Tão Perto... Tão longe...
5 Um amigo ou um rival?
Notas iniciais
Suigetsu se oferecera para lavar a louça, Juugo e Zetsu haviam saído e eu estava sentada, observando Suigetsu usar os poderes para fazer a tarefa doméstica.
— Suigetsu-kun? – chamei.
— Sim?
— A Karin não está morta.
Um prato caiu no chão e eu o fitei, seu semblante era de espanto e confusão ao mesmo tempo.
— Como você sabe?
— Eu sei que Sasuke a acertou com um chidori, mas ela não morreu. Sei disso porque eu mesma a curei.
— Você…E onde ela está?
— Eu não sei, talvez tenha ido com o pessoal de Konoha.
Ele expirou, e só então percebi que estivera prendendo a respiração, alívio passou por seu rosto e ele sorriu.
— Isso é bom... Sasuke sabe?
— Não.
— Então não vamos contar. – ele piscou pra mim e se abaixou para pegar os cacos do prato.
Quando acabou me chamou para conhecer o resto da caverna, que por sinal era maior do que eu pensava, depois daquela sala onde eu havia estado no primeiro dia, tinha outros dois corredores, um desembocava numa câmara escura, da qual não ousamos passar. O outro era repleto de portas, assim como o corredor do quarto de Sasuke e do laboratório.
— Esse é meu quarto. – ele parou na frente de uma porta de madeira escura e abriu.
Era um pouco menor que o de Sasuke, e mesmo não tendo janela também, parecia, de algum modo, mais iluminado e caloroso. Ao centro havia uma cama de solteiro, tinha uma prateleira repleta de armas e várias garrafinhas d’água.
— Sasuke disse que não havia mais quartos com cama.
— Deve ter dito isso para ficar de olho em você.
Fiquei com Suigetsu no quarto dele até quatro horas da tarde (ele tinha um relógio de parede), ele me contou como tinha conhecido Sasuke e que todos eles eram experimentos de Orochimaru, me contou até da tal Karin. E eu lhe falei sobre o time sete, sobre o exame chunin e tudo mais.
***
Já estava voltando para o quarto quando lembrei que Sasuke não havia comido nada, então arrumei rapidamente um prato com tudo para ele, peguei um copo de suco e uma vasilha com salada de fruta também. Esperava que ele já estivesse mais calmo.
Entrei no quarto lentamente, Sasuke estava sentado na cama.
— Já se passaram quatro horas. – disse ele calmo.
— Eu sei. – coloquei a comida no criado-mudo e fui até ele, entendendo o que ele queria.
Retirei cuidadosamente a venda. Quando ele abriu os olhos eu pude ver que estavam mais brilhosos, embora ainda estivessem cinza escuro.
— Como está?
— Ainda meio embaçado, porém melhor que antes.
Afastei-me dele e encolhi os ombros, ainda me sentia estranha pelo que havia acontecido na cozinha.
— Trouxe comida pra você.
Ele olhou para o criado-mudo e depois pra mim.
— Obrigado.
Ele continuava me fitando e eu também não conseguia desviar o olhar.
— Sasuke-kun... – falei por fim – me desculpe pelo que houve na cozinha... E-Eu.
— Não, me desculpe você. – ele estava em pé na minha frente.
Seus olhos me olharam tão intensamente que eu pensei ver ternura neles. Sasuke estava tão perto agora que eu podia sentir sua respiração em meu rosto, ele esticou a mão até pegar uma mecha do meu cabelo, depois a soltou. Eu fiquei petrificada, como o humor de alguém podia mudar tão rápido?
Ele se inclinou, sua boca a um triz da minha... E então se afastou como se tivesse caído em si. Fitou-me novamente e depois voltou para a cama, onde pegou o suco e tomou quase todo num só gole.
***
Eu não consegui nem cochilar aquela noite. Milhões de pensamentos giravam em minha cabeça. O que Sasuke pensava? Ele iria realmente me beijar? Por que ele me trouxe pra cá? Por que justamente eu?
Acho que eram umas quatro da manhã quando consegui relaxar a mente e dormir um pouco, mas mesmo em meus sonhos Sasuke continuava a aparecer. Às vezes como um príncipe heroico e às vezes como o malvado vilão.
Quando percebi que não conseguiria mais dormir de jeito nenhum resolvi levantar, tomando cuidado para não fazer movimentos bruscos. Sasuke estava deitado de bruços, o cabelo totalmente emaranhado cobria parte de seu rosto de anjo. Relutante, eu tirei a franja de seu rosto, de algum modo, olhar pra ele dormindo me trazia paz, era como se todo o medo que eu sentia desaparecesse, e desse lugar à admiração.
— Sakura... – ele sussurrou e eu recuei.
Sasuke continuava imóvel, a respiração inabalada, então percebi que ele estava dormindo. Dormindo tão bem que senti uma pontada de inveja.
Respirei fundo e saí da cama. Tomei um banho longo, desejando estar no meu banheiro, no meu quarto, na minha casa... Quando dei por mim já estava chorando, tentei sufocar os soluços, pois sabia o quão boa era a audição de Sasuke. Após algum tempo eu me acalmei, com um último suspiro desliguei o chuveiro. Vesti uma camisa preta de Sasuke que estava no banheiro – eu não sabia onde ele havia colocado minhas coisas.
Sequei o cabelo, agradecendo por não ter um espelho, pois sabia o quanto devia estar ridícula: olheiras em volta dos olhos, cabelo ressecado, olhos inchados. Sem falar que eu estava exatamente como no meu primeiro dia aqui: praticamente pelada, já que a camisa de Sasuke cobria pouco mais que o início das minhas coxas, mas o pior era que dessa vez não tinha só o Sasuke de homem.
Saí do quarto meio hesitante. Não encontrei ninguém durante meu percurso até a saída. Ainda estava escuro, o que me fez perceber que eu não dormira mais que uma hora, e ultimamente eu tinha gastado muito chakra no Sasuke, não que eu me arrependesse, pois apesar de tudo, eu ainda queria o melhor para ele.
Sentei-me na entrada circular da caverna. Era uma bela vista, já que o lugar se localizava no auge de uma montanha cuja grama verde era enfeitada por flores de diversas cores, mas ainda assim conseguia ser um lugar discreto, uma vez que a caverna era toda revestida com pedras do lado de fora e cercada de outras montanhas. Fechei meus olhos e deixei a brisa gélida encher meu rosto, ouvi o som de corujas que se organizavam para dormir enquanto esperam pelo nascer do sol, pequenos roedores noturnos que escalavam as árvores voltando para suas tocas... Tudo parecia tão familiar e tão distante ao mesmo tempo...
Pude ver um brilho alaranjado se formar no horizonte e concluí que era hora de entrar. Antes de voltar totalmente para dentro da caverna, olhei para trás, por um momento deixei minha mente viajar, me imaginando correndo por entre as flores, voltando pra casa... Balancei a cabeça e comecei a andar.
Resolvi voltar a deitar, no entanto quando entrei no quarto, quase tive um ataque cardíaco. Sasuke estava sentado na cama me encarava de um jeito extremamente desconfiado.
— Onde você estava? – disse sem disfarçar a frieza na voz – estava tentando fugir?
— N-Não. Eu só queria saber se já era dia... Você não tem relógio. – acrescentei num sussurro.
Fiquei parada enquanto ele me encarava incessantemente. Era como se ele me perfurasse com os olhos, acho que meu desconforto foi tão evidente que ele suspirou e voltou a se deitar.
Após um momento de hesitação eu andei lentamente até a cama, onde me deitei e fiquei fitando o teto.
— Essa camisa é minha. – Sasuke falou de olhos fechados.
Eu me virei para ele, ficando a centímetros de seu rosto.
— Eu sei... Não encontrei outra coisa.
— Hum, que seja. Eu não me importo, portanto que você coloque algo que cubra um pouco mais a parte de baixo. Dá para ver tudo. – e como isso ele se virou para o outro lado.
Eu podia sentir o meu rosto extremamente quente. Ele não podia ser um pouco mais sutil? Que coisa!
Respirei fundo e fechei os olhos na esperança de pegar no sono.
Sasuke’s POV
Quando ouvi a respiração de Sakura se acalmar, concluí que ela havia dormido. Pensei no dia passado. Talvez eu tenha sido um pouco grosso com ela, mas eu não consigo me conter, é algo que faz parte de mim, eu trato todos assim... Mas algo em mim diz que é errado magoá-la e eu realmente me sinto mal depois. Sem falar que ela teve a oportunidade de ir embora hoje, mas não foi, e eu não sei por quê.
Mas o que realmente está me incomodado é o que ocorreu noite passada. Foi como se eu não tivesse mais no controle do meu corpo e de repente, eu estava lá, quase beijando a Haruno.
Levantei uma hora depois que ela dormiu. Tomei um banho rápido e fui ver se Zetsu já havia trazido o café.
Não tinha ninguém na cozinha, respirei fundo e me sentei. De repente, uma forma em espiral começou a aparecer do outro lado da cozinha. Então Tobi resolvera voltar mais cedo do que eu pensava.
— Sasuke. – me cumprimentou.
— Conseguiu aquilo? – perguntei.
— Sim, onde está a garota?
— Ela está dormindo agora.
— Então a acorde, quanto antes você fizer o transplante melhor. – ele falou se colocando a minha frente – logo não estaremos mais tão tranquilos.
— Eu sei. Mas Sakura está cansada, se ela não estiver bem para fazer minha cirurgia algo pode dar errado.
— Vejo que se apegou um pouco a ela.
— Está enganado. – falei mesmo não sabendo se era realmente verdade.
Ele apenas deu de ombros e me entregou uma caixa, que eu peguei e imediatamente senti o frio que emanava dela.
— Eu os mantive conservados, mas não vai durar muito tempo, precisa fazer o transplante hoje.
— Tá.
— Alguns Folhas estavam procurando por ela, eu os mandei no sentido oposto, mesmo esse sendo um lugar bem escondido, eles ainda tem o Kakashi e membros do clã Hyuuga.
— Não tenho a intenção de devolvê-la... Pelo menos não agora.
— Eu sei. – ele virou de costas – e olha que eu pensei que você fosse matá-la como fez com a Karin.
Tal pensamento me causou um calafrio, mas mantive a pose de indiferente.
— Vou sair de novo. E dessa vez não sei se voltarei logo. Mas vai ser tempo suficiente para você se recuperar.
Não falei nada.
— Precisa estar forte para enfrentar a Kyuubi.
Fechei os punhos ao pensar em Naruto, minhas mãos coçavam para acabar com ele. Logo ele provaria do verdadeiro poder dos Uchiha.
— E uma última coisa, Sasuke, não se envolva demais com a garota. – e então desapareceu.
Mais uma vez eu estava sozinho na cozinha. Toquei a pequena caixa de metal com o indicador, eu já podia sentir o poder me tomar, logo eu seria invencível e mataria todos aqueles que fizeram Itachi sofrer.
Alguém entrou na cozinha, me despertando de meus devaneios. Virei-me para ver quem era e me deparei com Suigetsu.
— Parece que recebeu uma visitinha, não é?
— Não te interessa. – dei de ombros.
Eu não sabia por que estava agindo de tal forma com Suigetsu, mas desde que ele e Sakura se conheceram, eu sentia uma coisa estranha sempre que ele estava perto dela, ou quando via o quanto ela se sentia à vontade ao lado dele.
— Se não me interessa, então você não precisa mais de mim e do meu poder. – ele deu de ombros, o que me deixou irritado.
— Vá embora então.
— Acredite, eu já teria ido, se não fosse pela Sakura.
O olhei incrédulo.
— Pela Sakura? O que você tem a ver com ela?
— Eu vou ficar só para garantir que você não a machuque...
— Como fiz com a Karin, não é? – completei a frase por ele.
— Não exatamente. – ele tomou um longo gole da garrafinha que carregava e depois continuou. – a Sakura é mais delicada e mais sensível que a Karin, ela não aguenta os seus insultos e a sua frieza da mesma forma, ela fica magoada de verdade... percebi isso em um único dia que passei com ela.
— Isso não é problema meu!
— Como não? Foi você que a trouxe pra cá, é você que está fazendo-a sofrer. – e com isso ele se virou para sair.
— Você a ama. – falei num sussurro incrédulo.
— E o que você tem a ver com isso? – ele saiu.
Eu fiquei perplexo, eu sei que não deveria, mas fiquei. Por quê?
Sentei-me na cadeira mais próxima e fitei a caixa de metal. Pela primeira vez em anos, eu, Uchiha Sasuke, me senti confuso quanto ao que eu deveria fazer.
Sakura’s POV
Depois que eu acordei aquela manhã (e descobri que não era exatamente manhã, pois o sol estava quase no topo do céu) fui tomar café, não havia ninguém na cozinha, o que eu estranhei.
Fui até o quarto de Sasuke, mas ele não havia voltado para lá, em seguida fui para o quarto de Suigetsu, e quando perguntei onde estava Sasuke ele apenas deu de ombros e respondeu:
— Talvez esteja procurando um jeito de se suicidar sem que a gente saiba.
Arregalei meus olhos.
— É brincadeira. – ele sorriu.
— Ah. — me virei para sair.
— A propósito, gostei da roupa. – ele piscou e fechou a porta.
Meu rosto ferveu mais uma vez, e olha que eu tinha tido o cuidado de não sair só com a camisa de Sasuke. Remexi nas coisas dele até achar o short que eu havia usado no primeiro dia.
Voltei para o corredor principal, onde me deparei com Juugo, que me avisou que Sasuke me esperava no laboratório.
Eu caminhei lentamente até o local e abri a porta cuidadosamente. Lá estava ele, sentado no catre com uma caixinha de metal nas mãos, o olhar vazio e o rosto um tanto pálido. Temi que ele estivesse ficando doente.
— Sasuke-kun. – chamei e ele me fitou.
— Tobi trouxe os olhos de Itachi. Precisamos fazer o transplante hoje.
Assenti e fui até ele.
— Podemos fazer agora se você quiser.
Ele fez que sim e me entregou a caixa, que eu coloquei na bancada e prendi o cabelo com o elástico que ele havia me dado no dia anterior, lavei as mãos e arrumei as coisas que eu iria precisar em cima de uma toalha branca.
Depois de dar a ele um analgésico caseiro, eu comecei a cirurgia. Era a primeira vez que eu fazia algo assim, confesso que estava com um pouco de medo. Mas o processo se seguiu calmo e ininterrupto, às vezes Sasuke arquejou, e eu deduzi que o efeito do remédio já havia passado.
Logo eu havia terminado, tinha vendado os olhos dele novamente e dessa vez levaria muito mais tempo para tirar.
— Está doendo muito? – perguntei receosa.
— Não, eu estou bem.
— Sasuke-kun, você tem que me dizer se estiver doendo, eu...
— Eu disse que estou bem! – a aspereza em sua voz me fez fechar a boca. – Eu estou bem, não se preocupe. – ele amenizou o tom e respirou fundo.
— T-Tudo bem... Qualquer coisa pode me chamar. – saí rapidamente da sala.
Meus olhos já estavam ardendo quando bati contra algo, ou melhor, alguém.
— Sakura-chan. – Suigetsu falou me encarando. – o que houve?
— N-Nada.
Ele me abraçou forte, tão forte que eu acabei com o rosto enterrado em seu peito. Era muito pra eu aguentar, então deixei as lágrimas tomarem conta de mim. Não havia percebido o quanto eu precisava do carinho de alguém.
— Shh, vai ficar tudo bem.
Eu soluçava loucamente, meu corpo estava praticamente em espasmos por conta do choro.
Ele foi andando comigo até o lado de fora da caverna, onde o sol invadiu meus olhos ruidosamente, me fazendo desviar o olhar. Sentamos-nos numa das inúmeras rochas da entrada, ele não disse nada, apenas me deixou chorar em seu ombro.
Quando parei de chorar, olhei para ele, que sorria feito uma criança para mim.
— Está melhor?
— Sim, obrigada.
— Quer me contar o que aconteceu? Ou melhor, o que o Sasuke te disse dessa vez?
Respirei fundo.
— Não foi nada de mais. É só que eu sou do tipo sentimental, só isso. – sorri.
Ele não estava convencido, dava para ver em seus olhos, mas apenas se levantou e me ofereceu a mão. Voltamos para dentro e eu ainda estava encostada nele.
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