da vida... seu nome havia atravessado o oceano até chegar a Milão. E isso, por algum motivo, o confundia ainda mais.
Ninguém sabia exatamente em que momento o almoço deixou de ser almoço. Talvez quando Fernando pediu a primeira sobremesa antes mesmo de terminarem a carne. Ou quando Lucas descobriu que o restaurante tinha karaokê aos domingos e passou quinze minutos tentando convencer Laura a cantar com ele. Ou talvez simplesmente porque nenhum deles tinha vontade de voltar para casa tão cedo.
— Tem um barzinho aqui perto.
Fernando já levantava da cadeira.
— Cinco minutos andando.
Gabriel riu.
— Você fala "cinco minutos" igual corretor de imóvel.
— É porque é verdade.
Laura pegou a bolsa.
— Eu topo.
Lorena levantou logo em seguida.
— Eu também.
Todos olharam para Felipe. Ele deu de ombros.
— Eu vou onde vocês forem.
Lucas olhou para Maurício.
— E aí?
Maurício hesitou por um segundo. Tudo o que queria era voltar para casa, guardar aquela camisa no armário e dormir. Parar de pensar. Mas olhar para a animação dos amigos fez parecer egoísmo estragar o domingo.
Suspirou.
— Tá.
Fernando ergueu os braços como se tivesse acabado de ganhar outro campeonato.
— Aí sim!
O bar ocupava uma esquina inteira. Mesas espalhadas pela calçada, luzes amarelas penduradas entre as árvores. Uma banda tocava versões acústicas de músicas conhecidas enquanto o sol começava lentamente a desaparecer atrás dos prédios. O clima era completamente diferente do restaurante.
Mais leve.
Mais barulhento.
Mais domingo.
Fernando foi o primeiro a pedir cerveja. Lucas pediu exatamente a mesma. Gabriel pediu água, todos olharam para ele.
— O quê?
— Você é muito adulto.
— Alguém precisa lembrar do caminho de volta.
Lorena levantou o copo.
— Um brinde.
Todos repetiram o gesto.
— Aos aprovados.
— Aos sobreviventes da pré-temporada. — completou Fernando.
— E às dezesseis caixas de leite restantes. — Lucas acrescentou.
Maurício corrigiu imediatamente.
— Ainda são dezesseis?
— Eu tomei outra hoje cedo.
Todos riram.
Os copos se encontraram no centro da mesa.
As horas passaram quase sem que percebessem. A banda aumentou o ritmo, algumas pessoas começaram a dançar perto do pequeno palco improvisado. Laura foi a primeira a levantar.
— Vem.
Puxou Lorena pela mão.
— Faz anos que a gente não dança juntas.
Fernando levantou logo atrás.
— Se elas podem, eu também posso.
Gabriel segurou o braço dele.
— Você não pode.
— Posso sim.
— Você acha que dança.
— Isso já é metade do caminho.
Fernando conseguiu escapar mesmo assim. Cinco minutos depois tentava acompanhar Laura e Lorena com uma coreografia completamente inventada. Lucas ria tanto que quase derrubou o copo.
Maurício observava tudo sentado, foi então que seus olhos encontraram Felipe. Ele também ria. Mas de um jeito diferente, sem medir o tom da voz, sem olhar ao redor para ver quem estava observando. Cantava trechos errados da música, discutia com Fernando sobre quem dançava pior. Aceitava as provocações da Lorena sem se defender.
Às vezes apenas fechava os olhos enquanto acompanhava o refrão batucando os dedos na mesa.
Era estranho.
Maurício já tinha conhecido tantas versões daquele homem, agora descobria outra. Talvez a mais bonita de todas, aquela que simplesmente existia sem esforço.
"Então era assim..."
Pensou.
"Era essa pessoa que aparecia quando ela estava por perto."
Sentiu um aperto discreto no peito. Não era exatamente ciúme, era uma sensação difícil de explicar. Como se tivesse chegado atrasado a uma história que já estava acontecendo muito antes dele.
Felipe levantou os olhos por acaso. Encontrou Maurício observando-o. Sorriu da mesma forma espontânea. Maurício desviou imediatamente o olhar. Pegou o copo, tomou um gole maior do que pretendia. Quando voltou a olhar... Felipe ainda o observava.
Por um instante, pareceu querer dizer alguma coisa.
Mas Fernando passou entre os dois segurando dois copos e gritando:
— Quem perder no karaokê paga a próxima rodada!
A atenção da mesa inteira mudou. A conversa seguiu outro rumo. Mesmo assim... Maurício percebeu uma coisa, Felipe voltava a procurá-lo com os olhos, de tempos em tempos. Como se tentasse entender por que, desde aquela manhã, toda vez que sorria para ele... recebia apenas um aceno distante de volta.
E, pela primeira vez desde que se conheceram, Felipe parecia genuinamente incomodado por não saber a resposta.
O bar ficava cada vez mais cheio. A música aumentava, as conversas se misturavam. Fernando já tentava convencer o cantor a deixá-lo assumir o microfone.
— Eu sei essa!
— Senhor, essa música é em inglês.
— Eu improviso.
Laura puxou Fernando de volta antes que ele cometesse um crime contra a música. Gabriel ria discretamente. Lucas já disputava uma partida de sinuca contra um senhor que claramente jogava há quarenta anos. Maurício aproveitou a distração geral, precisava de ar.
Saiu pela porta lateral do bar. A varanda dos fundos era pequena, alguns vasos de plantas e uma mureta baixa. O movimento da avenida chegava abafado. Respirou fundo, fechou os olhos.
Talvez realmente fosse um idiota.
— Achei você.
Maurício abriu os olhos imediatamente.
Felipe. As mãos nos bolsos, duas garrafas de cerveja. Estendeu uma delas.
— Toma.
Maurício hesitou, depois aceitou. Os dois permaneceram lado a lado por alguns segundos sem dizer absolutamente nada, foi Felipe quem quebrou o silêncio.
— Agora você pode me explicar?
Maurício olhou para ele.
— Explicar o quê?
— O motivo de você estar me evitando.
A pergunta veio simples, sem acusação, sem ironia. Só curiosidade.
Maurício desviou o olhar.
— Eu não tô te evitando.
Felipe soltou uma risada baixa.
— Tá.
— Não tô.
— Maurício... Você passou o dia inteiro fingindo que eu não existia. Na rua, na churrascaria, aqui.
Fez uma pequena pausa.
— Você foi educado com todo mundo. Menos comigo. E... com a Lorena.
Maurício respirou fundo. Sabia que aquela conversa chegaria, só não imaginava que seria tão direta.
— Não é nada.
Felipe apoiou os cotovelos na mureta.
— Então olha pra mim e fala isso.
Maurício levantou os olhos. Conseguiu sustentar o olhar dele por dois segundos, desistiu.
Bufou.
— Tá. Você quer saber?
Felipe apenas assentiu.
Maurício riu de nervoso.
— Eu acho que você já bebeu o suficiente.
Felipe franziu a testa.
— O quê?
— Você devia estar mais preocupado com a tua namorada.
Silêncio. Felipe permaneceu completamente imóvel, piscou uma vez, duas. Depois olhou para a própria garrafa. Voltou a olhar para Maurício e começou a rir. Primeiro discretamente, depois sem conseguir controlar. Uma gargalhada verdadeira daquelas que fazem faltar ar.
Maurício cruzou os braços.
— Qual é a graça?
Felipe tentava respirar.
— Desculpa... Desculpa. Mas... — Ele apontou para dentro do bar. Ainda rindo. — A Lorena?
Maurício permaneceu sério.
— Sim.
Felipe levou uma das mãos ao rosto, riu outra vez.
— Meu Deus... Maurício, você... — Respirou fundo. Tentou recuperar o controle, não conseguiu. — Você achou... que a Lorena é minha namorada?
Maurício ficou completamente sem reação. Felipe percebeu, a gargalhada diminuiu. Mas o sorriso permaneceu.
— Ela não é minha namorada. Quer dizer, já foi um dia. — Pequena pausa. — Mas hoje ela é minha melhor amiga.
Maurício piscou lentamente. Como se precisasse reorganizar todas as memórias das últimas semanas.
A ligação.
"Oi, linda."
As risadas.
O almoço.
As brincadeiras.
O jeito que discutiam.
Nada daquilo parecia mais um casal.
Parecia... uma amizade construída durante metade da vida.
Sentiu o rosto esquentar. Muito.
— Eu...
Felipe cruzou os braços, ainda sorrindo.
— Você passou três semanas me ignorando... por causa disso?
Maurício levou as duas mãos ao rosto.
— Meu Deus.
Felipe observava a cena completamente incrédulo.
— Você realmente acreditou nisso.
Maurício começou a rir também, da própria estupidez.
— Eu sou muito idiota.
Felipe respondeu imediatamente.
— Sim, você é.
Os dois riram juntos. A tensão de semanas pareceu desaparecer em poucos segundos. Maurício respirou fundo e olhou para Felipe.
— Tá... agora eu tenho uma pergunta.
— Manda.
— Por que você nunca falou dela?
Felipe deu de ombros.
— Porque você nunca perguntou.
Silêncio. Os dois sorriram. Mais um daqueles silêncios confortáveis.
Felipe girava distraidamente a garrafa entre os dedos, depois voltou a olhar para Maurício. Dessa vez sem rir. Mais sério. Mais próximo.
— Posso te perguntar uma coisa?
Maurício assentiu.
— Você realmente ficou esse tempo todo achando que eu tava namorando... e decidiu simplesmente se afastar?
Maurício baixou os olhos.
Sorriu sem graça.
— Achei que era o melhor.
Felipe deu um passo à frente. A distância entre os dois diminuiu naturalmente.
— Pra quem?
Maurício demorou a responder porque não havia uma resposta racional. Só um monte de sentimentos que ainda não sabia nomear.
Felipe permaneceu em silêncio.
— Eu achei que...
Parou de falar, passou a mão pela nuca. Sorriu sem graça.
— Sei lá. Achei que era melhor me afastar antes de começar a gostar demais de alguém que já tinha outra pessoa.
A frase saiu tão naturalmente que só depois Maurício percebeu o que havia acabado de dizer. Os dois ficaram completamente imóveis. Felipe piscou devagar.
— Você...
Maurício arregalou os olhos.
— Não. Quer dizer... Eu... Merda.
Levou as duas mãos ao rosto.
— Esquece. Esquece tudo que eu falei.
Virou-se rapidamente. Precisava ir embora, precisava desaparecer. Felipe segurou delicadamente seu pulso. Não apertou. Só impediu que ele desse o primeiro passo.
Maurício parou. Os dois permaneceram assim durante alguns segundos. O bar continuava cheio, a música seguia alta, alguém ria do lado de dentro.
Mas, dali... parecia tudo distante. Felipe soltou lentamente o pulso dele como se dissesse que ele era livre para ir embora.
Não foi.
Maurício continuou parado, Felipe sorriu de leve.
— Então era isso.
Maurício respirou fundo. Ainda evitava olhar para ele.
— Eu falei que você era convencido.
Felipe riu baixinho.
— E eu falei que você tava tentando ser meu amigo.
Maurício finalmente levantou os olhos.
— Você tava errado.
Felipe inclinou discretamente a cabeça.
— Tava?
Os dois riram. Era uma risada pequena, quase nervosa. Felipe deu meio passo à frente sem perceber. Agora havia pouco mais de um palmo entre os dois. Ele olhou demoradamente para Maurício como se tentasse decorar aquele rosto. Depois falou quase num sussurro.
— Eu senti sua falta.
Maurício sentiu o coração falhar uma batida.
— Sentiu?
— Muito mais do que eu imaginava.
Silêncio. Felipe respirou fundo, abaixou a cabeça por um instante. Quando voltou a olhá-lo... havia alguma coisa diferente em seus olhos.
Menos capitão, mais Felipe.
— Você sumiu... e eu fiquei procurando um motivo.
Maurício sorriu de canto.
— Achou?
Felipe balançou a cabeça.
— Nenhum que fizesse sentido.
Os dois permaneceram olhando um para o outro.
Sem pressa.
Sem torcida.
Sem Murilo.
Sem clube.
Sem responsabilidade.
Só dois homens.
Maurício percebeu que Felipe estava perto. Muito perto. Conseguia sentir o perfume dele misturado ao cheiro discreto de cerveja, conseguia ouvir sua respiração, conseguia ver um pequeno corte antigo próximo ao canto da sobrancelha esquerda. Nunca tinha reparado.
Felipe também não desviava o olhar. Não diminuía a distância, não aumentava. Apenas esperava como quem fazia uma pergunta silenciosa. Maurício entendeu. Sentiu um frio percorrer o corpo inteiro.
Pensou no hospital.
Na primeira final.
No depósito.
Na carona.
Na discussão.
Na camisa da seleção.
Em todos os momentos que, sem perceber, haviam conduzido os dois até ali. Sorriu.
— Você é um idiota.
Felipe sorriu também.
— Eu sei.
Maurício balançou a cabeça.
— Não... Dessa vez o idiota sou eu.
Felipe não respondeu. Nem precisava, Maurício deu um último passo. Muito pequeno. Talvez nem um passo, só o suficiente para eliminar o espaço que ainda existia entre eles. As testas se tocaram primeiro, depois os narizes. Os dois fecharam os olhos quase ao mesmo tempo.
Felipe continuou completamente imóvel, ainda esperava. Então Maurício sorriu contra a própria timidez e encostou delicadamente os lábios nos dele.
Foi um beijo curto, quase um toque. Mais parecido com uma pergunta do que com uma resposta. Felipe sorriu antes mesmo de se afastarem.
Abriu os olhos.
Os dois continuavam tão perto que qualquer palavra pareceria alta demais. Por isso nenhum deles falou. Felipe apenas levou a mão ao rosto de Maurício, acariciou lentamente sua bochecha como se confirmasse que aquilo tinha acontecido de verdade.
Então voltou a beijá-lo. Dessa vez... sem nenhuma dúvida. Ao redor, a música continuava, as pessoas dançavam, copos brindavam. Fernando provavelmente ainda desafinava em algum karaokê improvisado. Mas, por alguns instantes... o mundo inteiro coube no espaço entre duas respirações.
E, naquele instante, nenhum precisou salvar o outro. Bastaram apenas permanecer ali.
🏐
Fim do capítulo.
Eu vou te amar como um idiota ama.
💬 Comenta aí o que achou.
⭐ Se a história está te conquistando, não esqueça de votar no capítulo.
Seu apoio ajuda Terceiro Set a alcançar novos leitores.
Nos amanhã, na próxima partida.
— Henrique Bravi
Fale com o autor