Série Detalhes do Amor: A Luz Dos Olhos Teus
2 Capítulo 1
Notas iniciais
Capítulo 1
Celine
O barulho de buzinas se faz ouvir assim que chego ao saguão do hotel. Londres está caótica esta manhã, segundo o que vi no noticiário matinal assim que acordei, um acidente em um dos mais importantes cruzamentos havia ocasionado tudo. Por sorte eu sempre acordava cedo, não gostava de correr o menor risco de me atrasar para compromissos, é quase como se eu fosse inglesa- embora tivesse quase certeza de que não havia nenhuma gota de sangue inglês nas minhas veias.
A garoa que está desde ontem caindo incessantemente pela capital inglesa não parece dar trégua e, enquanto caminho até o táxi que ficou há alguns metros da porta do hotel, não consigo não amaldiçoar o clima horrível daqui, nunca consegui simpatizar com a cidade, tanto que essa é apenas a segunda vez que venho até a mesma- e apenas porque fui obrigada.
Meu cabelo que eu havia lavado com tanto carinho e dedicara vários minutos a deixar suas pontas ainda mais lindas com o auxílio de um babyliss agora estava úmido e, aposto, com aparência de sujo. Por sorte eu havia investido em uma boa base a prova d’água, odiaria chegar com manchas brancas no rosto para a primeira reunião na filial londrina da Golden Seguradora.
Dou o endereço ao taxista que apenas volta a ligar o veículo e a tentar andar pelas ruas da capital. Abro minha bolsa e guardo o lenço verde que havia posto por cima dos ombros do meu casaco para ele não ficar molhado, percebo que meu esforço não resolveu muita coisa, mas ninguém pode me acusar de não tentar.
Cinco minutos depois desisto de tentar olhar a paisagem e pego meu celular decido me distrair lendo um artigo que um dos meus antigos professores acabou de publicar. Acabo conseguindo realmente tirar minha atenção daquele vai e vem de veículos e daquele céu cinza como a morte, enquanto leio brota em mim a antiga vontade de seguir uma vida acadêmica. Acabo suspirando.
Acho que eu seria boa professora. Excelente talvez. Mas o medo de me arriscar em algo tão completamente novo e desconhecido para mim sempre me fez ficar com um pé atrás. A Golden me dá segurança. Só trabalhei lá, até meu estágio foi feito lá. Tenho medo de me arriscar e também do senhor Brown achar que não estou satisfeita o suficiente com o emprego a ponto de ter de buscar outro para complementar.
Saio de meus devaneios apenas quando percebo o táxi parar em frente a um grande prédio de vidros azuis, a fachada é perfeita, pelo menos no meu conceito de quem nada entende de arquitetura. Se é que é possível, é ainda mais linda que a matriz.
—Obrigada! Pode ficar com o troco. – Falo ao taxista, lhe entregando algumas notas. O velho motorista apenas assente. Ingleses e sua falta de calor, é tudo que consigo pensar enquanto saio do carro.
Caminho com os passos mais longos que posso entre o meio-fio da calçada e porta de entrada da filial inglesa da Golden, não quero parecer deselegante correndo, mas ninguém pode me impedir de dar passos longos e tentar salvar o pouco que resta do meu babyliss.
Assim que transpasso a porta giratória do saguão me sinto melhor. O ar dentro do edifício é quente, me trazendo conforto imediato, mesmo diante da eminente situação de quase negociação com um inglês. Me sinto quase culpada por reclamar para mim mesma tanto da situação, enquanto o senhor Brown fez por mim isso num voto de confiança em minhas habilidades de persuasão e de demonstrativos de gráficos do crescimento econômico da empresa.
Porém, enquanto me encaminho para o grande balcão dourado onde atrás trabalham quatro recepcionistas, não consigo deixar de pensar que tudo isso está acontecendo por culpa do herdeiro imbecil do senhor Brown. Quem no mundo trataria uma empresa desse porte com tamanha frieza e ausência de consideração? E quem neste mundo diria que não tem intenção alguma de assumir a presidência assim que o senhor Brown se aposentar? Esse é Richard Brown. O que faz com que eu pense que ele nunca deve ter ultrapassado os 8 anos, que creio que fosse a idade que ele tinha a última vez que o vi.
—Bom dia e seja bem vinda a Golden seguradora, em que posso lhe ser útil?
A secretária ruiva e bem vestida num terninho preto me perguntou assim que parei diante do balcão. Essa era a saudação oficial de boas vindas a Golden. Eu achava engraçado, fazia aquelas mulheres parecerem robôs. Mas como sempre, me mantive séria e com a expressão que eu julgava ser profissional.
—Bom dia, sou Celine Moreau, vim em nome da matriz, representando o senhor Brown, para reunião com o senhor Richard Brown. – Informo e na mesma hora a mulher digita algo no computador, olhando para tela por alguns segundos e depois voltando a me olhar com um agradável e profissional sorriso no rosto.
—A secretária do senhor Brown já liberou sua subida, senhorita Moreau, pegando um dos elevadores basta inserir esta chave que será levada direto ao andar da diretoria. – Disse a mulher, entregando-me uma dessas chaves grandes e douradas utilizadas em elevadores de elite.
—Obrigada! – Agradeço, pegando a chave e seguindo ao elevador. Na matriz nunca seria assim, o senhor Brown gosta que todos tenham acesso a área da diretoria quando quiserem. Mais um ponto a discutir, anoto mentalmente.
Assim que entro no elevador, sou surpreendida com a música clássica e a ausência de outras pessoas. Melhor assim, penso. Insiro a chave conforme instruído e vejo as portas se fecharem. Não gosto de elevadores, embora tenha sido obrigada a utilizá-los assim que comecei na Golden. Puxo o ar com força, sentindo o alívio que vem ao respirar fundo, assim me sinto melhor.
Logo as portas voltam a se abrir e saio o mais rápido e elegantemente que consigo, não sem antes pegar a chave de novo. A saída da para um elegante hall, onde encontram-se algumas plantas em grandes vasos azuis, as paredes e teto brancos dão uma aspecto de calmaria e limpeza ao local, alguns quadros em tons azuis e verdes decoram as paredes.
No extremo oposto ao elevador uma senhora de cerca de 50 anos encontra-se sentada com uma postura impecável falando ao telefone, entretanto, logo que me aproximo, a ligação é encerrada e ela me olha com curiosidade.
—Bom dia, bem vinda a presidência da Golden seguradora.
—Obrigada! -Falo, e sinto que tem sido tudo que falei durante a manhã. – Tenho uma reunião marcada com o senhor Richard Brown, sou a enviada pelo senhor John Brown, direto da matriz, para tratar de assuntos com o herdeiro. – Informo, me sentindo mais formal que o normal. Deve ser o ar inglês surtindo efeitos sobre mim.
—Oh! –Exclama a senhora, com surpresa em sua face. – Deve ser a senhora Moreau.
—Exato!
—Fomos informados de que estava vindo, mas não esperava alguém tão jovem, se me permite o comentário.
Sorrio. Não só permitia como adorava quando falavam aquilo. Não era todo mundo que aos 25 anos podia representar a Golden.
—Não há problemas. – Respondo à senhora, que pelo seu crachá vejo que se chama Martha.
A mulher expressa algo parecido a um sorriso tímido e confere algo na tela de seu computador. Largando um suspiro em seguida.
—O senhor Brown irá atender a senhorita em breve. Poderia aguardá-lo, por favor?
—Sim, senhora. – Confirmo, me afastando até as aconchegantes poltronas da recepção. Eu estava exatamente na hora marcada. 9h da manhã em ponto. Estranhei ele não me atender imediatamente, ingleses são sempre irritantemente pontuais. E, além de tudo, eu estava louca para concluir a minha missão e voltar para casa.
Mal tive tempo de concluir meus pensamentos quando um telefone tocou na mesa da secretária Martha. A senhora correu para atendê-lo, o que me fez imaginar que deveria ser o ramal ao qual apenas o senhor Richard Brown tinha acesso.
A mulher respondeu apenas um “sim senhor” e voltou a desligar o telefone, me olhando sobre os óculos, antes de falar:
—O senhor Brown a espera, senhorita Moreau. Queira me seguir, por favor!
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