Sétimo Dia
2 Capítulo Um
Notas iniciais
Viver em mundo praticamente apocalíptico após uma Terceira Guerra Mundial não tinha muitas vantagens. Várias pessoas haviam morrido, outras haviam sofrido mutações em seus códigos genéticos, por culpa das grandes bombas de radiação que mais pareciam grandes estrelas cadentes cruzando o céu do que uma arma de destruição em massa. Tinham aqueles que tiveram de ser isolados por serem considerados perigosos, dentre eles, os lideres dos países que haviam começado os ataques e também havia as pessoas que tinham suas vidas normais, mas que depois dos ataques com vírus letais, acabaram contraindo uma doença chamada X.K.Z 4, que reduzia de forma drástica sua expectativa de vida, provocando um super envelhecimento precoce e que em pouco tempo acabava por paralisar os seus órgãos vitais.
Após a descoberta do X.K.Z 4, todos que continham essa doença, ou que ao menos tinham a suspeita da infecção, acabaram sendo isolados, pois foi descoberto da pior forma possível que a doença era contagiosa. Cerca de 2.000 pessoas só em São Paulo foram mandadas para um local de difícil acesso, que ficava longe de tudo, enquanto o Governo Federal fragilizado economicamente e em sua reputação que já não era grande coisa, dizia que estava estudando com afinco uma cura para todos e para saber como o vírus era transmitido.
Mas aquilo já havia ocorrido a 17 anos e nenhuma resposta foi dada aquelas pessoas, que acabaram tendo de se virar por conta própria e lidar com a negligência daqueles que não eram considerados contaminados ou suspeitos de contaminação.
Henrique de Padilha se lembrava de quase todas essas coisas, mesmo só tendo 5 anos quando se deu inicio a guerra. Seu pai José Henrique, ex-capitão do exercito, homem rigoroso, violento, intolerante e de paciência curta sempre lhe contava as histórias das coisas tristes e aterrorizantes que viu durante os 10 anos de brutal violência na esperança que seu filho se interessasse em entrar nas Forças Armadas e defendesse o país contra qualquer ameaça. Porém Henrique não pensava assim. Ele era inteligente de mais para saber que aquilo não levaria país nenhum a nenhum lugar a não ser a destruição. Se a busca era pelo poder, havia como consegui-lo sem precisar de tamanha guerra. Tratava-se de usar não a força física, mas sim a inteligência, porém raros pensavam na mesma linha de frequência dele. Henrique gostava de pensar em como a ciência poderia modificar o mundo e em como gostaria que tivesse mais pessoas com o mesmo nível de inteligência do dele, que possuía alto Q.I e capacidade de raciocínio extremamente rápido. Não era atoa que com apenas 23 anos já tinha terminado seu mestrado em Genética Nuclear.
Porém, mesmo após uma Terceira Guerra, velhos hábitos ruins da humanidade ainda persistiam em existir, como não aceitar uma simples opção sexual diferente. Ali atrás daquele balcão do bar sujo onde ele era obrigado a trabalhar já havia duas semanas, depois que seu pai descobriu o seu caso com um de seus melhores amigos e vizinho, Henrique lembrava com rancor as palavras que o seu velho lhe disse. Nunca o vira tão irado daquele jeito e todos os traços de sua personalidade ruim pareceram se destacar ainda mais. Após lhe ofender de tudo quanto era maneira possível, impossivel e lhe dar uma bela surra, José Henrique o expulsou de casa, mesmo com a intervenção de sua mãe que implorava que não fizesse aquilo com seu filho. Porém o ex-capitão era conhecido por sua intolerância a qualquer opinião que fosse contrária a sua.
Henrique ao contrário do que pensou o pai, não abaixou a cabeça em nenhum momento. Aguentou todas as ofensas e a surra que ganhou sem derramar uma lágrima, afinal era dotado de uma arrogância imensa e não deixaria se abater por causa de um acéfalo como o pai, porém antes de sair de casa jurou que um dia José Henrique se arrependeria de toda a maldade que tinha feito contra ele e a sua mãe Tatiane, prometeu que um dia iria buscá-la para uma vida nova, longe da ignorância de seu pai e assim virou as costas e deu adeus aquela casa sem olhar para trás.
– Hei! Meu café, por favor! — Grandes olhos embaixo de uma sobrancelha inquisidora erguida os encaravam a espera de uma resposta, trazendo-o de volta a realidade.
– Me desculpe. O que você vai pedir? — Henrique perguntou flexionando os dedos que estiveram tensionados por causa de sua lembrança.
– O mesmo que estou te pedindo a quase uma hora: c-a-f-é! — Já estou indo providenciar.
Ele olhou para a mulher de cima a baixo, que o fitava sem muita paciência, antes de ir fazer o café. Ela era atraente apesar de sua expressão carrancuda e apresentava ter a sua idade. Algo nela despertou seu interesse, talvez a forma como ela reagiu ao vê-lo, diferente das outras mulheres que sempre pareciam querer desmaiar ou pular em seu colo quando o viam sem ao menos suspeitarem de que ele era gay. A mulher pareceu ser imune a sua beleza. Henrique sabia de seu potencial, sempre foi considerado com uma beleza nada comum, com seu corpo moreno e bem definido e com seu sorriso capaz de conseguir o que quisesse. Mas já a algum tempo não se sentia atraído por mulheres, porém havia algo especial naquela, que acabou o intrigando e chamando sua atenção. Era algo que ia além de sexo, como se fosse uma conexão mais intima, apenas naqueles poucos minutos.
– Aqui está. — Entregou a xicara de café expresso sem açúcar para a garota que agora lia o jornal em sua frente.
– Obrigado. — Ela murmurou sem lhe dar muita atenção e sem desviar os olhos do jornal.
Henrique olhou para o jornal e viu a página que a garota lia. Era algo relacionado aos esforços do governo em tentar achar a cura para X.K.Z 4.
– Você sabe que eles já têm a cura para essa doença, né? — Tomou um gole de seu uísque que guardava no balcão e esperou para ver a reação dela.
Quando a garota finalmente lhe deu atenção, ele prosseguiu. — Quer dizer, se já não tem, está bem perto.
– E porque então eles não divulgam essa tal cura?
– Por que não seria lucrativo para eles. No inicio, eram quase 2.000 mil pessoas infectadas, obviamente várias morreram, mas entre elas tinham aquelas que só eram suspeitas de estarem doentes. Elas obviamente se reproduziram e querendo ou não, ainda são um numero considerável. Pense: inseri-las novamente na sociedade e economia do estado traria mais prejuízos do que lucro, além do fato de que as pessoas não contaminadas sempre vão estar desconfiadas.
Aqueles olhos grandes agora o fitavam com certo interesse, como se um braço tivesse saído de sua cabeça. Ele havia conseguido despertar seu interesse.
– E qual a solução que você vê para isso tudo?
– Bem, — Henrique deu mais um gole em seu uísque e sentiu que a arrogância já dominava sua expressão. Era algo que ele não conseguia controlar. — O caminho mais certo seria que essas pessoas buscassem a cura entre si. Provavelmente entre elas deve ter alguém com um Q.I acima da média que poderia desenvolver isso. A doença é algo que alterou a genética do afetado, então creio que o primeiro passo deveria ser uma comparação sobre o código de dna de um afetado e de um não afetado. A partir dai seria tudo questão de tempo.
A mulher agora sorria, mas era um sorriso diferente. Lascivo, de certa maneira sexy e até surpreso.
– Para um rostinho bonito, até que você pensa muito. — Ela voltou seus olhos para o jornal.
– Alguém que estava praticamente terminando o mestrado a alguns meses atrás de genética nuclear, tem tempo para pensar sobre isso.
– Rostinho bonitinho, arrogante e prepotente. — A mulher não o olhava, mas sorria.
Henrique riu.
– É por que eu posso. Ser inteligente acima da média me permite isso.
– E porque um gênio como você está servindo café em um bar nos limites da cidade?
– Porque o gênio foi expulso de casa a duas semanas e agora vive aqui. — Respondeu amargamente. Aquele não era um assunto que gostasse de tratar.
– Bom, — ela olhou o crachá que trazia seu nome — Henrique, obviamente você não está se sentindo confortável aqui, então se quiser pode passar uns dias lá em casa até achar um lugar melhor.
Ele sorriu novamente arrogante. Talvez ela não fosse tão imune a ele quanto deixava transparecer.
– Ir morar com uma estranha que acabei de conhecer e do qual nem o nome sei? Não me parece uma boa coisa. E se você for um serial killer ou se você só quiser usar do meu corpo? E se eu não puder lhe dar o que você deseja?
– Débora. Débora Turze. — A garota lhe estendeu a mão enquanto um sorriso travesso lhe atravessava o rosto. — Pelo o que posso ver aqui, não tem muito a perder, tem? E saiba que se eu for um serial killer, eu não mato gostosinhos arrogantes metidos a inteligentes.
Já estava quase no fim do seu turno e Henrique pensava seriamente na possibilidade de morar com aquela mulher. Ele odiava ter que dormir e acordar no depósito daquele bar. Ali traziam lembranças de seu pai, do rosto desolado de sua mãe e do maldito Saud, amigo do seu pai, por quem foi loucamente apaixonado, que ajudou a acabar com a sua vida. E além do mais, havia algo em Débora que despertava sua confiança. Ela parecia ser alguém a quem se poderia confiar a vida.
Seus olhos se prenderam um no outro, se estudando, examinando e depois do que pareceu ser minutos, Henrique desviou o olhar.
– Se você esperar 10 minutos para eu arrumar minhas coisas...
– O tempo que você precisar. — Ela respondeu tomando o ultimo gole de café e virando a página do jornal.
Henrique arrancou seu avental e correu para o quartinho dos fundos jogando suas roupas em uma mochila e pegando seu notebook. Ao voltar para o bar, encontrou Débora já de pé encostada no balcão e lhe lançou um sorriso sarcástico.
– Como você disse, não tenho nada a perder mesmo.
A mulher apenas sorriu e assentiu guiando o especialista em genética para o seu carro.
***
A casa de Débora ficava entre o limite da cidade e a vila onde se encontravam as pessoas isoladas por causa do X.K.Z 4 e apesar de pequena, Henrique a considerou confortável.
Durante o caminho, eles pouco se falaram. Ele tentou arrancar algumas informações dela, mas ela não cedeu muita coisa. O máximo que descobriu que era mais velha que ele um ano. Porém a garota quis saber do seu mestrado em genética nuclear, mas não lhe questionou o porquê foi expulso de casa e de não ter terminado seu curso.
Em sua mente, Henrique tentava formular um jeito de contar a ela que era gay. Tinha medo que Débora fosse igual ao seu pai e lhe escorraçasse antes mesmo dele desfazer sua mochila. Preferiu não lhe contar aquilo naquele momento, até porque não sabia se estava somente em uma "fase" gay ou se aquilo seria a vida toda. Sentia-se confuso com o rumo que sua vida havia tomado naquelas ultimas semanas. Além do quê, aquela garota havia lhe chamado a atenção com o seu jeito diferente de reagir ao mundo.
– Bem, este será seu quarto. — Debora abriu a porta e ascendeu a luz de um quarto pequeno com uma cama, um guarda-roupa e uma escrivaninha. — Não é muito espaçoso, mas ao menos te garanto que não tem rato, pois o Sr. Gato não deixa.
– Sr. Gato? — Ele questionou curioso.
E como se fosse uma deixa, uma bola de pelos cinzas apareceu ronronando e se esfregando nas pernas de Débora e depois nas de Henrique.
A garota sorriu.
– Ele deve ter gostado de você, pois ele não é assim com todo mundo. Venha! Deixe suas coisas ai. Vou lhe mostrar o resto da casa.
De frente para o quarto de Henrique havia um banheiro e do lado do seu quarto, era o de Débora. No fim do corredor estava a cozinha e no inicio, a sala. Ao lado da cozinha havia um cômodo que ela não lhe mostrou. Tudo ali era confortável, mas era impessoal de mais, como se Débora mal parasse ali.
– Você tem uma bela casa! Mora aqui sozinha?
Ele questionou enquanto se sentava no sofá e examinava alguns porta-retratos. Neles haviam fotos de Débora com uma senhora sorridente, Débora e seu gato, Débora vestindo uma beca de formatura e segurando um certificado e a foto de um bebê.
– Sim. Só eu e o Sr. Gato.
– Nome interessante para se pôr em um gato.
– Alguma critica sobre isso? — Sua sobrancelha se arqueou de forma inquisitiva e um tanto ameaçadora.
Henrique abriu os braços em um gesto de que não havia nenhuma.
– O que faz da vida? Com o que trabalha? — Ele questionou curioso.
– Você faz muitas perguntas. — Débora perguntou exasperada. – Eu trabalhava em um laboratório de genética, mas pedi demissão.
Aquilo o surpreendeu.
– Sério? Você fazia o quê la? — Henrique ignorou a expressão de Débora ao vê-lo fazer mais perguntas.
– Eu sou cientista na área de biomedicina genética. Não é só você quem possui inteligência acima da média. — Ela piscou um olho lhe arrancando um sorriso involuntário.
Não importa se ela era um serial killer, uma cientista ou uma palhaça de circo, era fato que Henrique já se simpatizara com ela.
– Bom senhorita cientista especializada em biomedicina genética, o que temos para jantar?
Ela sorriu e fez um gesto para que ele a seguisse para a cozinha. Lá ela começou a mexer nas coisas no armário buscando algo.
– Me diga. — Débora questionou enquanto despejava algo que parecia um tipo diferente de macarrão em uma tigela. — Por que você foi expulso de casa? Eu deveria me arrepender por te convidar para morar comigo?
Talvez aquela fosse o momento certo para contar a ela.
– Meu pai era ex-capitão do exército. E eu sou meio que gay... Ele não aceitou muito bem o fato quando soube e ai me expulsou de casa.
A garota parou o que estava fazendo e olhou seriamente para Henrique durante o que pareceu ser uma eternidade. Ele temeu sua reação, mas ao ver que ela se controlava duramente para não rir, soube que estava tudo bem.
– Meio gay? — Ela questionou falhando em tentar ficar séria e caindo na gargalhada. — Como você pode ser "meio gay"?
– Eu não sei explicar... Mas ando em uma fase gay... E por ter me apaixonado pelo amigo do meu pai e ter tido um caso com ele, acabei expulso de lá.
– Meu Deus, Henrique! — Débora ainda ria. — Desculpe, mas é engraçado.
– Que bom que faço você rir. — Respondeu um tanto magoado.
– Bem, vamos jantar enquanto você me conta sobre sua vida de meios.
Durante o jantar, descobriram que tinham muitas coisas em comum além do amor pela ciência. Suas personalidades eram fortes por serem muito inteligentes e quase sempre batiam de frente, mas Débora possuía o que poderia ser considerado um "dom" de persuasão. Ela era perspicaz, um tanto ignorante e desconfiada, mas sabia fazer alguém rir como ninguém. Já ele tinha aquela arrogância e prepotência natural, porém não tinha medo de se jogar e procurar pelo novo. Débora tinha a sensação que depois de muito tempo havia encontrado um amigo, mas temia a sua reação ao descobrir seu segredo.
– E o que você esconde aqui? — Henrique colocou a mão na maçaneta da porta que Débora não havia mostrado a ele, após lavar a louça do jantar.
Em um instante, a garota estava entre ele e a porta, evitando que a abrisse.
– Nada que seja da sua conta. — Ela respondeu de forma ríspida.
O clima de repente ficou denso de uma forma que Henrique pensou que poderia cortar com uma faca cega.
– Bom, — Henrique riu tentando aliviar o clima. — Espero que não sejam cadáveres.
Mas no seu íntimo temia o que encontraria ali e descobrir o que poderia ser um terrível segredo de Débora.
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