TERCEIRO SET

10 Capítulo 09: Infinito Particular


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O despertador ainda não havia tocado. Felipe abriu os olhos mesmo assim, permaneceu alguns segundos encarando o teto. O apartamento ainda estava completamente escuro, exceto pela luz azulada do roteador piscando discretamente na estante da sala.

Era cedo. Muito cedo. Mesmo assim... não conseguiu voltar a dormir.

Virou o rosto em direção a mesinha de cabeceira. Cinco horas e oito.

Suspirou.

— Mais cinco minutos...

Sabia que não aconteceria. Nunca acontecia.

Sentou-se na cama, os pés encontraram o chão frio. O silêncio do apartamento era absoluto. Silêncio demais.

Levantou-se, antes mesmo de abrir as cortinas, caminhou até a cozinha. Ligou a cafeteira, depois o aparelho de som. Só então a casa pareceu despertar.

A voz de Marisa Monte preencheu lentamente os cômodos.

Não alta.

Nunca alta.

O suficiente para impedir que o silêncio ocupasse espaço outra vez. Enquanto a água aquecia, Felipe caminhou até a varanda. O condomínio ainda dormia. Algumas luzes acesas.

Um porteiro bocejando na guarita, um senhor passeando com um cachorro pequeno demais para o frio daquela manhã. Respirou o ar gelado. Foi interrompido pelo celular vibrando sobre a bancada.

Cinco horas e quinze.

Primeira notificação.

Depois outra.

Mais uma.

Em menos de trinta segundos a tela já acumulava mensagens suficientes para esconder o papel de parede. Felipe nem parecia surpreso, desbloqueou o aparelho.

Começou pela assessoria.

Felipe, mudaram o horário da coletiva de sexta.

Respondeu.

Depois a equipe de marketing.

Precisamos confirmar sua presença na campanha da nova patrocinadora.

Confirmou.

Patrocinador.

Te ligo às nove.

Visualizou, não respondeu.

Nutricionista.

Novo planejamento alimentar.

Preparador físico.

Mudança na carga de treino.

Grupo dos atletas.

Fernando havia enviado um vídeo às quatro da manhã tentando convencer o elenco de que existia uma conspiração contra os centrais.

Felipe sorriu, reagiu com um emoji. Nada mais. A cafeteira terminou de passar, serviu uma caneca. Tomou o primeiro gole ainda em pé.

Outro lembrete apareceu.

08h30 — reunião com patrocinadores.

Depois outro.

14h00 — gravação institucional.

Mais um.

18h30 — entrevista.

Olhou rapidamente a agenda do dia inteiro. Não encontrou um único espaço vazio, nem mesmo para almoçar.

Fechou o aplicativo como fazia todas as manhãs. Sem reclamar. Como se já tivesse aceitado que sua vida acontecia daquele jeito.

Enquanto lavava a própria caneca, o celular vibrou novamente. Dessa vez o nome apareceu sozinho na tela.

Murilo.

Felipe olhou para o relógio, pensou um segundo, atendeu.

— Bom dia.

A voz do outro lado veio direta.

— Tá acordado?

Felipe sorriu sozinho. Olhou para a cafeteira, para a camisa de treino já separada sobre a cadeira, para a agenda completamente tomada.

— Faz tempo.

— Ótimo. Não esquece que hoje o patrocinador novo vai assistir o treino, chega um pouco mais cedo.

Felipe respondeu automaticamente.

— Pode deixar.

— E leva a camisa branca. A azul ficou melhor nas fotos, mas eles preferiram a branca.

— Tá bom.

Um pequeno silêncio. Felipe esperou, talvez Murilo ainda tivesse mais alguma coisa.

Teve, mas não o que esperava.

— Até mais.

A ligação terminou. Felipe permaneceu alguns segundos olhando para a tela apagada, depois a bloqueou. Não parecia frustrado, nem triste. Apenas acostumado.

Vestiu a camisa de treino, pegou a mochila. Apagou as luzes do apartamento. Antes de sair, conferiu automaticamente três coisas.

Carteira.

Chaves.

Fones de ouvido.

Só então fechou a porta. No corredor, o elevador ainda demoraria alguns segundos para chegar, Felipe colocou os fones. A música recomeçou exatamente do ponto onde havia parado.

Sorriu discretamente.

Talvez fosse por isso que gostasse tanto de caminhar ouvindo música, era uma das poucas coisas que sentia que podia decidir sobre seu dia.

Enquanto as portas do elevador se fechavam, o celular voltou a vibrar. Felipe nem olhou. Gostava de sentir que por pelo menos poucos minutos podia deixar alguém esperar.

— Felipe, olha aqui rapidinho.

O fotógrafo ergueu a câmera.

— Mais um sorriso.

Felipe sorriu.

— Perfeito.

Agora olhando pro lado. Sorriu outra vez.

— Excelente.

Agora segura a bola. Outra foto.

— Maravilha.

O representante da patrocinadora aproximou-se imediatamente.

— É por isso que gostam tanto de você.

Felipe agradeceu com um sorriso educado. O homem já voltava a conversar com outro dirigente.

14 de janeiro de 2026 • 13h10

— Felipe, autógrafo?

O garoto devia ter uns nove anos. Segurava uma camisa do Matero quase do tamanho dele. Felipe ajoelhou para ficar na mesma altura.

— Como é seu nome?

— Vinícius.

Assinou cuidadosamente, depois entregou a camisa.

— Agora cuida dela melhor do que eu cuido das minhas.

O menino riu. Saiu correndo.

A mãe agradeceu emocionada. Felipe apenas acenou.

15 de janeiro de 2026 • 18h42

— Mais natural.

O diretor da campanha fez um gesto com a mão.

— Imagina que você acabou de vencer uma final.

Felipe repetiu o sorriso. Pela décima terceira vez.

— Isso.

Perfeito, agora de novo.

16 de janeiro de 2026 • 09h18

— Capitão!

A imprensa cercava a saída do ginásio.

— O que você espera da temporada?

— Como avalia os novatos?

— A pressão aumentou esse ano?

Felipe respondeu uma pergunta, depois outra. Mais uma. Sem acelerar. Sem perder a educação. Como se tivesse aprendido exatamente onde terminava uma resposta e começava um título de reportagem.

17 de janeiro de 2026 • 21h06

— Boa noite, Felipe.

O porteiro sorriu ao vê-lo entrar no condomínio.

— Boa noite, seu Antônio.

— Chegou tarde de novo.

Felipe olhou para o relógio.

Quase dez da noite.

Sorriu de leve.

— Hoje foi cedo.

O porteiro balançou a cabeça.

— Cê ainda vai aprender que ninguém trabalha bem cansado.

Felipe riu.

— Quando eu descobrir como faz, te conto.

19 de janeiro de 2026 • 11h54

Treino.

Reunião.

Fisioterapia.

Treino novamente.

Almoço em quinze minutos.

Reunião com patrocinadores.

Sessão de fotos.

Vídeo para as redes sociais.

Assinaturas.

Mais treino.

Quando chegou ao carro... permaneceu alguns segundos com as duas mãos apoiadas no volante. Não ligou o motor, não mexeu no celular. Não fez absolutamente nada. Apenas ficou ali, respirando. Como se aqueles noventa segundos fossem o único intervalo existente em todo o dia.

O celular vibrou, revirou os olhos. A pausa havia terminado.

21 de janeiro de 2026 • 16h32

— Felipe.

Uma senhora o abordou na saída do clube.

— Meu marido tá internado. Ele gosta muito de você. Será que...

Felipe nem deixou a frase terminar.

— Claro.

Pegou o celular da mulher. Gravou um vídeo curto, chamou o homem pelo nome. Desejou melhoras, terminou sorrindo.

A senhora começou a chorar.

— Você não imagina o quanto isso vai significar pra ele.

Felipe respondeu apenas:

— Espero que ele melhore logo.

Voltou a caminhar.

23 de janeiro de 2026 • 22h41

O apartamento estava escuro quando entrou. Deixou a mochila perto da porta, como todos os dias.

Pensou em tomar banho primeiro, desistiu. Foi o celular quem decidiu por ele. A tela iluminou novamente. Dessa vez, porém, nenhum patrocinador, nenhum empresário, nenhuma reunião.

Sorriu antes mesmo de atender.

— Oi, linda.

A própria voz pareceu mudar. Mais leve, mais espontânea. Como se, por alguns minutos, ele pudesse deixar o capitão do lado de fora da ligação.

Do outro lado, Lorena falava sem respirar. Felipe apenas ria.

— Calma... uma coisa de cada vez.

Silêncio. Depois outra risada.

— Hoje? Sério?

Olhou rapidamente para o relógio na parede.

— Que horas seu voo chega?

Ouviu a resposta, sorriu.

Felipe caminhava pela sala enquanto ela continuava falando. Parou diante da estante. Os olhos encontraram uma fotografia antiga dos dois ainda adolescentes, usando uniformes diferentes do Matero, segurando um troféu de categorias de base.

Sorriu sozinho.

— Tá... mas me responde uma coisa. — Fez uma pequena pausa. — Você ainda não disse o que trouxe de Milão pra mim?

A gargalhada veio imediatamente do outro lado. Felipe riu junto. Daquele jeito que quase nunca ria.

Sem educação.

Sem medida.

Sem precisar parecer alguém.

— Você é muito interesseiro.

Continuou ouvindo por mais alguns segundos.

Depois respondeu apenas:

— Tá bom. Eu espero você. Até mais.

A ligação terminou.

Felipe permaneceu olhando para a tela apagada durante alguns instantes e teve a sensação de não estar mais sozinho naquela cidade.

30 de janeiro de 2026 • 13h12

O restaurante ficava numa rua arborizada, poucas quadras distante do clube. Felipe já conhecia os garçons, conhecia o cardápio. Conhecia até a mesa perto da janela que Lorena sempre escolhia quando voltava ao Brasil.

Ela dizia que gostava de observar as pessoas andando na calçada. Felipe sempre respondia que ela inventava desculpas para ficar julgando desconhecidos.

— Aquele casal acabou de terminar.

Felipe nem levantou a cabeça do cardápio.

— Você faz isso de propósito.

— Ela devolveu o casaco. Acabou.

Ele riu.

— Você criou uma novela inteira em dez segundos.

— Experiência.

Fechou o cardápio.

— Vou pedir por você.

— Você sempre pede.

— Porque você sempre escolhe errado.

Felipe entregou o cardápio sem discutir.

— Tá vendo?

Foi por isso que eu sobrevivi cinco anos namorando você. Lorena sorriu.

— Não. Você sobreviveu porque eu sou extremamente paciente.

— Extremamente mandona.

— Também.

Os dois riram. O garçom anotou o pedido e se afastou. Era a primeira vez desde que ela voltou de Milão que ficaram realmente sozinhos. Lorena apoiou os cotovelos na mesa. Observou Felipe por alguns segundos.

Ele mexia distraidamente no porta-guardanapos.

— Já faz uma semana que eu cheguei.

Felipe levantou os olhos.

— Uhum.

— E você anda quieto.

Ele deu de ombros.

— Tô cansado.

— Mentira.

Silêncio.

Lorena sorriu daquele jeito que sempre fazia quando já sabia a resposta.

— Tem alguma coisa aí.

Felipe desviou o olhar para a janela.

— Amanhã tem a competição interna. Só isso.

Ela permaneceu em silêncio. Esperou. Sabia que Felipe odiava preencher silêncios. Funcionava desde que ele tinha doze anos. Não demorou muito.

— É importante.

Ela apenas assentiu.

— Imagino.

Mais alguns segundos. Então perguntou, como se lembrasse por acaso.

— É aquele menino de quem você me falou?

Felipe fechou os olhos. Riu pelo nariz.

— Caralho... eu detesto essa sua mania.

— Qual?

— De me conhecer.

Lorena apoiou o queixo na mão.

— Eu te vi crescer, pirralho. Já salvei tua pele de muito inspetor de escola.

Felipe sorriu.

— Não sei como eu consegui namorar você por cinco anos.

— Errado. Eu é que devia ganhar um prêmio. Foram cinco anos dizendo que amava esse topete ridículo.

Felipe passou automaticamente o dedo mínimo pelos cabelos. Lorena apontou imediatamente.

— Tá vendo? Você fez de novo.

Ele percebeu o gesto. Sorriu sem graça.

— Mania.

— Eu sei.

Os pratos chegaram, nenhum dos dois tocou na comida. Lorena voltou ao assunto com delicadeza.

— Então... o que aconteceu?

Felipe respirou fundo.

— Nada.

Ela ergueu uma sobrancelha.

— Felipe.

Ele rendeu-se.

— Eu falei que não devia me aproximar dele.

— Por causa do seu pai.

— Do clube e tudo que você já sabe.

Ela assentiu. Lembrava perfeitamente daquela conversa, Felipe continuou.

— Mas acabou acontecendo.

Lorena esperou.

— A gente virou... amigo. Eu acho.

A frase saiu quase como uma pergunta. Ele mesmo parecia não ter certeza. Brincavam, conversavam, discutiam, guardavam bolas depois do treino, pegavam carona juntos. Era amizade? Não sabia. Talvez fosse. Talvez estivesse começando a ser.

— E aí?

Felipe passou distraidamente o garfo pelo prato.

— Ele tá me ignorando.

Lorena permaneceu alguns segundos em silêncio. Depois sorriu.

— E você percebeu.

Felipe olhou para ela.

— Ontem. Só ontem.

Ela começou a rir.

— Meu Deus. Você demorou semanas.

— Eu tava ocupado.

— Eu sei. Mas percebeu.

Felipe suspirou.

— Percebi.

Lorena inclinou levemente a cabeça.

— Mas esse não era exatamente o seu plano?

Felipe ficou olhando para a própria água. Demorou para responder. Quando respondeu... parecia falar consigo mesmo.

— Era. — Fez uma pausa longa. — Racionalmente... era.

Os dedos giravam lentamente o copo.

— Mas... tô sentindo falta.

Lorena não sorriu ou fez piada porque conhecia bem demais aquele tom. Sabia o quanto era raro Felipe admitir qualquer necessidade. Apoiou a mão sobre a dele. Sem dizer nada, esperou que ele continuasse.

— Acho que faz tempo que eu não deixava alguém chegar tão perto.

Ela apertou de leve sua mão.

— Fê... você não acha que tá na hora de sair um pouco da própria cabeça?

Felipe soltou uma risada baixa.

— Pra você é fácil falar. Você é a pessoa mais livre que eu conheço.

Lorena balançou a cabeça.

— Livre... livre eu não sei. Talvez eu só me importe menos com o que os outros pensam. E... me desculpa... mas não ter os pais que você tem facilitou bastante.

Felipe ficou em silêncio. Olhou pela janela. As pessoas caminhavam despreocupadas pela calçada. Como se viver pudesse ser uma coisa simples.

— Mesmo assim... você atravessou um oceano atrás de um sonho. E voltou atrás de outro. Isso é admirável.

Lorena sorriu.

— Enquanto isso... você construiu a vida inteira em função dos sonhos dos outros.

A frase ficou entre os dois. Pesada. Felipe baixou os olhos, brincou distraidamente com o guardanapo.

— Às vezes eu acho engraçado.

— O quê?

— Eu nem sei se tenho sonhos.

Lorena permaneceu olhando para ele, depois respirou fundo. Sorriu de canto.

— Fê... você é o virginiano mais canceriano que eu conheço.

Ele riu.

— Se eu entendesse de signo, te responderia.

— Tá vendo? É por isso que você nunca vai entender uma aquariana.

Felipe pegou um pedaço de pão e jogou na direção dela.

— Besta.

Ela devolveu a risada, depois ficou séria outra vez. Muito séria.

— Mas voltando ao assunto. Você não precisa segurar o mundo inteiro nas costas.

Fez uma pequena pausa. Como quem escolhia cada palavra.

— Te falta raiva.

Felipe franziu a testa.

— Como assim?

Lorena sustentou seu olhar.

— Você aprendeu muito sobre as coisas, mas pouco sobre si. Não acha que tá na hora de impor os seus limites?

Baixou os olhos por um instante. Depois concluiu, quase num sussurro:

— Se você não sabe seus limites, nunca vai saber quando alguém atravessá-los.

Felipe não respondeu. Porque, no fundo... havia alguma coisa naquela frase que o assustava mais do que gostaria de admitir.

31 de janeiro de 2026 • 21h48

A última reunião da noite terminou quando o ginásio já estava praticamente vazio. Os corredores do Matero voltavam a mergulhar no silêncio. Felipe caminhava em direção ao estacionamento quando ouviu:

— Felipe.

Nem precisou olhar para trás.

Reconhecia aquela voz desde muito antes de aprender a sacar.

Virou-se.

Murilo permanecia parado à porta da sala da comissão técnica.

— Entra um minuto.

A sala era pequena.

Esquemas táticos ocupavam praticamente todas as paredes. No centro da mesa havia folhas espalhadas com estatísticas da competição.

Murilo fechou a porta.

Demorou alguns segundos organizando papéis que claramente já estavam organizados.

Felipe conhecia aquele ritual.

O pai fazia isso sempre que precisava encontrar uma forma menos dura de dizer alguma coisa.

— A competição foi boa.

Felipe apenas assentiu.

— O grupo respondeu.

— Respondeu.

Murilo caminhou até a janela. As quadras externas já estavam completamente apagadas.

— Agora começa a parte difícil.

Virou-se novamente.

— Você sabe que, daqui pra frente, tudo muda.

Felipe permaneceu em silêncio.

— Os patrocinadores vão aumentar a cobrança. A diretoria também. A imprensa vai querer você em toda coletiva. Os meninos vão olhar pra você esperando respostas.

Nada daquilo era novidade. Mesmo assim... Felipe continuou ouvindo.

Murilo respirou fundo. Então mudou completamente o rumo da conversa.

— E tem outra coisa.

Felipe ergueu discretamente os olhos.

— O Maurício.

O nome ficou suspenso entre os dois. Murilo apoiou as mãos sobre a mesa.

— Há dois anos... você atravessa a vida daquele garoto.

Felipe não respondeu.

— Você foi ao hospital. Depois acompanhou discretamente a recuperação. Ligou pra gente mais vezes do que imagina que eu sei. Indicou vídeos, relatórios, estatísticas. Quando o nome dele apareceu na nossa lista de observação... você já conhecia o jogo dele melhor do que qualquer analista daqui.

Felipe respirou fundo.

— Eu nunca escondi isso.

— Não.

Murilo concordou.

— Você também nunca burlou regra nenhuma. — Fez uma pequena pausa. — Só ajudou o clube a enxergar um atleta que talvez demorasse mais pra ser visto.

Felipe sustentou o olhar do pai.

— Ele merece estar aqui.

— Merece. — Murilo respondeu imediatamente. — Mas esse não é o ponto.

O silêncio voltou.

Mas durou pouco.

— Só que...

Murilo escolheu cuidadosamente cada palavra.

— Eu não vou admitir que você coloque tudo isso em risco tentando protegê-lo.

Felipe franziu levemente a testa.

— Eu não tô protegendo ninguém.

Murilo sorriu. Um sorriso cansado, de pai. Não de treinador.

— Você se sente responsável por ele.

Felipe demorou alguns segundos para responder. Quando respondeu a voz saiu mais baixa.

— Talvez.

Murilo voltou a caminhar lentamente pela sala.

— Então escuta o que eu vou te dizer. — Parou novamente diante da mesa. — O Maurício jamais pode descobrir o quanto você participou da contratação dele.

Felipe permaneceu imóvel, Murilo continuou.

— Se ele descobrir nunca vai saber se conquistou esse lugar porque era bom o bastante... ou porque você deu um empurrãozinho.

A palavra ficou suspensa no ar.

Empurrãozinho.

Pequena. Mas pesada.

Felipe baixou os olhos, sabia exatamente do que o pai estava falando. Lembrou-se das noites assistindo vídeos do Maurício. Dos relatórios enviados aos analistas. Das conversas insistindo para que observassem "aquele líbero". Nenhuma regra havia sido quebrada. Nenhum privilégio concedido.

Mesmo assim... aquela história nunca poderia ser contada.

Respirou fundo.

— Não se preocupa.

Murilo esperou.

Felipe ergueu novamente a cabeça.

— Ele jamais vai saber.

○○○

O apartamento parecia ainda mais silencioso naquela noite. Felipe largou a mochila sobre o sofá. Não acendeu a televisão, não ligou o computador. Caminhou diretamente até um armário no corredor.

Ficou alguns segundos parado diante dele. As palavras da Lorena voltaram quase involuntariamente.

"Te falta raiva."

Sorriu sozinho. Talvez fosse verdade. Mas não era raiva o que sentia naquele momento.

Abriu a porta do armário. Na prateleira mais alta havia uma caixa de madeira, retirou-a com cuidado. Sentou-se no chão da sala. Dentro dela... lembranças.

Ingressos antigos, fotografias, medalhas. Uma camisa cuidadosamente dobrada. Amarela. Felipe passou os dedos sobre o tecido, sorriu.

Pegou uma folha de papel. Começou a escrever, parou. Amassou. Pegou outra. Escreveu novamente, parou outra vez. Riu sozinho.

— Ridículo...

Pegou um cartão menor. Respirou fundo.

Escreveu apenas:

Pra te dar sorte na temporada.

Bem-vindo ao time.

Olhou para aquelas palavras durante alguns segundos. Nenhuma assinatura, nenhum nome. Era melhor assim. Fechou cuidadosamente a caixa.

Pela primeira vez em muito tempo não estava fazendo aquilo porque era o certo. Nem porque o clube precisava, nem porque Murilo esperava. Fazia simplesmente porque queria que Maurício permanecesse por perto.

A campainha tocou. Felipe abriu a porta.

Lorena apareceu equilibrando uma pizza em uma mão e uma garrafa de vinho na outra.

— Surpresa.

Felipe abriu um sorriso. Diferente dos outros, mais leve. Ela percebeu imediatamente.

— Ih... o que aconteceu?

Ele levantou discretamente a caixa de madeira.

— Fiz algo por impulso.

Lorena arqueou uma sobrancelha.

— E então?

Felipe olhou para o cartão ainda sobre a mesa, depois voltou os olhos para ela. Sorriu outra vez, dessa vez sem nenhuma vergonha de admitir.

— Acho que nunca me senti tão vivo.

Lorena permaneceu alguns segundos em silêncio. Depois levantou a garrafa de vinho como quem fazia um brinde.

— Ainda bem que eu trouxe vinho. Porque isso é definitivamente motivo pra comemorar.

Os dois entraram, a porta se fechou. Do lado de fora, a noite seguia tranquila.

No apartamento em frente... uma luz ainda permanecia acesa.

Felipe não fazia ideia de que, poucas horas depois, aquela pequena caixa mudaria silenciosamente a história dos dois.


🏐

Fim do capítulo.

💬 Agora eu quero saber de você:

O que você achou de conhecer um pouco mais de Felipe?

⭐ Se a história está te conquistando, não esqueça de votar no capítulo.

Seu apoio ajuda Terceiro Set a alcançar novos leitores.

Nos amanhã, na próxima partida.

— Henrique Bravi