Notas iniciais
Olá a todos! Sejam muito, mas muito bem vindos ao nosso teatro! Peço que evitem conversar durante a sessão, quaisquer críticas, sugestões ou elogios serão muito bem aceitos na caixa de comentários, desejo a todos, um bom espetáculo!

Como isso foi acontecer?

Durante aquele funeral solitário percebi algo, mortos recebem mais flores que os vivos, pois nosso arrependimento e orgulho, falam mais alto que nossa compaixão. Não damos longos abraços para ouvir o coração do outro, não entregamos presentes simplesmente por algo nos ter lembrado alguém, somos individualistas.

Você sempre foi diferente desses hipócritas, então... por que logo você me deixou?

Eu obviamente não fujo à regra. Também sou um hipócrita, meus abraços apertados sempre foram apenas para ele, meus presentes igualmente, então o que me faz diferente de todos? Aqui estou eu, imponente segurando sua mão já fria, tentando de alguma forma lhe passar algum calor. Sua família está a chorar, hipócritas, nunca lhe deram valor.

Nunca fui religioso, mas se alguém aí em cima puder me ouvir... por favor, o faça descansar em paz.

Acaricio sua mão enquanto observo seu rosto tranquilo, o rosto que nunca mais mudaria de expressão, um belo e sereno sono eterno.

Chega a hora do enterro, todos observam o caixão ser enterrado em completo silêncio, apenas lágrimas pareciam ser permitidas no lugar. Lágrimas ensaiadas, sem profundidade de sentimento.

Hipócritas desgraçados.

Todos os que ali choravam, eram os culpados, nunca o aceitaram, nunca o permitiram que me amasse e eu compreendia, ele não precisava ter feito o que fez, ainda mais no local onde mais amávamos caminhar.

-Me desculpe...

Uma voz sussurra ao meu lado, não havia notado a aproximação da pequena senhora, mãe daquele que era enterrado, seus olhos estavam manchados pela maquiagem molhada de lágrimas.

–Se eu não... se eu não...

Ela começa a soluçar ainda mais alto. Que irritante.

—Agora não adianta pedir perdão.

Ela entra em choque, simplesmente me afasto para onde pudesse ver meu amor se tornar um com a terra sem ser incomodado. Várias pessoas jogavam pétalas enquanto o caixão era coberto pela terra.

Não chovia, pelo contrário, o dia estava belo como no dia que o conheci. Ele amava caminhar pela ponte durante as tardes, onde podíamos observar perfeitamente o sol se por no horizonte, dando ao céu e ao rio uma coloração alaranjada, até mesmo seu rosto se tornava laranja.

Por que você teve que estragar aquele lugar que para nós era perfeito?

Impeço que lágrimas escorram de meus olhos, a última promessa que havia feito àquele belo jovem, foi não chorar quando partir, então eu não o faria.

Como acha que vou conseguir viver sem você, idiota?!

Lágrimas rolam pelo meu rosto sem interrupção, não consigo nem ao menos manter aquela pequena promessa. De repente um pensamento me vem em mente.

Por que enterramos os mortos?

Não sei dizer ao certo por quantos anos tal pensamento esteve em minha mente, envelheci, namorei inúmeros outros homens, sem nunca encontrar o amor que há tantos anos havia perdido. O passar pela ponte, ao contrário do que pensava, se tornou cada vez mais doloroso e solitário.

Visitar o túmulo, também nunca aquecera meu coração, apenas aumentava o pesar que precisava lidar. Meus cabelos se tornam completamente brancos, rugas agora marcam minha pele e veias se sobre saem em meus braços e pernas. Uma última visita, precisava visitar pelo menos uma última vez meu amor antes de partir, ou alguma doença degenerativa me alcançar.

A lápide antiga estava coberta por folhas secas e poeira, passo a mão sobre o nome para confirmar que estava na lápide certa, estava. Parecia há muito tempo não ser visitada, como sempre, sinto meu coração apertar enquanto fito o nome de meu amado esculpido na rocha.

—Olá... desculpe ter ficado tantos anos sem vir. Acabei te deixando sozinho assim como naquela época, não foi?

Abro um curto sorriso.

—Veja como fiquei, acabei me tornando um velho rabugento como temíamos.

A cada palavra, sentia que mais próximas as lágrimas se encontravam, assim foi aquela tarde, poucas pessoas apareceram para visitar os entes queridos, nada fora do comum nos dias atuais.

No entanto, isso também foi há dois anos atrás, ele teve a sorte de morrer no auge da vida, onde possuímos aqueles que nos amam. Já a mim, não tinha ninguém para reconhecer meu corpo. Um idoso sem filhos, família, amigos. Apenas levaram meu corpo para estudos em uma faculdade qualquer, já que nenhum conhecido quis arcar com as despesas, minha casa e pertences simplesmente foram levados a leilões.

Só então descobri a resposta para minha velha pergunta.

Enterramos os mortos queridos assim como plantamos sementes, temos esperança que deixem a terra para novamente nos alegrar com sua amada presença. Então por que enterraríamos uma erva daninha que apenas estragaria nossa vista?

Notas finais
Pois bem, este é o fim de nossa apresentação, peço a todos que gostaram que deem sua opinião sobre a obra, e, a todos que não gostaram, que demonstre sua opinião e julgamento. Obrigado a todos!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!