Tōrō Nagashi
1 Capítulo Único
Notas iniciais
— Naruto — chamei a atenção do jovem de 14 anos que viajava comigo. —, acho que devemos ficar nessa cidade hoje, sol não vai demorar muito a se pôr.
Naruto, normalmente falante, estava agora quieto e cansado e apenas concordou com a cabeça, conforme adentramos na cidade em busca de um local para descanso. Quanto mais para o interior do País do Fogo, mais afastadas ficavam as cidades umas das outras, creio que tivemos até sorte de encontrar essa antes de escurecer.
Apesar de pequena, a cidade estava cheia e só conseguimos um quarto na terceira pousada em que visitamos. Estranhei, isso não era muito padrão para as cidades desse porte, mas não podia reclamar, ficamos com o último quarto disponível da cidade.
Enquanto Naruto recuperava suas energias comendo um grande prato de ramén em uma das mesas da área de lanchonete da pousada, chamei a atenção da bonita atendente de seios fartos que ali circulava. Recebi um olhar de desaprovação de meu aluno quando a menina se aproximava, o que se tornava cada vez mais comum à medida que Naruto crescia.
— Está tudo bem com vocês? — A jovem moça perguntou com um sorriso.
— Melhor agora que você está por perto. — respondi, fazendo com que Naruto forçasse uma tosse de modo a chamar minha atenção. — Mas estamos curiosos, por que a cidade está tão cheia? Quase não conseguimos um lugar para passar a noite.
— Vocês não vieram pelo final do festival? — A mocinha perguntou atônita. Já fazia tanto tempo que eu e Naruto estávamos viajando, que eu já havia perdido a total noção de datas comemorativas.
— Que festival, dattebayo? — Naruto perguntou, já havia comido metade do seu prato de ramen, o que significava que logo voltaria a ser falante como sempre.
— Hoje é o último dia do Festival Obon, e mais tarde, haverá a cerimônia Tōrō Nagashi próxima ao rio. — A menina comentou, supondo que soubéssemos sobre o Festival.
De fato, eu conhecia, mas creio que Naruto não. Devido a grande quantidade de mortes na Terceira Grande Guerra Ninja, Konoha havia mudado suas tradições de homenagem aos mortos, excluindo de seu calendário o Festival Obon.
— O que é esse festival? E essa cerimônia? — perguntou Naruto um tanto exasperado, pois a menina estava prestes a ir atender outra mesa.
— Puxa, vocês devem ter vindo realmente de longe para não conhecerem o Festival Obon. — A mocinha comentou, mas logo em seguida explicou. — Acredita-se que durante esse período do ano, os espíritos dos antepassados retornam às suas casas para se reunirem com a sua família. Por isso a cidade está cheia, muitos voltam para cá para ficar perto da família durante esse período. Hoje é o último dia, o que significa que por volta das seis da tarde, irá acontecer a cerimônia Tōrō Nagashi na margem do rio ao leste da cidade. Se tiverem interesse, estamos dando uma lanterna para cada hóspede como cortesia. Agora, se me derem licença, preciso atender a outra mesa agora. — Ela disse se retirando. Notei que Naruto ficou um pouco pensativo com tudo isso.
— Hein, Ero-sennin. — Ele me chamou, agora colocando o pote vazio de rámen de lado. — Tem alguém que você homenagearia colocando uma lanterna com nome no rio?
A pergunta de Naruto me pegou desprevenido e me fez engolir em seco. Eu gostaria de poder contar a verdade a ele, que seu pai era como um filho para mim, que de todas as pessoas que eu perdi ao longo dessa vida, Minato era a perda mais dolorida.
Contudo, Sarutobi-sensei havia proibido a todos, incluindo a mim, de contar para Naruto sobre sua verdadeira origem. Inclusive, pediu que eu me afastasse durante a infância do menino para que não se levantassem suspeitas.
Durante anos, evitei pensar no assunto, imaginando que Naruto deveria estar sendo tratado como um herói na vila, da maneira que o Minato havia planejado. Então, um dia eu estava nas termas, aproveitando um pouco e tentando espiar as belas meninas que frequentam esse lugar todo dia. Ora, estava seguindo o rastro do Orochimaru, um pouco de descanso não faria mal e quem sabe eu não teria uma bela visão como recompensa?
E então aquele jounin idiota veio implicar com a minha espionagem! Ora, essa, quanta arrogância! O afastei e logo em seguida o garoto apareceu. Eu não precisei nem perguntar qual era seu nome, pois só os cabelos loiros e bagunçados denunciavam que ele era o filho de Minato, e o primeiro “dattebayo” mostrava que ele herdara o mesmo hábito de Kushina sem nem ter convivência.
— Ei, Ero-sennin, você está bem, `bayo? — O Naruto do presente me perguntou, me tirando dos meus pensamentos.
— Estou sim, Naruto, estava apenas pensando sobre a sua pergunta. – respondi um pouco desconcertado. — Perdi tantas pessoas ao longo da vida ninja, que seria injusto homenagear apenas uma.
— Bem, Ero-sennin, então será que eu posso usar a sua lanterna também, dattebayo? – Naruto me perguntou ligeiramente envergonhado. Eu não precisei questioná-lo em voz alta para que ele respondesse o que eu gostaria de saber. — Eu gostaria de homenagear meus pais, apesar de eu não saber quem eles foram. Mas tenho certeza que eles foram grandes ninjas e estão vendo o grande ninja que eu vou me tornar, ‘ttebayo!
Eram em momentos assim que eu gostaria muito que o Naruto soubesse a verdade, de quão grandes ninjas eram seus pais, mas infelizmente, ainda não era hora dele saber a verdade.
Fomos na recepção da pousada, pegamos cada um uma lanterna e eu ajudei o Naruto a escrever “okaa-san” e “otou-san” nelas. Junto com o resto da população da pequena cidade, depositamos nossas lanternas iluminadas no rio. Enquanto as víamos se juntarem as outras dezenas de lanternas e descer o rio, Naruto fechou o olho, mentalizando o que gostaria de dizer aos seus pais.
“Minato, Kushina, eu estou aqui com o filho de vocês, e espero que estejam observando o grande homem que ele está se tornando. Estou aqui para criá-lo a partir de agora e tenho certeza: todos nós teremos muito orgulhoso dele.”
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