Notas iniciais
Primeiro capitulo inspirado na música lindissima dos Beatles - Yesterday.

De repente

Não sou a metade do homem que eu costumava ser

Existe uma sombra pairando sobre mim

Oh, ontem veio de repente.

Yesterday – The Beatles.

Vietnã, outubro de 1967.

John correu em meio a aquela floresta tropical até seus pulmões doerem.

Aquela merda de guerra estava acabando com ele. não comia bem já fazia algumas semanas e dormir era quase impossível. Porque diabos o país dele teve que se meter no problema dos outros? Era isso que ele pensava diariamente.

Seus companheiros de batalhão corriam ao seu lado. Eles não olhavam para trás. Eles não paravam por nada. Eles não podiam parar. As bombas caíam atrás deles e era tudo tão confuso e assustador.

John não tinha vergonha de assumir que estava assustado. Ele tinha tanto medo de morrer, que rezava constantemente. O mais estranho era que ele não acreditava em Deus. Mas era isso que a guerra fazia com as pessoas. As transformava.

Ele não sentia medo só por si. Ele sentia medo por Annie também. Ela era a luz do seu dia, a estrela mais brilhante da sua noite. E ele a amava como nunca amou nenhuma outra. Era por ela que ele corria nesse instante.

A promessa havia sido feita e ele retornaria vivo pra casa.

A chuva de balas surgiu por de trás deles e John viu seus companheiros caindo. Ele se virou, levantou o rifle e atirou como se não houvesse o amanhã. Ele não odiava os Vietconges, mas ele não iria ser um alvo fácil.

Seu melhor amigo na guerra, Frank, tombou ao seu lado. A bala havia se alojado na coxa esquerda dele e John o ajudou a se levantar.

– Você precisa me deixar pra trás. – disse Frank entre dentes por causa da dor.

– Não posso fazer isso por você porque eu sei que você não faria isso comigo.

Frank deu de ombros e eles começaram a correr por entre as arvores em zigue-zague. A chuva de tiros ainda era constante e John precisava ser mais rápido que as balas.

Mas ele não conseguiu. A dor foi ao mesmo tempo devastadora e branda. Era tão estranho. E um liquido morno escorreu pela sua barriga. Ele caiu de joelhos, fazendo Frank rolar pelo chão. E então seu corpo desabou. Frank se arrastou até o amigo ferido e o virou de peito para cima. John não conseguia pensar em nada que não fosse a dor terrível que sentia na cintura. Frank improvisou um torniquete em sua perna esquerda e tentou levantar o amigo para o tirar dali. A ajuda estava a mesmo de dois metros e meio dali. Eles precisavam conseguir. Eles se arrastaram até acharem um companheiro de batalhão não ferido que os ajudou até onde os médicos estavam.

John estava semiconsciente. E tudo que ele conseguia pensar era Annie. Aqueles cabelos longos castanhos, os olhos cor de mel, os lábios rosados e carnudos, o rosto anguloso e bem esculpido, o corpo cheio de curvas e de cor marfim, naquele sorriso que podia mudar vidas com apenas um vislumbre, naquele temperamento que oscilada a cada instante. Ela era tudo que ele poderia querer e mais. Annie era aquele tipo de mulher que todos os homens desejam, mas são poucos que conseguem domar. Ela era como a personagem Gilda de Rita Hayworth. E ela era somente dele.

Ah, por quantas coisas eles haviam passado. O ontem lhe parecia tão tranquilo, tão brando perto de tudo que ele estava passando naquele um ano que estava na guerra. Ela não havia sido dele logo de inicio e ele também não a quis a primeira vez que a viu. Mas eles cresceram e aprenderam a se amar como nunca havia amado na vida.

Porque essa guerra precisava existir? Eles estavam tão bem antes de ele ser convocado. A vida finalmente estava calma, eles finalmente estavam um nos braços do outro quando a maldita carta chegou. Annie chorou por vários dias. Ele apenas aceitou seu destino.

Ele tentou se lembrar de quando ele conheceu Annie e não conseguiu. Ele sempre esteve em sua vida e isso o esquentou por dentro.

Os médicos estavam fazendo o possível por John, mas era difícil fazer alguma coisa em um hospital de campanha. Eles precisavam levá-lo para um hospital decente logo, porque senão, ele aquele jovem rapaz morreria como todos os outros.

John sentiu frio e calor ao mesmo tempo. Mas, por mais estranho que pareça, ele não sentia seu corpo. Será que isso é morrer? Ele se perguntou. Só que ele não podia se dar ao luxo de saber. Ele tinha que ficar vivo por Annie. Pelo grande amor de sua vida. Então ele se lembrou da primeira vez que a viu como uma mulher linda e crescida, e todas aquelas lembranças voltaram como uma enxurrada. Oh, como ele acreditava no ontem.

Ontem

O amor era um jogo fácil de se jogar

Agora preciso de um lugar para me esconder

Oh, eu acredito no ontem.

Yesterday — The Beatles

Notas finais
Esse só foi mesmo uma introdução a história.