Só mais uma história de amor
30 " – É claro que vou cuidar de você."
Notas iniciais
– Até que enfim! – Exclamei, sem conseguir conter a felicidade de estar, finalmente, saindo daquele hospital. Ou quase isso.
Kim sorria, complacente, como sempre, mas parecia mostrar um tipo de satisfação. Júlia, em compensação, refletia a minha alegria na dela, com um sorriso quase tão largo quanto o meu.
– Mariana, tem certeza de que você consegue? – Minha mãe, como sempre, apenas observava, preocupada. Mas eu conseguia ler um quê de satisfação e até alívio em seus olhos.
Dei um sorriso torto.
– Mãe, eu contei os dias para sair daqui. É claro que consigo!
Kim, sorrindo, me apoiou.
– Não precisa se preocupar, Sra. Ângela. O próprio Dr. Felipe disse, você viu. A Mariana precisa se exercitar. E ela forte, não é? – A enfermeira deu um sorriso torto, me olhando e piscando, e eu quase pude sentir o olhar de Júlia fulminando-a.
Sorri, concordando animadamente, na intenção de acalmar seus ânimos.
– Então, vamos?
Concordei. Kim me ajudara a sentar na borda da cama, e agora a minha tarefa era me levantar – com a ajuda das muletas, obviamente.
Deslizei um pouco mais para frente e segurei a superfície fria de alumínio das muletas, contando com o braço de Kim a me sustentar e o olhar de Júlia ao lado, dividido entre o apoio moral para mim e a atenção para cada toque da enfermeira em mim.
Finalmente, com um último impulso, senti o chão gelado sob meus pés e mordi o lábio, receando, por alguns segundos, que não conseguisse me manter de pé.
No entanto, antes que esse receio ocupasse um lugar maior na minha mente, Kim me segurou pela cintura. Júlia sorria, a postos para qualquer auxílio que fosse necessário e então, desajeitadamente, me apoiei nas muletas, sorrindo.
– Parabéns, Mariana! – Kim abriu um sorriso largo.
Júlia comemorou, e a minha mãe, que até então observava tudo preocupada, abriu um sorriso quase imperceptível. Ainda hesitante e um tanto desajeitada, dei alguns passos com o auxílio das muletas, sentindo um incômodo muito leve na perna direita.
. . .
Depois de finalmente ser liberada para sair da cama e andar com as muletas, meus últimos dias no hospital tornaram-se bem menos tediosos. O médico permitia que eu passeasse pelo hospital, e eu trocara a minha irritante camisola branca por roupas normais. Minha mãe e meus amigos me acompanhavam nesses passeios, mas, na maioria das vezes, era Júlia quem estava comigo.
Na sexta-feira, pouco depois do fim das aulas na faculdade, Júlia e eu seguimos para os jardins do hospital, uma área com grama, árvores, flores, idosos e pacientes tomando ar fresco.
Andamos até um banco mais afastado, sentando ali para, nas palavras de Júlia, que eu descansasse, tomássemos ar fresco e conversássemos tranquilamente.
– Mari… – Ela começou. – Seu aniversário está chegando, não é?
– É?
Ela riu.
– Em duas semanas, Mari. Esqueceu do seu próprio aniversário?
Cocei a nuca.
– Acho que eu não tive tempo para pensar muito nisso.
– Não? – Ela riu outra vez. – Mas você vivia reclamando de tédio!
Dei de ombros.
– Tinha coisas mais importantes em que pensar.
– Ah, tinha?
Assenti, com um sorriso.
– Interessante.
Sem o que responder, me manti em silêncio.
– Sua perna ainda está doendo, agora que você está andando mais?
Neguei.
– Doía mais antes. Agora é mais o incômodo dos pontos.
Ela sorriu.
– Isso é bom.
Concordei.
– Os pontos da testa você já tirou, né? – Ela perguntou, aproximando-se subitamente de mim e subindo o meu cabelo.
Assenti, enrubescendo levemente pela proximidade do seu rosto do meu.
– Quase não ficou cicatriz. – Ela emendou.
– Mas foram só três pontos. Na perna, sim, vai ficar.
– Quantos foram na perna? – Ela mordeu o lábio, descendo o olhar.
– Dezoito.
Ela se surpreendeu.
– É, vai deixar cicatriz.
Sorri.
– Faz parte.
Júlia olhou em volta, e eu vi a brisa que já soprava mais forte movimentar seus cabelos.
– Acho melhor voltarmos, está esfriando.
– Esfriando? – Ergui uma sobrancelha.
– Sim, senhora. E você não pode nem sonhar em ficar aqui fora. Ainda está frágil e se recuperando.
Arqueei uma sobrancelha.
– E você vai cuidar da minha fragilidade?
Ela sorriu.
– Sim, Mari. É claro que eu vou cuidar de você.
Antes que eu pudesse impedir, as palavras saíram da minha boca:
– Por que?
Júlia abriu a boca, como se fosse dizer algo, mas fechou novamente. E então mordeu o lábio inferior.
– Bom, Mari… Porque…
Repeti seu gesto, tão hesitante quanto ela.
– Porque eu me preocupo com você. – Ela disse, por fim, acrescentando logo depois: – Vamos subir?
Em algum lugar, dentro de mim, eu esperava que ela respondesse algo diferente.
– Vamos.
Júlia sorriu e se levantou do banco, pegando as minhas muletas apoiadas ali e me entregando. Sorri em agradecimento e, em um gesto que já havia se tornado comum, me apoiei nelas, erguendo o corpo sem muitas dificuldades.
E então, no segundo seguinte, Júlia me segurava. Graças a um mau apoio, eu me desequilibrara e, se não fosse por ela, o resultado seria, no mínimo, desastroso.
Voltei a ficar de pé com a sua ajuda, mas não nos afastamos muito uma da outra. As mãos dela ainda repousavam nos meus braços, como se temesse que eu caísse novamente, e nossos rostos não estavam a muita distância um do outro.
– Obrigada. – Sorri. – Acho que eu…
Não terminei a frase, pois, antes que eu pudesse ao menos pensar, os lábios de Júlia estavam sobre os meus.
Depois de tanto tempo ansiando por esse contato, e me esforçando para manter o controle, a realidade dele me surpreendeu. Mas o choque não demorou a passar, pois logo Júlia tocava minha nuca e a cintura, fazendo-me sorrir quase imperceptivelmente.
Sem querer parar, beijei-a com um misto de vontade e cuidado, desejando o contato dos seus lábios mais que tudo, ao mesmo tempo em que temia que ela desaparecesse entre meus dedos.
Felizmente, isso não aconteceu. E, com pequenos sorrisos, trocamos selinhos rápidos, enquanto Júlia acariciava-me a nuca e o cabelo, e eu lhe tocava a bochecha com carinho.
De repente, Júlia abraçou-me. Forte, mas, ao mesmo tempo, cuidadosamente.
– Eu senti falta disso.
Sorri e abracei-lhe da mesma forma, acariciando seu cabelo.
– Eu também.– Respondi, em meio aos beijos suaves que deixava em sua testa e nos cabelos.
Com um sorriso, Júlia afastou-se um pouco de mim, sem parar de me olhar nos olhos.
– Mari… – Ela começou, sem deixar de sorrir.
Aguardei que ela continuasse, sentindo uma pequena agitação por dentro.
Surpresa, arregalei os olhos quando ela pegou a minha mão e ajoelhou-se diante de mim. Com a minha expressão, ela riu.
– Mari… Você quer namorar comigo?
Atônita, abri um sorriso bobo, surpresa demais para proferir qualquer palavra.
– Meu Deus, Júlia! – Exclamei, sorrindo largamente com a surpresa e fazendo-a se erguer.
– Não quer? – Ela franziu a testa, sua expressão se anuviando.
Balancei a cabeça.
– É claro que sim, Ju.
Um sorriso abriu-se em seus lábios e ela voltou a me abraçar.
Com o rosto contra o meu ombro, tive a impressão de ouvi-la murmurar um “eu te amo”.
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