Tá OK ser gay
1 Drogas, choro e pavê.
Rico
— Já tá funcionando? — a empolgação de Cão beira a infantilidade.
— Eu não sei. Nunca usei essas coisas antes. — digo. Pareço estar calmo, mas na verdade estou surtando. Meu coração palpita que nem louco, e o fato de não saber se estou chapado, ou saber quando estarei chapado, e como me sentirei quando estiver chapado, só aumenta minha ansiedade. Acho que vou vomitar.
— Quanto tempo demora pra fazer efeito? — Cão usa minhas coxas como travesseiro, e elas doem, ele já está aqui há um tempo — Vou pesquisar...
Cão tenta alcançar o celular o problema é que seu jeans é apertado demais e sua mão mal entra no bolso. Ele se contorce tentando puxar o negócio pra fora, e frustrado ele ri, uma risada tão alta e estúpida que me faz rir também.
— A gente devia sair. — diz minha irmã morta no chão — Eu quero sair.
Olho para o teto do meu quarto, pois Trina olha pra lá como se os segredos do universo estivessem escondidos ali, daí ela começa a chorar. Um choro feio. Seu nariz escorre enquanto seu rosto se contorce em prantos. É horrível de se ver.
E então estamos na rua. Eu não lembro quando concordei em sair. Trina não chora mais, contudo ela não parece estar aqui, como Cãozinho também parece estar em outro lugar. Só que eu ainda estou aqui, andando com dois zumbis num beco escuro, bebendo cerveja. Eu não gosto de cerveja, mas estou bebendo, e cantando algo que deveria soar como sendo em inglês. Também danço, pareço estar dançando a música que canto, porém não sei dizer ao certo. Tudo é muito bonito, e me faz chorar e rir; tô odiando isso.
Trina começa a gritar enquanto chora, é horripilante. Tento bater nela, porque sei lá, mas acabo acertando Cão. Ele ri de um jeito retardado e sua mão ossuda estala no meu rosto que arde com seu tapa.
— Você me bateu. — exclamo, muito ofendido.
— Eu vou cortar as bolas dele. — choraminga Trina.
Avanço até Cão querendo devolver o tapa que ele me deu, mas claro que ele é mais forte que eu, e claro que acabamos no chão. Ele está sobre mim segurando meus braços, estamos ofegantes, estou excitado (?!), e toda essa situação parece ser outra coisa. Misericórdia, estou com tesão. Trina choraminga, Cão me agarra em uma luta/alguma coisa sexual bizarra, e uma estranha ri. Do outro lado da rua ela parece uma louca, seu rosto parece um borrão, nada está onde devia estar ali. Ela se aproxima com um de seus cílios postiços pendurado por literalmente um fio.
— Parece uma pornô vocês dois. — ela está sozinha, segura um buquê enorme de rosas vermelhas — Acho pornô gay bem excitante. Por que você tá chorando, fia?
— Fui traída. Por que das flores?
— Fui chutada.
Acontece que o nome dela é Ana, Ana Carla, mas decidimos chamá-la apenas de Ana. Ela está toda cagada porque estava em um encontro com o namorado, ou melhor, ex-namorado que terminou o relacionamento de três meses.
— Daí ele terminou comigo, tipo do nada, eu não lembro de ter feito alguma coisa aí ele mandou o "sou eu, não você", pau no cu do caralho. E você acredita que ele me pediu pra sair da conta dele do Spotify ali mesmo? Mas que pau no cu do caralho. — ela e minha irmã criaram uma espécie de conexão emocional gerida pela sua raiva contra os homens, e sentadas no meio fio, Trina a consola.
— Ele tem outra. Só pode ser isso. — Cão sussurra em meu ouvido, e isso faz a chama do tesão acender de novo, puta merda.
— Mas tá tudo bem. — suspira Ana — Eu só tava com ele porque não tenho auto estima e ele é o melhor que eu podia conseguir. Ah, as flores? Eu comprei. Fiquei com medo de que ninguém me daria flores, tipo nunca mais, então me comprei um monte. Mas agora só parece estupidez. Paguei caro nisso, e o que vou fazer com flores? Comer? Sabe do que me arrependo? — agora o rosto dela é só uma mancha feita de uma mistura bizarra de cores — Eu não fiz nada, tipo quando ele disse que queria terminar e tal, eu não fiz nada. Não rolou uma saída dramática, não joguei bebida na cara dele, devia ter enfiado a cara dele na lasanha. O desgraçado nem esperou pela sobremesa, e eu queria muito aquele pavê.
— Então você nem viu. — diz Cão, daí ele tenta explicar sua piada, mas nem Jesus salva essa piada,
— Você devia voltar lá e comer o seu pavê. — os olhos de Trina brilham ao dizer isso — Você não pode deixar aquele filho da puta levar até o seu pavê. Quem ele pensa que é? O pavê é seu e ele é especial pra você, nenhum homem tem o direito de te privar do seu pavê.
E estamos indo ao restaurante. Faço o trabalho de todo gay decente e ajudo Ana a prender seus cachos em um coque, logo desistimos e vamos pra um rabo de cavalo, pra nos contentar com um nó que não prende metade de seu cabelo volumoso.
Cão
Estou meio tonto, bem tonto, na real eu não consigo ficar em pé. Ana que me acolhe em seus braços frios e sentamos no meio fio. Ela está afim de mim, tá não tenho certeza disso; na real só tô pensando merda.
— Se você vomitar no meu vestido... — ameaça ela.
Não sei do que ela está reclamando, o vestido já está todo cagado de qualquer jeito, mas de qualquer forma estou suave, nada de vomitar. Pego meu celular pra ver uma mensagem de Amarga, meu coração derrete, e mano, eu quero chorar, “Onde cê tá?”, ela pergunta. “Num rolê, bebê. Tá com saudade?”, respondo.
— Ei, Ana. — sussurro após um tempo apreciando sua pele gelada, pois quero lhe contar um segredo — Tá vendo essa garota aqui da mensagem? Então, eu gosto dela, mas ela não gosta de mim, ela é gay. E tá suave, meu melhor amigo é gay, tenho nada contra os gays, eu sei que isso soou estranho, mas é sério tá suave. Você é gay? Ah, não, você não é, você namorava o cara lá do pavê. Quer sair? Talvez eu seja o melhor que você pode conseguir, e se isso for verdade, mano, tá ruim pra você hen.
— Que sorte a minha. Me sinto lisonjeada, Cão.
— Pra você é Lucas, gata.
— Você não vai nem lembrar que disse isso amanhã, Lucas. — sussurra ela, ao que pego o celular e com o gravador ligado digo:
— Eu, Cãozinho, pedi pra sair com Ana... Seu sobrenome? Ana Ferraz, e ela disse...
— Nem fudendo.
— ...ela disse sim, que seria um prazer. Você, eu e cinema, depois da escola.
— Você ainda vai pra escola? — ela debocha de mim e quero chorar, porque sei lá, tô muito louco.
— Mas não sou criança.Sou uma ótima companhia, sou bonito, engraçado com quem merece, e meu beijo é 10/10. — ela tenta se desvencilhar do abraço, mas não a deixo ir, estou quente e ela fria, a sensação é incrível — Seu número, por favor.
— Eu acabei de entrar na faculdade, não estou com tanta saudade assim do ensino médio pra sair com você, Lucas. — o jeito que ela diz meu nome, sei lá mano, é diferente. — Tem alguma coisa de errado comigo, só pode… salva aí.
— Obrigado, viu? Agora dá uma ajuda aqui pro pai ir ali vomitar.
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