Tão Simples como Amar

13 O medo insiste, mas não dá pra evitar...


Lilian quando viu que Julia se aproximava, sentiu as pernas fraquejarem...Quando a morena estava a centímetros de sua boca, fechou os olhos e quando Julia a beijou...Não sabia como estava se sentindo, era um turbilhão de sentimentos que lhe causavam uma sensação tão boa. Nunca se imaginou beijando outra mulher, quanto mais Julia! E em seu íntimo, estava amando aquilo tudo. Segurou o rosto de Julia enquanto as mãos da morena desciam para sua cintura. Beijaram-se avidamente e nem se deram conta do tempo em que estavam ali...Ao ouvir vozes se aproximando, Lilian se afastou rapidamente. Lançou um olhar assustado a morena, que procurou de onde vinham aquelas vozes e viu que estavam bem distantes. Um casal já “alegres” pelo efeito da bebida falavam alto a caminho do carro. Julia voltou sua atenção a Lilian e comentou: — Relaxa, tão bem longe.

Nos poucos segundos que Lilian se afastou de Julia, caiu em si. Estava beijando uma mulher, no estacionamento de um barzinho quando o namorado estava bebendo com seu irmão e nem fazia idéia do que acontecia ali. Sentiu uma súbita dor de cabeça...Se o que fazia era tão errado, por que gostara tanto? Sentir os lábios de Julia nos seus foi tão...Mágico, intenso. Nunca fora beijada daquela forma, nunca sentiu tanta coisa somente com um beijo...Queria mais, queria ter Julia assim pra sempre, mas a consciência gritou...Percebeu que Julia se aproximaria novamente, segurou a morena pelo ombros e disse: — Não. Julia, pára.

Julia ao ouvir o que a garota dissera, franziu o cenho. Percebeu o conflito em que Lilian estava e resolveu respeitar, segurou as mãos de Lilian e as abaixou: — Tudo bem, tudo bem. — disse calma.

Julia sabia que Lilian tinha gostado, mas não era somente elas que estavam envolvidas na história, tinha André e o fato de Lilian nunca ter se envolvido com uma mulher. A morena deu um sorriso doce e completou: — Parei. — Por que você fez isso, hein? — perguntou Lilian confusa. — Droga Julia! Por quê?

O sorriso de Julia se desfez de imediato, lançou um olhar incrédulo a Lilian e disse: — Não, você não vai fazer isso... — Fazer o que? — Jogar a culpa toda em cima de mim...Ah, mas não vai mesmo. — disse Julia balançando a cabeça negativamente. — Você que me beijou! Já não bastava o nó que a minha cabeça tava dando, você tinha mesmo que me beijar? — Se você não quisesse, não teria correspondido. Já estamos bem grandinhas pra ver que a errada nessa história não sou só eu, né? — Você é a errada, sabe muito bem disso. — Infantilidade sua. — disse Julia tentando manter a calma. — Droga Julia...Nunca mais faça isso, entendeu? — É isso mesmo que você quer? — perguntou lançando um olhar deveras intenso.

Lilian ficou em silêncio por alguns momentos, sabia que não era isso que queria, mas era o correto a se fazer, não podia fazer isso com André, ele era uma ótima pessoa...Julia vendo o silêncio de Lilian a incentivou a responder: — É Lilian? — Julia, pensa bem...

Julia deu um suspiro e deixou Lilian falando sozinha. Se ficasse por ali acabariam discutindo feio, voltou até a mesa com um sorriso frio nos lábios. Sentou ao lado de Mari e pediu outro suco, Mari nem sequer deu tempo da amiga respirar, aproximou-se de Julia e disse baixinho: — Você vai me contar o que tá acontecendo. — Aqui não é o melhor lugar, nem é o melhor momento. — Vai me deixar na curiosidade a noite toda? — Por que não? — e sorriu. — Cachorra.

Nisso Lilian chega a mesa sem conseguir esconder muito seu estado. Estava, visivelmente, atordoada. Julia nem sequer dera atenção, olhava fixamente para algum canto do bar, esperando seu suco. Lilian tentava participar da conversa, mas estava um tanto quanto complicado, não conseguia se concentrar no que era dito na mesa. Por diversas vezes na noite, seu olhar cruzou com o de Julia, que não abriu a boca para falar com ela. Um tempo depois Augusto sugeriu que eles esticassem até uma boate, Mari adorou a idéia e André também...O rapaz não gostava muito desses ambientes, mas queria descontrair...Andava vivendo muito de trabalho nos últimos tempos. Lilian alegou dor de cabeça e disse que não iria, André certamente disse que acompanharia a namorada, mas Lilian pediu para que o rapaz fosse se divertir um pouco e que seria uma péssima companhia em casa naquela noite, o convencendo a ir...Julia fora direta, disse que não queria e acabou. Mari nem insistiu para a amiga acompanhar, sabia que estava fazendo um grande esforço em sentar na mesma mesa que André. Augusto pediu a conta e depois de muita discussão, dividiu com André e Julia, que fez questão de ajudar a pagar também. Porém, tinha um pequeno problema, Lilian prometera que deixaria o carro com o irmão mas não contava que iria sair um pouco antes...Logo pegou o celular para ligar para a companhia de táxi, porém foi impedida pelo irmão: — Não Lili, eu te levo. — Não Guh, vai dar maior trabalho, eu vou de táxi, sem problema. — Fora de cogitação, Lilian. O carro é seu, eu te deixo em casa. — Não precisa, olha...Eu vou ligar aqui pra companhia de táxi, logo eu tô em casa. — Não Lili... — Eu te levo. — disse Julia. — Gostei. — disse Augusto. — O que? — perguntou Lilian um tanto quanto surpresa. — É, eu te levo...Não tem problema pra mim, te deixo em casa sem problema nenhum. — Mas e o caminho? — Isso é o de menos, mas se você não quiser, não tem problema... — Você que sabe, Lilian. Ou eu te levo ou a Julia te leva, não precisa pegar táxi. — Tá bom, Julia...Aceito sua carona. — Tudo bem, eu tô indo agora...Vamos? — Estamos indo, a gente também já vai. — comentou Augusto.

Todos se levantaram e Julia se despediu de André, Mari e Augusto e seguiu para o estacionamento, onde esperaria Lilian, que logo se despediu de todos e seguiu para o estacionamento. Assim que entrou no carro, deu de cara com Julia encostada no banco, de olhos fechados...Percebeu que a morena nem sequer viu que tinha entrado, então resolveu chama-la: — Julia... — e deu um leve toque em seu ombro.

Só assim Julia levantou a cabeça, olhou para Lilian rapidamente e deu partida no carro... — Desculpa, tô meio cansada. — Quer que eu dirija? — Não, não precisa...Obrigada.

Esse foi o único dialogo que tiveram durante o trajeto até a casa de Lilian. Julia não se deu ao trabalho nem de ligar o rádio, para quebrar o silêncio, cada uma completamente perdida em seus pensamentos nem ficaram muito incomodadas com o silêncio. Julia com sua atenção voltada ao trânsito sem nem sequer olhou para Lilian...Já Lilian observava atentamente todos os movimentos da morena, não conseguia tirar seus olhos de Julia, por mais que quisesse. Bolava um jeito de falar com Julia e faze-la esquecer de tudo que aconteceu naquela noite...Finalmente chegaram na casa de Lilian, Julia estacionou e nem desligou o carro, virou-se para Lilian e disse: — Tá entregue.

Lilian, já cansada daquele “gelo” todo, desligou o carro rapidamente e disse a Julia: — Quero conversar.

Julia arqueou uma sobrancelha e incentivou Lilian a falar com um breve gesto. Lilian suspirou irritada e disse: — Será que a gente pode subir? — Não, não...Prefiro aqui, tô com pressa. — Julia... — Fala Lilian. — Eu queria te dizer que...Que eu espero que o que tenha acontecido hoje não interfira na nossa amizade, assumo que foi um erro meu e seu e... — E.. — E não vai se repetir. — É, não vai se repetir. — concordou cabisbaixa. — Julia...Por favor, não muda comigo. Vamos fingir que nem aconteceu, ok? — Era isso?

Lilian suspirou e balançou a cabeça afirmativamente, Julia deu meio sorriso e pôs a mãos nas chaves do carro: — Tá. — Você não vai falar nada? — perguntou incrédula. — Não, não vou...Vejo que não tem absolutamente nada pra falar. — Tudo bem então, Julia. Tchau, tchau. — e deu um beijo na bochecha da morena.

Lilian quando saiu do carro, sentiu um frio e um aperto no peito...Sua vontade era de voltar naquele carro e abraçar Julia lhe dizendo que não era um erro, que nunca se sentira tão plena nos braços de outra pessoa. Quando virou-se viu que o carro de Julia não estava mais lá, tomada pelo arrependimento, seguiu para casa.

Julia chegou em casa com uma forte dor de cabeça, tirou sua roupa rapidamente e correu para o chuveiro, quem sabe com a agua bem gelada conseguiria esquecer o beijo que trocara com Lilian. Ficou no chuveiro por sabe-se lá quanto tempo e quando saiu vestiu uma roupa bem confortável, se jogou na cama e dormiu...Ao menos tentou.

Lilian nada dormiu durante a noite, ficou rolando na cama a noite inteira sem conseguir pregar os olhos. Pensava em como seria o relacionamento com uma mulher, nunca havia parado pra pensar na possibilidade, nem sequer sentia atração por garotas! A única que a fazia se sentir atraída e pensar nessa possibilidade, era Julia. Com seu jeito encantador, firme, decidido encantou Lilian, isso a garota percebera logo de inicio. Porém não fazia idéia que era algo tão forte assim, nomeava-o como admiração, carinho...Aos poucos foi percebendo que aquela necessidade de sempre estar perto, aquele carinho todo...A irritação ao saber que Julia ficou com alguém. Pronto, descobrira o obvio...Estava apaixonada! Não, não podia...Não era certo com André, o rapaz a amava. Sentiria a consciência pesar pela vida toda se magoasse um rapaz tão bom como ele. Mas...E Julia? O que sentia por Lilian? Será que aquele beijo significou alguma coisa? Duvidas, duvidas e mais duvidas...A única certeza que Lilian tinha era de que não podia magoar André, o rapaz sempre esteve tão próximo dela. Quando se deu conta, o dia já estava claro...Sentou na cama e resolveu levantar. Foi até a cozinha e tomou um generoso copo de suco e foi até o sofá.

Julia resolvera mudar seu caminho de corrida naquele domingo, estava sem ânimo nenhum para passar em frente ao prédio de Lilian, não queria nem correr o risco de encontrar Lilian. Correu bem mais do que de costume, queria manter a mente ocupada por mais tempo. Chegando em casa, tomou uma bela ducha gelada e ficou sentada na varanda, com os pensamentos longe esperando o tempo passar..

E assim seguiu a manhã, cada uma tentando organizar seus pensamentos, porém com uma vontade inexplicável de se verem. Quem cedeu primeiro foi Lilian, não aguentando mais aquela distância toda, pegou o telefone e ligou para Julia, não queria passar o dia sozinha. Mas também poderia ter ligado para o namorado...Não, não queria a companhia de André. Discou os números rapidamente e esperou...Estava prestes a desligar quando ouve a voz que lhe fazia sorrir involuntariamente: — Alô? — Julia? Sou eu...Lilian. — Oi. — cumprimentou um tanto quanto fria. — Tá tudo bem? — Uhum, tá sim. — Hum...Eu tô te atrapalhando? — Não, não...Tô fazendo nadinha aqui, tava quase dormindo na verdade. — Já almoçou? — Ainda não, quer fazer algo? — Quero sim, tô só aqui...Augusto não deu sinal de vida e eu não quero ficar só. — Seu namorado? — Ele não atende o celular. — “Mentirosa! Você nem tentou!” pensava Lilian indignada pela própria mentira. — Tudo bem. Você vem pra cá, ou eu vou aí? — Eu vou praí. — respondeu rapidamente. — Tô te esperando. Beijo. — Outro. Até já. — Até.

Julia desligou o telefone e suspirou. Na verdade não queria encontrar Lilian, concordou somente para se testar, será que realmente conseguiria agir normalmente depois do que aconteceu, se fosse em qualquer outra situação, não teria problemas nenhum, sabia muito bem ocultar seus sentimentos, porém, quando se tratava de Lilian, a situação mudava por completo. Todas as barreiras de Julia caiam facilmente. “Mas foi só um beijo! Que droga, essa menina ainda vai acabar comigo.” pensava Julia irritada. Tentando fazer o tempo passar novamente foi até a cozinha ver o Edna tinha preparado para aquele domingo...

Lilian tomou um banho apressado, num misto de animação e receio. Temia como Julia a trataria, pela forma como a morena falou ao telefone estava um tanto quanto fria mas a vontade de ver Julia era bem maior...Quando chegou na portaria do prédio da morena suspirou. Entrou e logo cumprimentou o porteiro, como de costume. Como já era conhecida por ali, não precisava nem ser anunciada, Julia não via mais necessidade. Entrou no elevador e deu uma olhada no espelho, apesar da pressa estava bem arrumada. Deu uma mexida no cabelo e gostou do que viu. Chegando no andar, seguiu em passos lentos para a porta do apartamento de Julia, e tocou a campainha. Lilian foi recebida por Julia com um livro nas mãos e sorrindo simpaticamente, foi até a morena e deu um beijo demorado no rosto. Julia deu espaço para a garota passar e enquanto Lilian entrava, comentou: — Olha, que bonitinho, ela lendo... — Sou culta. — Preguiçosa, que eu sei. — Continuo com o culta. — E eu com preguiçosa. — e sorriu. — Na verdade, na verdade...Eu tava sem nadinha pra fazer, aí caçei um livro pra me distrair até você chegar. — admitiu fechando a porta.

Lilian riu balançando a cabeça negativamente enquanto sentou no sofá, seguida por Julia...Que sentou no outro. Lilian estranhou a atitude de Julia e logo pediu: — Senta aqui, eu não mordo. — e sorriu.

Julia levantou sorrindo meio sem graça, sentou no outro sofá e perguntou: — Tá com fome? — Um pouco e você? — Muita! Tava só esperando você, vamos? — Tá bom.

As duas almoçaram num clima agradável. Conversavam distraidamente e comeram avidamente tudo que Edna fizera. Terminada a refeição as duas sentaram no sofá com uma bela de uma preguiça pós-refeição, Lilian sonolenta encostou a cabeça no ombro de Julia e disse: — Nossa, essa comida da Edna tá ótima. — Concordo. Mas agora me deu uma preguiça. — E em mim, nem se comenta. — Quer ir pro quarto? — perguntou de olhos fechados temendo a resposta. — Se você não se importar. — respondeu da mesma forma. — De forma alguma, eu quero é descansar. — e levantou.

Lilian ficou parada no sofá olhando com uma carinha preguiçosa para Julia, que já conhecia, estendeu a mão a garota que a segurou com um largo sorriso maroto nos lábios. As duas seguiram de mãos dadas até o quarto e assim que entraram Julia brincou: — É toda sua, madame. — e apontou pra cama. — É muito grande, vem comigo.

Julia deitou na cama e Lilian tirou os sapatos tirou em seguida deitou também. Assim que Lilian deitou, Julia fez questão de manter certa distância...Distância essa que Lilian fez questão de quebrar. Com aquela proximidade toda com Julia, Lilian sentiu-se completamente segura...Estava cansada, de fato. Mas aquela aproximação toda a fez com que a noite mal dormida pesasse completamente em Lilian. Julia ligou a televisão deixando-a num volume bem baixinho. Lilian, num movimento completamente rápido, pegou o braço de Julia e passou em torno do seu corpo, deixando a morena completamente tensa. Julia se ajeitou numa posição mais confortável, trazendo o corpo de Lilian ainda mais próximo do seu “Foda-se o namorado dela.” pensava irritada. Acariciou os cabelos de Lilian e a garota suspirou em total agrado: — Desse jeito eu vou dormir mais rápido. — comentou já sonolenta. — Hum...Cê tá cansada? — perguntou bem próximo a orelha de Lilian.

Lilian ao sentir a boca de Julia tão próximo ao seu pescoço sentiu os pêlos da nuca arrepiarem, mas tomada pelo sono nem pensou na possibilidade de Julia ter percebido: — Muito.

Julia com meio sorriso nos lábios continuou sua caricia. Ficaram um tempo em silêncio que foi quebrado por Lilian: — Não dormi essa noite, Julia. — comentou já com os olhos fechados. — Por que? — perguntou preocupada. — Pensei em você a noite toda... — respondeu dormindo.

Se Lilian estivesse acordada, certamente veria um olhar completamente surpreso de Julia e um largo sorriso bailar na face da mulher mais velha...