— Escuta com atenção – a garota disse para a amiga ao seu lado. Os cavalos foram contidos e pararam no meio do caminho de terra – eu vou contar até três e nós vamos voltar – A morena a encarava assustada. – Eles virão atrás de nós, eu vou desviar pelo desfiladeiro que leva a floresta e você vai seguir sempre em frente, com a maior velocidade que conseguir até entrar na aldeia. É pouco provável que continuem te seguindo quando chegar no limite da cidade. Depois disso você faz exatamente como combinamos! – O coração da jovem martelava descontroladamente em seu peito enquanto ela tentava manter a voz calma e esconder o pânico enquanto falava.

Os olhos azuis de Alexa estavam fixos nos homens a alguns metros delas, fixos na bandeira que chicoteava com o vento. Aquela bandeira que indicava a ela a pior entre as possibilidades daquele plano dar errado. Um dos soldados já estava de pé segurando as rédeas do cavalo, pronto para montar, ela sabia pela posição de suas pernas. Eles não fizeram movimentos bruscos, mas a garota tinha certeza que no momento em que puxasse as rédeas do garanhão preto que montava para virar de volta para o mesmo caminho de onde vinham, eles subiriam em seus cavalos. Os olhos de Clarice estavam cheios de medo e a encaravam como se ela tivesse uma salvação para o que estava prestes a acontecer.

Mas ela não tinha.

Que grande erro arrastar a garota em seus planos suicidas.

— E se eles te pegarem Alexa?

— Eles não vão – a loira continuava com sua atenção fixa nos guardas que retribuíam a atenção – agora – sussurrou e as duas puxaram as rédeas fazendo os cavalos virarem, as agitaram em seguida o que instantaneamente fez com que os dois garanhões iniciassem o galope e aumentassem a velocidade. O barulho de agitação tomou o grupo de guardas através delas. – O mais rápido que você conseguir – Gritou para a amiga – Como combinamos.

Os cavalos desceram o campo inclinado numa velocidade que não pode mais calcular, entraram na pequena estrada de terra, as pedras voavam e a areia subia pelo ar deixando uma nuvem de poeira atrás delas. Não sabia por quanto tempo os cavalos aguentariam aquele ritmo, mas ao olhar para trás teve menos certeza que conseguiriam escapar. Eles tinham vantagem, provavelmente estavam descansando a algum tempo, enquanto Storm e Safira, já haviam percorrido um longo caminho até ali, estavam exaustos, e ela sabia que de nada adiantaria balançar as rédeas com mais força.

A poucos metros a estrada se dividia, em frente seguia entre algumas árvores e ela sabia que eram poucos metros de caminho fechado, e que logo em seguida estaria mais um campo aberto até as aldeias, ela só precisava distraí–los e Clarice chegaria lá. A outra estrada ia para a direita, o desvio a faria perder alguma distância em relação aos guardas que as perseguiam, mas provavelmente eles também perderiam tempo decidindo o que fazer.

— Segue para o castelo! – não tinha certeza se Clarice ouviu por cima do som dos cascos sobre a terra batida, mas a outra garota seguiu o caminho quando ela virou repentinamente por outro caminho. Com cuidado para manter o equilíbrio sobre Storm Alexa tirou duas adagas presas no tornozelo. Ela virou o tronco segurando firme com as pernas para atirar sem sequer mirar. Eles já estavam perto demais.

As duas adagas cortaram o ar, um dos garotos desviou antes que o atingisse, a segunda adaga foi direto na perna de outro que xingou quase caindo do cavalo. A adaga não fincou, provavelmente foi de raspão, mas causou o efeito que ela queria, eles estavam todos atrás dela.

Aliviada a garota se concentrou em descer pela estrada, estava perto da floresta onde costumava caçar, a floresta que conhecia tão bem, só precisava de mais um pouco de distância deles e conseguiria despista–los.

Olhou para trás novamente para calcular a distância e percebeu que dois deles estavam voltando para o outro caminho. Nessa altura já tinham percebido o erro que cometeram, certamente já não alcançariam sua amiga. Mais duas adagas repousaram em sua mão.

Tinha seis homens atrás, um desequilíbrio grande demais se Storm começasse a reduzir ainda mais sua velocidade, não podia falhar as duas adagas. A melhor opção que tinha era acertar os cavalos. Suas mãos tremeram, ela perdeu mais alguns segundos revendo as cartas na mesa: morrer, matar ou derrubar.

Ela tinha calculado bem todos os riscos, mas aquele sentimento era inesperado.

Arrependimento.

No momento em que a garota saiu do castelo pensava que voltar era pior do que qualquer coisa que pudessem fazer com ela. Mesmo assim, assustada como um filhote acabado de cair do ninho, ela ia em alta velocidade de volta para o lugar que tanto odiava. No final, parece que o incerto é pior.

Um galho bateu contra o rosto da garota rasgando uma linha em sua bochecha, ela xingou, pensando no quanto toda aquela situação poderia ficar pior.

Ela se concentrou nas adagas que tinha nas mãos desenhando uma linha mental para centraliza-la entre os olhos do cavalo do guarda mais próximo. Mas no último instante Alexa desviou a mira, e mandou as duas adagas juntas contra o ombro do montador. O guarda caiu, o que causou uma grande agitação no grupo, eles reduziram e por segundos se viram indeciso se continuavam aquela perseguição ou acudiam o homem.

Inexperientes, a garota pensou, poderiam ser bons numa luta, mas extremamente lentos para reagir numa situação inesperada, isto poderia ajuda–la. Um deles ficou para trás, e gritou ordens para os outros que seguiram.

Quatro para um.

Ela apertou os olhos com força. Foi arriscado, mas no final tinha melhorado os números e não precisou ferir o cavalo. Abanou a cabeça tentando se livrar do pensamento. Como poderia estar mais preocupada com o cavalo depois de acertar duas adagas em um ser humano.

O garanhão, escuro como a noite, entrou pela floresta, pela trilha conhecida, e pelo som dos cascos eles continuavam atrás dela. Antes que se virasse para calcular novamente a distância entre eles uma flecha passou ao seu lado tão rápido que ela mal conseguiu ver. Tinham demorado para começar a revidar. Ela temeu por Storm, no mesmo segundo em que o cavalo guinchou e num solavanco ela foi lançada, girando e batendo contra uma das árvores. Sua cabeça latejou. Storm. Ela se levantou se arrastando para fora da trilha, tentando ver onde o cavalo tinha sido atingido antes de correr, mas não conseguiu ver.

A garota desceu por entre os arbustos ignorando a vontade gritante de voltar para socorrer o animal. O corpo dela era rasgado por alguns galhos e espinhos, mas ela continuou descendo por entre a floresta.

Pelos sons ela percebeu que eles desceram por caminhos diferentes, seu estomago se embrulhou ao perceber que se espalharam. De forma quase automática a lâmina curta e afiada foi retirada da bainha, ela continuou correndo e depois de um corte que abriu mais uma linha em seu braço ela se lembrou de cortar os galhos a sua frente.

Precisava se acalmar.

Um dos guardas saltou em sua direção quando saiu para uma área mais aberta. Ela tentou se desvencilhar, mas sua cabeça foi puxada para trás. Ele tinha a ponta da trança de seus longos cabelos loiros nas mãos, se voltasse para o atacar os outros dois que saíram em seguida de entre os arbustos os alcançariam. A garota atravessou a lâmina deixando o guarda com as pontas de seus cabelos nas mãos. Ela continuou correndo enquanto a trança se desenrolava sozinha sobre as costas.

Sem parar de correr Alexa acertou a última adaga noutro guarda que se aproximava pela sua direita, mas a distração a levou ao chão depois de tropeçar numa raiz e perder o equilíbrio. Antes que pudesse recuperar totalmente a postura o brilho do metal da espada desceu em sua direção. Ela bloqueou o ataque acertando em simultâneo um chute no peito do guarda a sua frente o fazendo cambalear, logo em seguida e sem deixar que recuperasse, outro pontapé sobre o queixo o fez cair.

A adrenalina borbulhava em suas veias, e entrou em erupção quando uma mão segurou o braço da garota que sustentava a espada, seu coração parou por um segundo. Ela soltou a espada e com a mão livre a pegou no ar, fincando a lâmina no abdômen do homem a sua frente, num impulso de adrenalina e medo. Os olhos se arregalaram assim como os dela, e só então ela percebeu o quão novo ele parecia ser. Ela olhou para as mãos. Não parecia ser fundo, mas tinha sangue demais.

Um grunhido surgiu dentre as árvores a fazendo virar para ver o guarda. Era o mesmo que tinha ficado no caminho para socorrer o que ela conseguiu derrubar do cavalo, eles conseguiram alcança-la. Ela encarou pelos poucos segundos que pode, a roupa era diferente, roupas reais, com o brasão de Hanks cravado no tecido, o anel de ouro brilhava no dedo e ele segurava uma espada, uma espada digna de um príncipe. Príncipe Jonathan.

— Não se mova – O príncipe disse entre os dentes, com os olhos alternando entre ela, o guarda apunhalado e a espada que a loira ainda segurava.

Eles pareciam estar em todo o lado ou ela os contou errado, não sabia o que fazer, apenas que tinha um segundo para sair dali.

— Não acredito que vou morrer por causa de uma garota – o garoto riu, engasgando com o que ela receou ser sangue. A falta de ódio naquele olhar foi um choque – a gente não ia te machucar – ele sussurrou com um meio sorriso no rosto.

Se não retirasse a lamina ficaria indefesa, se retirasse ele ia se esvair em sangue e morrer ali. Ela largou o cabo e saltou por cima das raízes sem olhar para trás. Havia um rio muito próximo, ela poderia tentar saltar e nadar até às aldeias. Se ainda se lembrasse de como nadar e se conseguisse suportar a sensação que a água fria lhe dava. Algo cortou o ar, e tão rápido quanto seus pensamentos que identificaram o barulho tão familiar, a flecha atravessou sua cocha direita. A sensação da carne sendo rasgada ali parecia pior do que qualquer outra dor física que já tinha experimentado. Era excruciante, impossível continuar correndo.

Mas ela continuou se arrastando, temendo que se não parasse outra flecha atravessasse seu coração dessa vez, mas ela não parou.

Só mais um pouco.

Só mais um pouco.

Ela já conseguia ouvir o som da água. Aquele som era tão familiar, quantas vezes se sentou perto daquele rio para se acalmar, para equilibrar pedras enquanto tentava equilibrar a própria vida, para encontrar aquele pequeno ponto invisível de equilíbrio, um ponto impossível de ver, que só se deixava sentir. Só tinha que entrar na água e deixar ser levada até a aldeia onde certamente estaria segura, onde cuidariam daquela ferida, que queimava como se a perna estivesse se partindo ao meio.

Alexa chegou a ver a água quando sentiu um impacto contra a cabeça, e lentamente sua visão apagou. A garota se lembrou de se preocupar se cairia sobre a flecha fincada na perna, mas não teve tempo de garantir que não o fizesse.

Mesmo no escuro a dor ainda ficou lá por alguns segundos até tudo apagar completamente.

Notas finais
Oi oi,
Espero que tenham gostado do inicio desta grande aventura!
Venho trabalhado nesta história a vários meses e agora que já está quase terminada decidi começar a compartilhar com vocês (em busca de feedback). Considero esse momento como a entrada na fase de "revisão", porque é a sua opinião como leitor que pode me ajudar a melhorar! Por isso, agradeço muito pelo tempinho que você gastou lendo, e peço de todo coração que compartilhe comigo qualquer correção, dica, sugestão e opiniões boas e especialmente as ruins, para que esta história fique cada vez melhor ♥

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