Tão gelado quanto sangue.
4 O mundo pertence a nós!
Notas iniciais
Lua de prata no céu
O brilho das estrelas no chão
Tenho certeza que não sonhava
E a voz doce que me falava
“O mundo pertence a nós!”
Hoje a noite não tem luar – Legião Urbana
Setembro de 1952.
John levantou os olhos do livro que lia quando ouviu as vozes na porta da frente.
Aquele era o dia que Dayana Campbell chegaria para passar uma semana com eles. Ela estava procurando casas nas redondezas e por isso ficaria hospedada com os Miller.
John não estava preocupado com a amiga de sua mãe passar alguns dias ali. Ele estava preocupado mesmo com a filha de nove anos dela. Garotas eram um problema sem duvidas. Tudo que elas sabiam fazer era brincar com suas bonecas e se meter na brincadeira dos meninos. Ele estava crente que não iria gostar da filha de Dayana.
A porta da biblioteca se abriu e sua mão foi a primeira a entrar. A senhora Lucille Miller era um exemplo de elegância. Sempre muito bem arrumada, com as mechas vermelhas bem penteadas e com a maquiagem perfeita. John esperava se casar com uma mulher igual à mãe. Linda, bem educada e extremamente elegante.
Logo atrás da senhora Miller, entrou Dayana Campbell. Ela era uma mulher alta de cabelos castanhos bem arrumados e grandes olhos cor de mel. Ela era lindíssima para uma mulher da sua idade, pensou John. Ela sorriu para ele e acenou para alguém do lado de fora entrar. John sabia que era para a filha dela.
Assim que a menina entrou na sala, John a odiou. Ela com certeza era mais alta que ele e parecia mais velha que ele, o que na visão do garoto era uma falta de respeito. Ela tinha os longos cabelos castanhos pretos em uma fita branca e usava um vestido da mesma cor. Longas meias brancas e sapatos que pareciam de boneca completavam a roupa da menina. E o pior de tudo, ela carregava uma boneca de porcelana com cachos loiros e com trajes vitorianos, nos braços. John sentiu vontade de vomitar.
– Essa é Anneliese. – disse a senhora Miller para o filho. – Seja um bom rapaz e mostre a casa para ela.
John fechou o livro ruidosamente para mostrar para a mãe que não estava feliz com essa decisão.
Ele olhou para Anneliese e disse rudemente:
– Venha!
A menina o seguiu. Ele queria se livrar dela. Porque se ele fosse gentil, ela o seguiria como um gato vira-lata e ele não queria isso.
John andava rápido e mostrava tudo por cima para Anneliese. E assim que ele teve a oportunidade, largou ela sozinha na sala da lareira e se fechou no quarto. Como a mãe dele pode fazer isso com ele? O obrigar a mostrar a casa para uma menina que ele nem conhecia. Ele sentou na cama e bufou. Ele não seria gentil com ela, não mesmo. Ela estava ali para atrapalhar. Porque a senhora Campbell não a deixou no Michigan? John se perguntou.
Ele ouviu os saltos da mãe batendo no assoalho de madeira da casa. Os passos eram rápidos e ele soube que ela estava brava. A porta do quarto se abriu e ele viu a mãe com o rosto vermelho de raiva. Ela iria brigar com ele por culpa de Annie. Aquela garota era mesmo uma causadora de problemas.
– John Isaac Miller. – a mãe disse com tão raiva que ele se levantou da cama em um salto. – Você me decepcionou bastante. – ele sentiu seu rosto esquentar. John não gostava de decepcionar a mãe. – Te pedi para ser gentil com Anneliese e tudo o que você fez foi tratá-la com desprezo. Eu te ensinei melhor do que isso.
John começou a chorar. Ele odiava chorar. O fazia se sentir fraco e desconfortável. Mas ele não conseguiu evitar que as lagrimas escapassem de seus olhos. A mãe se sentou ao seu lado e o abraçou. Os ombros de John balançavam por conta dos soluços que o tomavam descontroladamente. nem ele entendia o porque estava chorando daquela forma.
– Vamos, querido. – ela acariciava os ombros dele enquanto o tinha perto de si. – Eu sei que você é mais forte que isso. – A sua voz e expressão facial haviam mudado, estavam mais suaves. – Olhe para mim. – John levantou seus olhos molhados de lágrimas em direção a mãe. – Você já é um rapazinho. Não é bonito um rapaz como você chorar dessa forma. Você tem que levantar a cabeça e enfrentar de queixo erguidos seus problemas. – John assentiu devagar. – Agora eu quero que vá ao banheiro, lave seu rosto e depois desça e peça desculpas para Anneliese. Ela estava passando por uma fase difícil de sua vida.
John entrou no banheiro e encheu a pia de água. Ele subiu no banquinho que estava na frente dele e se olhou no espelho. Ele parecia patético com seus olhos inchados e seu nariz vermelho. Era por isso que ele odiava chorar. A água gelada fez milagres em relação ao seu rosto marcados pelas lagrimas.
Ele desceu e foi até a sala da lareira onde sua mãe, Dayana e Anneliese estavam. Ela estava em um canto brincando com a boneca. Ele viu que ela havia chorado também. Bem feito, ele pensou.
– Me desculpe. – ele disse olhando para ela.
– Tudo bem. – ela respondeu com um tom de voz monótono. – Eu não ligo.
John virou as costas e saiu da sala. Ele não queria mais ficar na presença daquela garota.
***
No sábado de manhã Frank Henderson iria a sua casa passar a tarde com ele.
A campainha tocou às 11 horas em ponto. A senhora Henderson era extremamente pontual. A senhorita Young, empregada da casa, abriu a porta e levou Frank até o quarto de John.
Nem ele, nem Anneliese saíam de seus respectivos quartos desde quinta-feira. Tanto por birra, quanto por não quererem um ver a cara do outro.
Frank entrou no quarto super animado para um dia na praia. A casa dos Miller era uma praticamente uma mansão beira a mar. John adorava seu quarto com vista para o mar.
– Então vamos para a praia? – perguntou Frank animado.
John levantou os olhos do livro e negou.
– Mas porque?
– Porque senão, minha mãe vai me pedir para levar Anneliese junto e eu não quero.
Frank pareceu confuso.
– Anneliese?
John tinha se esquecido completamente de mencionar a garota para o melhor amigo.
– A filha da melhor amiga da minha mãe. Ela é uma irritante, com aquela boneca de um lado para o outro.
– E você vai sacrificar nosso dia na praia por causa de uma garota irritante?
– Você não sabe o quanto ela é chata. – disse John. – Ela é daquelas meninas super femininas que só sabem brincar com bonecas. – Frank rodou os olhos.
A porta do quarto se abriu de repente e Anneliese estava parada no batente. A expressão no rosto dela era um misto de divertimento e irritação.
– Primeiro, você é idiota o suficiente mesmo para me chamar de super feminina por que eu tenho uma boneca? – John deu de ombros. – E segundo, como você sabe que eu sou super irritante se nem olhar na minha cara olhou.
John olhou para ela e depois para Frank. Ele parecia hipnotizado.
– Ele é mesmo um idiota. – disse Frank. – Venha passar a tarde na praia conosco.
John olhou feio para o melhor amigo que o ignorou por completo.
– Claro que eu vou.
Ela se virou e foi até o quarto onde dormia com a mãe. John estava bravo com Frank, mas ele não iria brigar com o amigo, pois o amigo era fraco perante garotas.
Ele tentaria ter um dia tranquilo na praia com Frank, mesmo com Anneliese lá, para atrapalhar tudo. Eles colocaram as roupas de banhos e esperaram Anneliese terminar de se trocar. Ela desceu com uma roupa de banho azul marinho e com os cabelos castanhos presos em um rabo de cavalo.
A senhorita Young os levou até a praia e ficou lá cuidando deles.
John e Frank jogavam bola enquanto Anneliese montava um castelo de areia. A paz reinava aquele pedaço de praia. John não olhava para Anneliese e ela não olhava de volta. Mas para John não era suficiente. Ele precisa perturbar a garota. Ele ao invés de chutar a bola para o gol improvisado, chutou a bola na direção do castelo da garota, fazendo com que o castelo desmoronasse.
– O que há com você, John? – perguntou Frank.
– Eu chutei errado.
Anneliese se levantou e seguiu para dentro da casa, sem nem dizer uma palavra. Ela tinha os braços colados ao lado do corpo e pisava com força.
Frank apenas rodos os olhos e continuou a jogar bola com John.
***
O jantar foi silencioso. Ninguém falava nada por dois motivos. O primeiro era porque John estava sendo cruel com Anneliese. E o segundo, John não entendia bem o que era, mas tinha algo a ver com a divisão de algo.
John e Anneliese foram obrigados a sentar lado a lado e evitaram ao maximo encostarem um no outro. Agora eles eram inimigos declarados e era isso que John queria.
Uma das surpresas do jantar era o pai de John ter se juntado a eles. O senhor Miller era um homem extremamente importe e raramente tinha tempo para a família.
– Eu gostaria de saber o porque John e Anneliese estão com essa cara de enterro. – disse o senhor Miller.
– John está provocando Anneliese desde que ela chegou na quinta, Rob. – disse a senhora Miller.
Robert Miller sorriu. E olhou para os dois.
– Vocês sabem o que dizem disso não é mesmo? – disse Robert. – Que vocês podem se casar um dia!
John fez uma careta e Anneliese riu baixinho.
– Eu discordo, senhor Miller. – disse a garota.
Dayana limpou os lábios com o guardanapo de linho e disse:
– Você se lembra quando George começou a gostar de mim?
A mãe de John assentiu, sorrindo.
– Ele te atormentou por duas semanas, sem descanso. – elas riram e Anneliese se retorceu na cadeira ao lado de John desconfortavelmente.
– Ele não poupou nem mesmo minha família.
– Como ele está fazendo agora, não é mesmo mamãe? – Anneliese se levantou e saiu da sala. John olhou para as duas mulheres da sala sem entender.
– Eu não devia... – Lucille abraçou Dayana que estava chorando.
John se levantou e foi confrontar Anneliese. Ela não podia fazer uma coisa dessas com a própria mãe.
Ele a encontrou na varanda que dava para a praia. Ela estava sentada no balanço que havia ali. Seus pés não tocavam o chão, então pendiam balançando levemente.
John se sentou ao lado dela. Anneliese estava chorando sem parar.
– Se veio aqui me irritar, por favor vire-se e vá embora.
Ele percebeu o quanto ela estava chateada.
– Só quero saber o porque tratou sua mãe daquela forma.
Anneliese virou o rosto e soluçou.
– São meus pais, eles estão se divorciando.
John não entendeu. Ele não sabia o que era um divorcio.
– O que é isso?
A garota riu. Era um riso carregado de dor.
– Eles estão desfazendo o casamento deles e eu estou vindo morar na Califórnia, enquanto meu pai vai morar em Michigan com a senhorita Faith.
Ele não conseguia acreditar como uma coisa dessas podia existir. Mas também não conseguia acreditar o porque do senhor Campbell trocar a esposa. Dayana era uma mulher bonita e gentil. Não fazia sentido. Ele sentiu pena de Anneliese. Só de pensar em seus pais se divorciando, era como se o seu coração se partisse.
Ele colocou os braços ao redor de Anneliese.
– Tudo vai ficar bem, Anneliese.
– Porque esta fazendo isso?
– Porque se isso acontecesse com meus pais, eu estaria igual a você. – ele disse e ela assentiu. – Posso te chamar de Annie?
Ela se livrou do abraço dele e o olhou no rosto.
– Pode sim.
Então descansou a cabeça esquerdo dele. Nesse momento eles souberam que o mundo era deles.
Foi assim que a conhecia
Naquele dia junto ao mar
Hoje a noite não tem luar – Legião urbana
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