Táxi
2 Corrida
Notas iniciais
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Decidi continuar a história! Espero que gostem!
O pobre taxista nada podia fazer em relação àqueles dois homens esquisitos, se não oferecer e cumprir seus serviços. Levava-os ao destino solicitado, quieto, sem nada comentar; mas não conseguia, porém, evitar que seus ouvidos captassem toda a conversa. Indagava-se como os dois engravatados poderiam, agora, deleitar-se numa conversa descontraída, quando há alguns minutos estavam prestes a se matarem pelo táxi.
Minos era um homem bem jovem, não muito mais novo que ele próprio. Era fácil decifrar sua personalidade: divertido, esperto, mas de pouca paciência. Engatar numa conversa com ele dentro daquele táxi tornou-se de todo muito bom, visto que sua presença, quando calmo, era muito agradável.
Haviam se desculpado um ao outro, devido à cena de antes. Simpatizar com o advogado de madeixas cinza foi muito fácil.
- Pois então esta é sua primeira reunião na empresa?
- É sim. Faz poucos dias que consegui o emprego deixando de ser estagiário. Devo dizer que estou com certo receio. – Revelou Minos, sem deixar de passar seu orgulho pela conquista.
Albafica sorriu-lhe gentilmente.
O sorriso daquele com quem dividia o táxi era de uma exuberância enorme. Seu belo rosto deixava claro todos os seus sentimentos, o que o tornava fácil de decifrar: um homem maduro, inteligente, tranqüilo, e, ainda que nada velho, experiente.
- Não há motivos para nervosismo; isso pode acabar lhe atrapalhando. – Comentou, ainda sorrindo. – Shion é rígido, tem uma carranca que assusta, mas ele não morde.
E ainda que isso não fosse nada óbvio, parecia ter um bom humor. O comentário de Albafica arrancou-lhe risos.
- Faz muito tempo que trabalha com ele? – Perguntou, esperando que ele pudesse ajudar-lhe a se dar bem, ou pelo menos ter uma boa relação com o chefe, evitando coisas que o desagradassem.
Observou-o olhar sem rumo, enquanto formulava uma resposta.
A pergunta de Minos, bem simples, o fez recordar velhos tempos. As lembranças fizeram-no sorrir.
- Shion e eu nos conhecemos desde a infância... Ou ao menos a adolescência. – Respondeu. – Mas por ele ser três anos mais velho que eu, concluiu a faculdade antes e, conseqüentemente, tornou-se bem sucedido mais rápido. Não sei se isso se deve à nossa amizade, com toda certeza à confiança, claro, mas hoje somos sócios, ainda que eu o tenha, de um ponto pessoal, como chefe. Bem, resumindo: sim, estamos juntos há um bom tempo, embora não somente pelo trabalho.
A expressão com que Minos o olhava atento à “história”, chegava a ser encantadora, como uma criança atenta à explicação do professor.
Quando notou que havia terminado, ele sorriu e balançou a cabeça.
- Acho que vai ser um pouco mais difícil pra mim, já que não conheço o cara e não possuo “contatos” dentro da empresa.
Era bem claro que não havia mais de dois anos de diferença entre as idades dos dois, mas Minos atrasou-se na conclusão da faculdade, quando resolveu trancá-la. Acabou perdendo os três anos que já tinha feito, tendo que reiniciá-la quando resolveu continuar. Para ele, tudo era como uma grande rede de negociações entre poucos favorecidos seja financeiramente ou socialmente.
Seu comentário fez Albafica desmanchar o discreto sorriso que jazia em seu rosto. Minos, porém, não constatou nenhuma outra nova expressão no semblante de seu companheiro, uma vez que desviou de seus olhos.
Mas a voz dele fez-se clara e incomodada.
- Devo ter entendido este seu comentário de forma errada, Minos. Poderia explicá-lo, por favor?
Acabou por hesitar por um instante. Não queria, inexplicavelmente, olhá-lo novamente.
- Creio que entendeu sim, meu caro. Sei que você é bastante inteligente para tal.
Até mesmo o discreto taxista, que nada tinha a ver com a conversa, pôde notar a tensão que pairou dentro do táxi.
Algo não o deixava se irritar com o outro devido à forma arrogante que aderira. Fosse, talvez, a tristeza implícita sob a arrogância e a frieza de Minos.
Permaneceu em silêncio por um momento. Já sabia do temperamento explosivo que ele poderia facilmente expressar, e temia uma nova discussão, que seria de grande problema nesse momento – ora, estavam presos dentro de um táxi em corrida!
- Ok, digamos que eu tenha mesmo entendido. Não gostei. Poderia dizer-me porque pensa dessa forma? – Fez-se audível por fim. Ele realmente não gostara do comentário.
Recebeu sobre si o olhar embargado do outro, de repente sério e abatido.
- Esqueça isso, por favor. É algo que creio não ser agradável para uma conversa entre dois que estão a se conhecer. – Sorriu, e tão rápido se formou, a expressão embargada se desfez. – Diga-me, parece ter sido pego de surpresa pela reunião, não?
Com isso, algo acabou intrigando o advogado de madeixas azuis. Ou Minos possuía dupla personalidade, ou ele guardava para si algo que mexia drasticamente com seu humor, e que ele não gostava de revelar.
- Digamos que... Essa reunião não era pra mim. Hoje eu só precisaria estar na empresa depois do almoço, mas... Parece que Dohko teve problemas quanto ao seu comparecimento e tive que assumir seu lugar.
Não era algo realmente engraçado, mas pareceu-lhe um motivo para uma risadinha discreta e rápida. Queria, na verdade, disfarçar e esquecer a tensão de momentos antes. Era algo que realmente não gostava.
Sua atitude não desagradou o companheiro, pelo contrário o fez rir também.
- Pois é... Dohko costuma me deixar esses pepinos. Mas não me importo, ele também me ajuda muito.
- Amigo também?
Albafica sorriu para ele. Sorriso bonito, sem a mínima intenção, seduzia.
- Ainda que todos lhe sejam completos estranhos no começo, você acaba por fazer amizade com o pessoal. Ao menos lá, todos temos uma boa relação, se não de amizade, ao menos de coleguismo.
Albafica... Minos já havia conhecido muitos advogados, inclusive alguns da própria empresa, mas poucos pareciam ter o mesmo charme e carisma que este possuía. Involuntariamente, sorriu.
- Espero que... Eu consiga me dar bem com todos lá dentro. – Comentou, revelando certa descrença.
Era certo de que a idade em nada diferia nos sentimentos de nervosismo ou medo, mas era, aos olhos de Albafica, uma reação fofa a de Minos. Não pôde evitar sorrir, não em uma atitude de conforto, mas divertindo-se com o outro.
- Fique tranqüilo. Já deve ter notado, durante o estágio, que todos lá são do bem. – Disse, desviando os olhos do rosto do outro, pouco depois de vê-lo sorrir, passando-os para a janela do carro.
Toda a paisagem artificial que corria do lado de fora lhe trazia uma enorme vontade de ver algo diferente daquela coisa monótona e diária.
- Um pouco mais de verde em nada seria ruim... – Acabou pronunciando em voz alta seus pensamentos.
- Hmm... Não sou assim tão ecológico. – Respondeu ao seu comentário involuntário observando também os prédios e casas das mais variadas formas e cores que passavam do lado de fora.
Voltou suas íris azuis para o belo homem, que ainda tinha os olhos na janela; descobrira mais uma de suas características: ele era da cidade.
- Deixarei as causas ambientais para você, pode ser?! – O comentário do outro o fez rir e atrair para si aqueles belos olhos.
A corrida estava tornando-se vantajosa, visto que estavam se conhecendo de forma descontraída.
Minos não se cansava de se encantar com a magnitude daqueles olhos e sorrisos. Como, mesmo estagiando dentro da mesma empresa que ele trabalhava, jamais o tivera visto? Esta se tornou outra questão a ser resolvida. Minos detestava ficar com perguntas sem respostas.
- Albafica, por que eu ainda não o tinha visto lá na empresa?
Outro ponto a se observar: Minos era um homem direto e de poucas palavras, sendo objetivo em todos os seus propósitos – até para tentar a preferência de um taxista.
Sorriu elegantemente.
- Fácil. Estava de férias. Retornei ao trabalho ontem, embora ainda assim não o tenha visto... – Respondeu, analisando sua resposta e percebendo que também não tinha encontrado Minos por lá. – Acho que estava com as idéias perdidas de mais devido ao retorno tumultuado e acabei por não lhe ver. Desculpe.
Ele não entendeu o motivo do pedido de desculpas. Fosse, talvez, apenas por educação. Seja como for, sorriu-lhe compreensivo.
- Entendo bem. Mesmo não tendo muita experiência, sei como é a vida de um advogado. Pode ser também, que fiquemos em setores diferentes. – Respondeu.
Quando concluiu sua resposta, ficou a observar Albafica. Sem palavras a serem trocadas entre ambos, ficaram a “encarar” um ao outro. Minos acabou se perdendo na imensidão azul daqueles lindos olhos. Pôde ver seus lábios se movendo, dizendo algo, mas não o ouviu.
- Minos...? – Até que o chamado do outro o despertou.
Ficou meio sem jeito, desconcertado.
- Desculpe.
Albafica lhe sorriu timidamente.
Acabou por ceder às suas interrogações. Decidiu trazer à tona a pergunta que lhe atormentava.
- Minos, você não parece ser mais novo que eu. No entanto, inicia sua carreira agora. Seria grosseiro de minha parte lhe interrogar o motivo disso? – Tentou ser tão direto quanto seu companheiro seria, sem assassinar a boa educação; voltou seus olhos para ele, que o olhava sério, mas tranqüilo.
Aguardou a resposta do belo homem, que hesitou por um instante.
Concluiu que não arrancaria pedaço algum responder àquela pergunta. Não lhe era nada de mais, contanto que não precisasse tocar naquele assunto. Sorriu.
- Está no seu direito. – Iniciou depois de alguns segundos. – Não sei exatamente quantos anos você tem...
- Acabo de completar de trinta. – Como se tivesse sido interrogado de forma indireta, o que de fato aconteceu, respondeu com um meio sorriso.
Não pôde evitar olhá-lo surpreso.
- Trinta? Não parece... – Comentou, sorrindo. Observou Albafica se endireitar no assento, ajeitando o cabelo. Como era charmoso!
- Devo considerar como elogio?
Minos apenas sorriu, assentindo. Continuou sua resposta à pergunta inicial.
- Bem, sou um ano mais novo que você. – Sorriu com ar vitorioso. – Não repeti ano na faculdade ou na escola. Acontece que depois de três anos na faculdade de advocacia, decidi trancá-la. Mas perdi muito tempo para retornar. Como já haviam se passado mais três anos quando decidi retomar, tive que reiniciar. Assim, acabo de concluir cinco longos anos de faculdade.
Concluindo sua resposta, sorriu.
Albafica observou o belo sorriso e devolveu-lhe outro igualmente zombeteiro. Sua curiosidade foi atiçada, quanto ao motivo que o levou a trancar a faculdade e perder três anos. “Ninguém faz isso por banalidades. Algo deve ter acontecido...”. Pensou em questionar-lhe sobre isso, mas o táxi parou.
- Chegamos? – Ouviu a voz de Minos se dirigir diretamente ao motorista, que respondeu afirmativamente.
- Quanto deu a corrida? – Indagou ao taxista, apanhando a carteira.
Quando o homem entreabriu a boca para responder-lhe, sentiu a mão de Minos sobre as suas, abaixando-as como se lhe mandasse guardar o que tinha entre elas.
Encarou-o confuso. Encontrou em seu rosto o formoso sorriso.
- Deixe que eu pago.
Sorriu de volta, retornando seu olhar para a carteira.
- Não, tudo bem. Eu pago.
Sem perceber, acabou por se irritar levemente com o outro. “Ele não percebe que quero ser... Gentil com ele?!”. Segurou novamente suas mãos, com mais firmeza dessa vez.
- Não, não, meu querido. Eu pago. – Enfatizou claramente a monossílaba “eu”.
Que irritante! Será que ele estava pensando que não poderia pagar?! Olhou-o furioso. Detestava ser subestimado, menosprezado – ainda que não fosse nada disso.
- Deixe-me pagar, Minos. – Sua voz estava levemente ríspida.
Observou seu companheiro puxar bastante ar, enchendo o tórax. Aparentava estar, também, irritado.
- Eu posso pagar, Albafica. – Retrucou.
Respirou fundo e tentou se controlar para não perder a compostura. Iria novamente retrucar, quando um terceiro entrou na conversa, ou melhor, na discussão.
Até mesmo o taxista estava perdendo a paciência.
- Pelo amor de Deus! Será possível que vão discutir outra vez por causa da conta da corrida?! – Interferiu, antes que Albafica desse o troco a Minos. Quando notou que tinha a atenção de ambos, continuou, olhando-os pelo retrovisor. – Eu não consigo entender, sinceramente, assim fico louco! E olha que nem os conheço! Brigam pela corrida. Fazem as pazes durante a viagem e têm uma conversa que dá a exata impressão de que são amigos há séculos! Mas aí, quando chegam ao destino, começam a brigar pra ver que vai pagar a conta! Onde é que esse mundo vai parar?!
O taxista deu uma breve pausa, enquanto os dois se entreolhavam. Não resistiu. Acabou desmanchando a carranca e gargalhando.
Os dois, percebendo o papel ridículo que exerciam, riram junto.
- Por que não podem simplesmente dividir a conta? – Sugeriu o taxista, por fim.
- Desculpe. – Disseram ambos, em uníssono.
Pagaram pela corrida, desculparam-se novamente, e desceram, dirigindo-se à entrada do prédio.
- Temos quinze minutos para chegarmos antes que a reunião se inicie. – Avisou Minos, olhando o relógio, nitidamente nervoso.
Albafica riu. Lado a lado, continuaram o caminho.
(Continua...)
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