Sóbrios

1 Capítulo único


O encontro armado para cima dele foi um fracasso, como sempre. Steve almejava, é claro, encontrar uma pessoa que lhe fizesse feliz, mas seu tempo sempre fora gasto na tentativa de servir ao seu país. Além disso, seu físico franzino e sua personalidade introvertida não chamavam a atenção das garotas de Nova Iorque. Mas, para Bucky, dar uma de cupido era praticamente um passatempo.

A Feira Mundial era para ser uma espécie de despedida. Bucky fora ordenado sargento e seria enviado para a Inglaterra, enquanto Steve permaneceria ali. Os amigos poderiam nunca mais se ver, mas isso não era obstáculo para Bucky permanecer grudado em uma moça. O que salvou a noite foi a descoberta da presença dos Serviços Armados dos Estados Unidos na feira. Sim, com a guerra, qualquer evento era palco para o recrutamento. Steve havia tentado o serviço militar uma dezena de vezes, mas nunca obtivera sucesso. Isso não era compatível com seu objetivo. Ajudar sua pátria era o mínimo esperado de um filho de militar morto em combate e de uma enfermeira infectada pela mesma doença daqueles que tentava ajudar. Pelo menos, era o que o rapaz imaginava. Nunca, contudo, fez a associação de que este seu desejo fosse uma tentativa de permanecer sempre ao lado do seu melhor amigo.

— Vai fazer isso de novo? — indagou Bucky ao perceber que o amigo tentaria novamente se alistar.

— É uma feira, tentarei a sorte — respondeu Steve.

— Como o Steve de Ohio? Podem pegá-lo, ou pior, podem aceitá-lo!

— Você acha que eu não consigo.

— Isto não é uma luta qualquer, Steve. É uma guerra! Por que você quer lutar? Existem outros empregos.

— Quer que eu cate sucata? — perguntou ironicamente.

— Sim! Por que não?

— Não ficarei em uma fábrica enquanto existem outros homens sacrificando suas vidas. Eu não tenho o direito de fazer menos que eles. É isso que você não entende. Isso não é por mim. – “É por você também!”, pensou, mas se calou.

— Okay, mas você não tem nada a provar. — Os amigos se olharam por um momento. — Só não faça nada estúpido até eu voltar. — Bucky encerrou a conversa ali e foi acompanhar sua pretendente da noite, planejavam dançar em lugar próximo dali.

Steve ficou preso em um torpor temporário. Imaginou o porquê de seu melhor amigo não compreender coisas simples e que permaneciam em letras garrafais estampadas em sua testa. Logo, foi acordado pela esperança de enfim ser aceito no exército.

O rapaz sabia que falsificar documentos era ilegal, e por um momento pensou que isso o levaria preso. O médico agiu de maneira estranha e pediu que ele aguardasse por um instante. Outro homem entrou na sala. Possuía um ar de intelectual. Cabelos curtos e grisalhos, até um pouco calvo, usava óculos e quando falou também deixou transparecer seu sotaque europeu. Quem sabe russo? Mas, o que um russo faria em terras estadunidenses durante uma guerra?

— Então, você quer ir à Europa matar uns nazistas.

— Como? – questionou Steve, abismado.

— Dr. Abraham Erskine. Representante do departamento científico e estratégico. — O estranho estendeu a mão em cumprimento.

— Steve Rogers – respondeu o rapaz ao apertar a mão do doutor. — De onde você é?

— Queens. Rua 73 com Utopia Parkway — respondeu tranquilamente. — Além disso, Alemanha. Isso te incomoda?

— Não. De modo algum.

— De onde você é, Senhor Rogers? De New Haven ou... Paramus?

— Talvez seja outra ficha — sugeriu o rapaz cinicamente.

— Essas suas tentativas me interessam, Rogers — o homem disse como se não houvesse ouvido Steve. – Mas não respondeu minha primeira pergunta. Você quer matar nazistas?

— Não quero matar ninguém. Só não gosto de valentões, não me importo de onde são.

— Eu posso lhe oferecer uma chance. Somente uma.

— Eu aceito – disse Rogers, sem pestanejar.

Quando Steve recebeu seu documento de aprovação pensou que seu coração pularia para fora. Depois de tantas tentativas falhas, um alemão do Queens proporcionou seu egresso na guerra. Sim, a vida prega muitas peças. Ele tinha que falar aquilo a alguém, ou melhor, devia contar ao Bucky. Lembrou-se que ele iria ficar próximo dali, em alguma casa de festa. O rapaz passou por dois locais até encontrar seu amigo. Ele já não estava acompanhado.

— Eu não sei o que dizer. Você não foi feito para guerra, Steve — exclamou Bucky após ouvir tudo de seu amigo.

— Não importa. Agora eu fui aceito. E você deveria ficar minimamente feliz por mim!

— Eu estou. Digo, é claro que estou. Só fico preocupado. Além do mais, nunca um alemão teria um cargo tão elevado aqui nos Estados Unidos.

Em algum momento, aquela discussão foi resolvida ou deixada de lado. E os amigos decidiram comemorar. Steve nunca havia consumido doses tão elevadas de cerveja, mas a companhia o ajudou a esquecer desse fato.

Os dois rapazes ficaram bêbados e voltavam para casa, porém o estado de Bucky era mais complicado. Ele havia exagerado bem mais na bebida, tanto que se apoiava em Steve para não cair. O peso do recém-sargento era difícil de suportar, mas seu aroma familiar sempre trazia boas emoções a Steve. Não soube se foi o álcool ou um ataque súbito de coragem, mas o franzino se pronunciou:

— Bucky, você sabe o real motivo, não é?

— Eu vou precisar mais que isso, companheiro. Não estou muito bom para raciocinar — falou o rapaz com certa dificuldade.

— Eu só quero permanecer ao seu lado.

— Nossa, você é mesmo muito legal! Que amigo faria isso? — disse Bucky sem compreender bem as palavras que havia ouvido.

Steve parou e tirou o braço do companheiro de suas costas. Afastou-se o suficiente para fitar os olhos dele, os olhos de Bucky.

— Você não entende, não é? Eu quero permanecer com você, mas não é uma relação fraternal que eu almejo. Eu quero mais que isso.

O franzino aproximou-se e encostou seus lábios nos de Bucky. Não obteve recusa. A cevada já não era amarga, ao contrário, trazia um doce viciante. Não importava se estavam em uma rua qualquer. Só se beijavam. Aquele momento não permitia pensamentos elaborados, somente ações impulsivas.

Steve se afastou e pode ver Bucky, que permanecia de olhos fechados, com a boca meio aberta e sem reação. Sorriu institivamente. Não conseguia imaginar que aquilo que havia reprimido por anos pudesse ter transbordado e que o efeito seria maravilhoso.

— Melhor irmos embora. Já está tarde — sussurrou Bucky, após alguns segundos de reflexão. Seu semblante havia mudado.

Steve não respondeu, só acompanhou o rapaz. Estava perplexo. Como, depois de um beijo, Bucky poderia ser tão indiferente?

Não caminharam muito e chegaram aos seus destinos. Eram praticamente vizinhos, apenas uma quadra separava suas casas. O franzino entrou na sua, de alguma forma, sem fazer barulho, ninguém o havia notado. Então, ele se deitou e não esperou muito para cair no sono. Não precisaria, pelo menos naquela hora, digerir tudo que havia acontecido.

Despertou de manhã com uma leve dor de cabeça, foi até a cozinha e se serviu de café puro. O ambiente cheirava a ovos e bacon. Os primos de Steve discutiam qual deles iria matar primeiro um nazista. Um pensamento um tanto estranho para crianças. Já a tia do rapaz se apressava em sair para o trabalho, estava atrasada. Durante a guerra os homens batalhavam na Europa, enquanto as mulheres, em seu próprio país.

— Querido, diga ao James que lhe desejo toda a sorte do mundo. Eu já estou indo, okay?

— Sim, tia. Direi — respondeu Steve.

O garoto não sabia o que fazer. Recordava, é claro, que seu amigo viajaria dali a poucas horas, mas sentia-se confuso e envergonhado demais para falar com ele. Por um momento, achou que tudo daria certo. O beijo, o meio sorriso...

Então, Steve decidiu-se.

A porta estava entreaberta e ele entrou. Encontrou quem queria e mais ninguém. Bucky vestia seus trajes de sargento, estava agachado, e depositava alguns objetos em sua sacola de viagem.

— Sobre a noite passada... — falou o franzino, indo direto ao ponto, não queria perder mais tempo. – Eu estava bêbado, sim. Mas a verdade, é que nunca estive tão sóbrio. Tudo o que disse, tudo o que fiz, foi fruto do meu sentimento por você.

Bucky manteve-se em silêncio, apenas fechou sua sacola e se levantou. Retirou de seu bolso uma pequena foto e, por fim, disse:

— Você se lembra? Tiramos há um tempo. Você não queria, mas eu insisti. — O rapaz observou a fotografia e continuou. — Mesmo que não admitisse para mim mesmo, eu sempre quis você por perto, Steve. Não só porque você é meu amigo, mas porque, sem você, eu me sinto incompleto. Ontem eu não sei o que deu em mim, devia ter dito isso antes, mas fui covarde demais. Sinto muito.

Bucky foi ao encontro de Steve, tocou seu rosto, fitou seus olhos, então, o beijou. Dessa vez, sem pressa. Steve sentia muito mais que borboletas no estômago, já Bucky pudera sentir, pela primeira vez, as pernas bambas por causa de um beijo. Os dois se afastaram, com a respiração ofegante e o coração acelerado, para logo retomarem o que estavam fazendo.

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