Tão Simples como Amar
11 Pra que isso se eu não consigo viver sem você?!
Lilian resolvera ficar em casa naquela dia, ligou na loja avisando que não poderia ir, não estava se sentindo muito bem o que não deixava de ser verdade. Estava com uma dor de cabeça terrível e vinha se sentindo indisposta nos últimos dias. Quem andava muito preocupado com essa mudança toda em Lilian era seu irmão, Augusto que vivia perguntando estava acontecendo com a irmã...Mas o rapaz sabia. Lilian contou detalhadamente a história de Julia, o fato da amiga ser homossexual. Augusto não demonstrou nenhuma reação negativa, na boate, conheceu muitos gays e diversas vezes teve que se esquivar das tentativas dos rapazes, fato que levava totalmente na esportiva e na maioria dos casos ficava amigo dos caras. Achou estranho a irmã agir daquela forma e estranhou mais ainda ver Lilian se esquivando de todo e qualquer contato com Julia. Quando a morena ligava e o rapaz atendia, Lilian fazia o rapaz mentir dizendo que a irmã não estava...Quando ligava no celular deixava o aparelho chamar até cair na caixa postal. Augusto reprovava todas essas atitudes da irmã, mas não falava nada...Deixaria Lilian perceber a bobagem que estava fazendo sozinha, mas já estava ficando preocupado com o humor instável que a irmã vinha demonstrando, sem contar nas dores de cabeça que vinham sendo mais frequentes...Lilian era assim, se uma coisa não estava bem, interferia tudo. Augusto ficou na sala vendo televisão enquanto Lilian estava no quarto, dormindo. Augusto refletindo as situações que vinha acontecendo nos últimos dias, tomou uma decisão, conversaria com a irmã no almoço...
Algumas horas depois Julia e Mari comiam e conversavam distraidamente. Mari argumentava incansavelmente com Julia sobre ir conversar com Lilian, mas não estava obtendo muito sucesso, Julia estava decidida em nem ligar mais para Lilian. Mari suspirou irritada e se deu por vencida:
— Tá bom, tá bom. Não vou mais argumentar com você, tá bom?
— Já não era tempo.—- comentou Julia tomando seu suco de laranja calmamente.
— Julia, juro que não entendo por que disso.
— Mari, põe isso na sua cabecinha loira...Cansei! Liguei direto, tentando fingir que tava tudo bem, chamar pra sair e tudo mais e ela só recusando...Agora ela não se dá nem ao trabalho de atender! E olha, vai ser até bom assim eu esqueço ela de vez.
— Julia você num vai esquecer ela, sabe muito bem disso...Vai ficar num mal humor infernal até sabe Deus quando...
— Uma hora passa, ai Mari isso é fase.
— Fase essa que eu não aguento mais...Julia, sinceramente, me faz uma falta de quando você tá numa boa com todo mundo. Você fica mais leve, mais bem humorada, menos carrancuda.
— O Sérgio gosta.
— O Sérgio não pensa! Tira ele dessa, nem conta.
— Ai Mari, chega desse assunto, ok? Me fala de você e do Augusto.
— Estamos bem ué...Muito amigos.
— Quando é que você e ele vão se acertar de vez?
— Ai Julia...Que tal mudar o assunto de novo?
— Viu como é agradável tocar em assuntos que não são apropriados pro momento?!
— Coomo você é engraçada, Julia — comentou sarcástica — São situações completamente diferentes, ok?
— Uhum...Claro. — e sorriu cínica.
Mari lançou um olhar irritado a Julia que sorriu mais ainda:
— Te amo, Mah. — e jogou um beijo para a amiga.
Augusto comia em silêncio apenas observando a irmã atentamente. O rapaz tinha acabado de dizer tudo que pensava sobre as atitudes da irmã ultimamente...Percebeu que Lilian não gostou nada do que ouviu mas ambos sabiam que o rapaz estava com a razão. Lilian terminou de comer calmamente, como se nada tivesse acontecido, porém, não se pronunciou...Terminando de comer, Augusto ainda tinha aquele olhar curioso para a irmã, que arqueou uma sobrancelha e perguntou:
— Que foi?
— Tô esperando você falar alguma coisa! Me irrita esse seu silêncio, sabia?
— Olha, eu nem sei direito o que falar...
— Só queria que você parasse com isso, Lili. Sinceramente? É bobagem da sua parte...A Julia teve uma ótima atitude te contando uma coisa tão intima.
— Mas ela tinha que contar!
— Mas deve ser difícil dividir isso com alguém...
— É...
— Então Lili...Para de bobagem e vai conversar com a Julia. Poxa, ela é tão legal...Você gosta tanto dela, e eu também!
— Mas Guh, foi um choque pra mim, entende?
— Mas não justifica você ficar fugindo desse jeito dela...Ela tentou algo com você? Fez algum comentário alguma vez que não tenha te agradado? — perguntou sério.
— Não! Nunca, a Julia sempre me respeitou muito.
— Então! Pra que isso?
— Ai não sei...
— Lili...Ridículo.
— Fiz bobagem, né?
— Lili, eu no seu lugar já logo bolaria um jeito de me desculpar...Porque pelo o que a Mari me fala da Julia, ela tem um gênio do caramba e já tava desistindo de falar com você...Então pode tá meio tarde pra você correr atras do prejuízo.
— Será que tá? — perguntou insegura.
— Você só vai descobrir se tentar.
— É o que eu vou fazer. — disse decidida.
Augusto ao ver aquela expressão no rosto da irmã, abriu um largo sorriso e foi tomado pela sensação de dever cumprido.
— Vai fazer o que?
— Não sei ainda. — respondeu meio insegura.
— Hum...Vou ver se posso te ajudar. — e levantou sorridente.
Mari acabara de se despedir da amiga, Julia infelizmente teria que voltar a loja e não lhe faria companhia. Deitou no sofá e ligou a televisão, minutos depois ouve o celular tocar, estica o braço tentando pegar o aparelho e por pouco não cai. Olha o identificador e abre um largo sorriso atendendo rapidamente:
— Alô?
— Mari?
— Oi Augusto.
— E aí, como é que cê tá?
— Bem, tô meio irritada com a Julia porque ela é uma cabeça dura do caramba...Mas fora isso, tá tudo beleza.
— Tenho novidades...
— Sobre?
— Minha irmã. Falei com ela hoje, num tava mais aguentando essa situação boba que ela se meteu...
— E ela?
— Viu que tava fazendo besteira, quer se desculpar com a Julia, porém, não sabe como...
— Huum...Normal ela não saber o que fazer, nem eu sei direito.
— Liguei justamente pra te pedir ajuda...
— Ah, bom...Fala pra ela ir na casa da Julia hoje, acho que ela vai gostar.
— Será? — perguntou meio inseguro.
— Não sei. Olha, vou ser sincera com você...A Julia ficou muito magoada com essa história toda, só que ela não vai demonstrar, nem ferrando. Então já avisa pra sua irmã que a possibilidade dela tomar uns esporros tá em 90%, ok?
— Ela já deve tá sacando como tá a situação dela.
— Espero que sim, e espero que elas se entendam.
— Pois é, Lilian tá um porre. — comentou e logo em seguida tomou um leve tapa.
Mari riu suavemente e comentou:
— Digo o mesmo da Julia, ela já é super educada, sabe? Imagina como ela tá agora...
— Juro que nem quero.
Horas depois...
Julia abre a porta do apartamento e larga a bolsa no sofá. Ia direto em direção ao quarto, mas parou no meio do caminho ouvindo vozes animadas vindo da cozinha. Franziu o cenho e reconheceu a voz, não estava acreditando então resolveu passar na cozinha para conferir:
— Era só que me faltava, ouvir vozes, parabéns hein Julia, tá ficando louca sem nem ter feito trinta.
Tomou um belo de um susto ao ver Edna lavando a louca com Lilian encostada na pia ao seu lado conversando animadamente. Estavam tão distraídas que nem tinham percebido a chegada de Julia, Lilian sorria e estava aparentemente bem feliz, mantinha um largo sorriso no rosto ao conversar com Edna. Julia a admirou por poucos segundos, pois logo lembrou de Lilian a evitando por uns bons dias “É, tá livre de mim e sorri. Deve ter vindo visitar a Edna.” voltou para o quarto apressadamente e bateu a porta violentamente, passou a mão pelos cabelos num claro sinal de nervosismo e andava de um lado para o outro. Sentou na cama e tirou os sapatos, resolveu tomar um banho, precisava relaxar um pouco...Não imaginava que a presença de Lilian lhe causaria tantos sentimentos misturados...Insegurança, surpresa, felicidade. Enrolaria dentro daquela quarto o máximo que pudesse, quem sabe assim Lilian percebia que Julia não estava afim de papo e fosse embora? Entrou no banheiro com esse pensamento e um leve sorriso no rosto...
Lilian ao ouvir uma porta bater fortemente sentiu o coração pular freneticamente no peito. Sorriu meio assustada enquanto Edna ia em direção a porta da cozinha para ver de onde vinha o estrondo, voltou com meio sorriso nos lábios e comentou:
— É, parece que a fera chegou...
Lilian deu um sorriso nervoso e perguntou:
— Onde ela foi?
— Deve ter se trancado no quarto, logo aparece aqui cheia de fome. Quer bater lá? — perguntou simpática.
— Não, não. Vou esperar aqui com a senhora. — e sorriu docemente.
Julia tomou seu banho calmamente, relaxou na ducha e nem se deu conta do tempo passar. Trocou-se e quando olhou no relógio percebeu que tinha passado um bom tempo. Estava se sentindo uma bela de uma criança por se enfiar no quarto somente para não dar de cara com Lilian. Levantou-se da cama meio irritada e saiu, estava deveras faminta e pelo silencio que estava na casa provavelmente já teria ido embora. Lembrou-se que ainda não tinha jantado e pelo horário Edna ainda estaria em casa, foi animada em direção a cozinha e logo falando:
— Edna, faz algo pra eu comer que tô com...fome.
Parou na porta com os batimentos bem acelerados. Lilian estava sentada a mesa sozinha, olhando para um ponto fixo do chão e ao ouvir a voz de Julia, olhou a amiga docemente e disse:
— Ela foi aqui na vizinha e já volta. — e sorriu levemente.
— Fala pra ela levar algo no escritório pra eu comer...
— Voltei, voltei. — Edna passando por Julia rapidamente com um largo sorriso.
— Edna, tô no escritório leva algo lá pra mim.
— Julia você cumprimentou a sua visita? — perguntou Edna com aquela autoridade que lhe era tipica.
— Oi Lilian... — cumprimentou rapidamente e voltou sua atenção a Edna — Ouviu o que eu pedi? Rápido, por favor. Tô com fome.
— Levo algo pra vocês lá daqui a pouco.
Julia arqueou uma sobrancelha e nada disse, saiu do cozinha sem nem olhar para Lilian, porém, na sala sentiu um toque suave em seu braço, não precisou nem olhar para reconhecer reconheceria aquela perfume em qualquer situação, era Lilian...
— Podemos conversar?
— Ahn...Não.
— Tá ocupada?
— Olha Lilian, tô sim...Chapada de trabalho. — respondeu a primeira coisa que lhe veio a cabeça.
- Então porque cê tava trancada no quarto até agora?
— Tava tomando banho ué — respondeu meio irritada.
— Que banho foi esse...Você não demora tanto assim. — disse com meio sorriso.
— Lilian, desde quando você sabe quanto tempo eu demoro no banho? Não sabia que você cronometrava. — comentou séria.
— Julia, do tempo que a gente tá aqui, podia muito bem conversar...E aí, vai querer ou não? — perguntou séria.
— Que que cê tem pra me falar? Porque pelo visto, nos últimos dias você não tem tido absolutamente nada pra falar comigo, né?! Nem sequer me atendeu! — comentou sarcástica.
— Julia... — ainda segurava o braço da amiga e a puxou delicadamente até o sofá.
Julia deixou-se ser levada pelas mãos suaves de Lilian até o sofá. Lilian sentou e Julia repetiu o gesto...As duas ficaram em silêncio e Julia passou a fitar Lilian intensamente. Logo a garota mais nova abaixou a cabeça, não conseguiria sustentar aquele olhar por muito tempo. Momentos depois, Julia perguntou com a voz fria:
— Por que cê fez isso? Eu fiquei preocupada com você, sabia?
— Olha Julia eu...Eu fui uma idiota, precisava de um tempo pra pensar...
— Pensar no que? Lilian, eu sempre respeitei você acima de tudo e você vem falar que precisava pensar? Pensar em que? Pensar no que as pessoas pensariam quando soubessem que você anda com uma lésbica? Que não tem jeito de homem, claro...
— Julia, eu sei que errei com você...Mas tenta entender o meu lado, eu nunca tinha conhecido ninguém, nunca tive contato com pessoas homossexuais, eu não sabia o que fazer, ué...
— Uma coisa eu te garanto, não precisa evitar essa pessoa até a morte, eu não sou nenhuma doente.
— Eu sei, eu sei...Mas...Eu precisava de um tempo pra mim, entende?
— Não!
— Julia, você tá sendo infantil.
— O que? Pelo amor de Deus Lilian! Você me evita até não poder mais, vem aqui em casa, tenta se desculpar e ainda me chama de infantil? Meu Deus onde esse mundo vai parar...
— Julia, eu tô tentando me explicar, mas você num dá chance! Tô pensando seriamente em voltar pra casa, num dá pra conversar com você assim!
— Então fala, faaala Lilian...Pode falar a vontade. — com um sarcasmo evidente na voz.
Julia cruzou os braços e passou a fitar um ponto no chão da sala. Lilian segurou seu rosto suavemente e virou para si:
— Julia, sério...Olha pra mim. Eu...eu não tenho muita coisa pra te falar, a não ser desculpa...Sinceramente, eu...Eu fui idiota em fazer isso com você, é que...Eu não esperava, fui pega de surpresa...Mas acabei te magoando, né?
— Nãão! Jamais! Cê acha que isso vai me afetar? — perguntou tirando as mãos de Lilian de seu rosto de uma forma um tanto quanto brusca.
Lilian abriu um meio sorriso e pegou na mão de Julia, fitou a morena intensamente e perguntou:
— Me desculpa?
Julia perdeu-se nos olhos de Lilian...Eles a fitavam de uma forma tão carinhosa, tão intensa que ficou sem a fala por alguns momentos, abaixou a cabeça e respondeu bem baixinho:
— Desculpo.
Lilian abriu um largo sorriso ao ouvir a resposta de Julia. Num gesto de pura felicidade, jogou-se em cima de Julia, a enlaçando pelo pescoço num abraço extremamente carinhoso e graças a força de Julia, não caíram as duas no chão. Julia estava deveras desconcertada, mas não teve como observar o quão era bom ter Lilian em seus braços, tentou afastar esses pensamentos mas foi impossível...A sensação de bem estar tomava-lhe o corpo, porém, um tempo depois (que nenhuma das duas soube definir) se afastaram. Lilian com um largo sorriso no rosto, sem esconder sua felicidade e Julia com o coração lhe rasgando o peito.
Poucas horas depois, as duas estavam no sofá, vendo um filme e comendo pipoca distraidamente...O clima estava ótimo as duas eram só sorrisos e brincadeiras. Lilian não conseguia esconder o estado de felicidade que estava, já Julia, era mais controlada, porém não conseguia conter o meio sorriso que nasceu em seus lábios. Cada uma foi tirada de seus pensamentos pelo barulho do telefone que tomava conta do ambiente, Julia pegou o aparelho meio entediada e atendeu:
— Julia Almeida.
— Julia...Sou eu. — Mari.
— Eu quem? — perguntou somente para perturbar a amiga.
— Sabes que sou eu. Tá sozinha?
— Não, tô com a Lilian. — e lançou um olhar rápido a Lilian.
— Olha, tô vendo que se entendeu com a sua amada.
— Ô sua besta... — deu um suspiro — Verdade. — e sorriu.
— Queria te contar um negocio.
— Fala. Aconteceu alguma coisa, Mari?
— Assim, eu saí com o Augusto hoje a tarde...
— Hum...
— E tipo, a gente se beijo.
— QUE? — perguntou surpresa.
— Ai Julia, foi tão lindo... — comentou sem conseguir conter o suspiro apaixonado.
Julia tapou o fone do aparelho, e virou séria para Lilian:
— Seu irmão atacou minha amiga. Eu vou arrebentar ele.
Lilian ficou com uma expressão de surpresa no rosto mas logo se desfez e tornou-se uma gargalhada ao ver Julia sorrindo. Mari ouvindo as gargalhadas do outro lado da linha, perguntou:
— Julia? Julia sua infeliz você contou pra Lilian? JULIA EU TE ODEIO!
Julia que ouvira o comentário da amiga, a única coisa que conseguiu foi rir extremamente alto, imaginando o quão vermelha a amiga estaria. Lilian chamou a atenção de Julia e pediu o telefone, a morena passou o aparelho ainda rindo e Lilian pediu silêncio:
— Alô? Mari? Deixa eu te perguntar...E aí, meu irmão beija bem? Tem pegada?
Julia cobriu o rosto sorrindo e ficou observando atentamente Lilian. Que segundos depois entregou o telefone a morena, sem conseguir conter o riso:
— Acho que ela desligou...
Julia colocou o telefone na base, balançando a cabeça negativamente e ainda rindo. E a noite seguiu nesse clima agradável e descontraído.
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