SÍNDROME

capítulo 1


Missouri, EUA. 1862.

Era o fim de um belo dia. Dr. Bogard estava sentado na varanda, apreciando o pôr do sol. O céu reluzia como um quadro pintado, em uma bela mistura de cores. Azul do firmamento, branco das nuvens e um forte laranja avermelhado, produzido pelos raios do sol que se escondia lentamente atrás das montanhas e morros.
Adorava passar o período entre o fim da tarde e a entrada da noite sentado em sua grande cadeira de balanço, fumando seu cachimbo enquanto apreciava a Criação.
Bogard já beirava os setenta anos de idade, porém era um homem forte. A maior parte da sua vida fora dedicada à medicina. Amava cuidar dos doentes. Fazia-o, muitas vezes, em troca de nada. A maioria das pessoas que residiam ao redor de sua fazenda eram pobres camponeses e até mesmo dos seus escravos, quando acometidos de alguma enfermidade, ele pessoalmente cuidava. Dizia, algumas vezes, que custavam caro demais e seria jogar dinheiro fora deixá-los entregues à sorte. Contudo os tratava com tamanho cuidado e carinho que, se não fosse a cor da pele, diriam que cuidava de um de seus nove filhos. Naquela época todos os que possuíam posses tinham escravos, inclusive alguns próprios escravos, que compravam sua alforria, aderiam à prática tão logo tivessem dinheiro para comprar alguns de sua própria raça para que lhes servissem.
A maioria dos seus filhos já eram crescidos e estudavam fora, em outros estados. Somente os dois mais novos, os gêmeos de cinco anos, o acompanhavam juntamente com sua esposa Connie.

Dr. Bogard observou que ao longe uma carruagem aproximava-se. Vinha em direção a varanda em alta velocidade. O cocheiro não sentia pena dos animais que puxavam a carroça e os chicoteava com vontade a fim de fazê-los correr mais. O velho homem se levantou e encostou-se à coluna de madeira que sustentava o telhado da varanda, onde aguardou que o visitante se aproximasse. Após a parada da carruagem a poeira amarelada que a seguia chegou e passou por ela. O cocheiro retirou o lenço que cobria o rosto, protegendo-o da poeira da estrada. Era um homem de cerca de cinquenta anos. Bogard reconheceu o emblema bordado que estava costurado no lado direito do peito. Era o entregador de correspondências. Há muito tempo não vira entregadores por essas bandas do rio Mississípi. O serviço de entrega orgulhava-se de seus feitos e compromisso, porém os meios de transporte não ajudavam. Uma correspondência da Europa, por exemplo, chegaria ao país após muito tempo viajando de navio e posteriormente dias a fio numa carruagem puxada a cavalos, de modo que receber uma carta poderia levar meses, e outros meses mais até que fosse respondida e entregue ao destinatário final.
O homem procurava no meio da bolsa, procurando entre dezenas de papéis. Bogard aguardava pacientemente, de pé, tragando e deixando a fumaça do cachimbo sair e se diluir ao vento que soprava. Um sorriso denunciava que o carteiro havia encontrado a correspondência a ser entregue. Um envelope apenas, amarelado.
- Aqui está, Senhor – disse o visitante, estendendo-lhe a mão.
- Obrigado.

Ignorando o entregador que subia na carruagem novamente, Bogard sentou-se e analisou o envelope que recebera. Pela data de envio viu que haviam passado semanas desde a postagem, em Nova Orleans. Reconheceu o nome do remetente de imediato: Ronald L. Jameson. Haviam trabalhado juntos há muitos anos atrás, quando o doutor comprara sua atual fazenda e o amigo era uma espécie de braço direito, faz tudo. Bogard era médico e não havia tempo hábil em sua agenda para conciliar salvar vidas e administrar terras, gado e escravos. Há cerca de sete anos Ronald voltara para sua terra natal, juntamente com sua esposa e suas duas filhas. Tinha uma dívida de gratidão com o homem, mas principalmente uma dívida de amizade que sobrepunha a relação de patrão e empregado.
O entregador já estava ao longe, onde mal se ouvia o cavalgar dos cavalos, quando o doutor sentou-se novamente, tirando uma pequena faca que ficava presa à cintura. Após observar o envelope por uns poucos segundos, rasgou-o retirando uma folha de papel dobrado de seu interior.


“Nova Orleans. 2 de fevereiro.

Caro Doutor Bogard.

Como está, meu grande amigo? Espero que esta o encontre em paz e com saúde abundante, assim como toda a sua família. Sinto muita falta da presença de todos vocês, que considerarei sempre como parte da minha própria família, sangue do meu próprio sangue.
Gostaria de escrever-lhe em melhor oportunidade, pois dessa vez me vejo em apuros e, após tentativas de resolver por mim mesmo, tive de recorrer ao velho amigo na esperança de que possa me ajudar.
Algum mal, desconhecido da medicina local, assomou sobre minha filha mais velha, Lia. Hoje ela já está com vinte e um anos de idade; a menor com doze. Mas deixe-me tentar explicá-lo: Quando nos mudamos de sua amada terra, viemos para uma bela propriedade. O lugar é asseado e os sanitários, criações de animais e tudo o que poderia causar-nos males a saúde está longe da casa principal. Temos alguns poucos escravos que nos servem e tudo é feito com muita limpeza. Digo isso para que se descarte praticamente qualquer incidência de males decorridos da falta de higiene.
Há algum tempo, coisas estranhas começaram a acontecer. Numa noite dessas fui acordado por vozes. Não soube definir de onde vinham, mas ouvi passos no segundo andar e subi as escadas para identificar o que acontecia de estranho. Minha esposa não acordou e preferi não assustá-la, de modo que a deixei dormindo e segui sozinho. Já no segundo andar entrei no primeiro quarto, onde dorme minha filha mais nova, Mary. A menina dormia como um anjo e não notei nada estranho no interior do quarto. Segui então para o segundo quarto, onde dorme Lia.. Quando me aproximei da porta ouvi um forte baque na janela, que fica no interior do quarto, e me apressei a abrir a porta, que estava trancada por dentro. Forcei com o braço e, após três ou quatro tentativas, consegui adentrar ao recinto. As grandes janelas estavam abertas e o terrível frio da noite soprava fortemente para o interior. Lia estava sentada na cama, olhos fechados, como se dormisse. Tentei acordá-la e a sacudi pelos ombros, fazendo com que a mesma despertasse. Estava como uma pessoa que acorda de um pesadelo, assustada, tentando entender o que se passava. De pronto ela sentiu o frio que entrava e agarrou-se a mim. A deitei na cama cobrindo-a e retornei ao meu quarto para dormir, achando que tudo não passara de um sonho ruim que a menina havia tido..
Já na manhã seguinte, todos estavam na mesa para o desjejum. Todos, menos Lia. Dormiu profundamente quase durante o dia todo e acordou estranha. Estava pálida como o mármore, com profundas olheiras escuras. Sua mãe estranhou e fez com que sentasse à mesa para alimentar-se. Ela não dizia sentir dor, mal estar ou algo do tipo. Apenas muito sono e cansaço físico. Minha mulher exigiu que eu trouxesse um médico, mas aqui, como sabe, tudo é muito difícil, inclusive médicos de qualidade. Tínhamos nas proximidades um enfermeiro que serviu na linha de frente dos combates da secessão, mas o jovem está mais acostumado a tirar balas de chumbo dos soldados abatidos ou costurar-lhes as pernas amputadas por balas de canhão do que ajudar jovens moças enfermas.. Não senti que resolveria, contudo mandei que fossem buscá-lo. Enquanto isso Lia ficava catatônica frequentemente, olhando para o nada, com os olhos como os de um peixe morto. Sei que pode lhe parecer estranho que escreva isto, mas estava estranhamente bonita. Apesar de toda a palidez, seus lábios estavam mais rubros e, apesar da letargia, havia um brilho nos seus olhos castanhos que contrastavam com sua pele extremamente branca .
No fim da tarde, o enfermeiro chegou e Lia já estava novamente deitada. O conduzimos até o segundo andar onde ele começou a examiná-la, observando os olhos, garganta, abdome e pulsação. Retirou também um pouco de seu sangue para fazer algum tipo de análise. Não notou nada de anormal na jovem, clinicamente falando, apesar de seu estado. Pediu que a observássemos a todo instante e que, a qualquer alteração, o informássemos. Ele seguiu sozinho, num cavalo que o emprestei e ficou de retornar em um ou dois dias, possivelmente com algum resultado.
No dia seguinte, Lia acordou incrivelmente disposta. Sua cor natural, juntamente com a alegria havia voltado. Desceu as escadas sorrindo e cantarolando, como sempre fazia, e a todos pareceu que o problema havia passado. Talvez fosse só uma indisposição, ou algo do tipo, segundo sua mãe. Como você sabe, sou um homem supersticioso e desconfiei que algum dos escravos tivesse feito algum tipo de feitiço na comida ou algo do assim. Sabe que não devemos confiar cegamente nos crioulos, afinal são escravos e não membros da família.
O doutor, ou melhor, o enfermeiro não voltou com os exames no dia seguinte e muito menos nos posteriores.
Alguns dias passaram-se e durante a madrugada ouvi novamente vozes sussurrando. Por isso esperei sentado, prestando atenção ao som anormal que ecoava pela casa. Ouvi barulhos no assoalho de cima e me levantei para averiguar. Minha mulher, que já andava preocupada seguiu-me de perto. Dessa vez não fui ao quarto da mais nova, e sim direto ao segundo quarto. Detive-me por um instante ante à porta, respirei fundo e entrei. Ficamos apavorados. A janela estava aberta novamente e não havia ninguém no quarto. Minha primeira reação foi correr para ver se minha menina não estava caída no quintal. Talvez houvesse pulado janela afora, para os braços da morte, durante uma crise de sonambulismo. Também não estava no gramado. Enquanto minha mulher gritava e acordava a mais nova e os criados, eu pegava o meu rifle e saía a cavalo, pois meu segundo pensamento é que ela havia sido seqüestrada, ou algo do tipo. Cavalguei pelas estradas, parando eventualmente para procurar rastros recentes. Segui até o amanhecer e já estava sem esperanças quando parei na beira de um riacho para dar de beber ao animal. Sentei-me na relva, tentando entender o que acontecera. Estava prestes a deitar ali mesmo e dormir um pouco, devido a minha exaustão, quando ouvi um choro familiar à distância, quase um sussurro. Pensei que minha mente estava a me pregar uma peça. Ouvi novamente aquele pequeno lamento e me levantei imediatamente. Parece inacreditável, mas embaixo de um tronco tombado de um gigantesco carvalho encontrei Lia. Estava em posição fetal, suja de terra e com os lábios rubros como sangue. Choramingava ainda quando a peguei no colo. Ela de imediato gritou e cobriu os olhos com o antebraço. Dizia que estava aturdida com a luz, de modo que cobri o seu rosto com o meu chapéu e seu corpo com meu casaco, pois ela ainda estava com frio pela madrugada que passara fora. O sol ainda não estava quente o suficiente para aquecê-la por conta própria.
Em casa sua mãe deu-lhe um banho e a deu de comer. Estranhamente ela nutriu um gosto inesperado por carne praticamente crua. Abria mão do ensopado para se dedicar apenas a carne. Mal deixava que a cozinheira preparasse o prato e já estava retirando sua parte do fogo. Também crescia, dia a dia, uma forte intolerância à luz do sol. Praticamente não saiu mais de dia depois daquela noite. Alternava dias de extrema palidez e dias em que estava radiante.
Não sei explicar o que aconteceu naquela noite. Ela disse não se lembrar de nada. Não sabia como fora parar a quilômetros de distância de nossa casa. Deve ter levado a noite toda andando, mas se assim fosse seus pés deveriam estar em carne viva, o que não ocorreu. Passei a trancar as janelas com cadeados, para evitar um novo susto, juntamente com a porta do quarto que passara a ser trancada pelo lado de fora.
Em certa manhã mandei que um escravo mais antigo, que capitaneava os outros enquanto trabalhavam na fazenda, fosse ao encontro do enfermeiro, para saber a respeito dos exames que se comprometera a fazer. Voltou no fim da tarde com a triste notícia de que o jovem aspirante a médico fora encontrado morto, boiando no riacho que margeia a estrada, juntamente com o cavalo que eu o havia emprestado. Aparentemente foram atacados por algum grande animal selvagem, pois ambos tiveram suas gargantas estraçalhadas.
Enfim, escrevo-lhe na esperança de que conheça algum caso parecido e possa me ajudar a restaurar a saúde de minha filha mais velha.
Aguardarei ansiosamente a resposta de meu velho e bom amigo.

Cordialmente, Robert L. Jamenson.”

(Continua...)