Notas iniciais
Espero que goste.

De todas as castas, os Querubins se mantinham na média em questão de relacionamento com os humanos e visitas à Haled. Iris, particularmente, observava a Terra de tempos em tempos, gostava de ver as mudanças que os humanos criavam. Mas foi somente quando ela abriu a porta e saiu às ruas que notou a diferença entre se observar a evolução humana e experimentá-la em primeira mão. Luzes por todos os lugares, as casas, ainda que fechadas, deixavam a luz das lâmpadas escaparem pelas janelas e portas, a iluminação alaranjada da rua criava um contexto com os arredores, eles estava no ponto alto de uma rua mais afastada da cidade, de maneira que pelos arredores as árvores escondiam o que havia no além, e à frente a estrada descia em zigue-zague até a cidade com seus prédios e casas minúsculos vistos dali. A rua estava vazia, e com intervalos de alguns minutos passava-se algum carro ou ônibus, sempre em direção à cidade.

— Bem-vinda a San Marcos. – Disse Ruman.

— Que cidade bonita.

— Humilde. Porém é bonita, sim.

Eles caminharam até a frente da calçada onde um carro cinza escuro estava estacionado, Ruman tira um pequeno aparelho do bolso e com um apertar de dedos os faróis do veículo piscam, seguido do barulho das portas destravando.

— Desde quando você sabe mexer com as máquinas dos humanos? – Perguntou Iris enquanto observava seu amigo abrir a porta do carro para ela.

— Sou um agente de campo, dentre os Querubins nós não somos os mais habilidosos em combate, mas trabalhamos muito bem com espionagem. Não é difícil de aprender quando você observa os humanos por certo tempo. – Ruman respondeu fechando a porta e dando a volta para sentar no banco do motorista. – Esse é um Seat 1995, é o carro do garoto.

Iris sabia que ele se referia ao próprio pupilo.

— Pelo jeito, você já conhece bastante de vida dele, não é? Algo mais a me dizer antes de nos encontrarmos com os outros?

— Sobre sua pupila você já descobriu o que há de mais importante, fora isso tudo o que eu sei é que eles alugaram essa casa. Gabriel trabalha em um dos hotéis da cidade e a garota em algum estabelecimento de alimentos, mas ela está de folga por uns dias, e o meu pediu uns dias de folga por não se sentir muito bem.

Iris observou a forma que ele impactava diretamente na vida do garoto e ainda assim não expressar a menor preocupação.

— E ele concordou com tudo isso?

— É claro que sim, quantos humanos você acha que entram em contato com um de nós e recusam nossos termos? – Ruman falava num tom de vasta experiência com eles.

Iris não respondeu, encostou sua cabeça no vidro do veículo e ficou observando a paisagem passar por ela.

— Onde fica nosso objetivo atual?

— Vou levá-la ao culto, ao que investigamos, o lugar vai passar por reformas para se tornar uma nova igreja para a cidade, localizada no extremo leste dela. Pelo horário vamos encontrar com Hemiel e Ouriel já nos aguardando.

Num estalar, Iris se lembra da rival, agora além de todos os problemas teria que aguentar sua insuportável algoz lhe dando ordens.

— Como sabe que eles já estarão lá? Pelo que me lembro o pupilo de Ouriel não morava pela região.

— De fato não, mas, enquanto você meditava, eu recebi uma ligação de Hemiel. Ouriel foi invocada pouco depois de você e assim que desceu, já saíram em direção ao lugar.

Iris ficou em silêncio pelo resto do percurso, continuando a observar o cenário pela janela do veículo. Era incrível como o mundo humano havia mudado em tão pouco tempo, as lojas, os prédios, os veículos, as vestimentas, etc.. Nada disso era assim quando ela desceu em sua última missão há tempo. Lembranças daquele dia voltavam à sua mente, uma emboscada feita por demônios encurralou o seu grupo, uma batalha difícil foi travada, bons amigos morreram naquela missão, e foi a primeira vez que ela interagira de verdade com um demônio. As cenas daquele dia iam lhe voltando lentamente à memória enquanto ela olhava distraída pela janela do carro. De repente sentiu-o desacelerar e parar no acostamento.

-Chegamos. – Disse Ruman, descendo do carro.

Iris o acompanhou, estranhando o lugar que chegaram.

— Este é o lugar? Não sinto nenhuma energia demoníaca vinda dali. – Disse apontando para o portão de ferro do que parecia ser um antigo galpão.

— E as coisas ainda vão ficar mais estranhas. Parece que chegamos só um pouco antes deles.

Iris sentiu a emanação de energia de Ouriel e se virou para ver um carro preto muito longo se aproximando. Desceu do carro um homem que aparentava cerca de trinta anos pelo poder dele, perceptivelmente muito abaixo do nível dela e de Ouriel, mais próximo ao de Ruman,aquele era Hemiel.E saindo da porta de trás do carro uma jovem com não mais de vinte anos, cabelos castanhos e traços suaves, com um sorriso que não combinava em nada com suas características.

— Pelo jeito minha pupila nasceu em uma família bem abastarda, demorou um pouco até que eu conseguisse... “convencê-los” a me deixar sair. – Falava Ouriel. – Já você, vejo que não teve esses mesmos problemas, não é mesmo, Iris? – Sem esperar resposta, ela se virou para Ruman. – E você deve ser o segundo agente de campo. Algo mais que eu precise saber antes de começarmos?

Ruman e Hemiel se entreolharam por um instante, até que Ruman continuasse:

— Eu e Hemiel estávamos trabalhando separados até agora, mas mantivemos contato um com o outro. Acredito que as informações mais importantes ele já deve ter te passado, Ouriel.

Ouriel, que estava analisando o cenário, virou-se para Ruman quando ele terminou de falar.

— Tenente Ouriel – Ela o corrigiu. -Lembre-se de quem é sua superior nesta missão. Alias, superior de todos vocês. – Ouriel frisou, olhando para Iris.

— Sim, senhora tenente. – Respondeu Ruman, em continência. – Eu fui o último a inspecionar a área e pelo lado de fora não encontrei nenhum vestígio dos desaparecidos. Porém, rastro de energia demoníaca foi detectado aos arredores, mas sem nenhum sinal de combate.

— Tsh, notícia velha. – Falou Ouriel.

— Mas me foi informado que os demônios estavam criando um tipo de seita. – Iris afirmou.

— Correto.

— Isto aqui não se parece em nada com uma.

— Eu vi caminhões trazerem diversos objetos para o depósito, mas ainda não conseguimos verificar o que eram e os poucos que se atreveram a entrar não retornaram. – Respondeu Hemiel para Iris.

— Então eles estão construindo alguma coisa lá dentro. Vocês tiveram algum tipo de contato com eles?

— Não, senhora.

— Alguma suposição sobre o nível de poder dos caídos?

— Atualmente é praticamente impossível trazer alguém acima de nível general dos anjos para a Haled, para os caídos as condições são as mesmas, quanto mais forte a entidade mais afetada ela é pelo manto. Portanto, supomos que todos os demônios dali são de nível baixo.

— Compreendo. – Disse Iris também observando o lugar.

— Se já terminaram a conversa, que tal darmos início à missão? – Ouriel os apressou.

— O que pretende fazer, Ouriel? – Perguntou Iris.

— Não é óbvio? A melhor defesa é o ataque. O problema desses agentes de campo é que eles só observam e nunca agem, foi assim que perdemos o pessoal, mas é óbvio que as resposta para: E se eles estiverem vivos? E como os demônios camuflaram sua energia de nós? Estão todas ali dentro, e que melhor maneira de entrar do que pela porta da frente não é?!

Apesar de não concordar com os métodos, Iris também já estava cansada de todas aquelas suposições e nenhum fato. Já estava na hora de invadir aquele lugar e dar fim ao seja lá o que estava acontecendo ali dentro.

Ouriel caminhou até o portão de ferro, parando em frente a ele para analisar como o abriria. Viu que travas prendiam o portão ao chão, então ele deveria subir para se abrir, elas eram embutidas ao chão apenas com um encaixe para se colocar a chave, porém o portão não era liso, possuía várias ondulações por sua superfície para que depois de aberto houvesse apoio para levantá-lo com as próprias mãos.

Ouriel tomou postura enquanto encaixava seus dedos pelas ondulações, o som de seus dedos rasgando o ferro foi seguido pelo estalar da chapa que se quebrou no contato com a trinca, todo o portão subiu sozinho se enrolando nele mesmo, um barulho muito alto se fez quanto o suporte que segurava o portão ao topo da parede se quebrou e todo ele veio abaixo.

— Hahaha, acabei de tocar a campainha, agora eles virão nos dar as boas-vindas.

Ouriel entrou no lugar, seguida de Iris bufando, mais Ruman e Hemiel. Ao entrar uma estranha sensação tomou conta de todos.

— O que é isso? Sinto-me tão estranho. Como se tivessem tapado meus ouvidos. – Disse Ruman.

Iris e Ouriel apenas observavam o lugar, estava vazio. Lâmpadas, que se acenderam assim que eles entraram, seguiram por mais de trinta metros da extensão do lugar e em dez metros de largura. Alguns paletes estavam amontoados ou jogados por ali, juntamente de algumas caixas de papelão vazias, o lugar estava empoeirado e sujo.

— Parece que ninguém entra aqui há anos. O que isso significa? – Hemiel jogou a pergunto no ar.

Iris caminhou para a parte direita do lugar, degraus destacavam várias cabines e salas onde ela resolveu ir dar uma olhada enquanto Ouriel caminhava para os fundos. Hemiel e Ruman seguiram Iris, enquanto ela mexia em pilhas de papeis, abria gavetas de mobílias antigas e soprava o pó que havia em tudo que se tocava. Sem saber pelo que procuravam, Hemiel acabou soprando o pó de uma pilha de caixas ao lado do vidro que separava o cômodo do resto do galpão. A poeira grudou da superfície deixando visível um contorno de algum símbolo.

— Tenente Iris, venha ver o que eu encontrei.

Ao se aproximar e ver o símbolo, Iris pegou um grande pedaço de papelão e, balançando-o algumas vezes, o vento criou uma grande nuvem de poeira que se fixou ao vidro revelando uma série de símbolos por toda a superfície do material. Ruman, vendo a descoberta, fez o mesmo próximo às paredes da entrada do galpão, o mesmo aconteceu, desenhados pelas paredes e portas, vários símbolos decoravam o lugar.

— Saber dizer que símbolos são esses, Ruman? – Perguntou Hemiel.

— Não exatamente, são símbolos diferentes dos normais e tem vários deles separados pelo lugar. São comandos bem complexos e de uma coisa eu sei, eles são de algum efeito para nós e para os demônios.

— Só pode ser isso que está impedindo nosso senso de energia. – Afirmou Iris.

— Agora eu entendi, é por isso que estou com essa sensação tão estranha, não estou sentindo mais as emanações de vocês.

— E com certeza quem estivesse de fora não nos sentiria mais. Desde quando demônios possuem tais habilidades com magia?

— Se você tivesse me falado isso hoje de manhã eu não acreditaria. – Respondeu Hemiel.

— As coisas estão começando a se encaixar, os desaparecidos só podem ter entrado aqui. Mas mesmo aqui ainda não há sinais de combate, o que será que aconteceu? – Iris jogou a pergunta no ar.

— Hey, acho que encontrei algo aqui atrás. – Enquanto se questionavam, Ouriel gritou lá de trás para eles.

Ao se aproximarem, Ouriel retirou do chão um palete que cobria uma pequena porta do alçapão no chão. Ao abri-lo, revelou-se uma estreita passagem de uma escadaria que descia no escuro.

— Há mais um desses símbolos na porta. – Iris falou tocando o selo, mas não sentia nada de diferente em seu corpo, apenas continuava sem sentir a emanação da aura de seus companheiros. –Pelo jeito não temos outra escolha, vamos descer.

A escadaria não possuía nenhum tipo de iluminação, Ouriel desceu na frente tateando as paredes ao seu redor até finalmente chegar a uma porta. Ao abri-la a visão de todos retornou com a iluminação do lugar, as paredes de pedra e os suportes para tochas lembravam as antigas construções de castelos dos humanos. Caminharam por mais alguns metros pelo corredor onde avistaram uma nova passagem que dava acesso a um vasto salão. Estátuas de deuses antigos estavam espalhadas aos quatro cantos do lugar, e em cima de um pequeno palanque uma mulher dentro de selo encantava um ritual, enquanto várias pessoas, com capuzes escondendo seus rostos,rodeavam-na. Quando eles entraram ninguém deu atenção a eles. Ouriel avançou para deter o ritual, mas foi impedida quando ouviu um rápido estalar de aço e espinhos saídos do chão cravando os quatro Querubins ao piso.

— Droga! – Gritou Ouriel. – Esses malditos têm armadilhas por aqui.

— Você sabia que “malditos” é um dos apelidos que mais gostamos? – Disse uma figura saindo de trás de uma das estátuas. – Afinal, é um dos termos que melhor nos define. – Tirando a capa se revelou um homem de pele morena, careca e sem nenhum pelo no rosto,com os olhos tão negros quanto a noite.

— Então você é o responsável por isso. Nós vamos acabar com essa maldita seita. – Disse Ruman, com as pernas tremendo, devido à dor.

— É claro que vão, tentem acabar com eles também. – O demônio replicou enquanto o chão onde estava os celestes se abriu, criando um fosso de metros de profundidade. Ouriel que estava mais próxima da borda conseguiu se esticar e se agarrar ao piso, enquanto seus amigos a viam subindo e o chão novamente se fechando abaixo dela.

Notas finais
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