Notas iniciais
Meu lado doce.

Eu sempre tive um complexo de superioridade. Durante anos acreditei ser um ser humano extraordinário apesar de precisar admitir minhas habilidades básicas e comuns. Achei que o que eu tinha de especial era algo dentro de mim, mas agora, observando de fora, noto que o que eu tenho de mais especial e valioso foi construído durante anos antes da minha existência pela força e dignidade dos meus avós, a quem devo tudo o que tenho e sou. Devo minhas melhores e mais gloriosas anedotas às minhas tias e mãe. Meu complexo de superioridade, na realidade, estava correto: Eu tenho mesmo algo muito especial, eu tenho amor verdadeiro.

Ele me cerca por todos os lados. Ele é barulhento e pode se difundir de muitas formas. Ele me ensina o valor da dignidade que não pode ser comprada e o quanto devemos estar dispostos a sacrificar-nos por aqueles que amamos, sendo devotos de admiração, tempo e fé. Ele me ensina a cuidar, me mostra que compartilhar é multiplicar. Ele é o meu lugar nesse mundo cansativo e depreciativo.

O amor vira Glória todas às vezes em que preciso demonstrar afeto com limpezas profundas da casa e sentar no sofá para admirar latinidades. Todas às vezes em que vejo no relógio que são quatro da matina e me lembro que nesse mesmo horário eu a via fechar o portão de casa para ir trabalhar em casas de outras famílias tão distantes geograficamente quanto financeiramente de nossa realidade. O amor vira Glória quando me olho no espelho e recordo que não houve um dia sequer em que meus nomes não estivessem em suas orações desde quando ela soube da minha simplória existência. O amor vira dona Glória quando vejo um casal de lésbicas e lembro que quando eu contei que beijei uma garota ela me disse que eu sempre seria mais que sua neta, eu seria uma filha.

73 anos.

O amor vira Claudio quando eu preciso engolir o meu orgulho. Quando vejo uma mesa farta ou faço compras nos mercados. O amor vira Claudio quando sou destemida o suficiente para tomar uma vacina e me recordo de quantas vezes meu avó teve seu peito aberto nos últimos 7 anos. O amor vira Claudio quando eu pinto um quadro pequenininho e imediatamente tenho vontade de mostrar pra ele, que sempre foi mais do que meu avô, foi meu ídolo. Todas às vezes em que eu consigo ponderar e entender eu me recordo que aprendi que o amor virava Claudio no dia em que ele soube do meu maior erro e ainda assim se manteve ao meu lado todo o tempo, buscando me compreender.

69 anos.

O amor vira Rosangela todo dia, já que Rosangela é meu tudo. Minha mãe, minha irmã, minha melhor amiga e a pessoa com quem eu mais errei e decepcionei em toda a minha pequena vida. O amor vira Rosangela quando eu lembro de por chinelos, faço chás de dez minutos, todas às vezes em que eu ando pelo centro de qualquer cidade, todas às vezes em que vi um pássaro ou um inseto, todas às vezes que eu escolhi fazer o certo. O amor virou Rosangela quando eu aprendi o que era perdão e amor eterno. Quando me coloquei em posição de negociação e vulnerabilização. O amor virou Rosangela quando eu entendi que talvez nessa vida seja pra sempre eu e ela.

43 anos.

O amor vira Claudia quando sou carinho. Quando tem cobertor quente e cama arrumada. O amor vira Claudia com chocolate e perfume importado. O amor vira Claudia pelo desabafo sem julgamentos, pelo entendimento de ambos os lados, pela aceitação da sua própria sensibilidade. O amor vira Claudia quando eu tenho coragem de largar tudo o que é socialmente apreciado e corro em busca do que me faz feliz. O amor vira Claudia que acolhe e respeita as dores e os amores. Quando o pulso firme coexiste com a gentileza, quando procura mandar embora todos os preconceitos e julgamentos mesmo que isso exija uma grande reconstrução de quem você é.

39 anos.

O amor vira Paula quando tem festa e quando tem depressão. Em cada comunicação exagerada e cada lágrima derramada, o amor se torna Paulinha. O amor virou Paula quando precisei renascer das cinzas e lembrei que eu a teria comigo custasse o que custasse. Em todas às conversas até tarde da madrugada, todas às vezes em que eu a vi se defender com unhas e dentes desse mundo de homens cruéis e soube que aquela era a atitude certa. O amor vira Paula quando eu entendo os limites do que consigo fazer, e todas às vezes em que eu tive que dividir a panela de brigadeiro com ela pra nós duas chorarmos. O amor vira Paula quando aprendo a mediar e quando aprendo a revidar.

35 anos.

O amor vira Roni todas às vezes em que escuto músicas dos anos 80. Todas às vezes que alguém me perguntou quantas músicas enfadonhas do Charlie Brown Jr e eu sabia decor. O amor vira Roni quando preciso me lembrar que homens não são todos maus e que eu sei que seu pedisse para o meu tio buscar a lua pra mim, ele iria. O amor vira Roni quando eu preciso me inspirar em alguém pra ser e me recordo de todas às vezes em que ele largou toda a sua vida para atravessar o estado com o objetivo de me dar um conselho ou me tirar de alguma enrascada por ser jovem e boba. O amor vira tio Roni quando eu dou tudo o que eu tenho para minhas primas porquê sei que somos criadas com amor incondicional. O amor vira Roni quando eu preciso escolher um lado para defender e eu reativamente, escolho o dele.

50 anos.

O amor vira Luciano quando eu me olho no espelho e vejo: Somos iguais. Patologicamente semelhantes de uma forma que chega a ser expressiva. O amor vira Luciano todas às vezes em que preciso dar um conselho duro a alguém que eu amo. Todas às vezes em que me apaixono intensamente e tenho medo de dizer, o meu amor vira Luciano. Quando eu racionalizo minhas decisões e preciso ser responsável, sei que meu amor virou Luciano. Quando minhas formas de expressar emoções transitam de modo peculiar e eu tento traduzir a outro alguém meu código-morse emocional, sei que meu amor é Luciano. Todas às vezes em que eu vi uma armadilha chegar antes de todo mundo, meu amor era Luciano.

54 anos.

Meu amor virou Francisco poucas vezes na vida. Quando eu fiz mais piadinhas do que deveria, quando impliquei para irritar e me divertir, quando eu fui doce e gentil, todas às vezes em que eu fui furiosamente ambiciosa e decida, meu amor era Francisco. Mas, acima de tudo, quando eu tive que abdicar do controle em nome do amor, meu amor era mais Francisco do que nunca. Deixar meu pai ir foi a coisa mais dolorosa e difícil que eu fiz na vida. Isso literalmente me deixou de joelhos no chão, e eu sinto falta todos os dias do meu grande sorriso e olhos verdes ainda que eu simplesmente saiba que foi a única decisão que ele era capaz de tomar, justamente porquê o meu amor é Francisco até hoje.

57 anos.

Meu amor vira André todas às vezes em que tenho que lutar por alguma coisa e me lembro de como ele lutou com todas às suas forças para sobreviver. Quando preciso ser levada a sério e me posicionar, lembro que meu amor é André. Quando tenho que ser determinada, meu amor vira André,

35 anos.

Eu aprendi e aprendo tanto sobre amor e lealdade todos os dias com cada um dos meus familiares que definitivamente não consigo me imaginar em qualquer outra família no mundo. Os escolheria novamente um milhão de vezes, abdicaria de tudo o que me fosse oferecido, faria qualquer coisa por todos os meus barulhentos, críticos, amorosos e fiéis amores. Independente de quão diferente somos e o quão dolorosa foi a nossa jornada para sermos quem somos hoje eu só consigo sentir orgulho de toda a nossa trajetória. Sei que um dia terei filhos e eu desejo que toda essa ligação e lealdade que tivemos juntos consiga ser transpassada entre nós.

E o amor vira Giovana todas às vezes em que eu vejo a Júlia e a Manuela brincarem juntas. O amor vira Giovana quando ponho fone de ouvido para escrever meus textos ouvindo músicas, quando desenho o que estou sentindo, quando dou risada com a Beatriz e todas às vezes em que colocamos um colchão na sala e dormimos eu, Paula e as crianças todas amontoadas. O amor vira Giovana quando todos temos casas em São Paulo mas preferimos dormir sempre todos na casa dos nossos pais. O amor vira Giovana quando depois do abraço eu digo que te amo, e você sabe que é verdade. O amor vira Giovana quando eu sei que tudo o que eu sou hoje são fragmentos dos meus verdadeiros amores: Meus familiares. E somente um amor tão dedicado quanto o que temos aqui dentro de nossas muralhas merecerá nossos corações tão bobos e gentis.

Giovana Fernandes Canedo.

22 anos.

também conhecida como Gaea (a deusa).

Notas finais
É isso.