Término
1 Término
Notas iniciais
Achava que “término” era uma categoria exclusiva para namoros. Descobri recentemente que términos de amizade são mais comuns do que o esperado. E tão dolorosos quanto.
Já faz mais de um mês que não nos falamos e eu realmente espero que continue assim. Tenho medo de pensar como será quando você me mandar um oi, me marcar em um meme no facebook ou eu ter o azar de esbarrar contigo na rua.
Chegamos a conclusão que nosso relacionamento não é saudável. Definitivamente não é saudável. Qualquer coisa menos saudável. Não existe nenhum vilão ou vítima, somos nós dois os culpados de nossas próprias dores. Você me faz mal tanto quanto eu te faço. Chegamos a conclusão óbvia de que é melhor não nos falarmos mais.
No entanto, essa conclusão foi tomada apenas por pensamento. Não verbalizamos em palavras o que sentíamos. Nos afastamos aos poucos, quase que escondido. Quando nos encontrávamos sorriamos de maneira forçada, como se tudo estivesse perfeitamente arrumado como um castelo de pecinhas de lego (quando na verdade estamos desmoronados há tempos).
Às vezes esquecia que não deveria mais falar contigo e quando eu via algo que me lembrava a sua pessoa, te mandava por mensagem. Você respondia cordialmente e conversávamos por longas horas, só para depois desligar o celular e passar a noite em claro refletindo como fora um enorme erro.
E então nos encontramos naquela festa, no aniversário da Cecília. Nos abraçamos. Você me apresentou para todos como sua melhor amiga e eu falei em alto e bom tom “nos conhecemos desde 2010!”
Nossa amizade ao todo não foi ruim, de fato. Tivemos bons momentos. Dizem que no final são apenas as memórias boas que ficam. Posso afirmar que é quase verdade. Às vezes estou andando na rua e começo a rir sozinha quando vem uma lembrança aleatória nossa ou quando vejo algo que é a sua cara. Fico pensando “socorro, ele iria amar demais isso!” Depois vem as lembranças de como você me fodeu e eu fiquei puta pra caralho.
Não foi exatamente uma única coisa que você fez. Queria que tivesse sido! Uma merda gigantesca que me desse o direito de ficar brava. Mas foram inúmeras pequenas coisas que se acumularam e viraram uma bola de neve.
No final da festa, os dois meio bêbados e com muita adrenalina correndo nas veias, conversamos com mais sinceridade do que tivemos nos últimos meses.
— Eu não te amo mais, você sabe.
— Também não.
— Por que continuamos com isso?
— Me acostumei com você. É difícil tirar você da minha vida do nada, sabe?
— É. Eu sentiria sua falta.
— Deveríamos parar de nos ver?
— Não sei. Mudando de assunto um pouco, eu nem te contei do final daquele livro que você me mandou ler. Você tinha razão. A teoria do Jonathan.
— Eu te disse!
— É.
— Eu mudei de número. Me passa o seu celular para falarmos melhor sobre.
— Oh. Por isso não conseguia te ligar. Pensei que estava me ignorando.
— Você tentou ligar?
— Talvez. Me passa seu número.
Vi a oportinidade de te deixar morrer. De acabar com essa confusão que vem se arrastando há tanto tempo e só nos magoa.
Respirei fundo. Falhei.
— 091…
***
O tempo passou rápido e você não mandou mensagem para falar da teoria do Jonathan. Eu jurei que agora é pra valer! Não vou te responder. Jurei isso das últimas 15 vezes, mas agora é sério.
Quem quero enganar? Se você me ligar eu vou atender e agir como se esse enorme elefante na sala não existisse. Sou frouxa e tenho medo de te magoar. De me magoar.
Você faria o mesmo. Somos dois idiotas.
E eu realmente deveria trocar de número.
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