Tão Simples como Amar
23 Cada um pro seu lado
Lilian tinha o sono velado pelo irmão...O rapaz chegou de madrugada completamente preocupado com a irmã...Encontrou-a ainda acordada, chorando em seu quarto, a abraçou e disse:
— Me desculpa a demora Lili, mas eu só consegui me livrar do bocó do André agora...
Quando a garota dormiu, já tinha amanhecido...O rapaz não conseguiu dormir, ficou ali, ao lado da irmã fazendo como Lilian sempre fazia quando o rapaz ficava doente mais novo. Era tipico de Lilian ficar a noite toda acordada, apenas velando o sono do irmão, somente para assegurar-se que estava tudo bem...Só ia dormir quando o rapaz acordava, reclamando de Lilian por não ter ido dormir. Augusto sorriu com o próprio pensamento e foi até o banheiro...Tomaria um banho rápido, pois ainda estava com a roupa da noite passada. Minutos depois estava com uma roupa mais confortável e uma xícara de café nas mãos, sentou na poltrona que tinha no quarto da irmã, que fora posicionada estrategicamente bem próxima a cama de Lilian por Augusto. O rapaz estava distraído olhando a janela, até que sentiu um par de olhos castanhos o fitando intensamente. Sorriu docemente e tomou um gole de seu café...
— Tá aí desde que horas?
— Saí a pouco tempo pra tomar banho.
— Você não dormiu? — perguntou franzindo o cenho.
— Não...Fiquei preocupado com você.
— Augusto! Vai dormir, vai.
— Só queria garantir que tava tudo bem. Igual a uma pessoa que eu conheço...
Lilian abriu meio sorriso e deu um espaço para o irmão na cama...
— Vem.
O rapaz sorriu, deixando a xícara no chão e foi até a cama de Lilian, abraçou a irmã e perguntou baixinho:
— Como você tá?
— Perdida...Eu não sei o que fazer ainda.
— Que tal começar abrindo o jogo pro André?
— Mas a Julia não quer nada comigo...
— E você vai continuar com o André por causa disso? Lili, você não ama ele, certamente não tem que fazer isso pela Julia, e sim por você...Sem contar que eu percebi que ele é um puta dum cego, porque foi o único que não percebeu o quão incomoda tava aquela situação e principalmente você. Sabe o que isso quer dizer?! Que ele não presta a minima atenção em você...
— Eu sei, eu sei...Eu vou terminar logo com isso, preciso né?!
— O mais rápido possível. Ele vai entender...Aceitar o fato de você estar apaixonada por outra mulher, não sei, mas vai entender.
— É o que eu espero, Guh. É o que eu espero. — disse pensativa.
Augusto e Lilian ficaram abraçados ali por um tempo. Cada um perdido em seus pensamentos, até que Lilian resolveu levantar, quando olhou para o irmão e o rapaz dormia profundamente. Soltou-se de Augusto que resmungou algo incompreensível mas não chegou a acordar. Acariciou os cabelos do irmão e sorriu...Precisava de um banho para relaxar, sentia dor de cabeça de tanto que chorou durante a noite. Tomou um banho demorado e tratou de ir tomar um café. Não conseguia tirar os olhos do telefone enquanto tomava seu café...Tratava uma batalha interna entre ligar e não ligar. Certamente Julia estaria na casa de Mari, então se Lilian desse sorte, talvez conseguiria falar com Edna, para saber se a senhora tinha noticias de sua amada. Mais alguns minutos de batalha e uma xícara de café e pegou o telefone. Discou os números rapidamente com medo de sua coragem lhe abandonar. Chamou pouco tempo, logo Mari atendeu:
— Alô?
— Mari...
— Oi.
— Eu...Eu...
— Ela tá no banho.
— Como ela tá?
— Bem...
— Mesmo?
— Não. Mas...Ela vai me xingar pelo o que eu vou acabar de dizer pra você. Mas...ela tá super diferente. Não sei o que tá se passando por aquela cabeça.
— Eu também, ela foi super fria comigo...
— Bom, isso já era de se esperar da Julia...
— Você acha que a gente tem chance?
— Lili...Sinceramente, isso só depende de você.
— Eu sei, eu sei. Mas...Pelo o que você conhece da Julia, sabe? O que você acha...
— Que tudo depende de você, é isso.
Lilian suspirou e deu-se por vencida:
— Só não quero que ela saiba que eu...
— Já sei, já sei...Fica tranquila.
Lilian estava prestes a despedir-se de Mari quando ouve uma voz conhecida e um tanto tensa, meio distante:
— Quem é, Mari?
— É melhor eu desligar...Tchau Mari.
Não obteve uma resposta de Mari e sim de Julia que estava claramente irritada:
— Não acredito que você ligou pra ela Mariane. — e desligou.
Lilian ficou um tanto surpresa e logo resolveu ligar novamente, queria explicar a Julia que Mari não tinha ligado, certamente a morena reclamaria com Mari até não aguentar mais...Desistiu da idéia rapidamente, ligando talvez só piorasse a situação de Mari e principalmente a sua...
Julia olhou irritada para Mari e colocou o telefone no carregador. Balançou a cabeça negativamente e foi até a cozinha. Momentos depois Mari chega na cozinha, põe as mãos na cintura e pergunta:
— Você tá achando mesmo que eu liguei pra Lilian?
— Tenho quase certeza...Pra contar como a pobre e idiota da Julia tá.
— O que você tomou antes de dormir? Julia, eu te conheço...Sei que você odiaria se eu fizesse isso.
— E então por que fez?
— Meu, o que te deu...Eu não liguei, ela que ligou pra cá. — explicou um tanto irritada.
— Como eu posso ter certeza?
Mari olhou um tanto surpresa para a amiga e disse:
— Você tá ficando tão infantil, Julia. Não confia mais em mim não, porra? — agora sim Mari estava totalmente irritada.
Julia suspirou e percebeu a bobagem que acabara de dizer. Puxou uma cadeira e sentou em silêncio, serviu-se de uma xícara de café e perguntou baixinho:
— Eu tô muito idiota?
— E você ainda tem duvidas?
— Adoro sua sinceridade.
— Mentira...Não mente pra mim que não rola.
— Chata...Me desculpa?
— Tá né. Vem, fiz um negocio pra você comer.
— Que “negocio”? — e fez aquela cara de medo absurdamente cínica.
— Tá gostoso, ok? Eu não cozinho mal.
— Tá, tá...Cadê?
Três dias depois...
— André, a gente precisa conversar... — bufava Lilian pelo telefone.
— Eu sei minha linda, eu sei...Mas é que tá tudo muito corrido aqui, entende? Eu ando sem tempo pra tudo...Mas prometo que assim que der eu passo na sua casa, ok?
— Já faz três dias que eu tô tentando falar com você e não consigo...Por Deus, que tanto que você faz?
— Simplesmente não tenho tempo, Lilian. Você quer que eu faça o que? Largue o trabalho todo aqui e saia pra te encontrar?! Não posso...
Lilian respirou fundo, um tanto irritada e disse:
— Tá bom, tá bom...Me liga quando sua agenda te permitir? — perguntou sarcástica
— Lili, que tanto você quer conversar comigo?
— Só pessoalmente...
— E você não pode nem me adiantar o assunto?
— André, a gente conversa quando você passar aqui em casa...
— Vou tentar ir aí a noite...
— Ficou curioso, né?
— Certamente, pela sua insistência em me encontrar, deve ser algo importante, não?
— Muito...
— Sobre nós?
— Até mais tarde, André...
— Talvez, né.
— Agora que você tá curioso, certamente vem a noite.
— Posso passar aí um pouco mais tarde?
— Pode.
— Então...Até a noite.
— Até.
Lilian desligou o telefone já um pouco mais aliviada. Agora teria a parte mais difícil, ou talvez não...Terminar com André. Sentia um alivio ao fazer isso...Mas ao mesmo tempo sabia que seria difícil para o rapaz. Olhou no relógio...Horário de almoço, há alguns dias atrás aquilo era uma das coisas mais interessantes do dia, sorriu triste lembrando de Julia...Sentia uma falta absurda da morena. Não estava acostumada a passar nenhum dia sequer sem a morena...Até mesmo as garotas da loja perceberam a ausência de Julia e perguntaram da morena. E também, certamente, não passou desapercebido pelas garotas a forma de agir de Lilian, que mudara completamente. A garota andava mais calada, seu sorriso não tinha mais aquele brilho. Lilian ainda pensativa pegou o telefone e resolveu ligar para casa...Nos últimos três dias seu companheiro de almoço era o irmão, que vinha se mostrando o melhor amigo de Lilian, sempre ali ao lado da irmã, tentando anima-la, conversando, ouvindo...
— Alô?
— Almoça comigo hoje de novo?
— Claro, tô morrendo de fome.
— Vem pra cá?
— Se você preferir...
— Por favor, tô sem ânimo pra dirigir até em casa.
— Vou me arrumar...Tô indo praí.
— Você é o melhor irmão do mundo.
— O seu único irmão né.
— Detalhe. — e riu.
— Vem logo pra cá, seu bobão.
— Tô indo... — e desligou.
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