Notas iniciais
Eu tava sem nada pra fazer, aí lembrei que escrevi essa one e postei no Social. Aí, eu pensei: por que não? Fui lá e aqui estou.

Só um garoto com problemas.

AliceDracno.

A noite estava fria. As gotas de chuva suspiravam enquanto caiam frágeis contra o chão, tão frágeis quanto um último suspiro. A escuridão da noite cobria Gotham como a sua capa cobria seu dorso. Um grosso manto que poderia esconder as mais terríveis ações, os mais terríveis vilões.

Os olhos atentos zapeavam as ruas sórdidas e sujas, lotadas de prostitutas e criminosos. No alto de um prédio, espremido ao lado de gárgulas, estava Batman. O vigilante de Gotham, impiedoso com o crime.

Enquanto a chuva caia, com suas nuvens negras e pesadas cobrindo a lua, os barulhos da cidade chegavam aos seus ouvidos. Mas a indiferença do crime para com ele era incrível. Naquela noite, seu sinal não iluminou a noite; ninguém precisava, aparentemente, de sua ajuda.

E isso fez seus pensamentos saírem da cidade e irem para a mulher que povoava sua mente. Aquela morena que entrou de mansinho em sua mente e tomou-a sem que ele reparasse, sem que ele se preparasse para ela. Invadiu sua vida, chutando a porta e quebrando o muro construído por ele com cuidado.

Agora, o Cavaleiro das Trevas, estava apaixonado pela Princesa da Verdade. Mas ele não era o príncipe de armadura reluzente que toda mulher sonha. Poderia até ser que ela não sonhasse com um, mas com certeza não sonhava com um Batman. Bruce era uma pessoa quebrada e sem conserto. Não havia motivo aparente para que ela tentasse o consertar.

Deu meia noite. Os sinos badalaram e a chuva aumentou, ao invés de frágeis, as gotas agora caiam tão pesadas que ardiam a pele daqueles descobertos. Parecia que ninguém iria cometer algum crime em Gotham; quem sabe não era Deus lhe dando uma folga?

E pelos prédios sumia, correndo e planando como uma sombra; algo feito de escuridão maciça, maleável as necessidades da cidade. Escondia-se entre as sombras, caminhava pelos becos e vielas, naquele labirinto, até onde estacionara o Batmovél. E, enfim, chegou ao local de onde não deveria ter saído naquela noite. De volta a mansão Wayne.

A batcaverna estava fria e tão úmida quanto as ruas. Pulou do carro arrancando a máscara. Os cabelos negros voaram para o rosto pálido nublando a visão, os olhos azuis brilhavam em comparação com as olheiras arroxeadas que os cercavam; o cansaço consumia Bruce Wayne.

—Deveria ir dormir —a voz de Dick soou. —A noite está calma.

—Mesmo que eu fosse para a cama, duvido muito que dormiria. Tenho muitas coisas para fazer.

—Você quer dizer: tenho muitas coisas para me destruir pouco a pouco porque não assumo certo sentimento por uma amazona? —Dick saiu das sombras e se mostrou com um moletom azul marinho e jeans branco. Parecia ter acabado de chegar.

Bruce não respondeu. Para que gastar saliva com isso? Discutir com Dick, naquele quesito, não daria certo. Até porque Dick estava certo.

Num suspiro pesado, Bruce o ignorou deliberadamente.

O mais jovem bufou, sabendo que a teimosia e o orgulho exilavam o Wayne em sua armadura. Nada, nem mesmo o amor, poderia quebrar a inexpressividade dele. A não ser a amazona teimosa.

De frente para o computador, nada lhe chamava a atenção. Gotham não era silenciosa daquela maneira. Tinha alguma coisa acontecendo, e para aquele silêncio reinar, era coisa grande. Não era só sua paranoia.

O crime em Gotham se portava como uma criança travessa, quanto mais silenciosa é, maior é a travessura que apronta. Tendo isso em mente, Batman deveria ficar a postos. Não deveria deixar os olhos pesarem e o corpo conseguir o merecido descanso.

Uma ideia passou pela mente rápida do Homem-Morcego. Um lampejo, e se não o tiverem chamado, porque não tiveram tempo de o fazer? E se Gordon e os outros estivessem em apuros dentro da delegacia?

A máscara foi posta e ele entrou em seu carro.

O caminho até a delegacia, e agora a chuva estava tilintando contra o vidro do carro. Ele saiu e viu o movimento natural lá dentro. Nada. Paranoia. Falta de sono. Algo assim.

—Não deveria estar dormindo? —A voz calma, meio rouca e aveludada, soou e fez com que ele olhasse para cima. Diana. Sonho ou pesadelo materializado a sua frente. Um anjo olhando-o de cima, misericordioso. Emissora da paz, e o que fazia o coração de pedra dele bater, Mulher Maravilha.

—Não acho que tenha a ver com você. —Áspero, frio. Batman.

—Preciso conversar com você, Batman —declarou e chamou-o com certo afeto.

—Sabe onde me encontrar. —Já dentro do carro, voltou para a mansão. Deixou para trás Diana.

A amazona, já tão acostumada com o abismo entre ele e ela, seguiu pelo mesmo caminho. Ela sabia mesmo onde encontra-lo. Deixou que ele chegasse primeiro, trocasse de roupa e esperasse por ela em seu quarto. E então, entrou pela janela aberta, junto da chuva e de um vento frio.

Lá estava ele. Sem o uniforme e sem blusa, somente uma calça de moletom negro –cor da qual seu guarda-roupas parecia consistir – virado de costas e olhando-a pelo reflexo do espelho. Tão belo e inalcançável. Tão mesclado a escuridão do quarto que parecia fazer parte dela.

As luzes que cercavam a mansão só iluminavam o suficiente para que ele a enxergasse, ganhando um tom sensual que ele não deveria experimentar, não fora de seus sonhos.

—O que quer? —Direto e distante... como queria quebrar aquela distância. Rompe-la num único e derradeiro movimento. Certeiro como sua espada. Os desejos da Prince ficariam guardados por mais um tempo.

—Conversar com você —não era só isso. Ele farejava a mentira dela, a omissão, e não precisava de um laço ou outra coisa para saber quando a amazona mentia. Fingiu-se de crente.

—Sobre?

—Algo que me incomoda a tempos. —Pontuou, desconversando. O espelho, por onde ele a observava, já não mais dava a visão da qual ele queria. Virou-se para ela, a pouca luz delineando o corpo delgado e dando mistério as curvas nas quais já se perdeu.

Ele, em meio as sombras, trazia a ela a sensação de mistério. A mesma sensação que atraiu a Guerreira para o Cavaleiro.

—E o que te incomoda? —Se sentou ao lado dela na cama de lençóis negros. Curioso era eufemismo.

—Bruce —ela começou, sem saber pra onde seguir —, me incomoda não saber quais são os sentimentos de alguém para comigo. —Terminou, pontuado e acentuando a situação tão temida pelo homem.

Agora ela se mostrava fechada. Ele não sabia se os sentimentos aos quais ela tinha dúvidas eram os dele, ou os de outra pessoa. Não importava qual das opções seria, doeria da mesma forma a continuidade daquela conversa. Ele já sabia como tudo terminaria: ambos magoados.

—Prossiga —pediu. A voz baixa e rouca, forte e misteriosa. Tudo nele se resumia a isso: mistério. Bruce e Batman eram um mistério completo, ao qual Diana queria desvendar.

Decidiu ser direta. —O que sente por mim, Bruce? —Por segundos, o silêncio reinou. Apenas a chuva e o vento sibilaram algo. Suas sinfonias. Nada. Bruce não disse nada. —Não vai me responder?

—Não tenho o que responder, Diana. —Novamente, de pé, dando as costas a ela, deixando com que os olhos azuis se estreitassem. Sem poder olhar neles, pois era olhar e ruir. Desmoronar.

—Não acho que esta seja a resposta certa. —Decretou, levantando-se, o olhando pelo espelho e segurando sua mão. —Vire-se para mim e diga isso em meus olhos, Bruce!

Ela não era tão mais baixa que ele, deveria ser 15cm mais baixa, somente. Dois movimentos do morcego e então aconteceu. Azul cobalto e azul cinzento miraram-se. Uma mescla de tons se instaurou.

—Pode não ser a certa, mas é a que eu te dou —soltou-se da mão dela e sentiu frio, sentiu a falta do calor dela.

—Só vou embora depois que me responder devidamente!

—Então ficará aqui! —Mas que diabo de mulher decidida e irritante. Era esse temperamento forte, decidido e teimoso que o fez se apaixonar. E aquela mulher não poderia, uma vez sequer, deixar de fazê-lo se apaixonar mais e mais a cada encontro? A cada vez que abria a boca para defender sua posição com tanta maestria e coragem? Ela não poderia deixar de ser ela por dois segundos?

Ah, mas isso não ficaria assim! Se ele não queria dar o primeiro passo, como a cultura do mundo patriarcado dizia, ela tomaria as estribeiras e daria por si só; tomaria a decisão por ambos.

—Cansei de deixar as coisas serem feitas a maneira dessa cultura. Não tem dado certo nos últimos meses, então que seja a minha forma! —Aproveitando-se de sua força, a amazona agarrou-o pelos ombros, virou-o para si e deu o beijo já a tanto esperado pelo casal.

Uma mulher teimosa para um homem teimoso. Por ironia no destino, todos aqueles defeitos que Bruce via em outras e que faziam parte de Diana, deixavam-na ainda mais perfeita. Como a teimosia. Glória a teimosia dela!

O mesmo poderia ser dito a amazona. Ela odiava quando os outros a contrariavam, menos quando quem a contrariava era Bruce. Quando ele o fazia, parecia mais uma brincadeira sensual e não uma afronta.

O beijo era quente. A briga por quem dominaria era impiedosa, o que fazia o Wayne imaginar se seria o mesmo na cama. As mãos delicadas e fortes puxavam o cabelo curto e o despenteavam. Puxava o máximo do sabor dele para si.

Louca e com a paixão já em ponto de ebulição, a princesa soltou-se dele, só para se aproveitar da confusão da qual ele se embriagava e perguntar:

—E então? Qual é a minha devida resposta? —As mãos saíram do cabelo de Bruce e foram para a cintura fina e apetitosa.

Ela estava enganada. Bruce operava muito bem sob pressão e logo a confusão que nublava sua mente, desapareceu:

—Eu sou só um garoto com problemas, e você a princesa de uma tribo de mulheres guerreiras. Não daria certo. —Ela já havia ouvido aquilo antes. Revirando os olhos, retrucou o que sempre badalou em sua mente:

—Eu também sou a solução, Bruce. A solução para seus problemas —e novamente deixou o morcego sem palavras. Esse era um dos vários dons dados a ela pelos deuses: o dom de calar Bruce Wayne.

Os lábios se encontraram fervorosamente. A batalha pelo poder novamente se iniciou, e não importava qual sairia vencedor, somente importava a batalha.

Empurrando-a para sua cama, sem nenhuma objeção quanto a resposta, sem conseguir argumentar com a realidade.

Ela estava abaixo dele, usando o uniforme que tanto aguçava os sentidos daquele homem. As roupas dela foram retiradas pelas mãos apressadas dele.

A barriga lisa, os seios fartos e os cabelos negros se espalharam pela cama dele. As botas foram chutadas, a tiara foi para qualquer lado do quarto, mas os braceletes ficaram.

Os lábios dele foram para o pescoço nu da mulher, as unhas pintadas de carmim miraram as costas fortes, cheias de cicatrizes, onde arranhou e o fez arfar. Os beijos e caricias trocados faziam o quarto se aquecer.

Os corpos em sincronia, gemidos ecoando pelas paredes e ressoando janela a fora. A chuva, tempestuosa como o próprio relacionamento dos dois, caindo fria lá fora; testemunhando tudo.

Sem avisar, ele penetrou-a. Teve a deliciosa surpresa dela nunca ter sido de nenhum outro. E se dependesse dele, jamais seria de outro. As mãos, agora tremulas de prazer, da Mulher Maravilha transitaram das costas fortes aos cabelos.

Rendendo-se ao prazer, ao amor, ambos chegaram ao ápice. E não foi surpresa de que aquilo não era o fim. Trocando as posições, num beijo caloroso, as rédeas novamente foram parar nas mãos da amazona.

Era apenas um início, ou um meio, mas não o fim.

(...)

O batom vermelho cobria a boca carnuda, sem mudar muito seu tom natural. Os olhos azuis tornavam-se ainda mais brilhantes com o delineador preto e o lápis marcando-os.

—Diana, somos os padrinhos, não podemos nos atrasar! —Bruce chamou-a.

—A dois minutos, quem estava na frente desse espelho era você, calado! —A morena respondeu, pegando a bolsa no mesmo tom de rosa perola do vestido longo e saindo do quarto, passando pelo moreno e deixando para ele apenas um cheiro do seu perfume.

O Wayne sorriu. Teimosa como só ela era.

O jardim da mansão estava arrumado para um casamento. Lois Lane e Clark Kent estavam se casando.

As flores no tom do vestido das madrinhas espalhavam-se pelo local. Clark andava de um lado ao outro do altar. Onde estava Lois?

—Clark, tem somente alguns minutos de atraso! Isso é normal! —Bruce, já nervoso com os movimentos do Homem de Aço, tentou acalma-lo.

—Eu sei! —Quase gritou. —Diana, pode ver se está tudo bem com ela? —A madrinha dele, já resignada, assentiu e voltou para dentro da mansão, atrás da noiva.

Bateu na porta e ouviu a voz de Lois dizer: está aberta. Adentrou. Viu a bela morena, com seus cabelos presos, vestido branco de seda, babados e contas, luvas e maquiagem leve. As mãos não seguravam o buquê de rosas vermelhas, mas sim um véu que tentava ajeitar nos cabelos.

—Está tudo bem? —Perguntou. Os olhos castanhos avermelhados da noiva foram para os azuis de Diana.

—Sim, é só que não consigo prender o véu e Bárbara teve de sair daqui! —Diana riu e arrumou o véu para a linda noiva. —Obrigada, Diana! —A outra estava corada.

—Vejo que está muito feliz.

—Sim, estou! Na verdade, até perdi o medo de você. —A noiva riu e as duas saíram do quarto.

—Por que tinha medo de mim? —Diana estava curiosa.

—Oras, porque você seria a primeira opção de qualquer homem da face da terra. Poderosa, linda, inteligente e uma verdadeira princesa! Fora que é uma divindade.

—Ora, tinha medo de Clark preferir eu a você? —A outra assentiu. —Mesmo que essa improbabilidade ocorresse, nunca olhei para ele com outros olhos. —Lois sorriu e assentiu.

—Sempre guardou esse olhar para Bruce —Diana assentiu e entregou a noiva ao pai dela. E olhou para Clark piscando quando voltou a visão dele.

Quando, voando a centímetros do chão, chegou ao lado de Bruce e sentiu seu perfume amadeirado, soube que ali, ao lado dele, sempre seria o seu lugar.

—Por que demoraram?

—Conversamos um pouco sobre olhares —Bruce não entendeu, mas sorriu.

—Pode me explicar? —Beijou o ouvido dela quando a noiva entrava e Clark suspirava aliviado.

—O medo de Lois dos olhares de Clark serem dirigidos a mim e não a ela. —Ele olhou para ela com certa expectativa. —Eu respondi que, mesmo que o caso fosse esse, ele nunca receberia de volta este olhar, pois eu já o dedicava a você —ele não tinha mais o que dizer. A não ser:

—Um dia, será você assim, entrando numa igreja ou nesse jardim, toda de branco e vindo para os meus braços.

—Estou ansiosa por esse dia, mesmo que nada de concreto irá mudar —respondeu-lhe, insinuando que já era dele, o casamento já andava.

—Vai sim, o mundo vai saber que você já tem a quem dedicar este olhar! —Tocou o nariz arrebitado e deu um selinho nos lábios. Não havia mais nada a ser dito, agora era prestar atenção no casamento e ir para a festa.

Ela era mesmo a solução para aquele menino com problemas.

Notas finais
Mereço comentários? Sim? Não? Claro? Jamais? Hahaha, beijos, amores!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!