Não havia descanso para a mente de Lo'ak nos últimos dias, seus pensamentos estavam voltados completamente para o irmão. A culpa pesava seu coração constantemente, como se tudo que fizesse de errado, mesmo sendo alertado para não agir assim, levasse à morte de Neteyam.

Não conseguindo dormir, resolveu se levantar e procurar por Payakan, talvez sair um pouco de casa ou conversar com o amigo ajudasse ao menos a distrair sua mente no momento.

No meio do caminho, encontrou alguém que não esperava encontrar. Seu pai sentado à beira do mar, sozinho, claramente desolado. Lo'ak hesitou um pouco antes de se aproximar, não queria incomodá-lo. Sem ter muito o que fazer, decidiu apenas sentar ao lado do pai, esperando que ele falasse algo primeiro.

—Não conseguiu dormir também, filho? — Jake perguntou a ele, tirando o receio do menino de se aproximar por completo.

—Não, eu simplesmente não consigo parar de pensar nele — Lo'ak confessou, depois de se sentar — eu fico me culpando, fico pensando que se eu não fosse tão teimoso e tivesse escutado ele mais vezes, ele estaria aqui com a gente agora...

Ele acabou chorando a seguir, sem conseguir segurar as lágrimas, seu pai lhe ofereceu uma mão no ombro, deixando que ele chorasse em silêncio.

—Se culpar não adianta nada, você sabe que se pedisse ou não, ele faria qualquer coisa para te manter em segurança, ele era assim... — Jake tentou consolá-lo — eu sei como é passar por isso...

—Eu entendo, você perdeu um dos seus filhos — Lo'ak murmurou de volta, achando ter compreendido tudo.

—Não, não é isso que quis dizer — o pai dele esclareceu, suavemente — dói perder meu filho, mas eu sei como é perder um irmão...

—Você tinha um irmão? Nunca contou isso pra gente — Lo'ak compreendeu, ainda que ficando surpreso com a informação nova.

—Eu perdi ele muito rápido e depois já vim pra cá, era coisa demais acontecendo e não acho que tive tempo pra processar tudo, pra passar pelo processo de luto do jeito mais correto — Jake contou, tomado pelas lembranças daquele tempo.

—O que aconteceu? Vocês brigaram? — Lo'ak quis saber.

—Nós éramos muito unidos quando éramos crianças, Tommy e eu, nascemos juntos, sabe? Éramos gêmeos — o pai continuou a contar — mas depois que eu entrei no exército nos afastamos, ele não concordava com minha decisão, e ele também tinha interesses diferentes dos meus, ele era um cientista, um dos melhores amigos do Norm.

—Norm conheceu ele? — a informação surpreendeu ainda mais o menino.

—Sim, eles viriam pra cá juntos, não eu — Jake fez uma pausa, suspirando antes de continuar — mataram ele simplesmente pra pegar seu dinheiro, um motivo tão idiota pra fazer algo tão cruel, quando me avisaram, ele já estava morto, e não tinha nada que eu podia fazer, decidi vir pra cá e você conhece o resto da história, mas tem uma parte de mim que se arrepende, que se culpa de não ter tido tempo com ele, de não tê-lo procurado mais cedo, é algo que eu nunca vou poder consertar e vou ter que lidar com isso. Assim como a sua mãe, perder a irmã dela também não estava no seu controle.

—Será que a Ronal não tem razão, afinal? — Lo'ak refletiu em voz alta, depois de ouvir tudo isso — Eywa nos abandonou e somos uma família de estranhos azarados?

—Não, filho, eu não penso isso — Jake olhou firmemente para ele, com paciência e pena — eu me considero o cara mais sortudo por ter vocês, o que me trouxe até aqui foi uma tragédia, eu sei, mas eu gosto de pensar que foi o ato final do Tommy pra me ver feliz, eu nunca encontraria alguém como sua mãe na Terra e eu nunca teria vocês, não trocaria vocês por nada.

—Eu sei, pai — o menino assentiu, sabendo que Jake falava a verdade, tendo visto todo o sacrifício que ele tinha feito pelo bem da família.

—Há coisas que não estâo sob o nosso controle, como o povo do céu voltar e termos que nos mudar, e o Neteyam morrer — antes de prosseguir, ele suspirou outra vez, tendo dificuldade para mencioná-lo — mas nós ainda temos um ao outro, estamos construindo um lar aqui, ao menos eu vejo o quanto estão se esforçando...

—Eu não teria a amizade do Payakan se não viéssemos pra cá — Lo'ak ponderou, compreendendo o que o pai queria dizer — ou da Tsireya, ou de todo mundo, de algum jeito, acabaram nos aceitando.

—Eu entendo — Jake conseguiu sorrir — quando destruíram a Árvore Lar eu me senti um inútil, um excluído, que nunca conseguiria recuperar a confiança do povo que me adotou, e mesmo depois de tudo, eles ainda se lembram de onde eu vim quando me olham, essa é uma batalha que nunca vamos deixar de enfrentar.

—Ter que me provar o resto da vida porque você nasceu humano — seu filho respondeu, com amargura na voz.

—É, isso, mas pelo menos aqui, com os Metkayina, as coisas estão mais leves, não? — Jake tentou lhe mostrar um pouco de esperança.

—Está sim — Lo'ak conseguiu sorrir, um sorriso pequeno ainda, e cheio da saudade de Neteyam, mas contente por estar tendo aquele momento com seu pai.

—Vamos ser gratos por isso, então — seu pai decidiu — Eywa está do nosso lado, e o mais importante, ela está com seu irmão.

—É — o menino replicou quietamente.

—Nós vamos celebrar o Neteyam pra sempre, ele nunca vai partir do nosso coração, vamos manter as boas lembranças vivas — seu pai aconselhou.

—Sinto falta dele me perturbando, de conversamos no fim do dia... — Lo'ak comentou.

—Eu também sinto falta dele, de como era nobre, corajoso, amável com todos nós, do jeito que ele sorria quando se empolgava... — foi a vez de Jake se permitir chorar agora.

—Ele vai estar vivo nos nossos corações — Lo'ak teve a coragem de dizer por fim.

A coragem o empurrou um pouco mais e o garoto abraçou seu pai. Era quase como se Neteyam estivesse ali, se certificando que eles cuidariam um do outro na sua ausência.

Notas finais
A/N.: Essa foi minha segunda ideia para uma one-shot de Avatar, inspirada no filme novo. Eu preciso de mais momentos assim com o Jake e o Lo'ak no próximo filme. Espero que tenham gostado e até a próxima!

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!