Só Eu Quem Quis...

10 Capítulo 10: O Som das Flores que Não Florescem


Notas iniciais
Não é uma música animada, tão pouco feliz. O ritmo bem marcado é apenas para te envolver, enquanto a realidade é maquiada bem diante dos seus olhos... Último capítulo desta jornada e, talvez, o silêncio deste capítulo doa mais do que qualquer grito. Esta história foi profundamente inspirada na simbologia de Fake Love, do BTS. Assim como no videoclipe, as cortinas se fecham e a casa parece impecável (vazia) até o momento em que explode, revelando enfeites coloridos jogados em um cômodo de paredes escuras. Os registros de boas memórias viram pó, acionados pelo subconsciente apenas em momentos de instabilidade terrível. Quando o suprimento emocional é cortado (o protagonista fecha a torneira), surge uma calmaria enganosa — a queda d’água e a areia do clipe —, onde o receptáculo da flor seduz o protagonista novamente e ele decide entrar. A água que surge é mais volumosa (dessa vez vai dar certo!). Os suprimentos jogados em forma de doces. Às vezes, a cura não é o que buscamos; às vezes, apenas escolhemos o veneno que tem o gosto mais doce. Obrigada por acompanharem até aqui. Assista o vídeo. https://youtu.be/7C2z4GqqS5E?si=8iBsZwQZluL2mu3R

O silêncio final instalou-se na sala. Sasuke estava sentado no sofá — um monumento de mármore e indiferença —, olhando para o vazio. Eu permanecia de pé, sentindo o peso de anos de desilusão como se carregasse aquele próprio monumento nas costas. Esperava que, ao confrontar a verdade, encontrasse forças para partir; mas a verdade trouxe-me apenas um cansaço paralisante.

Love you so bad, love you so bad (Te amo tanto, te amo tanto).

Olhei para ele e, em um sopro de coragem que parecia mais um último suspiro, perguntei aquilo de que sempre soube a resposta:

— Sasuke... você alguma vez me amou, ou eu fui apenas a única que sobrou para você reconstruir o que perdeu?

Ele não desviou o olhar. Nem sequer hesitou. Seu silêncio foi a resposta mais barulhenta que já recebi. Não havia ódio, não havia desprezo... havia apenas o nada. Percebi, com uma clareza cortante, que ele nunca escondeu sua natureza. Ele sempre fora sombra, silêncio e distância. Fui eu quem escolheu ignorar os sinais. Fui eu quem aceitou o gelo, acreditando que meu calor seria o suficiente para derretê-lo. Aceitei migalhas em nome do que eu acreditava ser amor.

I grew a flower that can't be bloomed in a dream that can't come true (Cultivei uma flor que não pode florescer em um sonho que não pode se tornar real).

Nesse momento, um som vindo de fora cortou a névoa da sala. Era a voz de Hannah. Ela estava no portão, os olhos brilhando com uma urgência que me feriu. Não vinha como uma moradora da Vila da Folha; vinha como a amiga que não mudou, enquanto minhas "desculpas" negavam os convites para um café. Hannah notou a sombra da minha presença sob a cortina translúcida.

— Sakura! — o grito dela atravessou a janela. — Sakura, vamos tomar um café?

Olhei para o vidro. Vi Hannah gesticulando, tentando me apresentar o sol. Ao lado dela, no jardim, vi Sarada. Minha filha corria atrás de uma borboleta, rindo com os amigos. Ela parou por um segundo, olhou para a janela e, ao ver a cena estática de sempre, apenas deu de ombros e voltou a brincar. Ela já aceitara o "papai está ocupado agora".

— Sakura, me escuta! — Hannah gritou novamente. — Sai daí! Você é forte, independente! Existem casas para alugar na vila, existem novos começos. Você não merece isso!

Mas a voz de Hannah começou a se transformar em um abraço que alimentava as chamas ainda vivas em meu coração; uma onda de calor que subia pelas minhas costelas, tentando me despertar do entorpecimento. Notei que, quanto mais minha respiração ofegava, mais aquelas labaredas de vida se inflamavam, implorando para que eu corresse em direção à porta.

Então, eu asfixiei o fogo.

Prendi o fôlego até que o oxigênio faltasse e o calor se transformasse em cinzas frias. Olhei para Sasuke e, com o que restou do fumo em meus pulmões, tentei me convencer, como faço todas as manhãs: 'Sim, é amor! Cada pessoa o manifesta de uma forma...'. Eu precisava soterrar cada brasa de desejo por algo novo sob o peso dessa mentira, para que o meu mundo não desmoronasse. Sem o oxigênio da esperança, meu fogo não poderia existir; e sem o combustível da coragem, eu finalmente me apaguei.

I’m so sick of this fake love (Estou tão cansada deste amor falso).

A voz de Hannah tornou-se um eco abafado, como se uma redoma de vidro descesse entre o jardim e a sala. Eu via seus lábios se moverem, urgentes e cheios de vida, mas o som chegava a mim como o zunido de um inseto distante. “Você já está há muito tempo parada na porta. O Sasuke precisa da sua atenção. Ele não sobreviveria sem você.”

A lie for you (Uma mentira para você).

O toque do telefone ecoou, acelerando meu coração. Minhas pernas tremeram, as articulações falhando por um breve momento.

— Alô!

— Sakura, que gritaria é essa vinda da sua casa? — As palavras de Ino chocavam-se contra minha realidade. — Naruto, Shikamaru e Kakashi estão preocupados.

— Está tudo bem, Ino...

— Sakura... — Desliguei antes que ela pudesse completar. Eu não podia incomodar o Hokage, o conselheiro e meu antigo sensei.

Puxei o couro das luvas até que o material estalasse contra a pele. Apertei os punhos com tanta força que as costuras gemeram, como se eu estivesse prendendo, ali dentro, cada rachadura do meu castelo. Caminhei até a porta, onde Hannah me fitou com um olhar que transbordava o fracasso em me ajudar. Meu olhar a fez recuar três passos; ela pôde sentir a rigidez dos meus músculos, enquanto meus olhos opacos tentavam se adaptar ao brilho incômodo do sol.

— Hannah, eu sou o pilar central desta casa e uma ninja médica renomada. Agradeço a preocupação, mas estou ocupada demais no momento.

— Sakura, você já percebeu... Vamos?

— Eu estou bem, Hannah.

O estalo seco da porta foi a resposta à profanação do meu sagrado. Sasuke precisava do meu suporte; ele tinha traumas, medos e, ainda assim, me escolheu. Eu era o seu sustento.

Aproximei-me dele e toquei seu ombro. Ele não reagiu, tampouco questionou quem estava na porta. Ele respeitava minhas decisões, convenci-me. Decidi ali mesmo. Ajeitei a máscara que chamava de rosto. Puxei os cantos da boca para cima até que os músculos queimassem, fixando aquele sorriso rígido como uma pintura em uma galeria abandonada.

Ignorei Hannah do outro lado do vidro; ela era uma cor vibrante demais para aquele cenário em tons de cinza. Vi quando ela tocou uma rosa e a flor explodiu em vida. Era um convite, mas eu já havia esquecido como falar a língua das flores. Eu continuaria vivendo essa mentira. Prefiro o frio desse amor falso à morte da solidão absoluta. Prefiro fingir que o toque na testa é um beijo; prefiro fingir que o silêncio é cumplicidade. Só eu quis. E, ironicamente, só eu continuaria querendo.

Dei as costas para o sol.

— Vou preparar o chá — anunciei. Minha voz era um sussurro seco, som de folhas mortas sendo esmagadas.

O único movimento de Sasuke foi um leve inclinar de queixo. Não houve agradecimento, não houve olhar. Apenas o som da água chiando na cozinha, preenchendo o vácuo onde um "eu te amo" deveria estar. Eu, Sakura Haruno, estava doente demais para querer me curar. E, pela primeira vez, o gosto do veneno era quase doce.

Notas finais
Chegamos ao último capítulo de “Só eu quem quis...” e, para ser sincera, escrever esta história foi um processo catártico e um alívio necessário. Esta trama é um lembrete doloroso de que nem todo amor cura e nem toda espera vale a pena. Às vezes, nos perdemos tanto tentando ser o "porto seguro" de alguém que esquecemos de construir o nosso próprio chão. Esta reflexão não tem gênero; ela pertence a qualquer um que já se viu anulando a própria voz para manter um roteiro de felicidade que só existe na imaginação. Obrigada, por acompanharem!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.