Síndrome de Gaea.
3 Maternidade.
Eu não sou mãe, mas sou adulta. Pelo menos é isso o que insiste em dizer a minha certidão de nascimento datada depois dos anos 2000. Eu vi Beyoncé lançar "Crazy in love", Britney Spears e Justin Timberlake usarem o famigerado conjuntinho jeans e li cada revista sobre o corpo perfeito e estrelas Disney que consegui encontrar nas bancas de jornais, mas hoje, eu sou adulta. Quase formada, com uma tatuagem bem grande de um anime que vi pela primeira vez na vida aos 8 anos de idade e um quarto cor-de-rosa com um coelho cor-de-azul (Sansão) que fica sob minha cabeceira, cujo minha melhor amiga não pode perder a oportunidade de lotá-lo de nós. E hoje olhando pro livro enorme sobre Dinossauros que fica na minha estante, pensei: Um dia graças a biologia posso ser mãe. É a função fisiológica do meu útero que aparentemente não tem problema algum. Eu posso ser mãe um dia. Eu. Posso. Ser. Mãe. Mas será que eu quero?
Mães sabem coisas. É o que dizem. Elas sabem o que dizer e tem experiência de vida. E sabem o que não dizer também. Será que devo contar a minha talvez futura metade que a grandiosa mãe dele já teve que pular a janela da sala da casa do avó porque perdeu a chave na rua e não tinha ninguém pra abrir pra ela, mesmo que, a chave tivesse cordões e ela tivesse sido avisada pra não perder? Esse é o tipo de segredo que tem no código das mães de nunca ser confessado? Tem essa primeira coisa. Eu não acho que um dia eu atinja a maturidade necessária para ser mãe de alguém, eu falo demais. Eu falo tanto que eu esqueço o que eu falei e quando tento recordar do que disse eu falo ainda mais. Fora que eu fico muito sentida com coisas muito estranhas como o meu pote de nutella que alguém comeu sem me falar no trabalho ou a minha base cara que usaram sem me pedir. E mães sabem dividir, já que, pra início de conversa, não teríamos passado pelas evoluções necessárias da espécie sem esse instinto básico das mães que eu, sendo fêmea, quase não o tenho. Acho que é por ser criada como filha única até mesmo do meu padrasto. Eu tenho irmãos, mas eles estão longe. Posso culpar isso. E mães também são moralmente corretas, e eu sempre torço pros vilões. Ouço atentamente todas as justificativas deles e na maioria das vezes eu concordo já que faz muito sentido pra mim. Mães são adultas, e mesmo eu sendo uma adulta grande, eu sou muito pequena e não e só de estatura que eu estou falando. Eu sou medrosa, e mães são sempre tão corajosas.
E tem aquilo de não saber se eu quero. Alguém me acordando de manhã avisando que está atrasado, passando longas horas nas emergências de hospitais com uma criança e sua dor de garganta, ler todos os livros de educação que eu conseguir encontrar em um raio de 80 km torcendo pra que algum, por algum milagre, me diga o que fazer, ouvindo as novas músicas da rádio, vendo minha barriga crescer sabendo que há algo a mais ali dentro além de comida, sangue e órgãos. Uma vida. Tem aquilo de não saber se quero uma vida totalmente dependente de mim até o último dia que eu respirar, tomando meu tempo, meus pensamentos e se eu der sorte, o meu coração. Não sei se quero isso como não sei atualmente se gosto mais de Game of Thrones ou Gilmore Girls. E o mais assustador: A relevância disso me mostra como eu estou crescendo, a medida que passa, e como é impossível dar meia volta e correr para uma máquina do tempo. O tempo passou tão rápido e eu nem vi. Não posso mais me esconder atrás da minha mãe tal qual um descuido e eu posso me transformar em uma. A minha mãe diz que o homem tem que querer mais a criança do que a mulher, já que a responsabilidade sempre sobra pra mãe. Mas me parece insano tomar uma atitude baseada nos desejos de outra pessoa senão a si mesma. E o tempo tem avançado e cada vez mais eu noto como, Deus me perdoe, talvez eu goste de ser solo nesse mundo. Eu gosto das minhas manhãs agitadas quando acordo em meio a livros que deixei na beira da cama já que tive preguiça de guardar, quando caminho e sinto o cheiro de folhas na pista perto da avenida que fica na rua debaixo da minha casa, e no banho que eu tomo todos os dias escutando minhas músicas de adolescente, que, Deus sabe: Enjoam qualquer um que não seja eu. Eu gosto das minhas tardes e do meu trabalho, dos meus amigos e da minha família. Gosto de ser só eu nesse mundo, e tenho medo de que um dia isso não baste e eu queira por alguém no mundo pra me completar. Mas agora eu já sou completa, mesmo que imatura, pequena, nova e boba, mesmo que eu tenha acabado de chegar na casa dos 20, e se o tempo passar e me prejudicar? Não quero nem cogitar.
Esse texto não é conclusivo. É observatório. É pra minha eu da casa dos 30 ler e me dizer o que aconteceu. Em quem a gente se converteu? Isso tudo que eu citei a cima, é, de fato, eu? O que eu sou agora, uma mamãe orgulhosa, casada e feliz com meus gatinhos e cachorrinhos ou eu tenho uma estante de livros que cobre todo o meu apartamento, chamando os amigos pra almoçar no Sábado? O tempo passou e a gente se decidiu, se conheceu?
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