Série Detalhes do Amor: A Luz Dos Olhos Teus
7 Capítulo 6
Notas iniciais
Richard
A noite foi péssima. Como a maioria. Mais tempo tendo sonhos ruins do que descansando. Nessas horas penso que virar um morto vivo ou um vampiro não seria tão ruim assim, daria tudo para não precisar ficar revivendo o passado.
A vontade de ficar deitado no sofá olhando para o teto da sala sem fazer mais nada da vida é gigantesca. Mas lembro que prometi a Celine que iria lhe levar para dar um passeio e, por mais inacreditável que possa parecer até mesmo a mim mesmo, eu realmente estava afim de fazer isso. Há um tempo significativo que eu não pensava em sair para me divertir e sair com ela parecia ter essa finalidade.
Com um último suspiro, levanto sentindo frio. Tenho que lembrar de pedir para algum técnico vir avaliar o aquecimento do apartamento, pois segundo previsões o frio vai se intensificar nos próximos dias.
Saio de casa e pego um táxi, odeio sair de carro quando pretendo ir a vários lugares, ficar procurando vagas não é algo que eu tenha paciência.
Quando o táxi para em frente ao hotel de Celine ela já me aguarda na porta, está abraçando seu próprio corpo e fitando o céu cinzento. Está de amarelo e só consigo pensar que nunca tinha visto ninguém bonita vestindo esta cor.
Desço do táxi e ela me vê, caminhando a passos largos até mim
—Estava achando que não vinha mais. — Ela diz sorrindo de lado, sei que é apenas uma forma de me provocar com a pontualidade.
—Me atrasei cinco minutos por querer, pensei que você precisasse de muito tempo para se arrumar. -Respondo, fechando a porta do carro.
—Bela desculpa, mas não sou o tipo que se atrasa para compromissos. A menos que esteja nevando ou eu esteja doente. -Apenas sorrio em resposta. — Mas chega de enrolar, me diga onde iremos? Qual o nosso plano diário?
Reviro os olhos e dou uma leve risada, fazendo com que ela me fite com um olhar interrogativo.
—Nós não estamos indo trabalhar Celine. Não há um plano diário, existe apenas nós dois saindo por ai de forma aleatória e não planejada. Consegue lidar com isso ou é muito para o seu TOC?
—Eu não tenho TOC! — É tudo que ela responde, enquanto faz um beicinho adorável.
—Se você prefere se iludir…-Ganho um leve tapa no ombro antes que ela concorde em simplesmente sair sem rumo “Como dois adolescentes matando aula”, segundo definição dela própria.
Nossa primeira parada é no shopping, onde ela simplesmente vai reto em uma loja de departamento com uma grande variedade de roupas, seleciona algumas peças e apenas meia hora depois estamos saindo do shopping com duas sacolas grandes nas mãos.
—Eu estou estupefato!
—Por que?
—Está brincando? Você fez compras em apenas uma loja, foi objetiva, e saimos de lá mais rápido do que o Flash. — Ela ri divertida e seus olhos ganham aquele brilho que me faz babar.
—Você citando quadrinhos adolescentes? Agora eu que fiquei admirada!
—Não vá se apaixonar pelo meu conhecimento cultural. — Assim que dou minha resposta, começo a me arrepender. Porém o rosto dela atinge uma tonalidade levemente rosada, o que mexe um pouco com meu ego. Ela não perde o sorriso, o que me causa alívio.
—O senhor que deveria tomar cuidado, senhor Brown, afinal não é sempre que se encontra com uma versão feminina do Flash. -Responde, me lançando uma piscadela marota. O uso do tratamento formal só aumenta a graça da situação. — E para que lado iremos agora?
—Agora nós vamos em frente. Reto. Talvez façamos uma ou duas dobradinhas até chegarmos à ponte de Westminster e tirarmos fotos turísticas com o Big Ben de fundo, agraciando a nossa beleza.
—Você realmente está levando o papel de guia turístico a sério. — Diz ela rindo.
—Eu faço o melhor que posso!
Conversamos a maior parte do caminho, vou apontando alguns locais legais e prometendo a ela que iremos em todos que der no tempo em que ela permanecer na cidade. Celine parece, pela primeira vez, encantada com Londres. Se me dissessem nos primeiros dias de convivência com ela que eu apreciaria um diálogo com a mesma, diria que a pessoa estava louca, entretanto cá estou, me divertindo e me sentindo leve como há muito não sentia.
—Você tem que parar de se mexer, se não a foto não vai ficar boa! — Estamos sobre a ponte, e ela não para de mexer no cabelo.
—Caso você não tenha percebido esse vento está enfiando meu cabelo no meu rosto. Não pretendo sair na foto parecendo um lobisomem peludo!
—Você ainda me mata com o seu senso de humor super desenvolvido. — Falo sorrindo, e ela me mostra a língua. -Mas que feio, será que devo relatar a meu pai que seus encarregados possuem péssima educação?
—Nem vem, foi você quem começou!
Aperto o botão da câmera do celular bem na hora que ela me lança um olhar mortal. O vento pegando em seus cabelos, a cara de falsa fúria, a paisagem...aquela é a melhor foto que já vi na vida. Essa constatação faz um arrepio me percorrer, não entendo se é bom ou ruim, talvez seja uma mistura.
—Você não tirou uma foto minha, tirou?
—Não perderia a oportunidade de eternizar essa sua cara de pessoa má por nada. — Falo e ela põe a mão sobre o peito, fingindo estar magoada.
—Você está se aproveitando do meu bom humor! Agora vamos tirar essas fotos logo que eu estou faminta.
Depois de tirar mais fotos do que o necessário, nós almoçamos num restaurante simples e sem nada de extraordinário, mas muito gostoso. Celine se aventurou a comprar alguns souvenirs depois, e foi engraçado ver ela em dúvida se comprava uma miniatura de cabine telefônica ou de um soldado, no fim acabou adquirindo os dois (enquanto eu infernizava sua vida dizendo que ela deveria comprar uma camiseta com uma foto da família real na frente).
—Eu disse que seria uma experiência única!
Nós havíamos acabado de andar na London Eye. Celine havia ficado tensa e pálida a maior parte do tempo, embora seus olhos brilhassem pela beleza da cidade vista no topo da mesma.
—Realmente única, agora eu sei que meu estômago é mais forte do que eu imaginava. -Responde ela, frustrada.
—Como eu iria saber que você tinha medo de altura? -Pergunto pela milésima vez.
—Eu já te disse, não é a altura o problema, é a manutenção; Como sei que posso confiar em quem cuida dessa roda gigante?! Nem você sabe se pode confiar, apenas imagina que sim. -Acusa ela.
—Tudo bem, já entendi. Sem roda gigante na próxima vez!
—Se houve próxima vez, já que eu vim até aqui interessada em um café e até agora não ganhei nenhum! -O beiço que ela faz ao dizer essa constatação é no mínimo adorável, mas talvez possa ser lindo, ou até mesmo sexy.
—Calma, já estamos chegando na cafeteria que eu queria lhe trazer.
—Aposto que só disse isso porque eu reclamei.
—Claro que não! -Respondo parando em frente a cafeteria que tinha em mente.- Pare de reclamar e aprecie o aroma desse lugar.
Assim que abro a porta o melhor cheiro do mundo atinge meu olfato e vejo que ela também está adorando, já que fecha os olhos e dá um longo suspiro.
—Eu avisei que valia a pena, não avisei?
—Está bem, você estava correto. Valeu a pena esperar, esse lugar cheira como o paraíso.
—Vem, vamos sentar e degustar um, que já estou salivando.
Em um impulso que nem eu sei de onde veio, seguro a mão dela e a guio até uma mesa relativamente próxima a cozinha, onde o cheiro é ainda mais concentrado. Sua mão é macia e pequena, faz a minha parecer como a de um gigante ou homem das cavernas. Percebo, pelo canto do olho, que ela cora um pouco com meu gesto, mas não fala nada e eu também não faço comentários nem solto sua mão, agora que já segurei é melhor não soltar. Em últimos casos posso fingir que nem me liguei que não era correto fazer isso. Ou era? Não sei!
Quando chegamos à mesa solto sua mão e nos sentamos frente a frente. Logo um garçom se aproxima perguntando o que queremos, ela pede o dela com caramelo e eu peço o meu preto com chantilly.
—São tantas opções que fiquei em dúvida. -Admite ela, depois de alguns segundos em silêncio.
—Todos são maravilhosos, embora eu não tenha tomado todos ainda. — Ela sorri.
—Vem muito aqui?
—É um dos meus lugares favoritos na cidade, talvez seja o meu favorito. Adoro vir aqui ler ou simplesmente ficar olhando pela vidraça, observando a paisagem, enquanto fico sentado nessas cadeiras aconchegantes.
—O lugar é realmente ótimo, sou encantada com esses ambientes mais intimistas, parece mais como...uma casa, embora não seja a casa.
—É assim que me sinto!
Nossos cafés chegam nesse momento e começamos a bebê-los. Celine queima um pouco a língua, mas afirma que quente é tão bom que isso não a incomoda, não posso julgá-la por ser igual a mim.
—Me dê um gole do seu café! -Fala ela, me pegando de surpresa. -Vamos, quero provar.
—Não é um hábito que eu tenho, mas já que você insiste e eu quero continuar sendo o melhor guia...aqui está.
Trocamos nossos cafés e ela suspira ao tomar, posso ver em sua cara que gosta de saborear cada gole.
—Eu acho que você vai ter de dividir seu lugar favorito comigo a partir de hoje.
—Eu acho que posso gostar disso!
Seus olhos brilham com minha resposta e eu só consigo pensar que estou perdido.
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