Síndrome de Gaea.
23 I love, I'm sorry.
Você provavelmente pensa que a única coisa que me importava eram as questões e tolices que me envolviam, mas eu gostava de você e sua presença era reconfortante de uma forma pura demais pra conseguir ser dita ou escrita. Cá estamos após eu ter feito toda aquela bagunça em nome do meu ego que você feriu sem querer tentando se provar pra si mesma. E eu sei que você nunca teria feito o mesmo que eu, pelo menos, não premeditado como eu. Eu sei que me espreitei nas árvores esperando você sair da sua toca para poder predá-la, e sinto muito. Não há muito que eu possa fazer agora, acho que podemos concordar com isso. Quando contrasto seus pequenos erros com as manchas de sangue em minhas mãos eu me sinto envergonhada por sempre ir longe demais nas minhas reações, mas não é como se eu não tentasse ser diferente. Todos os dias eu luto com o que eu sinto e o que eu penso, às vezes eu me convenço de que sou deliberadamente racional e então eu me pego revisitando esses momentos onde o pior de mim é liberado para cima de alguém que eu um dia já amei com todo o meu coração e é inevitável não me odiar. Eu me convenço de que eles não são inocentes pois me machucaram também e sigo meu caminho com essa confusão na mente.
E eu ainda me lembro de deitar minha cabeça nos seu ombros. Eu estava bêbada, minha visão estava embaçada pelo álcool excessivo e o glitter que eu coloquei nos meus olhos. Você me disse que trocava e-mails com ele escondido do seu namorado, eu vomitei no jardim atrás da gente. E, outro dia, ralando maconha pra misturar na manteiga eu te contei que troquei mensagens com o meu ex de propósito apenas pra magoar minha namorada e você engoliu três colheres do brisadeiro só pra acabar dormindo do meu lado na festa que fomos. Quando eu acordei você tinha vomitado no banheiro e eu tinha comido uma marmita de parmegiana. Tinha garrafas por todo lado, tive amnésia por umas semanas sobre aquela noite e ninguém sabe até hoje o que aconteceu de fato com esse meu relacionamento graças às minhas péssimas decisões. No último ano novo quando os fogos explodiram no céu e você não estava lá comigo pra ver e de repente me teletransportei pra recordação de estar limpando seu sangue na banheira da chácara dos pais do flávio. Tinha porra pelo chão também, você transou com o garoto e uma hora depois tentou se matar porque seu pai te ignorava completamente desde o suicídio da sua mãe. Eu não fui te visitar na Uti os dez dias que você ficou lá, e eu sei, você vivia pensando sobre isso quando bebíamos, mas eu limpei seu sangue. Sempre me perguntei o porque eu tinha facilidade pra descer até o fundo do poço até o meu diagnostico ser praticamente vomitado no meu rosto. E é claro que há um narcisismo oculto nesse texto já que tudo o que eu escrevi nesse emaranhado de palavras me envolve, mas, eu sei que eu amei você como amei a Keren, como amei a Monique, como amei a Samita, como amei pessoas que passaram na minha vida e deixaram cortes profundos me lembrando que eu nasci filha única. Talvez porque eu sozinha nesse mundo já deixo a minha mãe preocupada o suficiente com meus períodos alcóotrolas-depressivos-maníacos. Duas de mim a teriam matado. Talvez seja um membro à parte da falta do meu pai-suicida que nunca vá fechar. E, aí está você e todas elas, grandes, pequenas e médias amigas que por alguma razão viram o meu pior lado e eu as afastei por causa do meu grande problema com perdão.
Não que você seja uma santa, isso também pesou em minhas decisões. Mas é claro que você não é uma santa, não conseguiria me abrir pra alguém que no mínimo não fosse tão prejudicado mentalmente quanto eu. Sua presença e semelhança comigo ainda me persegue nas noites em que não consigo dormir, me perguntando quando vou encontrar o equilíbrio da vida, se, por acaso um dia eu vou parar de me equilibrar tão ridiculamente mal entre as minhas emoções e de fato começar a viver como alguém que não sente o sol queimar a pele mais forte. Me arrasto pro momento onde você devia ter provado sua lealdade pra mim, mas falhou. Foi ali onde paramos de ruir juntas e começamos a entrar em combustão. Eu não deixaria que abusassem do meu perdão novamente, então, peguei as minhas piores e mais avançadas armas e avancei ao seu encontro com um gigante cavalo de Tróia. Eu sei. Esse meu lado me envergonha mas ele é tudo o que eu tenho pra me defender do quanto eu amo e me importo com as pessoas e nós duas sabemos que ás vezes isso passa por cima do quanto eu me respeito. Você não cruzaria essa linha. Ninguém cruzaria. Eu fiz o que era necessário pra me vingar. O golpe não era apenas em você, mas em todos que um dia já me machucaram. Era um golpe em nome de pessoas demais, é claro que seria imperdoável. Eu te amo, desculpa.
Você disse que não me perdoaria nunca porquê sabia que eu faria de novo. E é verdade. Eu teria repetido quantas vezes você deixasse. Eu confiei em você, você me deu a sua palavra e você me apunhalou pelas costas. Você me disse que me defenderia, você disse que éramos nós duas contra o mundo e quando as coisas ficaram complicadas você me abandonou por tapas nas costas de pessoas que falavam mal de você pelas suas costas e isso não poderia ser perdoado. Eu te amo, me desculpa.
Então sob toda a complicação que temos em relação uma a outra e todas as complicações que eu tive por amar demais pessoas que me toleraram agora eu fico com as nossas memórias e as coisas que eu aprendi sentindo dor na minha juventude por confiar nas pessoas erradas, as coisas que eu nunca mais vou admitir ou dizer em voz alta porquê sei que não valeriam a dor que poderiam me causar. Te amo, me desculpa.
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